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CBA, a nova chance – Parte II

Cabeça Coluna Alfredo Lopes

As informações sobre a sugestão de Estevão Monteiro de Paula para dirigir o Centro de Biotecnologia da Amazônia foram colhidas na Casa Civil, da Presidência da República, onde adormece a proposta de definição do modelo de gestão desse projeto há muito tempo.  Desde 2002, quando as estruturas e os primeiros laboratórios do Centro de Biotecnologia da Amazônia foram instalados, com recursos recolhidos junto às empresas, aguardam-se saídas institucionais para esta relevante iniciativa. Foram investidos mais de R$ 120 milhões no projeto, a “base ecológica” do modelo como querem os desafetos da ZFM.  No planejamento estratégico da Suframa em 2008, já fora recomendada a simples transferência do CBA para o âmbito da Embrapa, garantido imediata operacionalização do Centro e as novas matrizes econômicas que o modelo ZFM necessita para incrementar sua diversificação e competitividade e regionalizar seus benefícios.

A Embrapa já domina a tecnologia do cultivo racional da seringueira, para reativar a economia da borracha na região, não apenas para abastecer as indústrias de pneus instaladas na ZFM e diversificar o setor, mas para apostar na interiorização de novas oportunidades. Além da borracha, são promissoras as potencialidades de negócios nas áreas de óleo de palma, guaraná, seringueira, banana, silvicultura do cupuaçu, mandioca, aquicultura, sistemas agroflorestais, fruticultura, integração Lavoura-Pecuária-Floresta, biotecnologia para substituir as fibras de vidro dos celulares, tablets e motocicletas por fibras como o curauá, propagação de espécies e suporte ao melhoramento genético. O cultivo racional de castanha, pupunha, ou madeiras de alto valor comercial da Agropecuária Aruanã, do empresário Sérgio Vergueiro, orientadas historicamente por pesquisadores focados no binômio inovacao+desenvolvimento, são a prova dos vários acertos possíveis. Essas atividades, que se juntam à Nutracêutica – a indústria da juventude que movimenta o poderoso mercado dos cosméticos e da alimentação orgânica – se relacionam à produção de fitoterápicos, já avançada em experimentos bem sucedidos nas cadeias produtivas não predatórias, da Afeam, a Agência de Fomento do Estado, descobertas e prestigiadas  pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento. Elas representam não apenas as oportunidades de reduzir a pobreza e os baixos índices de Desenvolvimento Humano da Amazônia, como também modelos de empreendedorismo sustentável, aplicáveis aos diversos biomas da região.

É nesse contexto que, em estreita cooperação com a Universidade do Estado do Amazonas – que mapeou as demandas de recursos humanos e de inovação por vocações das calhas de rio – o modelo de gestão do CBA se consolida na proposta da geógrafa Bertha Becker, para propiciar a constituição de estabelecimentos produtivos, coerentes com as vocações regionais. Sobram inventários de oportunidades de bionegócios em 63 anos do INPA e falta gestão integrada dessas cadeias na perspectiva do mercado, onde devem interagir o cientista, o extensionista, o silvicultor, e a figura do trader, aquele especialista anônimo que interage em toda a cadeia produtiva, desde a seleção das melhores sementes, geneticamente aprimoradas pelo suporte da inovação tecnológica das instituições locais e regionais, até o consumidor final, em todo o território nacional e no exterior, onde a demanda mapeada de produtos orgânicos alcança cifras astronômicas.

O CBA, no limite, deve integrar a economia do polo industrial com sua demanda de produtos regionais, em resposta à intensa expectativa de tantos anos de adiamento e dispersão de energias para interiorizar a economia. No interior amazônico, milhares de jovens que vagueiam entre o ócio, o tráfico e a delinquência – a chamada geração nem-nem, multidões de moças e rapazes, que nem trabalham nem estudam, – por absoluta ausência de opções, aguardam a nova chance, as ações concatenadas que saibam convocar, selecionar, contratar e treinar novos profissionais e resgatar a credibilidade perdida com tantos anos de indefinição.

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CBA, a nova chance – Parte I

Cabeça Coluna Alfredo Lopes

Responsável pelos Assuntos Estratégicos do INPA, Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia, nos últimos anos, o engenheiro Estevão Monteiro de Paula foi convidado para dirigir o emblemático e problemático Centro de Biotecnologia da Amazônia. A instituição virou mais uma esfinge desta relação abissal entre a União e o cotidiano local que, há 13 anos, aguarda elucidação. Talento e disposição não lhe faltam e, oxalá, fosse este o embaraço. O CBA, porém, remete a uma reavaliação entre os atores envolvidos, no âmbito da discussão do pacto federativo, onde quem paga não é quem decide. O Centro, ora sem modelo de gestão definido, foi constituído em Manaus a partir da clarividente necessidade de instalação de um polo de biondústria, o mais coerente e emergencial num bioma que detém 20% do banco genético do planeta, e o mais adequado para estimular estabelecimentos produtivos na região. A decisão de retomar essa anomalia institucional, portanto, precisa de um debate mais amplo – em nome do estatuto constitucional e do bom senso – que inclui a recuperação da autonomia da Suframa e a aplicação na Amazônia Ocidental dos recursos aqui gerados por suas taxas de serviços e para pesquisa e desenvolvimento como manda a Lei.

