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Rebecca, o fardo e o foco

Seja lá quem for que convenceu a empresária Rebecca Garcia a assumir o fardo de uma  Suframa esvaziada, sem autonomia e com um quadro de servidores sem motivação, nem equiparação salarial, o fato exige mobilização geral em torno dela, por sua trajetória, currículo e espírito público. E o que deve nos unir é o foco do compromisso com o Amazonas. Assim como todos nós, a ex-deputada assiste ao esvaziamento preocupante do modelo Zona Franca de Manaus, e os riscos que isso representa para o tecido social, a ordem econômica, o desmatamento da floresta e o recrudescimento do narcotráfico e da violência na Amazônia e no Brasil. Os buracos estão todos expostos. E ela sabe disso. Há um mês, mesmo sem mandato, ela integrou um grupo de parlametares que confirmou a mazela. E não são apenas as crateras das ruas do Polo Industrial de Manaus: são as de infraestrutura, os portos duopolizados, são aqueles deixados pelo confisco de recursos aqui produzidos, tanto das Taxas da Suframa, como das verbas de Pesquisa e Desenvolvimento. Os buracos estão nas demais representações da Suframa, em toda a Amazônia Ocidental, que deixaram de celebrar convênios de  cooperação com os municípios empobrecidos da região, sob jurisdição da autarquia, porque as verbas foram confiscadas… Como mobilizar os parlamentares da região em defesa da Suframa se esta não lhes agrega mais qualquer ganho ou valor?

Há um ano, o Congresso Nacional promulgou a Emenda Constitucional 83, que prorroga  a Zona Franca de Manaus por mais 50 anos. O texto foi aprovado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal, de modo praticamente unânime. Sabe o que ocorreu em seguida? Nada, além da desindustrialização galopante e a queda drástica de arrecadação. A prorrogação tem por propósito o desenvolvimento econômico da região amazônica, para incentivar a proteção ambiental e de fronteiras, e para melhorar a qualidade de vida dos moradores do Acre, Amazonas, Rondônia, Roraima e as cidades de Macapá e Santana, no Amapá. A ZFM é, reconhecidamente, o maior acerto na redução das desigualdades regionais em toda história do Brasil. Por isso tem que ser resguardada.

E a melhor maneira de ajudar Rebecca Garcia que, neste momento, simboliza o apelo dramático de empresários e trabalhadores, aqui representando toda a sociedade, é fazer junto com ela um Plano de Governo exclusivamente pautado naquilo que determina a Lei. E uma Lei que ela, pessoalmente, empenhou-se para inserir vigorosamente na Carta Magna do Brasil. E como não há salvação nem solução duradoura fora da Lei, a primeira medida é resgatar o cronograma, a função e a autonomia legal do CAS, o Conselho de  Administração da Suframa. Ali serão, a partir disso, resolvidos os embaraços de instalação de novas empresas com o fim do embargo de PPB’s – Processos Produtivos Básicos. Pela Lei 8.387, de 30/12/1991, essa liberação não pode comprometer a produção por mais de 120 dias e apenas cinco itens não podem receber incentivos da ZFM pela Constituição do Brasil: armas e munições, perfumes, fumo, bebidas alcoólicas e automóveis de passeio. E assim, também, se fará cumprir, no âmbito do CAS o que manda a Lei nº 9960 de 28/01/2000, sobre as Taxas criadas para fazer funcionar o modelo, através da legalização das antigas contribuições exigidas pela Suframa para ajudar na sua rotina administrativa, sobretudo em tempos de penúrias orçamentária, ou de provimento de infraestrutura, vitais para a competitividade e sobrevivência do modelo. Por que não devolver 3% da arrecadação do PIM em infraestrutura? Reinvestir aqui se aplica às verbas de P&D, essenciais para consolidar Novas  Matrizes Econômicas, coerentes com a vocação de negócios, bionegócios e agronegócios da região, como tem feito a Afeam, a Agência de Fomento do Amazonas. E é legal, sobremaneira, deixar as rusgas mesquinhas de lado, para cerrar apoio à gestão de Rebecca, transformando seu fardo em força e no foco da legislação, a inauguração de um novo tempo para a região e nossa gente.

‘Precisamos redesenhar o Amazonas!’

O jornalista Fernando Canzian, da Folha, uma das boas surpresas da imprensa jovem brasileira, trouxe nesta quinta-feira uma reflexão contundente e lapidar, traduzindo o impasse deletério da questão política sobre a economia, com o título: “Está claro ou precisa desenhar?”. Diz ele: “A luta pela sobrevivência de Dilma Rousseff e Eduardo Cunha está arruinando o país. Desonestos, cada um ao seu estilo, a presidente pior avaliada e o deputado mentiroso desviaram a atenção do essencial: o país precisa parar de piorar. E rápido. Mas todo capital político e energia que ainda lhes restam estão voltados para que se mantenham nos cargos e para evitar punições pelas malandragens aqui e na Suíça. O quadro publicado acima é assustador. Os brasileiros foram às ruas protestar em março e agosto. Nada aconteceu. A piora só acelerou. Agora estamos em outubro, ainda mais deteriorados. Não existe nenhuma hipótese, é preciso dizer, de o país se estabilizar e voltar a crescer sem que o palavrão do ajuste fiscal seja colocado em prática. Sem isso, podemos esperar anos e anos de estagnação, desemprego e miséria.” Nesta semana, independentemente do que possa resultar desse anti-jogo destrutivo e abjeto, o empresário Denis Minev e o presidente do CIEAM, Wilson Périco, trouxeram nesta coluna algumas propostas para redesenhar um novo Amazonas. À propósito, cabe complementar este encaminhamento reproduzindo uma entrevista dada em 18 de novembro a esta Follow-Up, pelo próprio presidente Périco, sobre o imperativo do expediente legal para cumprir este projeto.

‘Fora da Lei não há salvação’

Considerado uma liderança comprometida com o adensamento e a diversificação do modelo, na perspectiva de interiorização e regionalização de suas matrizes econômicas e seus benefícios, Wilson Périco é daquela geração que aqui chegou e quer permanecer. Cidadão da Amazônia, onde nasceram seus filhos, este empresário olha o desenvolvimento inteligente e sustentável da região como a melhor ferramenta de conservação do patrimônio natural. Daí sua obstinação para que os recursos produzidos na ZFM, e que por Lei pertencem a toda a Amazônia Ocidental, sejam aqui aplicados. Confira.

Follow-Up: Qual o significado para o Amazonas do movimento popular do último dia 15, do ponto de vista da indústria?

