A concessão de uma hidrovia amazônica começa muito antes do leilão. Começa pelo reconhecimento de que o rio já possui usuários, economias, culturas e regras de convivência construídas ao longo de gerações. Um contrato pode organizar investimentos e cobrar por serviços comprovadamente entregues, mas sua legitimidade dependerá da capacidade de proteger a vida que precede a concessão e continuará no território depois dela.
A mobilização das entidades do Amazonas para trazer os atores federais ao debate logístico merece ser reconhecida. Durante muito tempo, a navegação amazônica foi tratada em Brasília como uma facilidade concedida pela geografia: rios largos, extensos e aparentemente inesgotáveis dispensariam a disciplina de planejamento reservada às rodovias, ferrovias e portos. As secas de 2023 e 2024 expuseram o preço dessa ilusão. A presença recente do Ministério de Portos e Aeroportos, da Secretaria Nacional de Hidrovias e Navegação e do DNIT abre uma oportunidade que a região não deve desperdiçar. Para aproveitá-la, será preciso qualificar o debate e distinguir uma obra necessária em certos pontos de uma política capaz de organizar todo o sistema.
Estiagens cada vez mais severas exigem medidas mais eficientes e urgentes. Uma delas é a instalação do balizamento adequado e construção de canais com dragagens precedidas de monitoramento sob o critério da sustentabilidade.
Se bem conduzida, a transformação do rio em hidrovia plena pode se tornar um exemplo de governança sustentável, articulando interesses da indústria, das comunidades ribeirinhas, da ciência e da política. O próximo passo, portanto, não é apenas dragar — é planejar o futuro
A dragagem tem como objetivo apoiar as comunidades locais, que dependem da navegação fluvial para receber suprimentos de fora, e os produtores, que precisam escoar suas mercadorias