O país que ainda não sabe quanto deve à Amazônia — Parte I – Coluna Follow-Up

Coluna Follow-Up

Há frases que atravessam o tempo porque registram uma contradição antes que ela se torne inteiramente visível. Esta pertence a essa categoria. Mais de duas décadas depois de publicada, continua descrevendo com incômoda precisão a relação do Brasil com a região que responde por parcela decisiva de seu território, de suas águas, de sua biodiversidade e de sua projeção internacional.

A Amazônia nunca foi propriamente desconhecida. Desde os primeiros séculos da ocupação colonial, seus rios foram percorridos, suas espécies catalogadas, suas riquezas procuradas e suas fronteiras disputadas. Vieram naturalistas, comerciantes, militares, missionários, empresários, pesquisadores e sucessivas políticas de ocupação. O mistério de que fala Márcio Souza pertence a outra ordem.

O Brasil conhece bastante aquilo que pretende obter da Amazônia e conhece bem menos a experiência histórica, social e política das populações que a construíram. Essa assimetria ajudou a produzir uma imagem incompleta da região, frequentemente apresentada como fronteira, reserva natural, fonte de matérias-primas ou espaço a ser integrado, enquanto sua participação na própria formação brasileira permaneceu em segundo plano.

O adjetivo escolhido pelo escritor ajuda a explicar o problema. O mistério é conveniente porque simplifica.

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O falecido escritor amazonense Márcio Souza – Foto: Reprodução/Paiol Literário

Uma Amazônia reduzida à floresta dispensa o esforço de compreender suas cidades. Transformada em depósito de recursos, torna-se mais fácil discutir a exploração das riquezas antes de discutir a distribuição dos benefícios. Vista apenas como questão ambiental, sua economia, suas universidades, sua indústria e seus centros de pesquisa perdem nitidez. Enquadrada como periferia, desaparece o fato de que foi a expansão sobre esse território que ajudou o Brasil a adquirir sua dimensão continental.

A formação do Brasil ensinada durante gerações concentrou-se sobretudo no litoral atlântico, no Nordeste colonial, em Minas Gerais e no eixo político do Rio de Janeiro. A Amazônia costuma aparecer depois, quase como consequência da expansão de um país cuja identidade já estivesse pronta.

A trajetória do antigo Grão-Pará e Rio Negro desmente essa linearidade. A região teve dinâmica administrativa, econômica e política própria, relações diretas com Lisboa e uma incorporação ao Brasil independente marcada por tensões que a narrativa nacional frequentemente suavizou. A Cabanagem permanece como a expressão mais dramática desse desencontro.

Entre 1835 e 1840, a Província do Grão-Pará foi atravessada por uma revolta de proporções extraordinárias, que reuniu indígenas, negros, mestiços, trabalhadores pobres e parcelas das elites locais. Os cabanos chegaram ao poder provincial e colocaram em evidência uma sociedade profundamente desigual, distante do centro político do Império e atravessada por ressentimentos que não cabiam apenas nas disputas partidárias do período regencial.

A repressão foi devastadora. A dimensão da tragédia, porém, nunca encontrou na memória nacional espaço proporcional à sua importância.

Esse apagamento ajuda a compreender o argumento de Márcio Souza. Quando o Brasil conhece pouco a Cabanagem, conhece pouco também os conflitos envolvidos na constituição de sua própria unidade política. O território brasileiro foi construído por negociações, guerras, tratados, resistências e decisões tomadas em regiões que possuíam histórias muito distintas entre si.

A criação da Província do Amazonas, em 5 de setembro de 1850, precisa ser lida nesse contexto. A antiga Comarca do Alto Amazonas conquistava uma estrutura política própria depois de décadas subordinada administrativamente ao Pará. A mudança estabelecia governo provincial e representação política específica, aproximando as decisões de um território cujas distâncias, interesses e particularidades dificilmente podiam ser administrados como simples prolongamento de Belém.

A data carregava, portanto, um significado que ultrapassava a reorganização burocrática. O Amazonas adquiria maior capacidade de falar em nome de si mesmo dentro do Império.

O Amazonas tornou-se Estado, Manaus passou pelo apogeu e pela crise da borracha, a economia regional foi reconstruída, universidades foram criadas, institutos científicos adquiriram reconhecimento internacional e um parque industrial de grande porte surgiu no meio da floresta.

Mesmo assim, parte importante do debate brasileiro continua tratando a Amazônia como território sobre o qual se formulam projetos antes de reconhecê-la como lugar onde também se produz conhecimento sobre o desenvolvimento.

A borracha mostrou cedo os limites de uma economia baseada na oferta de matéria-prima sem domínio tecnológico equivalente. A Zona Franca de Manaus, décadas depois, ofereceria uma resposta diferente a esse problema, criando no coração da Amazônia uma base industrial capaz de romper, ao menos parcialmente, com a velha condição de fornecedora de recursos primários.

É dessa passagem, da memória para a economia e da economia para a ciência, que trata a segunda parte deste ensaio.


A Coluna Follow-Up é publicada sob a responsabilidade do CIEAM às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Comércio do Amazonas, com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, do portal brasilamazoniaagora.com.br 

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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