Casa Blog Página 1513

Entrevista com o professor Jaques Marcovitch

Jaques Marcovitch
Professor Jaques Marcovitch (Foto: Divulgação/FEA-USP)

“Inexiste lugar no Brasil tão propício a experiências avançadas em biotecnologia ou procedimentos de integração e reencontro do homem com a natureza”

Observador participante do desafio amazônico – de compatibilizar crescimento econômico, atendimentos das demandas sociais conservação ambiental – o Professor Jaques Marcovitch, por seus estudos e compromissos de brasilidade, fala com autoridade sobre entraves e possibilidades de gestão inteligente desta região emblemática. Um de seus recentes mergulhos na região foi a inclusão dos Empreendedores da Amazônia na galeria dos Pioneiros do Brasil, na Construção do Século XXI, programa de pesquisa e desenvolvimento socioeconômico da FEA/USP, a Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo. Jacques Marcovitch é Professor da FEA e do IRI da USP, da qual foi reitor de 1997 a 2001. Autor das obras “A Gestão da Amazônia – Ações Empresariais, Políticas Públicas, Estudos e Propostas” e da trilogia “Pioneiros & Empreendedores: A Saga do Desenvolvimento no Brasil”. Ele recebeu a Follow-Up para uma entrevista, confira:

Follow-Up – Com o programa Pioneiros e Empreendedores, a construção do Século XXI, a USP reafirma seu DNA de atuar – com a qualificação de recursos humanos – decididamente no avanço da cidadania e do crescimento social, econômico e científico do país. Como traduzir este papel num país fragmentado pelo descrédito, com uma juventude sem utopia e uma sociedade sem referência?

Jaques Marcovitch – A fragmentação nos dias de hoje não se restringe ao Brasil, que além deste fenômeno global enfrenta problemas conjunturais de notória magnitude. A desesperança e o declínio das utopias, referidas na pergunta, são desafios reais, principalmente quando afetam as novas gerações, que também respondem pelo futuro. Entretanto, devemos considerar que existe na própria juventude o seu núcleo de resiliência a esse descrédito. Como professor, tenho percebido entre os estudantes nítidos movimentos em busca de projetos de vida significativa e de engajamento na busca de soluções para os grandes desafios nacionais. A pesquisa “Pioneiros & Empreendedores”, em sua exposição itinerante, vem detectando, nos programas educativos que apresenta, um grande interesse dos jovens pelos exemplos dos pioneiros biografados e valores que orientaram suas vidas.

FUp – A universidade de São Paulo se volta para o Brasil e investe em sua integração ao visitar os pioneiros de cada região. Como fazer da relação academia, economia e crescimento, um fator de redução das desigualdades regionais?

JM – É histórica e aparentemente insanável a assimetria econômica e social das cinco regiões do Brasil e mesmo de suas unidades federativas. A Amazônia é o caso mais representativo. Falhas evidentes no discurso da sustentabilidade são, pela ordem, a omissão do drama social, o esquecimento do entorno da floresta e o foco exclusivo no desmatamento. Mostram-se deficientes os investimentos relativos à ocupação do solo urbano, saneamento básico, gerenciamento do lixo e geração de renda. Isso mantém milhões de indivíduos em habitações insalubres nas cidades e vilas do interior ou áreas periféricas das capitais. Cerca de 42% dos domicílios do Amazonas abrigam famílias com rendimento mensal de até dois salários mínimo. Esta é a região mais carente em coleta de esgotos, com apenas 12% do total de residências beneficiadas. Cerca de 37% dos municípios não dispõem de água canalizada, o que caracteriza uma penúria superior a do Nordeste brasileiro. É claro que a universidade sendo pública e comprometida com os anseios de cidadania deve orientar seus estudos para a formulação de políticas públicas engajadas na erradicação destas desigualdades. Os cientistas e pesquisadores na Amazônia ou fora dela devem ter os olhos postos neste quadro. Não é demais lembrar o conceito de Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, para quem o desenvolvimento não é a transformação das economias dos países, e sim a transformação da vida das pessoas.

