“O estado possui minerais decisivos para a transição energética e uma indústria capaz de utilizá-los. Falta transformar ocorrências geológicas, rejeitos minerais e pesquisa científica em uma cadeia produtiva integrada ao Polo Industrial de Manaus“
A aprovação, pelo BNDES, de R$ 77,5 milhões para um centro de pesquisa e processamento de terras raras em Poços de Caldas, Minas Gerais, deveria provocar uma pergunta imediata no Amazonas. Se esses minerais se tornaram estratégicos para a indústria contemporânea, para a transição energética e para a soberania tecnológica, onde está o projeto amazonense?
O financiamento concedido à Viridis Mineração permitirá desenvolver rotas metalúrgicas, produzir carbonato misto de terras raras em escala piloto e preparar o futuro Projeto Colossus. A implantação deve começar em 2027, com operação prevista para o fim de 2028. O crédito terá prazo de 16 anos e custo indicativo de 4,8% ao ano. Antes de erguer uma fábrica, Minas Gerais está financiando conhecimento, testes industriais e domínio tecnológico. Segundo o BNDES, essa estrutura deverá apoiar uma cadeia nacional de fornecedores e empregos qualificados.
A questão amazonense começa justamente aí.
O estado é lembrado há décadas por suas ocorrências de nióbio e terras raras no Morro dos Seis Lagos, em São Gabriel da Cachoeira. Trata-se de uma formação geológica excepcional, estudada pelo Serviço Geológico do Brasil, mas localizada em área de elevada sensibilidade ambiental e territorial. Qualquer debate responsável precisa reconhecer os limites legais, os direitos dos povos indígenas e as condições de proteção integral existentes na região.
Seis Lagos não pode continuar sendo utilizado como uma espécie de cofre imaginário, aberto toda vez que se deseja anunciar uma riqueza grandiosa. Recurso mineral inferido, reserva economicamente comprovada e empreendimento autorizado são categorias diferentes. Entre uma ocorrência geológica e uma cadeia industrial existe uma longa travessia, formada por pesquisa, sondagem, caracterização mineralógica, tecnologia de separação, análise econômica, licenciamento, consulta prévia e governança territorial.
O Amazonas possui, entretanto, uma oportunidade bem mais concreta e imediata em Pitinga, no município de Presidente Figueiredo. A mina já produz estanho, nióbio e tântalo e dispõe de infraestrutura mineral instalada. Estudos apresentados pela Mineração Taboca ao Centro de Tecnologia Mineral indicam a presença de terras raras, especialmente elementos pesados, em correntes e resíduos do processamento mineral.
A empresa chegou a estudar uma rota para recuperar terras raras e zircônio dos rejeitos da flotação e da limpeza da columbita. Os ensaios apontaram a possibilidade de produzir concentrados contendo ítrio, disprósio, térbio, érbio e itérbio, entre outros elementos.
Em uma das estimativas apresentadas, a combinação da columbita processada com os rejeitos poderia oferecer potencial superior a 4 mil toneladas anuais de carbonato ou oxalato misto de terras raras. São projeções técnicas que precisam ser atualizadas, verificadas economicamente e submetidas às exigências ambientais, mas representam algo muito diferente de uma promessa abstrata. Existe matéria-prima já movimentada, conhecimento acumulado e a possibilidade de recuperar valor de materiais atualmente tratados como resíduos. A apresentação técnica da Mineração Taboca está disponível no CETEM.
Essa característica pode tornar Pitinga um laboratório brasileiro de mineração circular.
O aproveitamento de rejeitos reduz a necessidade de abrir novas frentes de lavra, recupera substâncias de elevado valor tecnológico e pode ajudar a financiar soluções ambientais para passivos acumulados. Também oferece uma base realista para instalar no Amazonas uma planta-piloto de separação e processamento, semelhante, nas devidas proporções, à estrutura agora financiada em Minas Gerais.
Terras raras correspondem a um conjunto de 17 elementos químicos.
Sua importância decorre das propriedades magnéticas, ópticas e eletrônicas que permitem fabricar ímãs permanentes de alto desempenho, motores elétricos, geradores eólicos, sensores, equipamentos médicos, sistemas de defesa e componentes eletrônicos. O valor econômico cresce intensamente ao longo da cadeia. O minério vale pouco diante dos óxidos separados; os óxidos valem menos que os metais e ligas; e estes representam apenas uma fração do valor contido em ímãs, motores e equipamentos acabados.
