“Se Marx estava certo ao dizer que a história se repete como tragédia e depois como farsa, estamos diante do segundo ato desse drama econômico. A diferença é que, desta vez, a plateia já conhece o roteiro Trump e pode antever as consequências. Resta saber se os setores mais afetados — no Brasil e no mundo — reagirão a tempo ou se assistirão, passivamente, a mais uma reedição do protecionismo fracassado.”
Coluna Follow-Up
Em um dos trechos mais conhecidos de O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, Karl Marx parafraseia Hegel e aponta um ciclo perverso na história: eventos de grande impacto tendem a se repetir, primeiro como tragédia e depois como farsa. E se essa máxima já serviu para descrever revoluções e golpes de Estado, também pode ser aplicada a decisões econômicas desastradas. A nova onda de tarifas protecionistas impostas pelos Estados Unidos sob o pretexto de fortalecer a indústria local não é apenas um erro técnico — é uma encenação política. E como toda farsa, seus efeitos práticos são limitados, mas o estrago simbólico é imenso.
A decisão de Trump de taxar em 25% a importação de aço e alumínio atingiu em cheio a economia global e, particularmente, o Brasil, um dos maiores fornecedores desses produtos ao mercado norte-americano. O discurso por trás da medida é sedutor para sua base eleitoral: restringir importações para estimular a produção doméstica e, assim, gerar empregos para trabalhadores americanos. Mas essa promessa esbarra em um problema elementar: a indústria do aço nos EUA não tem capacidade de suprir sua própria demanda. O protecionismo, longe de impulsionar a competitividade local, apenas encarece insumos, sobrecarrega a cadeia produtiva e repassa a conta para o consumidor final.

O Mito do Protecionismo como Motor Econômico
O protecionismo econômico sempre encontrou respaldo entre líderes populistas, especialmente em momentos de instabilidade. A ideia de blindar a economia nacional contra a concorrência externa pode parecer lógica à primeira vista, mas historicamente tem se mostrado um desastre. Durante a Grande Depressão, a Lei Smoot-Hawley (1930) impôs tarifas sobre importações para tentar proteger a indústria americana — e acabou aprofundando a crise ao desencadear retaliações de outros países. O mesmo erro se repete agora, em um mundo ainda mais globalizado e interdependente.
O aço é um insumo vital para diversos setores, da construção civil à indústria automobilística. Ao elevar os custos desse material, o governo Trump prejudicou exatamente os setores que dizia querer proteger. Em 2018, quando a medida foi adotada pela primeira vez, o resultado foi uma elevação nos preços internos, sem a geração de empregos prometida. O que se viu foi um impulso artificial e momentâneo em algumas siderúrgicas americanas, ao custo de perda de competitividade no restante da economia.
A China no Jogo Global
Outro elemento que desmonta essa estratégia é a presença esmagadora da China no mercado de aço. Pequim, com sua enorme capacidade produtiva e apoio estatal a setores estratégicos, tem condições de continuar vendendo aço barato, mesmo diante de barreiras tarifárias. Enquanto isso, países como o Brasil, que operam dentro das regras do comércio internacional e não dispõem dos mesmos subsídios chineses, ficam em situação desfavorável. Ou seja, a tarifa não atinge seu objetivo primário, mas gera distorções no mercado global e retaliações comerciais.
O paradoxo do protecionismo é que ele busca conter a concorrência externa, mas, na prática, apenas rearranja os fluxos comerciais. Se o aço brasileiro enfrenta dificuldades para entrar nos EUA, outros mercados buscarão suprir essa demanda. E, em um cenário global, uma restrição sempre gera um efeito dominó: fornecedores buscam novos compradores, consumidores buscam novos fornecedores, e o país que impõe barreiras muitas vezes sai enfraquecido.
A Diplomacia do Tumulto
A decisão de taxar o aço não é um movimento isolado, mas parte de uma abordagem mais ampla da administração Trump: a diplomacia do tumulto. Em vez de uma estratégia coerente e sustentável, o governo americano aposta na imprevisibilidade e na retórica agressiva para marcar posição no cenário internacional. No curto prazo, isso pode até render dividendos políticos internos, mobilizando sua base com discursos nacionalistas. No longo prazo, porém, mina a credibilidade do país como parceiro comercial confiável.
O Brasil, como um dos principais exportadores de aço para os Estados Unidos, precisa estar atento aos desdobramentos dessa política. Setores diretamente impactados, como a siderurgia e a metalurgia, devem buscar alternativas para mitigar perdas, seja diversificando mercados ou ampliando parcerias estratégicas. Mas o principal desafio é político: como lidar com um parceiro comercial volátil, que trata a diplomacia econômica como um jogo de soma zero?

Entre a Tragédia e a Farsa
As tarifas sobre o aço e o alumínio são mais um capítulo do protecionismo disfarçado de estratégia de desenvolvimento. O problema é que, ao contrário do que prometem seus defensores, essas medidas não fortalecem a indústria nacional nem geram empregos sustentáveis. Pelo contrário, impõem custos adicionais às cadeias produtivas e aprofundam distorções no comércio global.
Se Marx estava certo ao dizer que a história se repete como tragédia e depois como farsa, estamos diante do segundo ato desse drama econômico. A diferença é que, desta vez, a plateia já conhece o roteiro Trump e pode antever as consequências. Resta saber se os setores mais afetados — no Brasil e no mundo — reagirão a tempo ou se assistirão, passivamente, a mais uma reedição do protecionismo fracassado.

Alfredo é filósofo, foi professor na Pontifícia Universidade Católica em São Paulo 1979 – 1996, é consultor do Centro da Indústria do Estado do Amazonas, ensaísta e co-fundador do portal Brasil Amazônia Agora
(*) Coluna follow-up – sob a responsabilidade do Centro da Indústria do Estado do Amazonas, e coordenação editorial de Alfredo Lopes, é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras no Jornal do Comércio do Amazonas e no portal BrasilAmazôniaAgora.com.br/