A indicação de Estevão, nesse contexto, é densa e oportuna, pois é antiga e adequada sua proposição de instalar no polo industrial de Manaus um Parque Biotecnológico de Produtos Sustentáveis, uma proposta visionária que os gestores da Amazônia ainda vão precisar de tempo para entender o alcance de suas premissas, sua estruturação holística e absoluta coerência com o patrimônio natural. Em 1999, quando dirigia o órgão ambiental, o IPAAM, Estevão desenhou e coordenou o Projeto Socioambiental Integrado de Desenvolvimento Sustentável, em parceria com o titular da prelazia do Alto Solimões, o bispo Dom Alcimar Magalhães, na mesorregião mais empobrecida do Estado. Aplaudido por  25 instituições locais e nacionais de fomento e extensão, a governança do projeto sucumbiu aos ditames políticos que equaciona o mundo em mandatos administrativos de quatro ou oito anos.

Em 2012, atores que trabalham nos ministério do Desenvolvimento, onde está alocada a Suframa, como da Ciência, Tecnologia e Inovação, onde se insere o INPA, buscaram, à luz dos objetivos institucionais, integrar, racionalizar, e adensar o conhecimento e desdobramentos práticos, na ótica do cidadão, suas demandas de novas matrizes econômicas para a  Amazônia, coerentes e urgentes. Como todas as grandes sacadas da História, a iniciativa partiu da obviedade da integração de objetivos,  recursos e talentos de dois organismos federais, depois de tantas décadas de inventários, planos e abandonos da expectativa social.

A presença de Estevão Monteiro de Paula, apoiada por um time de cientistas e pensadores dos desafios amazônicos, traz à tona repensar a viabilidade do Parque Tecnológico de Produtos Naturais para a Zona Franca de Manaus, uma estratégia de adensar o modelo industrial da ZFM, integrar seu perfil com a oferta regional de insumos, das oleaginosas, fibras e resinas, fitoterápicos, cosméticos, os itens da Nutracêutica…, as bases biotecnológicas de crescente regionalização do modelo, utilizando recursos de pesquisa e desenvolvimento da ZFM. Com estreita parceria com a UEA, por presença nos diversos municípios do Estado, e inteligentemente articulada com as entidades das empresas mantenedoras da pesquisa e desenvolvimento, o CBA ganha fôlego e retoma a credibilidade perdida se consegue atuar com as instituições estaduais, especialmente com a AFEAM, agência de Fomento e suas cadeias produtivas em andamento, e Fapeam, para fomento à pesquisa, uma integração inteligente e inadiável com outras instituições das unidades federativas que formam a Amazônia Ocidental. Voltaremos…

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Suframa, antes que seja tarde – Parte II

Cabeça Coluna Alfredo Lopes

“… para resgatar a Suframa é urgente desenvolver estratégias de mobilização geral, entidades de classe, classe política, academia e imprensa, e assim exumar a dignidade e a poder de determinação da cumplicidade dos atores locais”. O teor desta convocação, epílogo da primeira parte deste artigo, esteve presente nas várias manifestações de companheiros que compartilham reflexões e proposições sobre o futuro do modelo ZFM e da economia regional, a partir da recuperação institucional da Suframa. É eloquente, além dos buracos viários, funcionais e operacionais, observar o deplorável quadro de investimentos estruturantes para os municípios da Amazônia Ocidental. Até 2001, as taxas da Suframa, pagas pelas empresas, não orçamentárias – cabe frisar – foram distribuídas de forma equânime entre os estados. Isso foi minguando com o tempo, excluindo unidades federativas. Rondônia e Roraima ficaram anos sem receber um centavo. O confisco foi-se ampliando. Hoje ele alcança a cifra de R$ 1,4 bi em 10 anos. Nenhuma mobilização parlamentar de monta se fez sentir no período, onde as bancadas priorizaram interesses e acordos de bastidor negociados com a moeda da sucumbência adesista.

O novo secretário-executivo da pasta de Desenvolvimento, a pessoa que comanda de fato, Ivan Ramalho, já avisou: “… a autarquia deverá adequar-se aos novos tempos”. O que diz a Lei a respeito, recentemente promulgada com validade até 2073? . Em havendo mobilização das bancadas, apenas com a função de se fazer cumprir a Lei, o cargo de Superintendente poderia deixar de ser meramente decorativo como tem sido. Pela escolha dos ministros da segunda fornada, alguns desconhecidos, outros “pendurados”, o Palácio do Planalto decidiu jogar sua sobrevivência institucional nas mãos do Congresso. Por esta lógica tacanha, eticamente sombria, não seria a hora de apresentar a esta bancada da Amazônia Ocidental, sustentada pelo terceiro PIB industrial do país, o caminho das pedras da salvação, consolidação e regionalização deste modelo de acertos? E de quebra, sua reconciliação com o eleitor. Ou será que existe outra via de assegurar direitos, marcos regulatórios e suas implicações estruturantes?