Wilson Périco: Descontentamento é a palavra que traduz os sentimentos e atitudes que o Brasil explicitou claramente nas ruas. Mais uma vez. No grito de revolta contra o governo Dilma, o país percebeu que o arrocho nas contas públicas, o aumento de impostos e da inflação estão ligados à corrupção. São consequências dela. E ninguém aceitar assumir as consequências dos erros alheios. O exemplo da Petrobras é emblemático. E as novas medidas do governo afetam diretamente a indústria, principalmente um polo industrial como a Zona Franca, já enfraquecida por falta de infraestrutura e dos recursos que lhe são confiscados. O IBGE reafirmou o processo de desindustrialização do modelo, mostrando que o polo industrial de Manaus teve o pior desempenho do Brasil dos últimos anos. Temos alertado isso há muito tempo.  As entidades da indústria e dos trabalhadores estão unidas para tentar salvar a indústria, ou seja, os empregos, os investimentos e a sobrevivência do tecido social. Precisamos redesenhar o Amazonas.

FUp: E qual a saída para o modelo ZFM?

WP: A saída é a Lei. “Fora da Lei não há salvação”, dizia o jurista Rui Barbosa. E para fazer cumprir a Lei, o caminho é a mobilização da classe política, na medida em que toda a bancada federal interessada decida comprar essa briga, antes que seja tarde e os investidores procurem outras saídas. A ZFM está funcionando ao arrepio da Lei, ou seja, aquilo que é inverso à ordem natural.  Estamos adentrando ao mundo dos desmandos onde cada um pode decidir a seu bel prazer e interesse. E nada acontece. Os recursos gerados na ZFM, taxas, e contribuições específicas, pertencem à região e aqui devem ser aplicados.

FUp: Que leis estão sendo desrespeitadas?

WP: A ZFM foi criada pelo Decreto-Lei Nº 288/67, um modelo baseado em benefícios fiscais, que previa a implantação de polo industrial, comercial e agropecuário, numa área física de 10 mil km², em Manaus. O objetivo era integrar a Amazônia ao resto do país, para evitar a apropriação estrangeira. E isso foi feito de acordo com o artigo 43 da Constituição, que autoriza mecanismos fiscais de desenvolvimento para redução das desigualdades regionais. E este modelo é o maior acero fiscal da História do Brasil. Ainda em 1967, por meio do Decreto-Lei nº 291, o Governo Federal criou a Suframa e definiu a Amazônia Ocidental, abrangendo os estados do Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima – com a inclusão posterior dos municípios de Macapá e Santana – para onde estendeu parte dos benefícios do modelo. Inserida na Constituição Federal de 1988, essa legislação foi prorrogada pelo Congresso Nacional em agosto de 2014, por mais 50 anos. E nada disso está sendo respeitado.

FUp: Quais os acertos e gargalos da ZFM?

WP: Segundo pesquisas da Faculdade de Economia e Administração da USP, a ZFM tem exportado para a União, ao longo dos anos, em média, mais de 54% da riqueza que aqui produz. Na rotina compulsiva dos impostos, aproximadamente 50% de toda a arrecadação federal na Região Norte sai de Manaus que gera na capital mais de 600 mil postos de trabalho e – estima-se – mais de 2 milhões de empregos em toda a cadeia, da produção ao mercado, pelo país afora.  Nenhum modelo de incentivo fiscal tem esse desempenho. Os gargalos, além da infraestrutura precária e cara, referem-se ao desacato permanente da Lei. Ao arrepio da Lei n. 9969 de 2000 – criada para fazer funcionar o modelo ZFM, as Taxas de Serviços Administrativos da Suframa (TSA), há 14 anos são progressivamente confiscadas pela União. São mais de R$ 1,4 bilhão no período.  Da mesma forma, a Lei nº 10176 de 11/01/2001, criada para incentivar pesquisas, mudanças na matriz econômica do polo, através de 2 a 5% do faturamento das empresas de informática, tiveram 80% de seu apurado, indevidamente contingenciados nos últimos anos. Ao todo, de acordo com estimativas da Suframa e do CIEAM, somente com a TSA e as verbas de P&D, aproximadamente R$ 3 bilhões foram confiscados nos 10 anos.

FUp: E quais as consequências para a ZFM e Amazônia Ocidental?

WP: Essa ilegalidade reduziu drasticamente as ações de desenvolvimento e de diversificação econômica na região, onde há três anos não são celebrados convênios de infraestrutura com os governos estaduais ou municipais. No mesmo período, com a desculpa do superávit primário, ou de repasses para o BNDES, e ainda programas de outros ministérios (agronegócios do Mato Grosso e o programa Ciência sem Fronteiras), estima-se que foram igualmente confiscadas R$ 1,5 bilhão das verbas de P&D. “São valores suficientes para qualquer país sério promover uma revolução em inovação tecnológica”, segundo apreciação da própria Suframa.

FUp: Por que, então, não recorrer à Corte Suprema?

WP: Esta é uma tarefa de toda a sociedade que é alcançada por esse conjunto de ilegalidades. Isso cabe, principalmente, à representação política da região, governadores e parlamentares, com os quais empresários e trabalhadores certamente se uniriam. A Suframa perdeu autonomia e as condições de executar o que a Lei lhe confere. Basta ver a ilegalidade dos embargos de gaveta, dos técnicos da burocracia federal, que brecam licenciamento de PPB, o processo produtivo básico que estabelece as regras de produção na ZFM. Pela Lei 8.387, de 1991, essa liberação não pode ultrapassar mais de 120 dias. Apenas cinco variedades de produtos não podem receber incentivos da ZFM pela Constituição do Brasil: armas e munições, perfumes, fumo, bebidas alcoólicas e automóveis de passeio. Ultimamente os embargos de gaveta viraram proibição de alguns itens que a Lei permite.  A saída para este impasse é simples: que se cumpra o marco legal da ZFM, objeto recente de reafirmação do Congresso Nacional. Só assim este modelo seguirá devolvendo com generosidade a renúncia fiscal que lhe dá suporte.

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: 
Alfredo MR Lopes. [email protected]

Cieam propõe planejamento para vencer a crise

 

Em seu artigo mensal no Espaço da Indústria, distribuído na mídia nacional, o presidente do CIEAM, Wilson Périco, clama pelo planejamento e pela mobilização: “Temos insistido em nossos posicionamentos que a relação do modelo Zona Franca de Manaus com o governo federal deve pautar-se por ações conjuntas e proativas, não por submissão. Neste momento de escuridão da gestão pública, cumpre repassar o desequilíbrio dessa relação à procura de saídas. E como dizia palavra crise, a hora é de aprender para crescer e recomeçar. E são múltiplas e preciosas as lições de uma crise. Uma delas é a necessidade de rever e alinhar estratégias, redimensionar prioridades, redefinir metas, racionalizar processos, enfim, planejar para o curto, médio e longo prazo. Temos caminhado às cegas sempre e quando nos recusamos a planejar, em conjunto, as trilhas de um plano integrado, onde setor público e as entidades de classe e demais movimentos organizados e representativos da sociedade possam definir, sem dependência da União federal, o que somos, os instrumentos de que dispomos e o Amazonas que queremos. As últimas iniciativas de planejamento estratégico, sob o comando da Suframa, como determinam os expedientes legais, foram deixadas pelo caminho, esvaziando ações inteligentes para adensar o polo industrial, diversificar sua produção, interiorizar as oportunidades e assegurar as condições de sua sobrevivência, ou seja, a competitividade.”

