Ciência descobre novo limite para prever a perda de gelo da Antártica

Estudo indica que o degelo antártico poderá ser previsto com maior segurança até 2050, criando uma janela decisiva para enfrentar a elevação do nível do mar.

A perda de gelo da Antártica poderá ser estimada com relativa segurança até meados deste século, oferecendo aos governos uma janela importante para planejar obras, proteger áreas costeiras e preparar comunidades ameaçadas pela elevação do nível do mar. Depois desse período, porém, as projeções tendem a se tornar muito mais incertas.

A conclusão é de um estudo publicado na revista científica Nature e liderado pela pesquisadora Felicity McCormack, da Universidade Monash, na Austrália. O trabalho analisou diferentes modelos da camada de gelo antártica para verificar por quanto tempo eles conseguem antecipar, de maneira confiável, a contribuição do continente para o avanço dos oceanos.

Os resultados indicam que a perda de gelo permanece relativamente previsível pelos próximos 30 a 50 anos, especialmente quando os modelos conseguem reproduzir corretamente as mudanças já observadas no continente. Esse período poderá ser decisivo para orientar políticas públicas, projetos de infraestrutura, sistemas de defesa costeira e planos de deslocamento populacional.

Colapso pode elevar os oceanos em mais de dois metros

Projeções do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) mostram que o nível médio global dos oceanos poderá subir mais de dois metros até 2100 em cenários de altas emissões, caso grandes setores da camada de gelo da Antártica entrem em colapso. Uma elevação do nível do mar dessa dimensão teria consequências sociais e econômicas profundas. Áreas densamente povoadas poderiam enfrentar inundações frequentes, enquanto territórios insulares do Pacífico correriam o risco de se tornar parcial ou totalmente inabitáveis. Centenas de milhões de pessoas também poderiam ser obrigadas a deixar regiões costeiras.

Apesar da gravidade do cenário, ainda existe grande incerteza sobre a velocidade dessa mudança. Uma das principais dificuldades está em determinar quanto gelo a Antártica perderá e em que ritmo essa massa chegará aos oceanos. Segundo o estudo, a taxa de aumento do nível dos mares provocada apenas pelo derretimento antártico poderá quase dobrar nas próximas três décadas em um cenário extremo. Ainda assim, os pesquisadores afirmam que as projeções para esse intervalo são mais confiáveis do que aquelas produzidas para o final do século.

Instabilidade aumenta depois de 2050

A previsibilidade diminui à medida que as projeções avançam para as últimas décadas do século. Nesse período, processos capazes de acelerar rapidamente o recuo do gelo se tornam mais prováveis. Parte da camada de gelo antártica está apoiada sobre terrenos localizados abaixo do nível do mar.

Vista aérea de Tuvalu, arquipélago do Pacífico ameaçado pela elevação do nível do mar e pelo avanço das águas.
Tuvalu está entre os países mais vulneráveis à elevação do nível do mar. Foto: Kalolaine Fainu/The Guardian, Redux.

Quando essas estruturas começam a recuar, a entrada de água oceânica pode intensificar o derretimento e desencadear uma perda de gelo difícil de interromper. Esse tipo de reação poderá produzir impactos muito maiores do que os indicados apenas pelo aquecimento projetado para as próximas décadas.

Para reduzir as incertezas, os cientistas defendem melhorias nos modelos climáticos e na representação dos mecanismos físicos que controlam o recuo acelerado das geleiras, além de se ampliar os sistemas de monitoramento por satélites, estações de pesquisa e observações no Oceano Antártico.

Planejamento deve considerar dois horizontes

Os pesquisadores sugerem que as projeções sejam apresentadas aos gestores públicos em duas etapas. A primeira abrangeria as próximas três a cinco décadas, período em que a perda de gelo pode ser calculada com maior confiança. A segunda trataria dos cenários de longo prazo, sujeitos a mudanças abruptas e margens de incerteza mais elevadas. Essa divisão permitiria adotar medidas imediatas sem ignorar os riscos mais graves previstos para o futuro. Entre as decisões que dependem dessas informações estão a localização de novas construções, a adaptação de portos e estradas, a proteção de fontes de água e o eventual reassentamento de comunidades costeiras.

Para os autores, a previsibilidade observada até meados do século não significa que o risco seja menor. Ao contrário, ela define um período no qual países e cidades poderão agir com informações mais sólidas. A necessidade é especialmente urgente para as nações insulares do Pacífico, que precisam decidir sobre uso do território, infraestrutura e deslocamento de moradores. O estudo destaca que transformar as projeções científicas em políticas práticas será essencial para reduzir os impactos humanos e econômicos causados pela elevação do nível do mar.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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