O Pulso da Inovação na Amazônia – Entrevista com Vania Thaumaturgo

Entrevista com Vania Thaumaturgo revela como a bioeconomia está sendo construída com ciência, juventude e identidade amazônica

Gestora do Polo Digital de Manaus e head de Relações Institucionais da Bertha Capital, Vania Thaumaturgo é uma das vozes mais lúcidas e atuantes no ecossistema de inovação da Amazônia. Em entrevista exclusiva ao portal Brasil Amazônia Agora, ela compartilha reflexões sobre os caminhos da bioeconomia, o papel das universidades, os desafios das startups, o futuro da floresta em pé e as pontes possíveis entre indústria, ciência e território.

Com olhar estratégico e compromisso com a justiça social, Vania defende uma inovação com sotaque amazônico — enraizada no território, conectada com as comunidades e guiada por soluções reais. “A floresta em pé precisa de inovação em pé, com financiamento, mentoria e redes de apoio”, afirma.

Na conversa, ela também fala sobre o protagonismo de mulheres gestoras, a importância da UEA na interiorização da inovação e a urgência de transformar eventos em políticas públicas consistentes.

“A Amazônia está cheia de boas ideias — e cansada de vê-las morrer por falta de apoio. Precisamos de instrumentos de fomento que respeitem a realidade do território, criem trilhas de aceleração viáveis e levem essas soluções até o mercado. A floresta em pé precisa de inovação em pé, com financiamento, mentoria e redes de apoio. Sem isso, o risco é repetir o ciclo do “tudo começa e nada continua”.”

Coluna Follow-Up

Portal Brasil Amazônia Agora – Como você vê o momento atual da bioeconomia?

Vania Thaumaturgo – A Expo UEA Innovation e o Bioeconomy Amazon Summit revelaram que a revolução da bioeconomia amazônica já não é projeto de futuro: é presente em construção. A convergência entre juventude, ciência, floresta em pé e soluções locais tem ganhado corpo e densidade. A Universidade do Estado do Amazonas (UEA) — mantida pela indústria e presente em todos os municípios — simboliza esse novo tempo. 

Ela é a base do pacto BIO&TIC que precisamos interiorizar: inovação com identidade, com território e com gente. Vi de perto o projeto da professora Cynthia Mendonça, voltado às mulheres ribeirinhas da Amazônia. Um trabalho de impacto social e visão regenerativa. Como disse o secretário Jeibi Medeiros, a UEA está num momento extraordinário: reunindo gente preparada, painéis técnicos de alto nível e debates que apontam para um novo modelo de desenvolvimento. O Polo Digital de Manaus articula essa rede com a certeza de que a Amazônia não precisa de salvadores externos: ela precisa de aliados para fazer valer sua vocação.

Portal BAA – Qual é o papel do Polo Digital nesse cenário?

Vania Thaumaturgo – O Polo Digital é um elo entre mundos que antes mal se encontravam: universidade e indústria, startups e comunidades, ciência e floresta. Atuamos com a convicção de que a inovação precisa ter sotaque amazônico. Acreditamos em soluções com raiz e asas, capazes de resolver problemas reais do território. Por isso investimos em articulação, curadoria de talentos, aceleração de ideias e estímulo à cultura empreendedora, inclusive em periferias urbanas e interiores do estado.

Gestora do Polo Digital de Manaus e head de Relações Institucionais da Bertha Capital, Vania Thaumaturgo é uma das vozes mais lúcidas e atuantes no ecossistema de inovação da Amazônia. Em entrevista exclusiva ao portal Brasil Amazônia Agora, ela compartilha reflexões sobre os caminhos da bioeconomia, o papel das universidades, os desafios das startups, o futuro da floresta em pé e as pontes possíveis entre indústria, ciência e território.
Portal BAA – Como transformar eventos em política pública?

Vania – Precisamos sair do calendário e entrar no planejamento. Eventos como a Expo precisam ser vistos como parte de um plano maior: com metas, orçamento estável, governança multissetorial e visão de longo prazo. A Amazônia não pode ser laboratório de experiências passageiras. Ela precisa de estratégias consistentes, com foco em resultados e impactos. Isso inclui interiorização de recursos, estímulo à pesquisa aplicada e integração entre ciência e políticas públicas.

Portal BAA – Como garantir continuidade às soluções que surgem?

