“Calor extremo, fumaça, secas e enchentes já alteram o sono, ampliam a ansiedade e corroem vínculos comunitários. Na Amazônia, cuidar da saúde mental passou a fazer parte da adaptação climática”
Há uma dimensão da mudança climática que os termômetros, os satélites e as réguas dos rios não conseguem medir. Ela aparece nas noites mal dormidas durante uma onda de calor, no medo de uma nova enchente, na inquietação de quem observa o rio baixar antes do tempo e na angústia das famílias que respiram fumaça sem saber quando voltarão a abrir as janelas.
O clima extremo também produz sofrimento psíquico.
A relação costuma permanecer escondida porque seus sintomas chegam dispersos aos serviços de saúde. Insônia, irritabilidade, dificuldade de concentração, ansiedade, tristeza persistente, sensação de impotência. Cada manifestação parece pertencer apenas à intimidade de quem sofre. Quando se observa o território, porém, surge um quadro coletivo, atravessado pela degradação ambiental, pela insegurança econômica e pelo enfraquecimento das condições materiais da vida.
A Organização Mundial da Saúde reconhece que a mudança climática agrava fatores sociais, ambientais e econômicos associados aos transtornos mentais e ao bem-estar psicossocial. O impacto ocorre tanto pela experiência direta de desastres quanto pelo desgaste prolongado provocado pelo calor, pela perda de renda, pelo deslocamento, pela insegurança alimentar e pela expectativa de novas catástrofes. Apesar disso, a saúde mental ainda ocupa espaço reduzido nos planos de adaptação climática. A advertência consta de documento específico da OMS sobre clima e saúde mental.
O calor ajuda a compreender essa relação. Temperaturas elevadas prejudicam o sono, aumentam o cansaço e reduzem a capacidade de concentração. A exposição prolongada pode intensificar quadros de ansiedade, depressão e outras condições preexistentes. O desconforto contínuo muda a rotina das famílias, diminui a produtividade, eleva conflitos domésticos e transforma atividades comuns, como caminhar, estudar ou trabalhar ao ar livre, em experiências exaustivas.
Esse efeito se distribui de maneira desigual. Quem dispõe de uma residência arborizada, climatização e renda suficiente para pagar a conta de energia atravessa o calor de uma forma. Quem mora em áreas densamente ocupadas, com pouca ventilação, telhados inadequados, escassez de árvores e interrupções no fornecimento elétrico enfrenta outra realidade. A temperatura da cidade obedece também à geografia da desigualdade.
Na Amazônia, essa geografia assume contornos particulares. É desconcertante que cidades cercadas pela maior floresta tropical do planeta ofereçam tão pouca proteção vegetal a seus habitantes. Manaus cresceu sob a lógica do asfalto, do concreto e da supressão de igarapés, enquanto o planejamento urbano tratou a arborização como ornamento. O resultado pode ser sentido nos bairros onde o calor se acumula durante o dia e permanece retido à noite.
Quando chega a fumaça das queimadas, o corpo e a mente recebem simultaneamente a mesma agressão. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias enfrentam o temor concreto de uma crise. Pais alteram rotinas, escolas reduzem atividades, unidades de saúde ficam pressionadas e milhares de moradores passam a consultar aplicativos de qualidade do ar antes de decidir se podem sair de casa. Respirar, a ação mais elementar da vida, torna-se motivo de vigilância.
As secas acrescentam outra camada de ansiedade. Para as comunidades ribeirinhas, o rio representa estrada, alimento, trabalho, convivência e memória. Quando ele desaparece diante das casas, a mudança ambiental rompe uma rede inteira de segurança. O isolamento, a dificuldade de acesso à saúde, o encarecimento dos alimentos, a perda da pesca e a incerteza sobre a próxima estação criam uma forma de sofrimento que dificilmente cabe nos diagnósticos tradicionais.
Há uma palavra usada por pesquisadores para descrever parte dessa experiência: solastalgia. Ela se refere à dor provocada pela transformação ou degradação do lugar onde se vive. Diferentemente da saudade de quem partiu, a solastalgia atinge quem permaneceu e vê sua própria casa tornar-se estranha. Povos indígenas, agricultores, pescadores e comunidades tradicionais conhecem esse sentimento muito antes de a academia encontrar um nome para ele.
Entre jovens, aparece ainda a ansiedade climática. Ela nasce da percepção de que o futuro se tornou menos previsível e de que as respostas públicas caminham devagar diante da velocidade das alterações ambientais. Essa preocupação pode estimular participação e consciência, mas também pode produzir paralisia, desesperança e medo de planejar a própria vida. Tratar toda ansiedade climática como doença seria um equívoco. Em boa medida, ela constitui uma reação compreensível diante de riscos reais. O problema se aprofunda quando o indivíduo recebe sozinho o peso de uma crise produzida socialmente.
