Duzentos anos de relações exigem estadistas, não improvisadores
Em 2024, Brasil e Estados Unidos completaram duzentos anos de relações diplomáticas. Poucas parcerias internacionais acumularam uma trajetória tão longa e, ao mesmo tempo, tão marcada por interesses convergentes e divergentes. Essa experiência recomenda que a atual controvérsia comercial seja enfrentada menos pela temperatura do debate político e mais pela tradição diplomática que ambos os países ajudaram a construir
As relações diplomáticas entre os dois países atravessam mais de dois séculos. Desde o reconhecimento da independência brasileira pelos Estados Unidos, em 1824, os vínculos bilaterais sobreviveram a guerras mundiais, crises financeiras, mudanças de regime político, disputas ideológicas e profundas transformações na economia global. Poucas relações internacionais foram submetidas a tantos testes de resistência.
Justamente por isso, seria um erro reduzir a atual crise a um episódio eleitoral, a uma disputa de narrativas ou a um embate de personalidades. O que está em jogo é muito maior. Trata-se da credibilidade das regras que sustentam o comércio internacional e da capacidade das instituições multilaterais de impedir que diferenças políticas sejam convertidas em barreiras econômicas.
A resposta brasileira não pode ser construída sobre impulsos emocionais nem sobre palavras de ordem patrióticas. Soberania é um projeto de longo prazo, apoiado em capacidade produtiva, inovação tecnológica, competitividade e presença internacional consistente.
Essa reflexão converge com uma tradição que o Brasil – com reconhecida competência – construiu ao longo de sua trajetória. O Itamaraty consolidou reconhecimento internacional justamente por desenvolver uma diplomacia profissional, baseada em previsibilidade, negociação permanente, domínio técnico e respeito ao direito internacional. Essa reputação não surgiu por acaso. Foi construída geração após geração de diplomatas que compreenderam que política externa não pode oscilar conforme o humor das disputas domésticas.
A estratégia norte-americana, por sua vez, revela uma complexidade que recomenda prudência analítica. As tarifas anunciadas aparecem acompanhadas de argumentos comerciais, políticos, tecnológicos e institucionais. Questões relativas ao ambiente digital, ao funcionamento das plataformas, à propriedade intelectual, a decisões judiciais brasileiras e até mesmo ao ambiente político interno foram reunidas em um mesmo conjunto de justificativas. São argumentações que não param em pé.
Essa combinação evidencia uma característica da geopolítica contemporânea. Tarifas deixaram de ser apenas instrumentos de política comercial. Tornaram-se mecanismos de pressão estratégica, capazes de produzir efeitos econômicos, diplomáticos e políticos simultaneamente.
É justamente aí que reside uma das principais contradições.
Se o fundamento formal das medidas é comercial, sua argumentação incorpora elementos estranhos às disciplinas tradicionais da Organização Mundial do Comércio. O sistema multilateral foi concebido precisamente para separar divergências políticas das regras de acesso aos mercados. Quando essas fronteiras se tornam dispersivas, abre-se espaço para um precedente que interessa muito pouco às economias médias e exportadoras.
Por essa razão, o recurso brasileiro aos mecanismos da OMC representa muito mais do que a defesa de interesses nacionais imediatos. Constitui uma defesa da própria arquitetura jurídica do comércio internacional, construída ao longo de décadas para impedir que a força econômica substituísse o direito. O Brasil acumula uma trajetória reconhecida de atuação técnica no sistema de solução de controvérsias da OMC e dispõe de tradição diplomática suficiente para sustentar essa estratégia. Também convém evitar simplificações sobre os objetivos americanos.
A política comercial dos Estados Unidos vem passando por uma transformação estrutural. Nos últimos anos, tarifas passaram a integrar uma estratégia mais ampla de reorganização industrial, competição tecnológica, redução de dependências estratégicas e reposicionamento geopolítico diante da China e de outros atores globais. O Brasil encontra-se inserido nesse tabuleiro muito mais por sua posição estratégica do que por seu peso relativo no comércio bilateral.
Esse contexto exige serenidade.
Responder com retórica pode produzir aplausos passageiros. Responder com inteligência institucional produz resultados duradouros.
O desafio brasileiro não consiste apenas em contestar tarifas consideradas injustificáveis. Consiste em fortalecer sua inserção internacional, ampliar mercados, diversificar exportações, investir em inovação, aumentar produtividade e consolidar alianças econômicas que reduzam vulnerabilidades futuras.
A Amazônia, nesse cenário, ocupa posição singular. O mundo demanda alimentos, minerais estratégicos, biodiversidade, energia limpa, conhecimento científico e serviços ambientais. Poucas regiões concentram tantos ativos econômicos relevantes para a nova economia global. Transformar essa vantagem potencial em capacidade efetiva de negociação dependerá menos de discursos e mais de estratégia nacional.
Os próximos meses testarão não apenas a capacidade de negociação do governo brasileiro, mas também a maturidade institucional do país.
Em momentos assim, vale recordar uma das maiores virtudes históricas da diplomacia brasileira. O Itamaraty nunca foi construído para vencer debates nas redes sociais. Foi construído para defender os interesses permanentes do Estado brasileiro.
Essa é sua contribuição mais valiosa em um tempo marcado pela velocidade das emoções e pela volatilidade da política. Diante de uma potência que utiliza instrumentos econômicos com objetivos estratégicos, a resposta mais eficaz continua sendo aquela que o Brasil aperfeiçoou ao longo de mais de duzentos anos: firmeza jurídica, competência técnica, visão de longo prazo e compromisso inabalável com a ordem multilateral.