E se as alianças não devem restringir-se ao nível parlamentar federal, por que não recompor a Suframa, no âmbito de seu Conselho de Administração, com a mobilização dos governadores dos estados que nele tem assento? Eles podem atuar politicamente – como já fizeram – para que a Suframa volte a gerir os recursos que arrecada com suas taxas e aqueles recolhidos pelas empresas de Informática. Claro que podem. Além dos próprios quintais, juntos, eles podem reivindicar os recursos comuns de um novo quintal que defina, integradamente, a vocações específicas de negócios, com as exigências respectivas de infraestrutura e de inovação tecnológica. Ampliar-se-ia, assim,  para a Amazônia Ocidental e para os demais municípios envolvidos, aquilo que o Centro da Indústria do Amazonas e a Universidade Estadual, por elas mantida,  estão fazendo: a formulação de um diagnóstico a partir do qual será possível elaborar projetos e programas alternativos e complementares ao modelo ZFM, descobrindo e promovendo competências, focando nos próximos dez, vinte, cinquenta anos, numa relação proativa e colaborativa entre academia e setor produtivo, com uso inteligente, justo e transparente dos recursos que a União Federal tem retirado da região de forma desrespeitosa e inconsequente, na ordem de R$ 1,5 bilhão/ano, um volume com o qual qualquer país sério faria uma revolução tecnológica, como insistiu o último titular da Suframa, Thomaz Nogueira, até ser isolado e, sutilmente, afastado, por perceber e pretender mudar a (des)ordem estabelecida.

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Suframa, antes que seja tarde  Parte I 

Cabeça Coluna Alfredo Lopes

Há uma expectativa desmedida com a nomeação do novo ministro do Desenvolvimento, Armando Monteiro, um aliado originário do setor privado, que apoiou a Zona Franca de Manaus nos últimos embates de sobrevivência do modelo. É como se, por um passe de mágica, sua gestão ministerial fosse potencial panaceia para curar os males agudos, antigos e crônicos deste maior e melhor arranjo tributário/operacional que o mais destacado acerto ede toda a história no uso da renúncia fiscal para redução das desigualdades regionais do país. Em menos de 50 anos, sob a batuta da Suframa, foi consolidado o terceiro PIB industrial do Brasil que cumpre a façanha de devolver para a União mais de 54% da riqueza que produz. E mais: gerar em Manaus mais da metade da arrecadação pública em impostos da região Norte. Apesar disso, ano a ano, notadamente na última década, a Suframa começou a atrofiar institucionalmente, numa manobra vesga da política estreita, da liderança local e nacional imediatista e oportunista, à vista passiva de uma representação parlamentar anódina, incapaz de vislumbrar as questões vitais postadas para além das fronteiras dos respectivos umbigos eleitorais.

O confisco de recursos da autarquia – ou gerados por sua gestão fiscal, como as taxas de serviços e as verbas de pesquisa e desenvolvimento – para custear outros projetos federais alheios ao futuro da região e ao presente da Suframa, decretou o começo do fim de suas funções originais/constitucionais. Por isso, é hilário, para não definir como trágico, a promulgação de mais 50 anos de validade dos incentivos na Carta Magna, a partir de 2023. De que serve a teatralidade dramática dessa encenação parlamentar se a Suframa não consegue evitar seu funeral administrativo? Há vários anos, desde a era FHC, juntamente com outros órgãos federais, o confisco é pecuniário, gerencial e de recursos humanos. Em 2013, um temporal levou o que restava nos escombros da superintendência da Agricultura. Laboratórios do Inpa e da Embrapa são apinhados de sucatas, os salários congelados, os resultados dos trabalhos aquém dos desejados, numa contrapartida injusta e vesga com uma região que tem recebido o ônus do descaso a despeito do bônus generoso que dela recebe, incluindo os benefícios do oxigênio que produz. A modernização portuária virou, como na construção da nova matriz energetica, barganha sombria de vantagens empresariais, em detrimento do interesse geral. Na comunicação a exclusão do Plano Nacional de Banda Larga, faz lembrar o que se deu na questão da energia, onde há oferta em demasia e falta planejamento e pudor.

É importante alertar toda a bancada parlamentar dos estados e municípios sob a gestão da Suframa, que incluem as Áreas de Livre Comércio do Acre, Amapá, Rondônia e Roraima. Aqui está uma chance de resgatar a credibilidade da categoria… Afinal, todos os municípios, em medidas diferentes, desenvolveram atividade econômica robusta em relação ou a partir de Manaus, e já estão padecendo as sequelas das exéquias institucionais da ZFM. Afinal, tanto as taxas da Suframa, que somaram R$ 1,4 bilhão na última década, como os recursos de P&D, que deverão manter-se em 2014 no patamar de R$ 1,4 bilhão do ano passado, podem ou devem abraçar os interesses de toda a área  que a autarquia administra. A Universidade Federal do Acre foi construída com estes recursos, cabe lembrar. Esvazia-se toda a tarefa constitucional, pois, focada no desenvolvimento sustentável da Amazônia Ocidental, com demandas de investimentos estruturantes nos municípios empobrecidos com IDH vergonhosos, dependentes do fomento de Arranjos Produtivos Locais. Os buracos constrangedores do Distrito Industrial I e II em Manaus se ampliam e se repetem literal e institucionalmente em toda a circunscrição funcional da autarquia, incluindo o delicado e humilhado fator humano. Mais do que repassar as despesas desse obituário ao novo titular do Desenvolvimento – ele não tem cartão de autógrafo nesse cartório – é urgente desenvolver estratégias de mobilização geral, entidades de classe, classe política e imprensa – para exumar a dignidade e a poder de determinação da cumplicidade dos atores locais. Antes que seja tarde!

