Como a falta de cobertura vegetal cria ilhas de calor até 10°C mais quentes nas capitais amazônicas

A falta de árvores, combinada com extensas superfícies pavimentadas expostas ao sol, como o concreto, agrava ainda mais a elevação das temperaturas em determinados bairros e contribui para as ilhas de calor

As ilhas de calor nas capitais amazônicas Manaus e Belém podem apresentar temperaturas quase 10°C mais altas que áreas verdes próximas, segundo análise de imagens térmicas de satélite realizada pelo portal InfoAmazônia. Essa diferença significativa é atribuída principalmente à escassez de cobertura arbórea nas zonas urbanas.

Dados do IBGE confirmam que essas cidades estão entre as menos arborizadas do Brasil. Assim, a falta de árvores, combinada com extensas superfícies pavimentadas expostas ao sol, como o concreto, agrava ainda mais a elevação das temperaturas em determinados bairros.

O mercado Carrefour no bairro Parque 10 de Novembro, em Manaus, representa um dos pontos mais quentes da cidade.
O mercado Carrefour no bairro Parque 10 de Novembro, em Manaus, representa um dos pontos mais quentes da cidade. Fotos: Nicholas Miller/InfoAmazonia

Para chegar a esse resultado, O InfoAmazônia informa que foram analisados os mapas de calor gerados a partir de dados do satélite Landsat 8, acessados por meio do portal do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), nas duas capitais da Amazônia Legal: Manaus (AM) e Belém (PA). A partir disso, foram criados mapas comparativos de diversos pontos urbanos em relação às áreas florestadas e rurais próximas às cidades.

Cidade x floresta

Em Belém, sede da COP30 em novembro, a temperatura média urbana é 2,6°C mais alta em comparação com a floresta vizinha, tomando como base a Área de Proteção Ambiental do Arquipélago do Combu. Em Manaus, a diferença é ainda maior, com a cidade registrando temperaturas, em média, 3°C superiores às da Reserva Florestal Adolpho Ducke, situada nas proximidades da capital amazonense.

Nas periferias dessas cidades, o problema se agrava: as ilhas de calor têm impactos mais severos justamente onde a população dispõe de menos recursos para adquirir equipamentos como ar-condicionado ou adotar outras formas de proteção contra as altas temperaturas.

Jefferson Pereira vende bilhetes de loteria em frente ao shopping IT Center, no bairro da Sacramenta, um dos pontos que mais sofre com as ilhas de calor em Belém.
Jefferson Pereira vende bilhetes de loteria em frente ao shopping IT Center, no bairro da Sacramenta, um dos pontos mais quentes de Belém. Fotos: Nicholas Miller/InfoAmazonia

“No Centro [de Belém] tem [árvores], mas pra cá, na periferia, não tem”, afirma Jefferson Pereira, morador de Sacramenta, em Belém, e vendedor de bilhetes de loteria na entrada do estacionamento do shopping há cerca de cinco anos. O bairro apresenta apenas 17,5% de cobertura vegetal, o oitavo mais baixo da cidade. 

Em Manaus, o bairro Dom Pedro é o mais quente da cidade, com temperatura média da superfície 5,4 °C acima da registrada na floresta no momento do registro do satélite. Ele foi planejado como um conjunto habitacional para trabalhadores na década de 1970. Hoje, ele quase não tem árvores, apesar das ruas retas e organizadas. 

Soluções verdes

Segundo a análise do InfoAmazônia, os dados mostram que as ilhas de calor urbanas podem ser amenizadas e até erradicadas com arborização. Em nota, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Belém explicou que uma das maiores dificuldades para promover a arborização na periferia da cidade é a identificação de espaços adequados para o plantio de árvores. A pasta destacou que muitos bairros foram ocupados de forma desordenada ao longo dos anos, o que resultou em poucas áreas livres disponíveis para a implantação de novas áreas verdes.

Recentemente, a política de arborização de Belém ganhou atenção nacional e foi amplamente criticada nas redes sociais após a prefeitura instalar “árvores artificiais” em um novo parque construído para a COP30, localizado no bairro do Reduto. As estruturas metálicas, agora rebatizadas pela gestão municipal como “jardins suspensos”, têm formato de árvore e sustentam vasos de plantas no lugar da copa.

A prefeitura de Belém está chamando as árvores artificiais que colocou em um novo parque em construção para a COP30 de “jardins suspensos”.
A prefeitura de Belém está chamando as árvores artificiais que colocou em um novo parque em construção para a COP30 de “jardins suspensos”. Foto: Nicholas Miller/InfoAmazonia

Apesar disso, a SEMMA de Belém informou que, até o momento, já plantou 7 mil mudas de árvores reais como parte de uma iniciativa para tornar a capital mais verde. Já a Prefeitura de Manaus anunciou que plantará 15 mil mudas em toda a cidade ao longo de 2025. A SEMMA de Manaus, porém, não respondeu a uma lista de perguntas enviada pela InfoAmazonia.

Os especialistas defendem que as prefeituras escolham cuidadosamente quais serão as espécies a serem cultivadas, com investimento para ajudar no crescimento das árvores mesmo após o plantio.

Isadora Noronha Pereira
Isadora Noronha Pereira
Jornalista e estudante de Publicidade com experiência em revista impressa e portais digitais. Atualmente, escreve notícias sobre temas diversos ligados ao meio ambiente, sustentabilidade e desenvolvimento sustentável no Brasil Amazônia Agora.

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