Gastos tributários  ou patifaria intermitente?

Misturando carimbó com toada, a jornalista Zeina Latif, do jornal O Estado de São Paulo,  parceira do economista Marcos Lisboa na artilharia contra a Zona França de Manaus, voltou a atacar, neste sábado,  os “gastos tributários” com a Região Norte, destacando o modelo da Suframa como “o mais beneficiado relativamente”. Diz a matéria: “São R$ 36 bilhões em 2015, sendo R$ 28 bilhões referentes aos benefícios da Zona Franca de Manaus (ZFM), enquanto que a arrecadação federal na região totaliza apenas R$ 32 bilhões.” Como se tratam de pessoas que já provocaram diversas matérias, é improvável a tese da desinformação inocente.  Latif e Lisboa,  seu parceiro de agressões inoportunas, sabem que não há custeio público no modelo industrial da Zona Franca de Manaus. A União deixa de arrecadar nos moldes de outras plantas industriais, mas se o fizesse nada ficaria para recolher, pois não haveria Zona Franca de Manaus. Nenhum centavo sai da União para as empresas aqui instaladas. A isenção parcial de impostos só se aplica a partir da inserção do produto no mercado.

E se não houvesse o modelo, como a jornalista sugere implicitamente, não haveria renúncia nem essa generosa remessa de recursos federais à União. Haveria o modelo predatório dos estados vizinhos, é muito narcotráfico. Criado para reduzir as desigualdades regionais através de renúncia fiscal, o modelo ZFM foi transformado nos últimos anos num exportador de recursos para a União. A maior parte, 54,42% da riqueza produzida pelos benefícios fiscais, volta para os cofres da União de acordo com os estudos feitos pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade FEA/USP. Além disso, o modelo deixa de recolher alguns impostos mas a União se locupleta com os impostos da rede de serviços que a ZFM cria em todo território nacional e com os impostos das  plantas industriais, do tamanho de três ZFMs,  funcionando no Sudeste, principalmente  em São Paulo,  para abastecer com insumos o polo industrial de Manaus. Além disso,  a distribuição, serviços, assistência técnica, securitização… geram  aproximadamente 2 milhões de empregos,  em toda a cadeia produtiva em sua extensão nacional. Que outros formatos tributários são assim tão generosos em acertos?

E o Amazonas é um dos oito estados da Federação que mais recolhem do que recebem recursos da União. E se a questão é a métricas dos benefícios, não há qualquer disposição aparente da dupla de atiradores, a serviço sabe-se-lá de quem, a especular que os  benefícios seriam maiores para esta parcela esquecida da brasilidade se os recursos de Pesquisa e Desenvolvimento e as Taxas da Suframa, recolhidas ambos junto às empresas locais, não fossem confiscados pela União progressivamente ao longo de mais de uma década, R$ 50 bilhões, segundo o ex-superintendente da Suframa. Thomaz Nogueira . Este modelo gera, sim, muitos benefícios não só ao Amazonas, mas ao Brasil, os brasileiros que consomem os produtos fabricados aqui. Esse discurso raivoso da renúncia é risível se esta for comparada à renúncia histórica da indústria automobilística. Aqui, as empresas instaladas, comprovadamente, lucram menos que outros arranjos industriais do país, mesmo assim patrocinam integralmente o orçamento da Universidade do Estado do Amazonas, a maior universidade multi-campi do planeta, presente em 62 municípios, além dos fundos estaduais de turismo, fomento e interiorização do desenvolvimento, que permitem, por exemplo, financiar os projetos de cadeias produtivas no interior. São mais de R$ 1,3 bilhão anual de investimentos, entre universidade, Centro de Educação Tecnológica, turismo e programas de agroindústria para a população ribeirinha. Desconhecer que a ZFM não implica em gastos tributários leva a concluir que este ataque não passa de mais uma patifaria intermitente.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

Artigos Relacionados

ANOTAÇÕES PARA O NOVO LUSTRO DA ECONOMIA BRASILEIRA: 2026 A 2030 -A GRANDE TRANSFORMAÇÃO – Parte VIII

Economia brasileira pressionada por sistemas empresariais mal estruturados, crescimento...

Congresso acelera debate sobre mineração em terras indígenas após decisão do STF

Decisão judicial expõe disputa entre interesses econômicos, direitos indígenas...

Entre impostos , dívidas e apostas, a renda encurta 

“O Brasil entrou em uma fase curiosa e preocupante...

A Amazônia diante de um mundo em ruptura

Geopolítica instável, economia sob pressão e inteligência artificial reconfiguram...