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Vergueiro: a castanha e o clima – Parte II

Cabeça Coluna Alfredo Lopes

O cultivo extensivo de castanheiras, no lastro dos pioneiros e empreendedores da Amazônia, sinaliza um projeto com rigor econômico – qual é a outra forma de preservar um bem natural? -,  com responsabilidade social, sustentabilidade ambiental e respeito à diversidade cultural. Sobre essas pilastras Sérgio Vergueiro conseguiu mobilizar seus colaboradores  com sinergia prodigiosa. Isto aparece nos gestos de quem exibe com orgulho a façanha do plantio, o cuidado com a floresta, a tecnologia da colheita e do beneficiamento do produto. A construção da riqueza é prazerosa quando atrelada à concretização do sonho, na conjugação plural desta ação. Sonhar, estudar e fazer, com perseverança e disciplina, valorização das pessoas, é uma fórmula antiga, e sempre nova, para assegurar o desafio e a beleza de empreender.

Como o forasteiro que se fez nativo, a exemplo de Cosme Ferreira, mestre e visionário, Vergueiro reprisa a fórmula cearense de viver  empreender no Amazonas, que não se esgotou na especialização e sofisticação da  cultura da castanheira.   Espécies como a pupunha, suas variedades e utilizações, entre outras palmeiras, e 0leaginosas, fazem da Agropecuária Aruanã um laboratório experimental das oportunidades de que fala Cosme Ferreira em  “Amazônia em Novas Dimensões” (1961), escrito enquanto operava a Companhia Nacional de Borracha, Companhia Brasileira de Plantações e a Companhia Brasileira de Guaraná, escolas de empreendedorismo associada à pesquisa e inovação que  influenciaram outros pioneiros como Petronio Pinheiro e Antônio Simões. No prefácio do livro, o amazonólogo  Arthur Reis consegue resumir o sentido das novas dimensões do pioneirismo:  “Não se criou ainda, no Brasil, uma consciência, fora do emotivismo ou do sensacionalismo de romance e de jornal, elaborada com serenidade e com realismo acerca da Amazônia. Temos preferido conhecê-la, quando não nos deixamos dominar pela frase macia, as sentenças euclidianas, pelas mãos dos homens de ciência do estrangeiro, que não se cansam de frequentá-la e de investigá-la com os propósitos de bem servir ao conhecimento humano, mas, também, aos interesses políticos de suas pátrias”. O cultivo extensivo de espécies  reacende a questão amazônica, seus desafios de conhecimento e aproveitamento racional, os equívocos de sua ocupação, os mitos criados pelo distanciamento e descompromisso da União com este bioma, que sataniza o manejo inteligente, producente e criativo do bem florestal.

Finda mais uma Conferência da ONU, dessa vez  na Amazônia Peruana, um “Chamamento de Lima para a Ação sobre o Clima”, apelando para o altruísmo ambiental dos poluidores, onde os países desenvolvidos terão de apresentar planos para redução de suas emissões de gases-estufa, sem qualquer compensação ambiental para os serviços em favor do clima exercidos pela floresta, ou pela profusão de 2 milhões de castanheiras entre plantadas ou em viveiro para fixar o carbono emitido pelo modelo predatório desta civilização.  A compensação global passa a ser irrelevante na medida em que os acertos do reflorestamento  de espécies tão emblemáticas da flora amazônica passam  a ser entendidos e reconhecidos, localmente, portanto, transformados em paradigmas. É alvissareiro constatar que o projeto do plantio intensivo, que os ingleses adotaram com sucesso em seus domínios tropicais asiáticos com a seringueira, chamou a atenção das entidades da indústria e da agricultura, além da Fucapi, instituição consolidada há mais de três décadas pela novação tecnológica, cujo Departamento de Design Tropical já se debruça no aproveitamento das unidades destinadas a manejo, para produção de movelaria certificada com madeira nobre, confirmando as dimensões grandiosas e promissoras do pioneirismo criativo, climaticamente benfazejo e economicamente sustentável na floresta.