Por que os novos polos fracassaram?

Em alto e bom som, denuncia o dirigente da entidade, “O governo federal, nos últimos anos, fez da ZFM um polo de exportação de recursos. O que se viu, sob o nome pomposo do contingenciamento, foi o confisco das verbas necessárias à execução do que foi planejado. As reclamações locais foram tímidas, a despeito da relevância dos caminhos desenhados. Foi assim que os parques tecnológicos de inovação, informação e comunicação, o CTPIM, e o de Biotecnologia, CBA, foram abandonados. Assim também fracassou a modernização portuária, com o Eizof, entre outros entraves, e o ordenamento da indústria da construção dos barcos, o Polo Naval, como fizeram, os ingleses há mais de um século, nos estaleiros da Escócia. A logística dos transportes agregou à economia do Reino Unido a riqueza necessária para empinar os negócios da borracha. Essa lição de logística não aprendemos. Vejamos o caso da recuperação da BR 319, nosso direito de ir e vir por estrada e oportunidade de diversificação logística da ZFM. A estrada foi literalmente bombardeada sob nossa omissão. O mesmo ocorreu com o engavetamento do polo gás-químico, base do polo de fertilizantes, ideias geniais e desistências irracionais. Nunca geramos tanta riqueza como, também, nunca fomos tão saqueados. Essa retomada da história recente nada mais é do que uma desculpa para olhar o futuro, que nos cobra duas tarefas cruciais, uma delas é retomar o planejamento estratégico da ZFM, como manda a Lei, e outra é conter a evasão dos recursos necessários à execução do que for definido, como prioridade e necessidade”.

 

Sem pires na mão

Nossa relação com Brasília tem de ser de colaboração, jamais de submissão, diz Wilson Périco. “Chega de esperar por Brasília para definir e executar o que queremos de melhor para o Amazonas, para a Amazônia Ocidental e toda a região. Temos os recursos, geramos riqueza que por lei deveriam ficar aqui, por isso não precisamos de ajuda e não estamos com pires na mão. O que queremos e precisamos é de respeito aos nossos direitos constitucionais. Temos demandas e temos projetos. Se aplicarmos o que manda a Lei, os recursos são suficientes para infraestrutura e para os parques tecnológicos, os polos abandonados, os novos que podemos definir em conjunto, num arranjo estratégico e de definição política. Que seja assegurado o que manda a Lei para os recursos e fundos pagos pela indústria para a infraestrutura de que o modelo padece. Ou seja, para a qualificação ficarão dos recursos humanos, para os gargalos dos portos, a livre concorrência e desabrochar os polos e, por uma questão de decência, a estrada da integração e diversificação logística e cidadã. Em nome do bom senso e da justiça.”

Novos tiroteios

A caça às bruxas para encontrar culpados para a crise econômica e de credibilidade que bombardeia o país chegou à floresta. Sem considerar a gestão obtusa e demagógica da encomiada, a bola da vez é a Zona Franca de Manaus para os bolsões da resistência ou da negligência jornalística do Brasil que desconsidera a Amazônia um apêndice indesejável. No último fim de semana, a imprensa do Sudeste voltou a mirar sua artilharia contra a ZFM, mesmo sabendo que este modelo, longe de ser parte do problema tem sido efetiva proposta de solução para geração de emprego, especialmente no próprio Sudeste e na preservação da floresta, o que ajuda o planeta a respirar melhor é o Brasil a ficar bem na foto em Paris, onde o planeta vai discutir novamente o futuro do clima e da sobrevivência da espécie humana. As matérias grudam na ZFM o estigma de “gasto tributários”, destacando o modelo da Suframa como “o mais beneficiado relativamente”. Diz a matéria: “São R$ 36 bilhões em 2015, sendo R$ 28 bilhões referentes aos benefícios da Zona Franca de Manaus, enquanto que a arrecadação federal na região totaliza apenas R$ 32 bilhões.” Como se tratam de ataques requentados que já provocaram diversas matérias, é improvável a tese da desinformação inocente. Os agressores da ZFM sabem que não há custeio público no modelo industrial da Zona Franca de Manaus. A União deixa de arrecadar nos moldes de outras plantas industriais, mas se o fizesse nada ficaria para recolher, pois não haveria Zona Franca de Manaus. Nenhum centavo sai da União para as empresas aqui instaladas. A isenção parcial de impostos só se aplica a partir da inserção do produto no mercado. E se não houvesse o modelo, como a mídia do Sudeste sugere implicitamente, não haveria renúncia nem essa generosa remessa de recursos federais à União. Essa é uma estória sem fim, e esses ataques, que se levantam periodicamente contra os expedientes constitucionais que dão suporte à ZFM, não passam de mais uma demonstração do desacato legal – além da ignorância ou da leviandade – que está tomando conta do país.

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

Denis Minev: “… com investimentos em pesquisa não precisamos do governo federal”

 

Observador atento e participante da cena amazônica, Denis Benchimol Minev traz no DNA as lições e ações dos pioneiros que souberam tratar a quebra da economia da borracha, há 100 anos, com obstinação e propostas de superação e geração de oportunidades. Integrante da direção geral do Grupo Bemol-Fogás, Presidente do Conselho do Museu da Amazônia, e entre outras organizações ligadas à Amazônia, ele já esteve na coordenação estadual do Planejamento e participa de todas as iniciativas voltadas a reunir pesquisa, planejamento e desenvolvimento regional. Ele defende 5% da receita estadual em pesquisa e desenvolvimento, um grito de independência em relação ao governo federal. Confira.

1. Follow-Up – Na sua opinião, que medidas se impõe para deter a queda de arrecadação do estado?

Denis Minev –  Situações de crise ocorrem de tempos em tempos em todos os países e governos precisam lidar com elas. A prescrição é simples e dolorosa: aumentar arrecadação e cortar despesas. No caso do Amazonas, o governo inicialmente (e creio que corretamente) tentou apenas corte de despesas; a crise se mostrou mais grave e o governo decidiu pelo aumento de impostos também. A terceira ação é aproveitar a crise para avançar em algumas frentes. Por exemplo, essa é uma boa hora para reduzir a burocracia, para simplificar processos e para tomar decisões difíceis mas necessárias.

