O último judeu e o próximo iraniano

“Entre Berdychiv (1941) e a forca no Irã: quando a inteligência artificial ajuda a devolver nomes ao mundo — e a tirar a morte da zona de normalidade”

Por décadas, uma fotografia atravessou o mundo como síntese do Holocausto: um homem ajoelhado, fitando a câmera, instantes antes do disparo. A imagem ficou conhecida como “O último judeu de Vinnytsia”, mas pesquisas recentes a reposicionam para Berdychiv, em 28 de julho de 1941 — e agora, com apoio de técnicas assistidas por inteligência artificial e a colaboração de familiares, o executor que aparece com a arma foi identificado como Jakobus Onnen.

Enquanto isso, no presente, um jovem iraniano de 26 anos — sob relatos de condenação e risco de execução por enforcamento em um ambiente de censura — lembra que a barbárie não é apenas memória: é reincidência. A pergunta não é se a IA “desemprega”. É se ela pode nos ajudar a devolver nomes ao mundo — e a tirar a morte da zona de normalidade.

Há um argumento repetido com a leveza de quem fala de máquinas como se falasse de clima: “a inteligência artificial vai desempregar.”

Talvez. Em muitos setores, ela já desloca rotinas. Mas há um ponto cego nessa sentença: a IA também pode ser uma tecnologia de resgate — de verdade, de memória e, em última instância, de humanidade.

Nos últimos dias, uma notícia atravessou o noticiário como uma lâmina de gelo: um historiador, Jürgen Matthäus, conseguiu identificar — com apoio de familiares que forneceram fotos de época e com ferramentas de análise de imagem — o executor que aparece na fotografia conhecida como “The Last Jew in Vinnitsa”, hoje recontextualizada como uma execução em Berdychiv, em 28 de julho de 1941. O homem com a arma é Jakobus Onnen. A vítima, ainda sem nome, continua ajoelhada diante do mundo, esperando que o século XXI faça justiça ao seu silêncio.  

último judeu
Erfan Soltani seria o primeiro enforcamento público no Irã ligado aos protestos nacionais anti-Khamenei de 2025–2026.. (AP/Social Media Images)

E, quase como um eco contemporâneo, surge o outro rosto — o rosto que ainda está em disputa com a censura e o medo: Erfan Soltani, 26 anos, no Irã, sob relatos de condenação e risco de execução por enforcamento em meio a julgamentos acelerados e repressão. Nem tudo é verificável com a transparência que a dignidade humana exigiria, e isso também é parte do horror: a barbárie moderna, além de matar, apaga o processo, impede o registro, sequestra a prova.  

O nazismo industrializou o assassinato e tentou, junto com a morte física, produzir a morte civil do nome. O Irã, quando transforma a política em “crime contra Deus”, tenta a mesma operação simbólica: desumanizar o opositor para que a sociedade aceite a forca como procedimento administrativo. 

Por isso, quando uma tecnologia contemporânea ajuda a identificar um executor numa fotografia de 1941, ela não está apenas “fazendo reconhecimento facial”. Ela está atuando num terreno moral: o de impedir que a história permaneça confortável na abstração.

Porque o horror em massa só prospera plenamente quando o público fala em milhares e milhões como quem fala de estatística — e não de pessoas.

É também nesse ponto que a tese do “desemprego” perde o monopólio do debate. A IA, bem orientada, cria e fortalece trabalhos vitais.

Um deles é trabalho de investigação histórica, que cruza arquivos, diários, imagens e geolocalização para reconstituir crimes; 

E isso facilita o trabalho jornalismo de verificação sob regimes de blackout e propaganda;  trabalho de direitos humanos e memória, como o esforço de Yad Vashem para recuperar nomes: já são cinco milhões identificados, mas cerca de um milhão permanecem desconhecidos. 

E a própria instituição aposta em IA e machine learning para encontrar – resgatar mais vidas – nas dobras do papel e do testemunho. 

Ou seja: existe uma IA que substitui tarefas. E existe uma IA que reabre arquivos, reencontra pessoas, reduz a zona de sombra onde assassinos se escondem e onde vítimas permanecem sem lápide, sem rosto, sem narrativa.

Talvez até o dia em que deixarmos de tratar atrocidades como “conteúdo” e voltarmos a tratá-las como interpelação. A pergunta não é apenas “o que a IA fará com os empregos?”A pergunta é: o que nós faremos com a IA quando a vida estiver sendo reduzida a número — de novo?

Porque a barbárie sempre começa assim: primeiro, a vítima vira categoria. Depois, vira estatística. Por fim, vira ruído. E esquecimento.

E é exatamente aí que uma tecnologia “nova” pode ter um uso antigo, urgente e precioso: devolver nomes ao mundo — e tirar a morte da zona de normalidade.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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