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Vergueiro: a castanha e o clima (Parte I)

Cabeça Coluna Alfredo Lopes

Nascido em São Paulo, onde a escassez preocupante da água está levando população e governo ao desespero, num desastre hídrico sem precedentes e atribuído por cientistas aloprados à derrubada de árvores na Amazônia, o pioneiro Sérgio Vergueiro, 75 anos, não titubeia ao poder ironizar a acusação, com o plantio de 1 milhão e trezentas mil castanheiras, em 3,7 mil hectares. Ele usou menos de 20% da reserva disponível, onde mantem um viveiro para 300 mil mudas e um portfolio de distribuição registrada de aproximadamente 600 mil indivíduos para quem topasse sua maratona florestal, na Fazenda Agropecuária Aruanã, cercanias de Itacoatiara, a 200 quilômetros de Manaus. Com suporte tecnológico do CPATU, Centro de Pesquisas do Trópico Úmido, da Embrapa, no Pará, Vergueiro, que se formou engenheiro agrônomo pela respeitável Escola de Agronomia Luiz de Queiroz, em Piracicaba, ESALQ-USP, atendeu à recomendação do cientista Vivaldo Campbell, que dirigia o IBDF, Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, nos anos 80, e ao estímulo do pioneiro na exploração e beneficiamento de castanha, a Bertholletia excelsa, Moysés Israel, para trocar a iniciativa pecuária que o trouxe para a Amazônia, nos anos 60, pelo desafio de cultivo extensivo de castanha-do-pará, do Brasil, da Amazônia, não importa, uma das espécies mais representativas e benéficas da flora tropical. Já são transcorridos 33 anos, e hoje a Embrapa está finalizando os estudos técnicos para contabilizar a massa monumental de fixação de carbono que as castanheiras representam. Aguardem!

É leviano dizer que a Amazônia é responsável pela escassez de água no Sudeste, sem demonstrar ou publicar estudos em revistas que dão rigor e responsabilidade cientifica para afirmações dessa envergadura. Num relatório apressado, “O Futuro Climático da Amazônia”, encomendado pela Articulação Regional Amazônia, rede composta por várias associações sul-americanas, Antônio Nobre, do INPE, tenta explicar as possíveis causas e efeitos da bagunça climática – um fenômeno global e não regional – e cede a tentação de responsabilizar a Amazônia, o mesmo que os cientistas do mundo desenvolvido fizeram na Rio-92, onde a Conferência da ONU, sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, tentou atribuir a supostas queimadas da Amazônia a cota maior do aquecimento global, para encobrir a responsabilidade das emissões dos países centrais. Não colou.

Vergueiro escolheu seguir no contraponto dessa generalização de saberes, cercando-se de cientistas de primeira grandeza, e de experiências consolidadas por estudos aprofundados para seu projeto. Seus produtos, hoje, de tamanha excelência, não conseguem alcançar o mercado externo pela indisponibilidade de oferta, toda consumida na avidez pela qualidade do mercado interno. A cadeia produtiva, do banco de germoplasma à embalagem padronizada por legislação e certificação internacional, tem a genética da determinação, da pesquisa rigorosa e da mobilização do conhecimento tradicional. A cultura local conserva a liturgia centenária do descasque associada aos padrões tecnológicos mais avançados de secagem, desumidificação e segurança sanitária. O resultado mantem a delícia e o excelso glamour da Bertholletia amazônica. Seus gestores são curumins e cunhatãs formados em Agroecologia, pelas universidades nativas, UEA ou UFAM, que interagem com o que há de mais avançado na inovação para produzir alimentos e saídas coerentes com as novas (?) vocações de negócios da Amazônia, economicamente sustentáveis, socialmente adequadas e ambientalmente inteligentes. Uma contribuição robusta de Vergueiro para a falta de bom senso de seus conterrâneos no zelo pela Mata Atlântica e por outras causas da escassez de água e distúrbios do clima. Voltaremos.

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Samuel: prêmio, memória e porvir

Cabeça Coluna Alfredo Lopes

Os pensadores Caio Prado Júnior e Celso Furtado, considerados como referências teóricas da formação econômica do Brasil, assim como fazem quase todos os historiadores e geógrafos nos livros didáticos e paradidáticos  adotados pelo MEC, o Ministério da Educação, excluem o papel do Ciclo da Borracha e demais empreendimentos da Amazônia das bases de compreensão e consolidação do modelo de desenvolvimento nacional, da geração de riqueza e do enfrentamento das desigualdades regionais. Mais recentemente, Paul Singer, professor emérito da USP e da PUC-SP, chegou mais perto da questão ao inserir, num de seus trabalhos, a economia da Amazônia na lógica do capitalismo nacional e internacional, sem acessar, entretanto, maiores detalhes dessa equação. Mais do que cobrar de quem não poderia corresponder – o acervo documental/memorial do Amazonas e do Pará, este com menor intensidade, são calamitosos – temos que recompor a própria memória amazônica e aferir essa decisiva participação. A síndrome do descaso descreve o jeito com que tratamos a memória de luta e de resistência dos pioneiros que aqui construíram alternativas da promoção social e econômica. E esse descaso, sem dúvida,  compromete os movimentos de integração e fortalecimento da economia regional e da Zona Franca de Manaus e sua inserção no sumário da história e da economia do Brasil. Eis aqui, com efeito, um dos esteios do Prêmio Samuel Benchimol e da inserção do Amazonas no projeto Pioneirismo e Empreendedorismo do Estado Brasileiro, que tem incrementado a aproximação fecunda  entre a USP e a UEA, e que reúne atores públicos e privados para debater novos caminhos, que nos permitam tomar nas próprias mãos o destino do Amazonas, da Amazônia e sua interação nacional, continental e global.

