Como o sumiço de insetos no para-brisa revela crise global na biodiversidade

Estudos mostram queda de até 78% na presença de insetos em determinados países e alertam para riscos à segurança alimentar, solo e equilíbrio dos ecossistemas.

Muitas pessoas notam que cada vez menos insetos colidem com os para-brisas dos carros. Isso não é apenas uma impressão, trata-se do sinal visível de um fenômeno global: o declínio acelerado das populações.

Inseto sozinho em cima de um carro. Declínio no número de insetos preocupa cientistas. Foto: Canva.
Pesquisas indicam um declínio global acelerado das populações de insetos, com impactos diretos na biodiversidade e na segurança alimentar. Foto: Canva.

No Reino Unido, o projeto de ciência cidadã Bugs Matter monitora, desde 2004, o número de insetos atingidos por veículos. Em 2022, os dados revelaram uma queda de 64% nesses registros em menos de 20 anos. Estudos semelhantes foram realizados em outras partes do mundo com resultados ainda mais alarmantes. 

Na Alemanha, uma pesquisa conduzida por 27 anos apontou uma perda de 76% da biomassa de insetos voadores. Em florestas tropicais de Porto Rico, a redução chegou a 78%. Ainda que não haja dados precisos sobre o número desses seres no Brasil, pesquisadores também apontam para uma tendência de declínio. 

Esse colapso é atribuído a uma combinação de fatores provocados pela ação humana. Entre eles, perda de habitat, uso intensivo de agrotóxicos, urbanização acelerada, poluição atmosférica e luminosa, além de mudanças climáticas. A poluição, por exemplo, interfere nos mecanismos de navegação e comunicação desses animais, enquanto o aquecimento global altera seus ciclos de vida e a disponibilidade de alimento.

O desaparecimento dos insetos traz consequências graves para ecossistemas. Como esses animais são responsáveis pela polinização de cerca de 35% dos cultivos agrícolas e atuam na decomposição de matéria orgânica, reciclagem de nutrientes e controle natural de pragas, o declínio deles ameaça a segurança alimentar, a fertilidade do solo e o equilíbrio de cadeias alimentares.

Diversas espécies de insetos. Abelhas, borboletas, joaninhas, libélulas e até besouros decompositores: o desaparecimento de insetos atinge uma diversidade enorme de espécies. Foto: Canva.
Abelhas, borboletas, joaninhas, libélulas e até besouros decompositores: o desaparecimento de insetos atinge uma diversidade enorme de espécies. Foto: Canva.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

Artigos Relacionados

0,4% contra US$ 13,29 bilhões: para onde vai o dinheiro público na Amazônia

Estudo mostra que o investimento público na Amazônia favorece o agronegócio, enquanto o crédito socioambiental é negligenciado.

Dois séculos no gênero errado: Cientistas identificam macho de gafanhoto 206 anos após descoberta

Estudo identifica macho de gafanhoto após 206 anos e explica como uma nova espécie na Amazônia é reconhecida por análises e coleções científicas.

Manaus tem o agosto mais seco em 40 anos e a vazante acelera

Nível do Rio Negro preocupa após Manaus registrar agosto mais seco em 40 anos, com calor intenso e influência do El Niño.

A teimosia que abriu a porta da logística amazônica

Ao reunir no mesmo fórum o comando da política hidroviária, o DNIT e a Marinha, o CIEAM oferece uma mostra dos resultados de uma mobilização construída ao longo dos anos. A presença qualificada do governo federal indica que os gargalos do Amazonas começam a ser compreendidos como uma questão nacional, ligada à competitividade, à arrecadação, à segurança territorial e ao futuro da economia da floresta em pé.