Fumaça volta a cobrir a capital, expõe crianças e idosos a níveis perigosos de poluição e revela o fracasso de uma política pública que monitora o ar, anuncia operações e continua chegando depois do fogo
Manaus amanheceu nesta quarta-feira, 9 de setembro, respirando fumaça. Em alguns pontos da cidade, a concentração de partículas finas ultrapassou 100 microgramas por metro cúbico, nível classificado como “péssimo” pelo Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental. A Defesa Civil Municipal registrou 87,6 microgramas, índice considerado “muito ruim”.
A cena se tornou conhecida. O horizonte desaparece sob uma camada cinzenta, o cheiro de queimado invade as casas, os olhos ardem, a garganta incomoda e crianças com tosse, falta de ar ou crises de asma engrossam a procura por atendimento. Tudo isso ocorre no centro da maior floresta tropical do planeta.
A fumaça desta quarta-feira, segundo a Prefeitura, veio principalmente de queimadas no sul do Amazonas, no norte de Mato Grosso e em Rondônia. Uma mudança na circulação atmosférica, provocada pelo avanço de uma frente fria, transportou as partículas por centenas de quilômetros até Manaus. A estiagem e a escassez de chuvas contribuíram para mantê-las suspensas no ar. A própria capital aparece entre os municípios amazonenses com menor número de focos de incêndio, conforme o monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Portal Mário Adolfo
A explicação meteorológica descreve o trajeto da fumaça. Falta explicar por que uma população de mais de 2 milhões de habitantes continua desprotegida diante de um fenômeno previsível, recorrente e cada vez mais associado ao calendário das secas amazônicas.
Equipamentos que medem o fracasso
Manaus dispõe de sensores, imagens de satélite, drones, sistemas eletrônicos, alertas de focos de calor e salas de monitoramento. Desde julho, a Fiocruz Amazônia abriga uma estação de referência capaz de medir continuamente e com alta precisão a concentração de material particulado fino, o PM2,5. A estrutura ajuda a validar os sensores de baixo custo do Projeto Selva e a produzir informações para a vigilância sanitária. Fiocruz Amazônia/FioAres
É um avanço científico importante. O problema começa quando o monitoramento se converte no ponto final da ação pública. Mede-se a fumaça depois que ela já chegou aos pulmões.
Um sensor informa que o ar está péssimo. O satélite localiza o fogo. O drone identifica a área. A Defesa Civil explica a direção do vento. Enquanto isso, a população continua exposta, quase sempre sem receber alertas amplos, antecipados e suficientemente claros sobre suspensão de atividades escolares, proteção das crianças, uso de máscaras adequadas, cuidados domiciliares e locais públicos de abrigo com ar filtrado.
O aparato tecnológico perde boa parte de sua utilidade quando os dados não acionam respostas previamente definidas. Manaus e o Amazonas precisam de um protocolo público que relacione cada nível de poluição a medidas concretas nas escolas, unidades de saúde, atividades esportivas, obras ao ar livre e atendimento às populações vulneráveis.
A fumaça não pode continuar tratada como surpresa climática anual.
Crianças respiram a conta
O PM2,5 recebe esse nome porque suas partículas possuem diâmetro inferior a 2,5 micrômetros. São pequenas o suficiente para alcançar os alvéolos pulmonares e penetrar profundamente no organismo. A fumaça das queimadas também transporta monóxido de carbono e outros compostos tóxicos.
O Ministério da Saúde relaciona essa exposição ao agravamento da asma, bronquite e outras doenças pulmonares, além do aumento dos riscos cardiovasculares. Crianças menores de cinco anos, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias, cardíacas ou imunológicas estão entre os grupos mais vulneráveis. Ministério da Saúde
Quando a fumaça engrossa, o dano ambiental chega ao SUS sob a forma de consultas, nebulizações, medicamentos, internações e famílias em busca de socorro. A pressão sobre a rede pediátrica não pode ser compreendida apenas como uma emergência hospitalar. Ela começa muito antes, nos incêndios que escapam à fiscalização, na resposta tardia, na informação que não chega aos bairros e na ausência de uma política permanente de proteção respiratória.