Por isso é sempre promissora a incursão na memória do pioneirismo, que o Prêmio Samuel Benchimol significa, para jogar luzes no presente e no planejamento de novos cenários para a região. Neste contexto,  vale a pena revisitar e refletir sobre a formação econômica de um estado parceiro como São Paulo, que recebeu, na consolidação do Ciclo do Café, a migração de investimentos que deixaram a Amazônia com a debacle do Ciclo da Borracha, há cem anos. A história é discreta a respeito, atestando o desconhecimento e distância do Brasil hegemônico deste Brasil amazônico, que representa, além de dois terços de seu território, um acervo de respostas a muitos de seus dilemas. Recuperar a memória é recompor a brasilidade cúmplice que se impõe e que precisa tornar-se mais ainda robusta pela via do conhecimento da memória  integral e integrada e da geografia humana. Gilberto Freyre, ao concluir a leitura de Formação Social e Cultural da Amazônia, de Samuel Benchimol, se deu conta que ali estava mais do que um ensaio sobre a história de uma Amazônia distante, que os compêndios escolares ignoram, mas de uma obra abrangente e obrigatória para o Brasil. “Uma empolgante leitura, um estudo monumental da Amazônia (…) que dá ao saber a dimensão magnifica da sabedoria, e a seu caráter de obra clássica, a modernidade do arrojo futurológico”. A USP debate o Amazonas, através da obra de Samuel Benchimol, já há algumas décadas. Em 1992, quando o mundo decidiu escolher o Brasil, a Rio-92, para debater a questão climática, na relação entre desenvolvimento e meio ambiente, os países poluidores trataram de escolher as supostas queimadas da Amazônia como o bode expiatório do aquecimento global.

Naquela ocasião, essa Universidade promoveu o Seminário sobre Alternativas de Desenvolvimento Sustentável na Amazônia, escalando Samuel como conferencista no Fórum Global, onde buscávamos rebater a acusação de que as queimadas da  Amazônia eram responsáveis pelo aquecimento global. Ainda hoje a região é acusada pela estiagem no Sudeste e todos nós embarcamos sem críticas nessa acusação aloprada, cujo estatuto de seriedade científica, curiosamente, não foi reconhecido por nenhuma publicação internacional com respeitabilidade. O pesquisador do INPE, Antônio Nobre, autor de publicação recente que relaciona a derrubada de árvores na Amazônia com a escassez de água no Sudeste, esqueceu-se de inserir a informação de que o modelo de desenvolvimento ali adotado detonou 95% da Mata Atlântica e estimula uma indústria automobilística  com isenção tributaria baseada na queima de combustíveis fosseis. Precisamos de um olhar mais ancho. Nas teses de sua “Guerra na Floresta”,  obra lançada na Rio-92, Samuel antecipou as premissas da sustentabilidade para  empreender sem depredar:  “O mundo amazônico não poderá ficar isolado ou alheio ao desenvolvimento brasileiro e internacional, porém ele terá que basear-se em quatro parâmetros e paradigmas fundamentais: isto é, ele deve ser economicamente viável, ecologicamente adequado, politicamente equilibrado e socialmente justo.”  Ora, como tem-se portado, historicamente, a economia do Brasil e sua relação com a Amazônia, à luz dessas recomendações, hoje adotadas universalmente como critérios de sustentabilidade, na perspectiva de atender as demandas sociais e a reposição dos estoques naturais, sem afetar as gerações que virão?

A gestão da Amazônia, o maior desafio do Brasil e sua interação com os demais vizinhos da Amazônia Continental, não pode ser dissociada da gestão dos demais biomas. E qual a vocação mais coerente, e não predatória, recomendada pela vertente científica, para agregar valor aos produtos regionais e sua integração com a indústria sem chaminés do polo industrial de Manaus, e demais plantas industriais da região? A aquicultura, a nutracêutica, que é a indústria do rejuvenescimento, a bioindústria das fibras, resinas, oleaginosas, a silvicultura sustentável… só dependem dos investimentos de Pesquisa & Desenvolvimento, ou seja, vontade política, em inovação e prospecção a partir da infinidade de inventários que as instituições de pesquisa acumulam em seus escaninhos há décadas. A ideologia do preservacionismo  que remete à intocabilidade da floresta, é uma forma de desrespeitar as pessoas que habitam este bioma e, literalmente, uma nuvem de fumaça para esconder a alternativa predatória de desenvolvimento até aqui adotado pelo Brasil hegemônico. As lições dos pioneiros apontam para o manejo inteligente dos recursos locais, a alternativa  correta e eficiente de conservar a natureza e desenvolver capacidades a aptidões humanas. E se a melhor forma de preservar um bem natural  é atribuir-lhe uma função  econômica, a  Amazônia, com sua extensão e biodiversidade, abriga a resposta para a maioria das perguntas que a ciência tenta responder hoje, na medicina, na agroindústria, nas alternativas energéticas e nos avanços da equação enigmática entre crescimento econômico e recomposição dos estoques naturais  Por mais nobres que sejam os estandartes apocalípticos da agonia ambiental, o Brasil e seus cientistas precisam mergulhar na floresta, conhecer sua história e cotidiano, empunhar a bandeira nativa da sustentabilidade, para pontuar novos rumos, adensar, diversificar e interiorizar a economia na região. Assim, faz sentido a gestão da Amazônia, e oferecer oportunidades que assegurem manter em pé, principalmente, a dignidade das pessoas, de todas as pessoas, como ensina Samuel Benchimol, prêmio, memória e lições para o amanhã.

