Terra Indígena Apyterewa: desmatamento caiu de 102 km² para 7,5 km² após a retirada de invasores

Após recuperar áreas ocupadas por pastagens e atividades ilegais, o povo Parakanã retorna à Terra Indígena Apyterewa em meio a desafios de proteção territorial.

A retirada de invasores da Terra Indígena Apyterewa, na bacia do rio Xingu, no Pará, provocou uma queda expressiva do desmatamento. A área devastada passou de 102,23 quilômetros quadrados em 2022, quase o tamanho de Paris, para 7,5 quilômetros quadrados em 2025.

O território abriga cerca de 730 indígenas do povo Parakanã. Antes da operação de desintrusão, aproximadamente 3 mil não indígenas ocupavam 70% da área, onde mantinham pastagens com cerca de 100 mil cabeças de gado. Garimpo, exploração ilegal de madeira e grilagem também avançavam sobre a floresta.

A ocupação chegou a formar um vilarejo com postos de combustíveis, bares, igrejas e uma escola. “Essa é, historicamente, a terra indígena mais desmatada do Brasil, e talvez do mundo”, disse Wallace Lopes, analista ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) ao Mongabay. 

Operação reduziu pressão sobre o território

Depois de tentativas de retirada realizadas em 2013 e 2017, uma nova força-tarefa começou em 2023 para cumprir determinação do Supremo Tribunal Federal (STF). Cerca de 300 agentes do Ibama, da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), da Polícia Federal, da Força Nacional e do Exército participaram das ações.

A operação envolveu a apreensão de rebanhos criados ilegalmente, a inutilização de equipamentos usados em atividades ilícitas e a remoção das estruturas construídas pelos ocupantes. Como resultado, a terra indígena apyterewa deixou a primeira posição e caiu para o 12º lugar no ranking das terras indígenas mais desmatadas da Amazônia.

Para o povo Parakanã, a desintrusão também permitiu recuperar espaços antes inacessíveis. Famílias começaram a criar novas aldeias nas áreas liberadas e a retomar atividades de proteção da floresta. Wenatoa Parakanã, presidente da Associação Tato’á, afirma que a prioridade agora é cuidar do território e preservar a vegetação remanescente.

Lideranças temem retorno de invasores

Apesar da redução das derrubadas, os conflitos não terminaram. Pelo menos nove ataques foram registrados desde dezembro de 2024, quando terminou a presença federal em larga escala. Em dezembro de 2025, um vaqueiro contratado pelo Ibama para ajudar na retirada do gado foi morto em uma emboscada. Dois indígenas e um funcionário da Associação Tato’á também escaparam de ataques a tiros no início de 2026.

Organizações indígenas afirmam que grupos expulsos continuam ameaçando a terra indígena apyterewa. A Rede Xingu+, que reúne 53 organizações indígenas, ribeirinhas e da sociedade civil, classificou o território como vulnerável e pediu investigações sobre os responsáveis pelas ameaças.

O temor de novas ocupações também aumentou com a proximidade das eleições presidenciais. Em entrevista ao Mongabay, Wenatoa afirmou que “os invasores sempre falam pra gente que só estão esperando esse governo passar para poder entrar de novo [no território]”  André Villas-Bôas, secretário executivo da Rede Xingu+, avalia que disputas eleitorais costumam intensificar conflitos fundiários, especialmente quando políticos locais apoiam reivindicações de grileiros.

Fiscalização permanente é apontada como solução

O Ministério dos Povos Indígenas informou que os territórios submetidos a operações de desintrusão possuem planos de manutenção, com ações de segurança, fiscalização e monitoramento. Desde 2023, o governo federal realizou operações em 11 terras indígenas, incluindo Apyterewa, Yanomami, Munduruku e Karipuna.

Wallace Lopes afirma, porém, que o resultado de longo prazo depende da presença contínua de equipes de inteligência. Segundo ele, imagens de satélite ajudam a identificar o desmatamento, mas não revelam toda a organização do mercado ilegal nem movimentações preparatórias, como o transporte de pessoas e máquinas.

A redução registrada na terra indígena apyterewa mostra o impacto direto da atuação estatal sobre as derrubadas. Uma experiência semelhante ocorreu na Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu, onde a instalação de postos fixos de fiscalização ajudou a reduzir o desmatamento de 421,8 quilômetros quadrados, em 2021, para 48,07 quilômetros quadrados em 2025.

Para especialistas e organizações indígenas, proteger a terra indígena apyterewa exige fiscalização permanente, comunicação direta entre as comunidades e os órgãos públicos e capacidade de resposta rápida diante de qualquer tentativa de reocupação.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

Artigos Relacionados

Podres poderes: quem paga as contas de Flávio Bolsonaro e financia seus projetos

"Documentos bancários e investigações sobre bets, receitas milionárias de...

A distância entre a aldeia e a urna ameaça o voto indígena no segundo turno

Eleitores indígenas enfrentam barreiras para votar no segundo turno. MPF e MPI cobram transporte gratuito e acessibilidade.

“Um alvo no meio da testa”: o que indigenistas e servidores ambientais temem de Flávio Bolsonaro 

Relatos de assédio a servidores ambientais no governo Jair Bolsonaro geram temor de novas perseguições e restrições à fiscalização sob Flávio.

Aliados de Flávio Bolsonaro querem incorporar Ministério do Meio Ambiente à Infraestrutura

Aliados de Flávio Bolsonaro discutem unir Meio Ambiente à Infraestrutura. Proposta recebe críticas por riscos à autonomia da política ambiental.