O governo estadual afirma manter, até dezembro, a Operação Tamoiotatá 6, reunindo Ipaam, Sema, forças de segurança, Corpo de Bombeiros e Censipam. A Prefeitura, por sua vez, anunciou drones, rondas, blitze educativas e palestras em escolas. A fumaça sobre Manaus exige que essas iniciativas apresentem resultados verificáveis: focos prevenidos, incêndios interrompidos, infratores responsabilizados, áreas protegidas e redução efetiva da exposição humana.
A quantidade de instituições reunidas numa operação pouco significa quando a consequência continua chegando inteira às unidades de saúde.
A cidade que troca árvores por asfalto
A crise do ar também revela uma contradição construída dentro de Manaus. A capital amazônica cresceu impermeabilizando o solo, abrindo ruas, ocupando igarapés, reduzindo áreas verdes e tratando arborização como acabamento paisagístico.
Dados do Censo de 2022 mostram que somente 13,7% dos moradores de Manaus viviam em ruas com árvores. A média brasileira era de 66%. O resultado coloca a capital da floresta entre os exemplos mais desconcertantes da urbanização brasileira. Panorama do Censo 2022 – IBGE
Árvores urbanas não impedem a chegada de plumas produzidas a centenas de quilômetros. Elas ajudam, porém, a reduzir temperaturas, produzir sombra, reter parte da poluição, preservar a umidade e tornar os bairros mais resistentes ao calor extremo. A baixa arborização agrava o desconforto térmico e aumenta a vulnerabilidade de quem precisa fechar portas e janelas para escapar da fumaça em casas que acumulam calor.
Manaus possui um Plano Diretor de Arborização Urbana desde 2016. Dez anos depois, o contraste entre o documento e as ruas sugere que a política permaneceu muito aquém da expansão da cidade. Asfalto produz inaugurações rápidas e imagens de máquinas trabalhando. Uma árvore exige planejamento, espécie adequada, solo permeável, manutenção e anos de cuidado. Essa diferença ajuda a explicar as prioridades administrativas.
A cidade precisa reflorestar calçadas, escolas, unidades de saúde, terminais de ônibus, corredores viários, conjuntos habitacionais e margens de igarapés. Precisa estabelecer metas por bairro, proteger árvores adultas e divulgar regularmente quantas foram plantadas, quantas sobreviveram e onde está aumentando a cobertura vegetal.
Prevenir antes que o vento mude
Uma política à altura do problema começa antes da estiagem. Inclui fiscalização contínua nas áreas de maior ocorrência, brigadas locais equipadas, integração dos dados federais, estaduais e municipais, responsabilização rápida dos autores das queimadas e cooperação interestadual, porque a fumaça ignora limites administrativos.
Também exige uma campanha pública permanente. A população precisa saber consultar a qualidade do ar, reconhecer os níveis de risco, proteger crianças e idosos, usar corretamente máscaras PFF2 ou N95 e identificar os sintomas que exigem atendimento. Escolas e unidades de saúde devem receber protocolos específicos, enquanto famílias vulneráveis precisam ter acesso aos meios mínimos de proteção.
Monitorar, explicar a direção dos ventos e recomendar hidratação são providências necessárias, porém insuficientes. A repetição da fumaça mostra que o Amazonas ainda administra a consequência de incêndios que deveria enfrentar na origem.
No coração da Amazônia, respirar ar limpo acabou transformado em privilégio sazonal. Quando a floresta ao redor queima e a cidade dentro dela quase não tem árvores, a fumaça deixa de ser apenas um fenômeno ambiental. Ela se torna o retrato visível de uma gestão pública que sabe localizar o fogo, medir o veneno e contar os doentes, mas continua chegando tarde demais para proteger os pulmões da população.