Sobre a personalidade autoritária 

Cabeça Coluna Alfredo Lopes

Quando acabou a II Guerra Mundial, surgiram algumas iniciativas para reconstruir as ruinas a irracionalidade dos conflitos que ceifaram tantas vidas humanas, num holocausto bem maior que o massacre de milhões de judeus por parte do nazismo sobre o qual costumamos e devemos meditar. É o massacre da dignidade humana, da estupidez do homem como lobo do homem, uma compreensão aloprada do liberalismo inglês proposto por Hobbes, ao pontuar as bases ideológicas do modo de produção capitalista.  Daí a instituição da ONU, e demais tentativas de montar uma torre de vigilância e ordenamento das nações, para mitigar a tentação autoritária do homem sobre seu semelhante. É bem verdade que todo este movimento revela-se tímido diante de tanta violência nas relações humanas do Cotidiano, da Memória e da História, como sugerem os diálogos entre Hanna Arendt e Walter Benjamin, e suas proposições de resgatar o primado da condição humana.

Nesta dialética entre o caos e o logos da reconstrução, emerge da II Guerra um movimento filosófico muito expressivo na releitura dos clássicos do Marxismo, da Psicanálise, do Positivismo e do Humanismo cristão, uma reflexão filosófica  que identifica na Modernidade e nas atrocidades, a permanência e imanência  do autoritarismo. Na perspectiva, portanto, de reconstrução da liberdade e do respeito à alteridade,  se constituiu a chamada Escola de Frankfurt, cujos representantes foram obrigados a fugir da Alemanha nazista para consolidar, nas Universidades norte-americanas, novos instrumentos metodológicos de compreensão e afirmação da condição humana e das contradições sociais em que ela se insere. No contraponto do autoritarismo, erguem-se as premissas filosóficas do diálogo, não apenas entre as pessoas, mas também entre as correntes predominantes do pensamento liberal, marxista e neo-freudiano do Século XX.  É a reflexão atrelada à conscientização que busca os fundamentos históricos e psicossociais do diálogo, a etapa necessária à construção dos pilares do consenso. Teodoro Adorno, Jürgen Habermas, Walter  Benjamin, Erick Fromm e Herbert Marcuse desenvolvem argumentos na direção do consenso, sucedâneo ao pós-guerra e referência desordenamento  da sociedade industrial. Para eles, compreender  a linguagem, o discurso e a narrativa têm importância decisiva na estruturação das premissas do consenso e, por decorrência, da Ética, um conceito a se resgatar e fazer prevalecer.

Esta construção dar-se-á pela “pluralidade de vozes”  que argumentam a busca do movimento consensual. E essa construção permite a todos aqueles que buscam o diálogo, na perspectiva do consenso, resgatar o sentido objetivo Democracia, da representação institucional no Estado de Direito e, principalmente, o papel real e original da Política como instrumento de ordenamento ético e dialogal da  Polis, da vida social. Com isso, e a partir dessas premissas, o filósofo Theodor Adorno desencadeia os estudos interdisciplinares da Personalidade Autoritária, para ilustrar os descaminhos do nazi-fascismo, os danos e riscos de sua insistência nas relações pessoais, sociais e institucionais na história e na dinâmica da sociedade industrial. A personalidade autoritária é incompatível com o espírito público, é avessa ao diálogo e se constitui na absoluta inviabilidade do consenso. Ela se desconstrói no imediatismo da egolatria e semeia o ressentimento da desconstrução. O avesso de tudo que o o país e a cidadania carecem para instaurar um tempo de entendimento e de inadiável comunhão.

O muro da Amazônia

Cabeça Coluna Alfredo Lopes

Há 25 anos o mundo celebrou a queda de um muro, quando povo alemão vivenciou o sentido radical de um abraço de Berlim com sua outra porção. Ensaiou-se,ali, depositar no lixo da História os resíduos de ideologias e tiranias que desumanizam relações e retiram das pessoas aquilo que as torna mais humanas, demasiadamente humanas na leitura de Nietzsche: a liberdade. Esta é a premissa da solidariedade na conjugação do existir na primeira do plural. Meses antes, o jovem chinês, em Pequim,  enfrentava os tanques do poderoso exército dito comunista em plena Praça da Paz Celestial, solidário com 100 mil estudantes e trabalhadores que gritavam por liberdade. “Existirmos, a que será que se destina?”, indagava Torquato Neto na poesia de Caetano. É inútil, pois, brecar a vocação da condição humana para o Absoluto, diriam os pré-socráticos, ao condenar a tentação autoritária das ideologias em falsificar o real, fragmentar consciências e transformar gente em manada.