2. FUp – O esvaziamento da indústria é a crônica de uma catástrofe que você vem anunciando. Como enfrentar a desindustrialização de um modelo fundado essencialmente em incentivos fiscais?

DM – A desvalorização do real oferece uma sobrevida à indústria, mas a desindustrialização é um processo contínuo de longo prazo. Precisamos aproveitar os incentivos e os ativos que temos para desenvolver uma nova economia aqui. Além disso, é preciso investimento maciço na formação de recursos humanos (principalmente nas áreas de ciências e engenharias) e em pesquisa e desenvolvimento.

3. FUp – Que outras matrizes econômicas podem oferecer respostas rápidas para a economia do Estado e da região?

DM – Os segmentos mais promissores num curto prazo, na minha avaliação, são a exploração e industrialização de 3 recursos naturais: madeira, peixes e minérios.  Além disso, temos grandes possibilidades no turismo, dado que temos no termo “Amazônia” uma das melhores marcas do mundo. A logística, com o aeroporto de Manaus representando um grande hub no norte da América do Sul, e a agricultura em geral, também representam importantes frentes de trabalho. Cada um destes segmentos tem peculiaridades e obstáculos que precisam ser reconhecidos e removidos. Na maior parte dos casos, é preciso tirar o governo do caminho dos empreendedores; o governo precisa supervisionar, mas nunca entravar, como faz hoje.

4. FUp – Que instrumentos e que investimentos devem ser feitos para diversificar e regionalizar este novo cenário econômico. Como avançar sem depender das decisões federais?

DM – Financiar o crescimento de segmentos como piscicultura, manejo florestal, turismo, dentre outros está dentro do nosso alcance como amazonenses. Simplificar as regras para novos projetos de piscicultura e manejo florestal está a nosso alcance.  Financiar pesquisa e desenvolvimento está sob nosso controle, com FAPEAM, UEA e outros instrumentos. Nosso orçamento estadual é de cerca de R$ 15 bilhões; poderíamos como sociedade decidir gastar 5% do total com ciência, o que nos tornaria maiores que São Paulo neste aspecto. Infraestrutura também está sob nosso controle: mais portos, melhores aeroportos, melhores estradas (especialmente a BR-319), melhores telecomunicações com menos impostos, melhor infraestrutura de energia, todos estes itens são essenciais para um futuro próspero.

5 – FUp – Há uma movimentação intensa de alguns atores e uma disposição do poder local em mobilizar saídas para novos projetos, e novas soluções em energia, comunicação e transporte. Temos o Museu da Amazônia, suas intuições e as do Ennio Candotti, o general Theóphilo no Comando Militar, o que esperar de tudo isso?

DM – Minha visão dos temas que você assinalou é que precisamos de projetos “redentores”. Por exemplo, o MUSA propõe um banco de sementes para melhor estudar e armazenar a biodiversidade amazônica. Este banco serviria, por exemplo, para reflorestamentos ou mesmo recuperação de espécies que, com as mudanças climáticas à frente, certamente serão extintas. O Comando Militar da Amazônia, com suporte da Prodam, tem um projeto “redentor”, a fibra ótica no leito dos rios que pode trazer o interior inteiro à era digital. Tudo isso caberia num orçamento alargado de P&D, numa FAPEAM vitaminada. Não precisaríamos de um centavo federal, se assim o quiséssemos. As pesquisas propostas pelo MUSA, o CMA, em energia alternativa, as embarcações regionais adequadas, mais leves e rápidas, a conexão de banda larga dos satélites… E isso dinamiza os programas em andamento, no Inpa, Embrapa, resta saber como juntar as ações isoladas, como retomar a ideia da rede de pesquisas e inovação…

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Gastos tributários  ou patifaria intermitente?

Misturando carimbó com toada, a jornalista Zeina Latif, do jornal O Estado de São Paulo,  parceira do economista Marcos Lisboa na artilharia contra a Zona França de Manaus, voltou a atacar, neste sábado,  os “gastos tributários” com a Região Norte, destacando o modelo da Suframa como “o mais beneficiado relativamente”. Diz a matéria: “São R$ 36 bilhões em 2015, sendo R$ 28 bilhões referentes aos benefícios da Zona Franca de Manaus (ZFM), enquanto que a arrecadação federal na região totaliza apenas R$ 32 bilhões.” Como se tratam de pessoas que já provocaram diversas matérias, é improvável a tese da desinformação inocente.  Latif e Lisboa,  seu parceiro de agressões inoportunas, sabem que não há custeio público no modelo industrial da Zona Franca de Manaus. A União deixa de arrecadar nos moldes de outras plantas industriais, mas se o fizesse nada ficaria para recolher, pois não haveria Zona Franca de Manaus. Nenhum centavo sai da União para as empresas aqui instaladas. A isenção parcial de impostos só se aplica a partir da inserção do produto no mercado.

E se não houvesse o modelo, como a jornalista sugere implicitamente, não haveria renúncia nem essa generosa remessa de recursos federais à União. Haveria o modelo predatório dos estados vizinhos, é muito narcotráfico. Criado para reduzir as desigualdades regionais através de renúncia fiscal, o modelo ZFM foi transformado nos últimos anos num exportador de recursos para a União. A maior parte, 54,42% da riqueza produzida pelos benefícios fiscais, volta para os cofres da União de acordo com os estudos feitos pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade FEA/USP. Além disso, o modelo deixa de recolher alguns impostos mas a União se locupleta com os impostos da rede de serviços que a ZFM cria em todo território nacional e com os impostos das  plantas industriais, do tamanho de três ZFMs,  funcionando no Sudeste, principalmente  em São Paulo,  para abastecer com insumos o polo industrial de Manaus. Além disso,  a distribuição, serviços, assistência técnica, securitização… geram  aproximadamente 2 milhões de empregos,  em toda a cadeia produtiva em sua extensão nacional. Que outros formatos tributários são assim tão generosos em acertos?

