“Se bem conduzida, a transformação do rio em hidrovia plena pode se tornar um exemplo de governança sustentável, articulando interesses da indústria, das comunidades ribeirinhas, da ciência e da política. O próximo passo, portanto, não é apenas dragar — é planejar o futuro.”
Coluna Follow Up
O anúncio do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) de que a dragagem nos trechos críticos da Foz do Madeira e do Tabocal terá início na primeira quinzena de setembro representa mais do que uma medida emergencial para manter o calado de 12,8 metros durante a estiagem. Para especialistas e representantes do setor produtivo, o movimento pode ser o passo inicial para a consolidação de um projeto mais ambicioso: a elevação do Rio Amazonas à categoria de hidrovia plenamente reconhecida e gerida como tal, com investimentos estruturantes e planejamento de longo prazo.
De operação emergencial a corredor logístico permanente
A estiagem recorde de 2023 expôs a vulnerabilidade das cadeias de suprimento que ligam o Polo Industrial de Manaus aos portos do Atlântico. Rotas fluviais interrompidas, sobretaxas de “pouca água”, desabastecimento e impactos ambientais severos tornaram-se parte de um cenário que se repetiu em 2024, ainda que com menor intensidade.
Segundo o presidente-executivo do CIEAM, Lúcio Flávio Morais de Oliveira, o desafio é transformar ações pontuais, como a dragagem agora anunciada, em políticas permanentes de manutenção e modernização da via aquática. “A hidrovia do Amazonas é vital para a indústria e para as comunidades. Precisamos de previsibilidade, tecnologia e responsabilidade ambiental para que ela cumpra seu papel estratégico durante todo o ano”, afirma.
O próximo passo: hidrovia reconhecida e regulamentada
A categoria de hidrovia, já atribuída a outros rios estratégicos do país, traria ao Amazonas um arcabouço de gestão que vai além de intervenções sazonais. Isso inclui mapeamento contínuo, sistemas de monitoramento de profundidade e fluxo, sinalização náutica modernizada, integração com modais rodoviário e ferroviário, e contratos de dragagem preventiva — não apenas corretiva.
Além do ganho logístico, essa mudança institucional facilitaria a captação de recursos para inovação tecnológica na navegação, incluindo soluções para reduzir emissões e aumentar a eficiência energética das embarcações.
Cuidados ambientais: dragar não é só cavar
A remoção de grandes volumes de sedimentos, como a prevista para os trechos da Foz do Madeira e do Tabocal, exige atenção redobrada aos impactos ecológicos. A alteração da dinâmica fluvial pode afetar habitats aquáticos, turvar águas e interferir no ciclo de reprodução de espécies.
Para minimizar riscos, especialistas defendem que o planejamento inclua:
- Monitoramento de qualidade da água antes, durante e após a dragagem;
- Definição de áreas seguras de descarte do material dragado, evitando ressuspensão de poluentes;
- Estudos de impacto cumulativo, considerando a recorrência da operação;
- Integração com pesquisas hidrossedimentológicas que ajudem a prever e mitigar o assoreamento futuro.
O diretor de Infraestrutura Aquaviária do Dnit, Edmar Tavares, afirma que a escolha da draga hopper e o mapeamento dos pontos de intervenção já consideram alternativas de traçado para reduzir o retrabalho e evitar áreas de alto assoreamento.
Uma agenda para a Amazônia do futuro
O sucesso da operação deste ano será um teste para a capacidade do país de combinar logística, economia e sustentabilidade no mesmo plano. Elevar o Rio Amazonas à categoria de hidrovia não é apenas uma questão de nomenclatura: é assumir compromisso com a manutenção regular, a segurança da navegação e a proteção do maior sistema fluvial do planeta.
Se bem conduzida, a transformação do rio em hidrovia plena pode se tornar um exemplo de governança sustentável, articulando interesses da indústria, das comunidades ribeirinhas, da ciência e da política. O próximo passo, portanto, não é apenas dragar — é planejar o futuro.
COMPARATIVO — RIO vs HIDROVIA
| Especificação | Rio Natural | Hidrovia |
|---|---|---|
| Função principal | Fluxo natural de água, sustentando ecossistemas e comunidades. | Via de transporte aquaviário planejada e mantida para navegação regular. |
| Traçado | Meândrico (curvas naturais e margens irregulares). | Canal otimizado (retilíneo ou corrigido para reduzir distâncias e curvas). |
| Profundidade (calado) | Variável, sujeita a cheias e secas. | Mantida por dragagem periódica para garantir calado mínimo definido (ex.: 12,8 m). |
| Largura útil | Natural, muitas vezes irregular. | Dimensionada e desobstruída para acomodar navios/cargas específicas. |
| Infraestrutura | Ausente ou mínima (balizamento natural ou comunitário). | Sinalização náutica, balizamento, portos e sistemas de monitoramento. |
| Gestão | Regida por leis ambientais e uso múltiplo (pesca, transporte, lazer). | Gerida como ativo logístico com plano de manutenção e integração modal. |
| Intervenções humanas | Baixas ou pontuais (pequenas obras de contenção ou passagens). | Intensivas: dragagem, derrocagem, retificação e controle de margens. |
| Impacto ambiental | Baixo, quando preservado; alto em caso de poluição ou desmatamento das margens. | Potencialmente alto sem controle; exige EIA-RIMA e monitoramento constante. |