0,4% contra US$ 13,29 bilhões: para onde vai o dinheiro público na Amazônia

Crédito socioambiental representa apenas 0,4% do financiamento agrícola, enquanto o investimento público na Amazônia destina bilhões à logística de commodities.

O investimento público na Amazônia continua concentrado em atividades agropecuárias e grandes obras de infraestrutura, enquanto iniciativas capazes de gerar renda com a floresta em pé enfrentam escassez de crédito e apoio institucional. A conclusão é de um artigo de opinião publicado na revista científica PLOS Climate.

Assinado por Michel Xocaira Paes, João Campos-Silva, Luciana Marques Vieira e José Antonio Puppim de Oliveira, o texto analisa dados públicos sobre financiamento agrícola e florestal. Trata-se, portanto, de uma avaliação baseada em informações já disponíveis, e não de um artigo científico com produção de dados primários.

Segundo os pesquisadores, o crédito socioambiental corresponde a apenas 4,3% dos recursos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e a 0,4% de todo o crédito agrícola concedido no Brasil. Os números revelam como o investimento público na Amazônia ainda privilegia setores econômicos consolidados.

Bilhões para a logística de commodities

A desigualdade também aparece no Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). De acordo com o artigo, US$ 13,29 bilhões foram destinados à infraestrutura de transporte ligada ao escoamento de commodities, sem previsão específica para territórios tradicionais ou cadeias da sociobiodiversidade.

Na avaliação dos autores, esse modelo ajudou o país a ampliar sua produção agrícola, mas também contribuiu para o avanço do desmatamento, das emissões de gases de efeito estufa e das desigualdades regionais. A distribuição do investimento público na Amazônia, portanto, influencia diretamente quais atividades conseguem crescer e ocupar o território.

Em contraste, sistemas agroflorestais, pesca manejada e iniciativas comunitárias recebem uma parcela reduzida dos recursos. Embora conciliem conservação ambiental e geração de renda, esses modelos encontram dificuldades para acessar crédito, assistência técnica, infraestrutura e mercados.

Financiamento climático ainda é insuficiente

O artigo também analisa os resultados da COP30, realizada em Belém em novembro de 2025. Para os pesquisadores, o encontro ampliou a visibilidade das florestas, da adaptação climática e do financiamento climático, mas não modificou a estrutura do investimento público na Amazônia.

Um dos mecanismos destacados foi a Tropical Forest Forever Facility (TFFF), com retorno projetado entre US$ 3 bilhões e US$ 4 bilhões por ano. Apesar da dimensão financeira, os autores consideram que a iniciativa permanece menor do que os subsídios domésticos direcionados à expansão da fronteira agrícola. Assim, funcionaria como complemento, sem alterar as bases do atual modelo econômico.

O desequilíbrio também teria origem política. Atualmente, 324 dos 513 deputados federais integram a Frente Parlamentar da Agropecuária, o equivalente a 63% da Câmara. Em comparação, somente quatro parlamentares são indígenas. Para os pesquisadores, essa diferença de representação influencia a definição do orçamento e dificulta mudanças estruturais no investimento público na Amazônia.

Autores defendem mudança de prioridades

Como alternativa, o grupo propõe direcionar mais crédito público para cadeias sustentáveis, criar infraestrutura adequada às condições dos territórios florestais e fortalecer a assistência técnica. Também recomenda ampliar a participação de povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos produtores nas decisões orçamentárias.

“Se não mudarmos o modelo de financiamento, para dar mais apoio às cadeias sustentáveis, não conseguiremos resolver os problemas de desenvolvimento social e econômico da Amazônia e zerar o desmatamento”, relembra Puppim de Oliveira, professor da FGV EAESP.

O artigo coloca em evidência a distância entre o discurso de valorização da bioeconomia e o destino efetivo do investimento público na Amazônia. O trabalho recebeu apoio da Fapesp e da Fapeam, por meio da Iniciativa Amazônia+10, e foi liderado pelo FGV EARTH e pelo Instituto Juruá. O artigo completo está disponível no site da PLOS Climate.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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