E o Amazonas é um dos oito estados da Federação que mais recolhem do que recebem recursos da União. E se a questão é a métricas dos benefícios, não há qualquer disposição aparente da dupla de atiradores, a serviço sabe-se-lá de quem, a especular que os  benefícios seriam maiores para esta parcela esquecida da brasilidade se os recursos de Pesquisa e Desenvolvimento e as Taxas da Suframa, recolhidas ambos junto às empresas locais, não fossem confiscados pela União progressivamente ao longo de mais de uma década, R$ 50 bilhões, segundo o ex-superintendente da Suframa. Thomaz Nogueira . Este modelo gera, sim, muitos benefícios não só ao Amazonas, mas ao Brasil, os brasileiros que consomem os produtos fabricados aqui. Esse discurso raivoso da renúncia é risível se esta for comparada à renúncia histórica da indústria automobilística. Aqui, as empresas instaladas, comprovadamente, lucram menos que outros arranjos industriais do país, mesmo assim patrocinam integralmente o orçamento da Universidade do Estado do Amazonas, a maior universidade multi-campi do planeta, presente em 62 municípios, além dos fundos estaduais de turismo, fomento e interiorização do desenvolvimento, que permitem, por exemplo, financiar os projetos de cadeias produtivas no interior. São mais de R$ 1,3 bilhão anual de investimentos, entre universidade, Centro de Educação Tecnológica, turismo e programas de agroindústria para a população ribeirinha. Desconhecer que a ZFM não implica em gastos tributários leva a concluir que este ataque não passa de mais uma patifaria intermitente.

BR 319 – Em favor do Amazonas

 

Foi oportuna e emblemática a iniciativa da Rede Amazônica de Televisão em produzir uma série de programas – para celebrar a Semana do Amazonas e da Pátria, no início de setembro – e debater essa esfinge chamada BR-319. No final das 5 matérias, feitas com profissionalismo e talento, restaram algumas constatações: uma delas é o descaso federal, habitual e histórico, com infraestrutura regional. Sem infraestrutura não dá para gerar riqueza. E sem riqueza é mais difícil proteger o bem natural. A outra é a certeza de que muitos inimigos do Amazonas estão aqui no Amazonas.

Messianismo ambiental

Algumas indagações, portanto, já podem ser esclarecidas, vários preconceitos esvaziados e, acima de tudo, com as reportagens, se escancarara a hipocrisia do discurso político e do messianismo ambiental. Muito falatório e pouco conhecimento e compromisso com a região. Na última proibição do IBAMA, fica clara a confusão entre construção e recuperação da rodovia, o que reafirma a distância e o descaso do olhar federal. A rigor, não há mais qualquer entrave objetivo para a recuperação – ninguém falou nem propôs construção – da estrada, pois o traçado existe, a pavimentação foi feita e os recursos estão ou estiveram disponíveis. Na verdade, foram confiscados da ZFM e dariam para equacionar este e outros gargalos de infraestrutura, como o balizamento e drenagem da hidrovia do Madeira, a distribuição da energia, e comunicação de dados e voz. Lembremos que mais de 50% da riqueza produzida pela ZFM vai para o governo federal.

Recuperação é diferente de construção

A estrada, senhores burocratas, já foi construída, mas foi abandonada por quem deveria cuidá-la. E foi até, impunemente, bombardeada por seus oponentes, para inviabilizar sua recuperação. Ela é uma via extremamente necessária para a economia da região e para permitir o direito constitucional de ir e vir do cidadão do Amazonas.  O que se deu foi o descaso, a negligência e a má-fé, de sua manutenção e conservação. Um descaso que acontece com outros segmentos e aspectos da infraestrutura local, alvo preferencial do abandono, em alguns casos, oportunista, e até delituoso, posto que incluiu a destruição objetiva do patrimônio público.

Urgentemente, colaborativamente

Tomara que o Ministério Público, ou a Polícia Federal tenham assistido às reportagens e ouvido o depoimento das pessoas e visto as imagens da destruição criminosa com uso de explosivos de trechos da rodovia para comprometer seu tráfego e assim resguardar outros interesses. Em lugar do proibicionismo, ou deixar essa denúncia sem apuração, por que não rever as implicações, os prejuízos e as complicações desses vetos intempestivos – danosos à competitividade e sobrevivência do modelo ZFM – e que se somam a tantos  outros, que alegam, por exemplo, o alarmismo faccioso da destruição do Encontro das Águas para impedir a modernização portuária das demandas do polo industrial da ZFM, ou condenam o ordenamento da indústria de estaleiros, com a construção do Polo Naval, em nome de um formalismo estéril e falacioso? Ou é melhor deixar as indústrias espalhadas caoticamente na orla fluvial de Manaus? Com transparência e à luz do interesse público, é hora de sentar para conversar e avançar, em nome do bom senso e da justiça, urgentemente e colaborativamente, em favor do Amazonas.

Hoje, excepcionalmente, esta Coluna foi escrita por Wilson Périco – Presidente do Cieam. [email protected]

Ora et labora!

No editorial desta quarta-feira sobre o atual momento político e de convulsão econômica, o jornal O Estado de São Paulo recomenda o império da Lei como saída para este imbróglio político institucional em que estamos mergulhados. “Não há saída fora da Lei”, diria a propósito o jurista Rui Barbosa. “Há salvação?”, indaga o editorialista. “Certamente ela existe, mas para descobri-la é preciso um ato de grandeza que derrote a mediocridade reinante. É indispensável que, acima de interesses pessoais ou de grupos, as forças vivas da Nação se unam para recuperar o País, pois não é isso, infelizmente, o que a chamada classe política está fazendo.” Ora et labora, diria o lema dos monges beneditinos, onde viver e trabalhar em meio às tarefas do dia-a-dia nao se desconectam do exercício da oração. E que tem a ver este lema religioso com a realidade caótica e, aparentemente, sem propósito que o noticiário traduz. Tanto a oração como o trabalho, na sugestão e conduta milenar dos monges criados por São Bento,  podem nos levar para à Luz, com maiúscula, e colocar-nos a seu serviço. Oração, aqui se presta para recomendar a reflexão cuidadosa que nos remeteria à redescoberta de um caminho, onde seja possível entender os descaminhos em que o Brasil  se perdeu e se desarticulou. “Uma coisa é certa, absolutamente factual: 90% da população brasileira não confia na presidente, subtraindo-lhe assim, se não a legitimidade, com certeza a credibilidade como governante”. Somente uma reflexão profunda e sincera poderia nos ajudar a apontar a contribuição de cada um de nós para o desacerto institucional e moral em que nos encontramos. Além do indicador acusatório, cabe indagar os dedos da omissão que nos apontam, da acomodação e do adesismo oportunista… Daí a sabedoria oportuna do ora et labora.