Muita calma nessa hora
Exportar um concentrado mineral e importar o componente tecnológico produzido com ele reproduziria o padrão que acompanha o país desde o período colonial. A oportunidade do Amazonas surge justamente porque o estado já abriga um parque industrial consumidor dessas tecnologias.
O Polo Industrial de Manaus reúne fabricantes de motocicletas, bicicletas elétricas, aparelhos de ar-condicionado, produtos eletrônicos, equipamentos de comunicação e bens de informática. Motores elétricos, compressores, alto-falantes, sensores, discos rígidos e diferentes dispositivos eletrônicos utilizam materiais críticos em proporções variadas. A conexão entre Pitinga e o PIM permitiria discutir uma cadeia que começasse na recuperação mineral, avançasse pela separação química e pela produção de ligas, chegando aos ímãs, motores, componentes e equipamentos finais.
Essa integração não acontecerá por proximidade geográfica.
Depende de escala, qualidade, preço, regularidade de fornecimento e domínio de processos industriais complexos. A separação de terras raras é uma das etapas tecnicamente mais difíceis da cadeia e exige laboratórios, plantas-piloto, profissionais especializados, controle rigoroso de efluentes e tratamento adequado de elementos associados, inclusive urânio e tório quando presentes.
Por isso, o primeiro investimento inadiável deve ser no conhecimento. O Amazonas precisa de um programa coordenado de pesquisa mineral e tecnológica, reunindo Serviço Geológico do Brasil, CETEM, universidades, institutos locais, Suframa, Centro de Bionegócios da Amazônia, empresas mineradoras e indústrias do PIM. O objetivo inicial seria atualizar o inventário estadual de minerais críticos, caracterizar depósitos e rejeitos, selecionar rotas de processamento e identificar a demanda industrial já existente em Manaus.
O passo seguinte seria a implantação de um Centro Amazônico de Minerais Críticos e Materiais Avançados
Isso significa vontade politica com implantação de laboratórios e uma planta-piloto. BNDES, Finep, fundos setoriais, recursos de pesquisa e desenvolvimento administrados pela Suframa e capital empresarial poderiam financiar essa estrutura. O centro deveria trabalhar também com reciclagem de produtos eletrônicos, motores e ímãs descartados. O próprio Polo pode oferecer uma fonte urbana de minerais estratégicos, reduzindo importações e criando uma nova indústria de recuperação de materiais.
O momento exige cautela e velocidade. Cautela para impedir que a corrida mundial por minerais críticos produza improvisação, conflitos territoriais e novos passivos ambientais. Velocidade para que o Amazonas não acompanhe de longe a formação de uma cadeia industrial que combina geologia, ciência, energia e manufatura avançada.
A Agência Nacional de Mineração informa
A Amazônia Legal concentra 48,2% dos processos brasileiros relacionados a minerais críticos e estratégicos. Entre 2003 e 2024, foram aplicados R$ 4,9 bilhões em pesquisa mineral na região, com a maior parte destinada ao ouro e ao cobre. Terras raras, potássio e cobalto continuam sem produção, apesar de sua importância para o país. O próprio diagnóstico oficial recomenda mais conhecimento geológico, crédito, segurança regulatória, parcerias de pesquisa e governança socioambiental. O estudo foi divulgado pela ANM em julho de 2026.
O financiamento aprovado para Poços de Caldas mostra como uma política industrial começa. Alguém reúne a geologia, o laboratório, a empresa, o crédito e o mercado em torno de um projeto verificável. No Amazonas, essas peças ainda permanecem dispersas, embora poucas regiões brasileiras apresentem uma combinação tão promissora entre recursos minerais e capacidade manufatureira.
Talvez a pergunta mais útil já não seja quanto valem as terras raras escondidas no subsolo amazonense. Importa saber quanto o estado está disposto a investir para conhecê-las, processá-las e incorporá-las aos produtos fabricados em Manaus. Sem essa decisão, continuaremos celebrando riquezas potenciais enquanto outros estados constroem laboratórios, plantas-piloto, patentes e fábricas.