A resposta, portanto, precisa ultrapassar os consultórios. Psicólogos, psiquiatras e equipes da atenção básica terão participação cada vez mais importante, mas nenhuma política de saúde mental compensará cidades superaquecidas, rios contaminados, fumaça recorrente e populações abandonadas depois dos desastres.
O Brasil começa a incorporar essa preocupação ao planejamento público. O Ministério da Saúde incluiu os efeitos psicossociais e a necessidade de preparação dos serviços em seu guia de adaptação do setor saúde à mudança do clima. A experiência das enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul também vem produzindo evidências sobre sintomas depressivos e ansiosos nas populações atingidas, como mostram estudos reunidos pela Fiocruz.
Na Amazônia, uma política de adaptação climática voltada à saúde mental deveria começar pela vigilância territorial. Os serviços precisam relacionar dados de temperatura, fumaça, nível dos rios e ocorrência de desastres com atendimentos por ansiedade, insônia, depressão e crises psiquiátricas. Agentes comunitários, professores e equipes da atenção básica podem ajudar a identificar sinais precoces, especialmente entre crianças, idosos e populações isoladas.
Essa política envolve ainda abrigos preparados para oferecer acolhimento psicossocial, equipes móveis durante secas e enchentes, comunicação pública capaz de informar sem espalhar pânico, apoio aos trabalhadores que perdem renda e participação comunitária na reconstrução dos territórios. Arborizar bairros, recuperar igarapés, garantir água potável e reduzir a fumaça também são medidas de proteção da saúde mental.
O relatório mais recente do Lancet Countdown mostra que os riscos climáticos para a saúde continuam avançando e que a demora na adaptação amplia perdas humanas e econômicas. Em 2024, treze dos vinte indicadores acompanhados sobre impactos e exposição apresentavam agravamento, enquanto o calor, a poluição e os incêndios alcançavam níveis inéditos. O levantamento reúne 128 especialistas de 71 instituições.
A mudança climática altera paisagens, calendários, economias e relações afetivas com o território. Aos poucos, modifica também a maneira como as pessoas imaginam o amanhã. Proteger a mente humana nesse cenário exige serviços de saúde preparados, comunidades amparadas e governos capazes de reduzir os perigos que estão na origem do sofrimento.
No coração da Amazônia, essa tarefa começa por reconhecer o que os moradores já sentem no corpo e no cotidiano. Quando o céu escurece de fumaça, o rio se afasta, a noite permanece quente e o poder público não oferece resposta, o clima deixa de ser apenas uma questão ambiental. Passa a habitar, silenciosamente, a vida interior de toda uma população.
Referências
- • Organização Mundial da Saúde (OMS). Mental health and climate change: policy brief. Genebra, 2022. Examina as relações entre crise climática, sofrimento psíquico e vulnerabilidade social, além de propor diretrizes para políticas públicas. Acesse o documento.
- • Lancet Countdown. The 2025 Report of the Lancet Countdown on Health and Climate Change. Relatório elaborado por 128 especialistas de 71 instituições, com indicadores sobre calor extremo, incêndios, poluição e capacidade de adaptação dos sistemas de saúde. Acesse o relatório.
- • IPCC. Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability – Health, Wellbeing and the Changing Structure of Communities. Avaliação científica dos efeitos climáticos sobre saúde física, saúde mental, deslocamentos e vínculos comunitários. Acesse o capítulo.
- • Ministério da Saúde. Guia para elaboração de planos de adaptação à mudança do clima do setor saúde. Brasília, 2026. Orienta estados e municípios na preparação dos serviços diante dos riscos climáticos, incluindo consequências psicossociais. Acesse o guia.
- • Feter, Natan et al. “Sintomas depressivos e ansiosos após as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul: achados da coorte PAMPA”. Cadernos de Saúde Pública, v. 42, 2026. O estudo identificou maior ocorrência de sintomas entre pessoas deslocadas ou submetidas a perdas mais intensas. Leia na Fiocruz.
- • Santos, Alícia Patrine Cacau dos et al. “Understanding the health challenges of Amazonian riverine communities: a qualitative study on community perceptions amid climatic change”. PLOS One, v. 20, 2025. Pesquisa realizada por instituições do Amazonas sobre secas, enchentes, isolamento e acesso à saúde em comunidades ribeirinhas. Leia o estudo.
- • Albrecht, Glenn et al. “Solastalgia: the distress caused by environmental change”. Australasian Psychiatry, v. 15, 2007. Trabalho fundador do conceito de solastalgia, relacionado ao sofrimento causado pela degradação do lugar onde se vive.