Há 25 anos, também, a comunicação instantânea e interpessoal celebrou a implantação da internet, implodindo dogmas e instalando a expansão irreversível das consciências ao misturar real e virtual com a mesma nitidez e configuração. Com a internet, a condição humana passa a interrogar o conceito de permanência e a retirar-lhe o dogmatismo estóico de verdade, para devolver ao conceito de movimento autoridade maior na revelação do ser. Há 25 séculos, Demócrito já havia postulado a questão dando à dialética do ser e do não-ser o mesmo estatuto para revelar a contradição do existir. A unidade entre o ego e o alter-ego.

E qual a relação possível entre toda essa Metafísica da liberdade, da necessidade e do movimento da revelação da verdade, com o muro de uma nova ideologia que se formou em torno da Amazônia, que se apressa em responsabilizar a floresta por problemas climáticos e não por soluções de gargalos da sustentabilidade atrelada ao desenvolvimento e prosperidade social no país? Bastou o pesquisador Antônio Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e de Pesquisas da Amazônia (Inpa), que analisou mais de 200 artigos científicos sobre a Amazônia – supor sua relação com o clima para inferir o vínculo entre desmatamento e escassez de água no Sudeste – para o cientista aparecer na TV e impor à opinião pública a mitologia de que não se pode mais tocar na floresta.

Fica clara, mais uma vez, a absoluta incapacidade do país de entender, para poder gerir e integrar, a floresta amazônica.  Entender a dinâmica geográfica, geopolítica e estratégica do país em sua totalidade. O pesquisador especulou diversas possibilidades de novas medidas, sobre  equívocos e iniciativas  a serem tomadas e a economia predatória que descreve a ocupação desenhada pelo modelo de progresso  adotado por esta civilização. Colocar a floresta na berlinda, no muro da separação da brasilidade é reproduzir  o autoritarismo de uma ideologia nefasta e estática, que a torna a um tempo exótica e perversa aprisionando, pelo autoritarismo do desconhecimento, a preciosidade em movimento de sua contribuição para um novo tempo que inaugura um abraço do Brasil com sua mais generosa e  promissora tradução, a Amazônia. Antes que seja tarde…

Management indiscreto

Cabeça Coluna Alfredo Lopes

É emblemática a iniciativa da Suframa, com apoio da Federação e do Centro da Indústria do Estado do Amazonas, de marcar presença na 14ª Edição da HSM ExpoManagement, que reúne executivos, líderes e tomadores de decisão dos mais diversos setores econômicos do País para debater o desafio do management mundial. Não há, porém, como separar o evento da decisão do superintendente, Thomaz Nogueira, que anunciou, há uma semana, que deixaria o comando da autarquia, Superintendência da Zona Franca de Manaus, até 31 de dezembro deste ano. Ele denunciou a falta de valorização dos servidores, mas foi lacônico na revelação detalhada de sua indignação com o tratamento negligente, irresponsável e, a rigor, aético da União com os interesses, demandas e gargalos locais. Cabe insistir que a União recebe mais da metade da riqueza que a ZFM produz. Omitiu ainda a articulação obscura entre o ministério do Desenvolvimento, o Ministério Público e a representação parlamentar do Planalto para desestabilizar sua gestão, através de mecanismos toscos, rasteiros, inaceitáveis… Assim (não) caminha a humanidade, muito menos a dignidade.

O que dirão os técnicos da Suframa na HSM Expo para quem estiver interessado em gestão de investimento na ZFM e indagar sobre o Plano Nacional de Logística dos Transportes, no item referente a dragagem e balizamento da hidrovia do Madeira, alternativa racional, secular e sustentável de escoamento de produtos da região? Como explicar para os investidores que a estrutura portuária local é duopolizada e pratica preços de Roterdam com estrutura de serviços de países pobres do continente africano? Como explicar que, 48 anos depois da implantação do modelo, não houve planejamento  – management, não é? –  entre as empresas públicas que produzem e as que distribuem energia? Que razões explicam, a propósito,  a exclusão do segundo maior polo industrial do país ter do Programa Nacional de Banda Larga, fazendo da Zona Franca de Manaus o mais caro e mais lento serviço de acesso à internet do país?

E por que razões, indagariam os investidores, há 12 anos ninguém foi capaz de definir o modelo de gestão do Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA), ora gerido pela Suframa, onde não existe qualquer técnico especializado em gestão de biodiversidade. É comum o Tribunal de Contas penalizar a autarquia porque é difícil justificar aos órgãos de controle a compra de material, como comida para animais de laboratório, porque essa não é atividade fim da Suframa. Quem deveria estar presente na HSM Management eram os dirigentes e  técnicos do ministério do Desenvolvimento e demais burocratas dos organismos relacionados à geração de oportunidades e sua relação com o melhor exercício da cidadania na Amazônia. Eles confundem barganha politica com gestão do interesse público e ganham polpudos salários por essa nociva distorção. Quanto à Suframa e seus apoiadores, as entidades de classe do setor produtivo, melhor fariam se integrassem um movimento destemido para assegurar a luta pela autonomia e revitalização da autarquia e pela aplicação mais transparente e eficiente dos R$ 3 bilhões/ano das contribuições da indústria para pesquisa e desenvolvimento, qualificação de recursos humanos, regionalização do desenvolvimento. Afinal, como diria o superintendente demissionário, impedido de exercer o management: “…qualquer país sério já teria feito uma revolução  tecnológica com tantos recursos”.