Vulnerabilidade a desastres climáticos atinge 80% das cidades do Brasil 

Dados do AdaptaBrasil revelam que 4,5 mil cidades enfrentam vulnerabilidade a desastres climáticos, agravada por desigualdade e infraestrutura insuficiente.

Mais de oito em cada dez municípios brasileiros apresentam vulnerabilidade a desastres climáticos em níveis médio, alto ou muito alto. Ao todo, cerca de 4,5 mil das 5,5 mil cidades do país possuem condições que ampliam os impactos de inundações, enxurradas, alagamentos e movimentos de massa.

O diagnóstico foi elaborado pelo Observatório do Clima com informações dos últimos dez anos disponíveis no AdaptaBrasil, plataforma do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). A ferramenta avalia os municípios considerando tanto a sensibilidade aos eventos extremos quanto a capacidade local de prevenção, resposta e recuperação.

Inundações ameaçam 68% das cidades

A análise aponta que aproximadamente 3,8 mil municípios, equivalentes a 68% do total, enfrentam risco médio, alto ou muito alto de inundações, enxurradas e alagamentos. Em 1,5 mil cidades, a classificação alcança os níveis alto ou muito alto.

Os deslizamentos também representam uma ameaça expressiva. Cerca de 2,9 mil municípios, ou 53% das cidades brasileiras, estão nas faixas de risco médio a muito alto. Desse conjunto, 1.041 apresentam risco alto ou muito alto, correspondendo a 19% do país.

Entre as capitais, Salvador ocupa a primeira posição na soma dos riscos relacionados a inundações e deslizamentos. Na sequência aparecem Belém, Manaus e Macapá. O Nordeste reúne metade das dez capitais mais ameaçadas, com a presença também de Recife, Maceió, João Pessoa e Aracaju.

Desigualdade amplia impactos dos eventos extremos

A vulnerabilidade a desastres climáticos não está distribuída de maneira uniforme. As condições variam entre regiões, municípios e bairros, influenciadas por fatores como renda, qualidade da infraestrutura, ocupação do território e acesso a serviços públicos. Populações que vivem em áreas precárias tendem a enfrentar maiores dificuldades para se proteger e reconstruir suas vidas depois de um desastre.

As projeções do AdaptaBrasil indicam agravamento dos riscos nas próximas décadas, inclusive nos cenários climáticos mais favoráveis. Em várias capitais, a diferença entre as projeções otimistas e pessimistas é pequena, evidenciando a urgência de medidas de adaptação.

Adaptação exige planejamento integrado

Reduzir a vulnerabilidade a desastres climáticos depende de financiamento público, planejamento de longo prazo e equipes municipais qualificadas. As ações precisam integrar habitação, urbanismo, assistência social, meio ambiente e Defesa Civil. Outro desafio é atualizar estruturas urbanas projetadas para eventos do passado, agora insuficientes diante da intensidade crescente dos extremos climáticos.

Para Diosmar Santana Filho, geógrafo e pesquisador da Associação de Pesquisa Iyaleta, a adaptação não pode se limitar à resposta emergencial. “Adaptação é uma nova forma de desenvolvimento”, afirmou.

Henrique Frota, diretor-executivo do Instituto Pólis, também defende ações simultâneas de adaptação e redução das emissões. Segundo ele, enfrentar a vulnerabilidade a desastres climáticos exige avanços rápidos em todas as frentes, sem que uma estratégia seja colocada em segundo plano. “Tudo passa a ser fundamental do ponto de vista de uma agenda de ação climática realmente responsável”, relembrou.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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