Coesão, coragem e criatividade

“No momento estão todos concentradíssimos no vale-tudo para salvar a própria pele ou levar vantagem com a situação”, constata o editorialista. Reportando-nos ao momento obscuro do ponto de vista local,  podemos reafirmar que o cenário  exige soma de esforços, talentos e muita ousadia. Foi o que se viu na presença do modelo Zona Franca de Manaus na edição 2015 da Feira de Duas Rodas, encerrada nesta segunda-feira em São Paulo, onde, apesar da crise ou por causa dela, foram apresentadas as grandes novidades de um segmento que a crise abalou. Mais de 270  mil visitantes, 20 mil profissionais do setor, protagonizaram um espetáculo com mais de 600 marcas de 22 países com 600 modelos de motocicletas. Ali estavam nossa associadas como Honda, Yamaha, Harley-Davidson, Suzuki, Kawasaki, Dafra Motos, Ducati, entre outras, além de importantes marcas de acessórios, equipamentos e motopeças. “Capacidade não nos falta. Precisamos apenas de pessoas que acreditem e nos auxiliem a construir caminhos para um futuro melhor”, como previu o alerta proféticos do presidente da Abraciclo, Paulo Takeuchi, que olha 2015 como o ano da superação. Superar, neste momento sombrio e de incertezas, é juntarmo-nos, agregar energia, sem revanchismo nem retaliação. É priorizar o Amazonas que nos une e abandonar o ressentimento e a miséria do rancor que nos separam e empobrecem. A sabedoria do entendimento é a chave da conquista de novos caminhos. Os instrumentos estão aqui, os recursos aqui devem ficar e nos dar a base em cima da qual será possível construir uma nova era de prosperidade e distribuição de oportunidades.

Protagonismo e aspirações da tribo

Em fevereiro último, na primeira reunião das entidades da Ação Empresarial, através de uma Carta-Documento propondo exatamente a coesão de todos, foi feito o convite ao governador do Estado, José Melo de Oliveira, a liderar este desafio de colocar o Amazonas como o protagonista deste movimento dos governadores e demais representações políticas da Amazônia, prioritariamente no âmbito Ocidental, tendo em vista a articulação com a Suframa e o endosso das instituições federais mais respeitadas e estimadas da região, abrigadas sob o o Comando Militar da Amazônia, ora sob a batuta do General Guilherme Theóphilo. Este protagonismo segue a lógica das etnias históricas da região, onde o líder é escolhido por sua bagagem de conhecimento das demandas e aspirações da tribo. Foi emblemático ouvir do governador do Estado que ele assinaria o Documento proposta, sem apor nem subtrair uma vírgula, na análise da conjuntura e na proposição de saídas. Ou seja, há um alinhamento prévio de propósitos, das trilhas a serem seguidas e dos objetivos que podemos alcançar: “ Reafirmar nossos compromissos em favor do Amazonas, e  realçar a importância – neste momento de muitas dificuldades e apreensão em todo o Brasil em relação aos desdobramentos das recentes medidas governamentais – de estarmos juntos e focados no enfrentamento conjunto de desafios que nos são postos.”

“Se estivermos coesos”

No primeiro tópico do Documento, a tomada de posição: “É positiva e alentada a expectativa do setor produtivo no Amazonas em relação ao seu governo e uma consciência clara de que iremos vencer os embates de sobrevivência e crescimento do modelo se estivermos coesos, assim como estivemos desde o momento de sua candidatura nesta Casa.” E a partir daí as questões que embaraçam a economia, comprometem a arrecadação e o futuro da saúde, educação e segurança de todo o tecido social, foram colocadas didaticamente, a começar pela equívoco de prorrogar a lei e jogar no lixo suas implicações e direitos. “ … a prorrogação da Zona Franca, por si só, não é passe de mágica para resolver problemas agudos, antigos e crônicos, deste que é o maior e melhor arranjo tributário/operacional de renúncia fiscal para redução das desigualdades regionais do país. Prorrogar incentivos, porém, sem assegurar autonomia da Suframa e a infraestrutura de transporte, energia e comunicação – e os recursos para qualificação técnica e educacional – significa ir a lugar algum.”  Voltaremos…

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Carta Aberta à Receita Federal

Ref.: Greve, economia e cidadania

Senhoras e Senhores: Antes de mais nada, é essencial deixar claro o destinatário desta missiva, por ser aberta e emergencial, é prioritariamente a população brasileira, e especificamente a todos os atores desta repartição do serviço público denominada Receita Federal do Brasil – RFB, aqui considerando os fatores paradoxais que envolvem essa instituição pública. Em última instância, a responsável pela RFB é a Presidência da República, o Ministro da Fazenda, o secretário da Receita, o superintendente das regiões fiscais e o inspetor das Alfandegas pela ordem hierárquica. O funcionamento, a estrutura e a operacionalização do serviço, a propósito, se dão através dos servidores, aqueles que movimentam esta gigantesca máquina arrecadatória, uma das mais poderosas e vorazes do planeta. As células responsáveis pela composição e dinâmica desse organismo são os auditores fiscais, uma categoria tecnicamente diferenciada que respondem por uma massa trilionária de recursos. Eles estão em Estado de Greve, buscando chamar a atenção do governo para seus direitos e provocando um dos mais predatórios estragos de todas as ordens e em múltiplas direções, num momento em que a economia é crítica, o desemprego é galopante e a população cambaleia pelas vias da incerteza, da escassez de recursos e de esperanças. O direito de greve é uma conquista das lutas sociais, um fator de equilíbrio da distribuição da riqueza e fator preponderante na busca, que deve ser constante e justa, do exercício da cidadania. Neste momento, porém, de um governo que estrebucha, sem amparo nem credibilidade, não precisa de muita imaginação para saber que daí nada virá, pois nada pode dar quem nada tem, a não ser acordos para se manter no poder. Não é justo mirar uma artilharia pesada num alvo que sucumbe e acertar a sociedade, trabalhadores e empreendedores que geram a riqueza a partir da qual, num contexto gerencial de qualidade e credibilidade, surgirão as respostas buscadas pelo instrumento da mobilização paredista.

Cronograma do estrago

O Cronograma a seguir, baseado em dados da constatação diária, é a epopeia real dos estragos, numa economia local já alvejada pelas greves da SUFRAMA, do MAPA, pela gestão equivocada da política econômica, pelas sequelas das contravenções constatadas pela polícia e pela justiça envolvendo a classe política e as grandes empreiteiras do Brasil. Em maio de 2015 os fiscais deliberam que passariam a aplicar um dia sem computador e que ocorreria a cada 5ª feira. Comparecem ao local de trabalho, mas não ligam as máquinas, como todo o sistema da RFB é informatizado, nada acontece – o objetivo, segundo as notícias, era de pressionar o Governo para atender uma pauta de reivindicações dos servidores, dentre elas, a campanha salarial/15. Sem conquistar seus objetivos, e para aumentar a pressão, a partir de julho passaram a aplicar 2 (dois) dias por semana – incluindo a terça-feira. Portanto são 2 dias sem computador. Não temos notícias de qualquer atitude por parte da direção da RFB para combater esta atitude dos fiscais, nem tão pouco se está sendo descontado de seus salários os dias não trabalhados. Fracassada essa estratégia, e não satisfeitos com estes dois dias sem trabalho, resolveram a partir de 18/08/15 instituírem o Estado de Greve, uma espécie de operação padrão. Como Pôncio Pilatos a justiça lavou as mãos diante das insistentes ações reclamatórias da sociedade, a começar por esta Entidade, que representa as empresas que recolhem metade dos tributos federais da Região Norte e repassa para a União 54,42% da riqueza aqui produzida.