Vania – A Amazônia está cheia de boas ideias — e cansada de vê-las morrer por falta de apoio. Precisamos de instrumentos de fomento que respeitem a realidade do território, criem trilhas de aceleração viáveis e levem essas soluções até o mercado. A floresta em pé precisa de inovação em pé, com financiamento, mentoria e redes de apoio. Sem isso, o risco é repetir o ciclo do “tudo começa e nada continua”.

Portal BAA – Como está a conexão entre startups e a indústria da ZFM?

Vania – Temos avanços importantes, mas ainda pontuais. Algumas empresas já estão direcionando recursos de P&D para soluções locais, com startups desenvolvendo tecnologias aplicadas à rastreabilidade, à educação, à energia limpa. Mas precisamos transformar pontes em avenidas: com desafios compartilhados, editais coordenados, hubs integrados e presença mais ativa da indústria no ecossistema de inovação.

Portal BAA – Quem são os verdadeiros protagonistas dessa nova economia?

Vania – A nova economia será feita por quem já está fazendo: lideranças comunitárias, jovens inventores, professores-pontes, pesquisadores comprometidos, agricultores criativos. A Expo BIO&TIC é construída com base nessa escuta. Nosso desafio é reconhecer essas trajetórias, garantir que tenham voz nas decisões estratégicas e valorizá-las como referência — não como exceção.

Paineis tecnicos Saber Tradicional Ciencia Tradicional
Portal BAA – Como fazer da inovação um caminho de justiça social?

Vania – A bioeconomia precisa ser regenerativa em todos os sentidos — inclusive no social. Isso significa garantir que os frutos dessa nova economia cheguem às populações periféricas, ribeirinhas, quilombolas, indígenas. Significa promover formação técnica de base, acesso a crédito, segurança territorial, e respeito aos saberes tradicionais. A floresta em pé não se manterá sozinha. Ela precisa de gente em pé — com renda, dignidade e reconhecimento. 

Portal BAA – Quais os desafios e aprendizados como mulher gestora?

Vania – Liderar como mulher na Amazônia exige firmeza e sensibilidade. É viver o tempo todo entre provar competência e abrir novos caminhos. Mas é também uma oportunidade de propor um outro jeito de fazer: com mais escuta, mais empatia, mais cooperação e coragem. Aprendi que liderança não é sobre mandar: é sobre inspirar, segurar a barra e construir pontes. É isso que buscamos todos os dias no ecossistema do Polo Digital.

Vania Thaumaturgo - foto: Arquivo Pessoal

Gestora do Polo Digital de Manaus e head de Relações Institucionais da Bertha Capital, Vania Thaumaturgo é uma das vozes mais lúcidas e atuantes no ecossistema de inovação da Amazônia. Em entrevista exclusiva ao portal Brasil Amazônia Agora, ela compartilha reflexões sobre os caminhos da bioeconomia, o papel das universidades, os desafios das startups, o futuro da floresta em pé e as pontes possíveis entre indústria, ciência e território.
Vania Thaumaturgo – foto: Arquivo Pessoal
Portal BAA – Qual o papel das universidades nesse processo?

Vania – A UEA tem sido uma força vital nessa virada. Vi isso com clareza na Expo. Os estudantes, professores e projetos apresentados mostram que a universidade está pronta para se conectar com a realidade, com o mercado e com as comunidades.
Precisamos de pactos sérios com a ciência, com estímulo à pesquisa aplicada, programas de residência tecnológica, incentivos à inovação e valorização da juventude acadêmica da floresta.

Vania Thaumaturgo
Vania Thaumaturgo
Vania Thaumaturgo, engenheira, gestora do Polo Digital de Manaus e Head de Relações Institucionais da Bertha Capital

Artigos Relacionados

Cientistas descobrem fungos capazes de degradar isopor vivendo dentro de praga agrícola

Pesquisa da UFSCar identifica fungos no intestino de uma lagarta agrícola com potencial para degradar isopor e combater a poluição plástica.

Infovia 5 leva fibra óptica pelo Rio Madeira e deve alcançar 700 mil pessoas

Infovia 5 começa a ser instalada no Rio Madeira e deve ampliar o acesso à internet para 700 mil pessoas no Amazonas e em Rondônia.

Governo usa El Niño para justificar antecipação de termelétricas fósseis

Antecipação de termelétricas custará R$ 4,75 bilhões aos consumidores e ampliará o uso de combustíveis fósseis e as emissões no Brasil.

O acordo Mercosul-União Europeia e a nova geografia da competitividade

Em tempos de guerras tarifárias e reorganização das cadeias...