Vergueiro: a castanha e o clima – Parte II

Cabeça Coluna Alfredo Lopes

O cultivo extensivo de castanheiras, no lastro dos pioneiros e empreendedores da Amazônia, sinaliza um projeto com rigor econômico – qual é a outra forma de preservar um bem natural? -,  com responsabilidade social, sustentabilidade ambiental e respeito à diversidade cultural. Sobre essas pilastras Sérgio Vergueiro conseguiu mobilizar seus colaboradores  com sinergia prodigiosa. Isto aparece nos gestos de quem exibe com orgulho a façanha do plantio, o cuidado com a floresta, a tecnologia da colheita e do beneficiamento do produto. A construção da riqueza é prazerosa quando atrelada à concretização do sonho, na conjugação plural desta ação. Sonhar, estudar e fazer, com perseverança e disciplina, valorização das pessoas, é uma fórmula antiga, e sempre nova, para assegurar o desafio e a beleza de empreender.

Como o forasteiro que se fez nativo, a exemplo de Cosme Ferreira, mestre e visionário, Vergueiro reprisa a fórmula cearense de viver  empreender no Amazonas, que não se esgotou na especialização e sofisticação da  cultura da castanheira.   Espécies como a pupunha, suas variedades e utilizações, entre outras palmeiras, e 0leaginosas, fazem da Agropecuária Aruanã um laboratório experimental das oportunidades de que fala Cosme Ferreira em  “Amazônia em Novas Dimensões” (1961), escrito enquanto operava a Companhia Nacional de Borracha, Companhia Brasileira de Plantações e a Companhia Brasileira de Guaraná, escolas de empreendedorismo associada à pesquisa e inovação que  influenciaram outros pioneiros como Petronio Pinheiro e Antônio Simões. No prefácio do livro, o amazonólogo  Arthur Reis consegue resumir o sentido das novas dimensões do pioneirismo:  “Não se criou ainda, no Brasil, uma consciência, fora do emotivismo ou do sensacionalismo de romance e de jornal, elaborada com serenidade e com realismo acerca da Amazônia. Temos preferido conhecê-la, quando não nos deixamos dominar pela frase macia, as sentenças euclidianas, pelas mãos dos homens de ciência do estrangeiro, que não se cansam de frequentá-la e de investigá-la com os propósitos de bem servir ao conhecimento humano, mas, também, aos interesses políticos de suas pátrias”. O cultivo extensivo de espécies  reacende a questão amazônica, seus desafios de conhecimento e aproveitamento racional, os equívocos de sua ocupação, os mitos criados pelo distanciamento e descompromisso da União com este bioma, que sataniza o manejo inteligente, producente e criativo do bem florestal.

Finda mais uma Conferência da ONU, dessa vez  na Amazônia Peruana, um “Chamamento de Lima para a Ação sobre o Clima”, apelando para o altruísmo ambiental dos poluidores, onde os países desenvolvidos terão de apresentar planos para redução de suas emissões de gases-estufa, sem qualquer compensação ambiental para os serviços em favor do clima exercidos pela floresta, ou pela profusão de 2 milhões de castanheiras entre plantadas ou em viveiro para fixar o carbono emitido pelo modelo predatório desta civilização.  A compensação global passa a ser irrelevante na medida em que os acertos do reflorestamento  de espécies tão emblemáticas da flora amazônica passam  a ser entendidos e reconhecidos, localmente, portanto, transformados em paradigmas. É alvissareiro constatar que o projeto do plantio intensivo, que os ingleses adotaram com sucesso em seus domínios tropicais asiáticos com a seringueira, chamou a atenção das entidades da indústria e da agricultura, além da Fucapi, instituição consolidada há mais de três décadas pela novação tecnológica, cujo Departamento de Design Tropical já se debruça no aproveitamento das unidades destinadas a manejo, para produção de movelaria certificada com madeira nobre, confirmando as dimensões grandiosas e promissoras do pioneirismo criativo, climaticamente benfazejo e economicamente sustentável na floresta.

—————

[email protected]

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

Artigos Relacionados

Água em risco: como a poluição ameaça a vida nos rios do planeta e o que pode ser feito agora

Com a maior rede hidrográfica do planeta e uma biodiversidade aquática extraordinária, o país está no centro desse debate. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios conhecidos: saneamento insuficiente, poluição por mineração, expansão agrícola e impactos das mudanças climáticas. A Amazônia, por exemplo, já apresenta sinais de contaminação por plásticos e outros poluentes, evidenciando que nem mesmo regiões consideradas remotas estão imunes

Terras raras no Brasil entram no centro da disputa por soberania nacional

Terras raras no Brasil entram na disputa global, com Lula defendendo soberania mineral diante de pressões externas e impactos ambientais.

Mineração sustentável é possível? Transição energética expõe dilema

Mineração sustentável é possível? Avanços tecnológicos enfrentam limites ambientais, pressão sobre ecossistemas e desafios da transição energética.

O mundo mudou — e a Amazônia precisa reagir antes de ser empurrada

Entrevista | Denis Minev ao Brasil Amazônia Agora Empresário à...