Os patos, quem paga os patos?

E quem vai pagar mais esta conta, entre outras que comprometem os empregos, os investimentos, a arrecadação dos tributos que encolhe a cada dia e que vai repercutir diretamente em danos de saúde, educação, segurança…? É bem verdade que o governo federal deixa de arrecadar mas, no limite, essa suspensão dos tributos é também a suspensão de licenças e liberalidades burocráticas das quais dependem várias ações no setor produtivo, especialmente o modelo Zona Franca de Manaus, que depende desse monitoramento fiscal. Isso não importa, será que os promotores da paralisação perversa ao interesse público estão imunes às sequelas de sua posição e escolha? E o que a direção maior da RFB do Brasil tem feito para resolver esta questão? Há alguma providência legal e disciplinar para esta falta de compromisso com a cidadania e a economia do país, num momento de profundas dificuldades das empresas e das famílias que passam a ser penalizadas impunemente sem que ninguém tome qualquer atitude? O que se faz necessário para que voltemos à normalidade?

E o que diz a Lei?

Este modelo ZFM, recém promulgado em seus direitos, por mais 50 anos, na Constituição Federal, tem sido alvo da ilegalidade constante na gestão federal de seus preceitos. Isso, porém, não desestimula a insistência pelo apelo constitucional. Em seu artigo 9º, e ainda na Lei Federal nº 7.783/89, estão assegurados os direitos de greve a todo trabalhador brasileiro, inclusive dos setores considerados essenciais, sejam de gestão pública ou privada. Qualquer discussão sobre greves, incluindo de policiais militares, que estão explodindo em diversos entes federativos, obriga quem discute a conhecer a lei. Diz o artigo 9º da Constituição de 1988: É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender. § 1º – A lei definirá os serviços ou atividades essenciais e disporá sobre o atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade. § 2º – Os abusos cometidos sujeitam os responsáveis às penas da lei. Já a lei 7783/89 dispõe em seu Art. 1º É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender.  Art. 2º Para os fins desta Lei, considera-se legítimo exercício do direito de greve a suspensão coletiva, temporária e pacífica, total ou parcial, de prestação pessoal de serviços a empregador”. Cabe chamar a atenção para o que a Lei chama de PREJUÍZO IRREPARÁVEL Art. 9º Durante a greve, o sindicato ou a comissão de negociação, mediante acordo com a entidade patronal ou diretamente com o empregador, manterá em atividade equipes de empregados com o propósito de assegurar os serviços cuja paralisação resultem em prejuízo irreparável, pela deterioração irreversível de bens, máquinas e equipamentos, bem como a manutenção daqueles essenciais à retomada das atividades da empresa quando da cessação do movimento. Parágrafo único. Não havendo acordo, é assegurado ao empregador, enquanto perdurar a greve, o direito de contratar diretamente os serviços necessários a que se refere este artigo. O mesmo se aplica ao que a Lei, no Art. 11 determina como NECESSIDADES ESSENCIAIS DA COMUNIDADE. Art. 11. Nos serviços ou atividades essenciais, os sindicatos, os empregadores e os trabalhadores ficam obrigados, de comum acordo, a garantir, durante a greve, a prestação dos serviços indispensáveis ao atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade.  Parágrafo único. São necessidades inadiáveis, da comunidade aquelas que, não atendidas, coloquem em perigo iminente a sobrevivência, a saúde ou a segurança da população.

Considerações Finais

Isto posto, e invocando no repertório de lembranças adversas de qualquer cidadão, ou cidadã, chefe de família – no Amazonas, mais da metade dos chefes de família são as mulheres – que perdeu o emprego e começou a contemplar a deterioração da saúde, no sentido amplo do termo, e de todas as sequelas que daí advém, é fácil vislumbrar o caos a que estamos todos sujeitos – poder público, trabalhadores, empreendedores e demais atores sociais – se não formos capazes de buscar a sabedoria do entendimento, da negociação sadia, que resguarda o essencial, prioriza a dignidade humana e protege as pessoas, no sentido amplo dessa representação social, sujeito e objeto de toda as iniciativas que se impõem para encontrar saídas inteligentes e justas em nome da harmonia social. Wilson Périco – Presidente do Centro da Indústria do Estado do Amazonas.

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Polo Naval, dá para acreditar? Parte II

Os recentes escândalos revelados pela mídia apenas confirmam a hipocrisia generalizada e banalizada – maniqueísta e irracional – com a qual corremos sério risco de nos acostumar. Vetos ao Polo Naval, BR-319, Avenida das Flores, quaisquer iniciativas que mexam com o bolso dos bacanas…, é imensa a lista das restrições impostas pelos órgãos ambientais, patrimoniais e que tais, muitos deles vendedores frequentes de dificuldades na perspectiva, às vezes descarada, de facilidades. Chamam a atenção os vetos de PPB, processos produtivos, dos novos produtos para o polo industrial, onde os censores se declaram na pratica mais legais do que a Lei. Curiosamente, há vetos em que empresas vinculadas ao núcleo do poder político manipulam a proibição através dos censores de plantão. No caso dos novos itens, o veto se dá mesmo que a Constituição proíba apenas 5 itens para instalação no polo incentivado industrial de Manaus: armas, munições, fumo, perfume e automóveis de passeio. Falta pudor, sobra hipocrisia. E fazemos de conta que é assim mesmo…

O polo naval de Manaus, na verdade, não deve sair do papel porque, além “das 19 (ou 29?) comunidades tradicionais que ali vivem” – que devem efetivamente ser ouvidos, pois padecem de demandas efetivas de saúde, educação, moradia e segurança – o governo estadual ou eventuais parceiros privados não vão ter bala, digo, Plata, na agulha ou na burra, para pagar as indenizações milionárias que os magnatas da região vão cobrar pelas indenizações de suas glebas no entorno do projeto. Indenização, aliás, foi transformada em mecanismo frequente de subtração dos recursos públicos. Ex-executivos de alto escalão do estado, magistrados aposentados, empresários e companhias ali mantém luxuosos refúgios e disputam a beleza da região e a veracidade de suas escrituras. Eles não vão abrir mão de suas estâncias para a modernização industrial dos estaleiros da orla de Manaus. Da Ponta Negra ao Puraquequara, o que mais se vê, a partir do rio, é o caos da indústria mais antiga da Amazônia, os estaleiros regionais. Sem licenças nem questionamentos dos poderosos fiscais, eles geram emprego, renda – alguns muita poluição ambiental- e metade deles usufrui da sonegação permitida pela informalidade. Outros, declaram abertamente o “ caminho das pedras para a formalização sem embaraços”. Enquanto isso, os arautos fortuitos do meio ambiente, aqueles que se mobilizam apenas sob o foco da autopromoção e circunstâncias, viram de costas para o caos urbano e cotidiano instalado na orla de Manaus, se lixam literalmente com a ordenação da ocupação antrópica, aloprada e predatória da informalidade de alguns estaleiros, nem cobram medidas socioambientais compensatórias para as grandes empresas de construção naval ali instaladas.

