Capital estrangeiro controla 42% dos projetos de mineração de terras raras no Brasil

Com reservas estratégicas e demanda tecnológica crescente, a mineração de terras raras no Brasil amplia disputas por recursos, soberania e proteção ambiental.

A mineração de terras raras no Brasil atrai uma presença crescente de empresas internacionais. Companhias sediadas no exterior ou controladas por capital estrangeiro respondem por 42% dos requerimentos em operação ou em fase pré-comercial registrados até junho na Agência Nacional de Mineração (ANM).

Os dados fazem parte de um levantamento realizado pela Repórter Brasil e pela Associated Press. Apesar de corresponderem a apenas 12% dos titulares de pedidos relacionados a esses minerais, as companhias estrangeiras concentram 31 dos 45 processos em estágio mais avançado.

O interesse internacional pela mineração de terras raras no Brasil é impulsionado pela posição estratégica do país, que possui a segunda maior reserva mundial desses elementos. Os minerais são utilizados na fabricação de chips, baterias, turbinas, painéis solares, equipamentos eletrônicos e armamentos, além de serem essenciais para tecnologias ligadas à transição energética.

A disputa ganhou força com o aumento das tensões comerciais entre Estados Unidos e China. Depois de o governo chinês restringir exportações desses minerais para o mercado estadunidense, os EUA passaram a buscar fornecedores alternativos e a apoiar projetos em outros países.

No Brasil, o governo dos Estados Unidos financiou a aquisição da Serra Verde Group pela USA Rare Earth. A empresa é responsável pela mina Pela Ema, em Goiás, atualmente a única operação comercial brasileira dedicada às terras raras.

Australianas lideram número de requerimentos

Entre as 20 empresas com mais pedidos na ANM, 11 possuem vínculos com investidores estrangeiros. As mineradoras australianas aparecem na liderança, com 695 requerimentos. Desse total, 217 pertencem à Borborema Recursos Minerais, subsidiária da Brazilian Rare Earths, sediada em Sydney. Companhias dos Estados Unidos somam outros 347 processos. A Alpha Minerals Brazil, incorporada pela texana Rare Earth Americas, concentra 181 requerimentos.

A expansão da mineração de terras raras no Brasil também desperta preocupações socioambientais. Segundo o levantamento, um em cada quatro pedidos está sobreposto a Unidades de Conservação ou territórios de comunidades tradicionais, ou localizado a uma distância de até dez quilômetros dessas áreas.

Um dos casos identificados é o Projeto Carina, desenvolvido pela Aclara Resources no norte de Goiás. Parte dos requerimentos alcança o Território Quilombola Família Magalhães. O empreendimento recebeu US$ 5 milhões, aproximadamente R$ 25,9 milhões, da Corporação Financeira dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional. Embora a ANM já tenha emitido autorizações e o início das operações esteja previsto para 2028, a comunidade quilombola foi consultada sobre o projeto somente em julho.

Projeto em Minas Gerais recebe novo aporte

A australiana Viridis também anunciou a captação de US$ 120 milhões, equivalentes a cerca de R$ 623 milhões, para desenvolver o Projeto Colossus, na região de Poços de Caldas, em Minas Gerais. O empreendimento tem custo total estimado em US$ 449 milhões, aproximadamente R$ 2,3 bilhões. O avanço da mineração de terras raras no Brasil reforça o debate sobre soberania mineral, proteção ambiental e consulta às comunidades afetadas.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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