Se navegar é preciso, como recomendam os alucinados viajantes lusitanos, é preciso parar para acertar antes de desembarcar neste enrosco chamado construção do polo naval. Parar para, abertamente, desmobilizar a hipocrisia de suas proibições, como a que vetou, recentemente, a BR-319, a rodovia, já existente, que liga Manaus ao resto do Brasil. Esta rodovia, segundo a Rede Globo, ou Amazônica, foi dinamitada anos atrás para complicar sua recuperação. E, segundo o Dnit, órgão do ministério dos Transportes, não param em pé as proibições ambientais do governo contra a BR-319. “Eles temem as pressões internacionais e não querem repassar os recursos necessário para o empreendimento”, diz o titular regional do Departamento. Quem lucra com isso? Quem financia o ambientalismo de ocasião, quem explodiu o leito da tal estrada, quem manipula a boa vontade de alguns procuradores e a má-fé de outros, empenhados nos sucedâneos dos vetos? Hipocrisia tem limite. Na TV, o procurador da República, Daltan Dallagnol, coordenador da Força-Tarefa da Operação Lava Jato, além das 10 medidas de combate à corrupção, sugere o combate da hipocrisia, ao lembrar que a roubalheira impune no Brasil ocorre com PT, PSDB, e já foi objeto de alerta do padre Antônio Vieira, no século XVI: “…eles não querem nosso bem e sim nossos bens!”.

Brasil e Japão, lições de 120 anos de amizade

Nesta sexta-feira, as entidades da indústria, CIEAM e FIEAM, a Câmara Nipo-Brasileira e o Consulado do Japão em Manaus celebram os 120 anos da Amizade entre Brasil e Japão. O local escolhido foi uma escola pública, Escola Áurea Pinheiro Braga, num bairro de trabalhadores, a Compensa. Presente, o Centro da Indústria do Estado do Amazonas, numa linguagem direta às crianças e adolescentes, tratou de destacar algumas das grandes lições e benefícios para o país e para a Amazônia, resultantes desta amizade.  Representado por Ronaldo Mota, diretor executivo do CIEAM, seu presidente Wilson Périco, destacou que, desde os primeiros anos de escola, descobrimos o valor e a importância de uma boa amizade. “E por ser algo tão importante, podemos dizer que a amizade é um presente dos céus para aproximar as pessoas do Bem. Por isso, celebrar esta festa de 120 anos de amizade entre o Japão e o Brasil, podemos lembrar o bem e as lições desta história de dois grandes amigos. Vamos falar, especialmente, de três lições.

A lição de amor à Natureza.

Por toda a gravidade das ameaças do clima, as catástrofes naturais, o desequilíbrio decorrente do modelo predatório de progresso adotado por esta civilização, vamos primeiro lembrar do significado da Celebração das Cerejeiras na história do respeito, da amizade e da união com a natureza, a vida e o próximo que aprendemos dos irmãos japoneses quando celebram a florada das cerejeiras no Japão. Um momento sagrado que recomenda a reunião da humanidade com a natureza, com os nossos semelhantes e a nossa história, uma lição preciosa, emergencial, no mundo atual ameaçado pelas mudanças climáticas, pelas guerras e pelo egoísmo. Os samurais, os guerreiros japoneses, veneravam a flor de cerejeira, a beleza eterna da Natureza associada à efemeridade da existência humana. Daí o lema dos samurais: viver o presente sem medo. Existe coisa mais sábia e oportuna do que esta lição neste momento sombrio. A cerejeira fica pouco tempo florida, por isso suas flores representam a fragilidade da vida, cuja maior lição é aproveitar intensamente cada momento, pois o tempo passa rápido, a vida é curta, as oportunidades e a luta não podem ficar para depois.

A lição da resistência e da luta

Há 60 anos a bomba atômica inventada pela estupidez humana destruiu duas cidades históricas do Japão. Hiroshima e Nagasaki. O povo japonês não ficou intimidado. Eles não fugiram da luta pela vida, muito pelo contrário. Se uniram, e se tornaram uma das nações mais prósperas do planeta, mais unidas e determinadas. Hoje, muitos países escolhem o caminho da guerra em nome da paz. Uma insanidade sem tamanho, pois o que gera paz e estabilidade não é o armamentismo e a ostentação de força, mas a conciliação e a prosperidade. Essa deveria ser a lição dos monstruosos horrores da Segunda Guerra Mundial, não só para o Japão, enquanto vítima e pretexto americano para impor-se ao mundo, mas também para os demais protagonistas políticos e militares da região. União, amizade, dar-se as mãos são lições eternas e necessárias que emanam da celebração piedosa dos 60 anos de Hiroshima e Nagasaki. Bomba atômica nunca mais!!!

As fibras da Amizade

O Ciclo da Borracha na Amazônia produziu muita riqueza e ajudou a sustentar o Brasil por três décadas. Os historiadores afirmam que, neste período, a Amazônia contribuiu com 45% do Produto Interno Bruto, toda a riqueza gerada por um país. Quando acabou, restou por toda a floresta a angústia do abandono, das penúrias e da pobreza. Foi quando os japoneses vieram para a Amazônia e trouxeram as fibras vegetais da amizade, com a juta e a malva, gerando uma riqueza importante para nossa gente. Durante muitos anos, antes da implantação do modelo Zona Franca de Manaus, os japoneses contribuíram decisivamente para disseminar uma cultura de fibras naturais e promoção social, gerando esperança e conquista de dias melhores.  Depois vieram as fibras da dedicação e talento humano com os investimentos das empresas japonesas no polo industrial de Manaus. Ainda hoje, as empresas permanecem apostando na Amazônia, a despeito das dificuldades e instabilidade que este modelo representa. Assim, com uma presença de colaboração e fraternidade tem sido construída e consolidada uma bela trajetória de união entre o Brasil e o Japão, uma história de amizade, crescimento e benefícios para todos. Vida longa à solidariedade universal e parabéns ao Brasil e ao Japão por esta edificação fraterna e exemplar. Muito Obrigado, Arigatô!!!”

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