FUp – A FEA/USP fez um recente trabalho sobre o Fundo Amazônia e constatou a distância entre demandas regionais e projetos de mudança. Quais os principais desafios para a gestão da Amazônia e como envolver a parceria entre as instituições nacionais de ensino e pesquisa neste desafio?

JM – A problemática da Amazônia é demasiado abrangente e inclui questões sociais, preservação da biodiversidade, infraestrutura científica, gestão das águas, modelo de desenvolvimento e outros múltiplos aspectos. O Fundo Amazônia é um microcosmo dos projetos que caracterizam essa realidade complexa. Marca uma conquista brasileira no debate internacional e vem sendo aperfeiçoado sob a gestão do BNDES. Seu pano de fundo é a sonhada remuneração internacional por serviços ambientais. Financiado em grande parte pela Noruega e Alemanha, tem por objetivo captar doações para viabilizar investimentos não reembolsáveis em ações de prevenção, monitoramento, combate ao desmatamento, promoção da conservação e do uso sustentável das florestas no Bioma Amazônia. Sobre as metas pretendidas e sua atuação gestora, o BNDES informa que o Fundo deverá deixar para a Região um legado de atores locais capacitados, financeiramente sólidos, transparentes, responsáveis e aptos a manter uma nova dinâmica de desenvolvimento sustentável. Para tanto foi montada uma estrutura representativa da sociedade civil, a qual responde pela emissão das diretrizes gerais, cabendo, em tese, a um comitê formado por especialistas a relação com as instituições que apresentam e desenvolvem os projetos. De fato aconteceu, no âmbito da FEA/USP, um estudo focado em Pagamento dos Serviços Ambientais, com ênfase no Fundo Amazônia que se distingue por sua potencialidade e simbolismo no debate da cooperação internacional. Partimos de uma pesquisa junto a proponentes de projetos e convidamos a direção do BNDES para esclarecimentos. A principal informação obtida foi a de que o Fundo prioriza financiamentos a projetos que contribuem direta ou indiretamente para a redução do desmatamento na Amazônia levando em conta seus impactos econômicos e sociais. Tudo considerado, faz-se necessário estabelecer uma unidade do Fundo Amazônia na região Norte com profissionais recrutados localmente para orientar por meio de atendimento direto, cursos de capacitação e apoio à institucionalização dos movimentos, de modo a ampliar o alcance dos projetos e seus impactos positivos na região. Urge também a criação de redes institucionalizadas, via parcerias, para a implantação de programas e projetos que levem em conta as peculiaridades da região e adversidades que lhe são pertinentes. O estudo da FEA/USP teve por foco a governança do Fundo Amazônia com o objetivo de otimizar a utilização dos recursos disponíveis. Entre outras medidas o estudo sugere que se abrevie para 180 dias, no máximo, o tempo de análise de cada projeto para elevar a eficiência no uso dos recursos além de diminuir o custo incorrido pelas entidades proponentes. Aprovados os projetos, o monitoramento local reduziria o risco de alocar recursos que em seguida não são desembolsados em decorrência da baixa de execução dos projetos. Para isso, a quantificação adequada e a fixação de métricas é também indispensável nas iniciativas de sustentabilidade. Será indeclinável explicitar as métricas de insumos, de resultados e de impactos por projeto nos Relatórios de Atividades do Fundo Amazônia, emitidos periodicamente. Cabe lembrar a importância de disponibilizar uma memória técnica com o histórico dos projetos apoiados e também a urgência de implantar uma rede do Fundo Amazônia na Região Norte, integrada por cientistas locais, com alguma latitude para recorrer, em sintonia com as proponentes, de algumas decisões tomadas pelo BNDES.

FUp – No Acordo de Paris, sobre as questões do Clima, a Amazônia tem um papel e uma atenção global. Como fazer com que os atores locais assumam o protagonismo dessas ações e responsabilidades?

JM – A Amazônia é o pilar em que se apoiam quase todos os compromissos do Brasil na COP 21. O Brasil assumiu em Paris, o compromisso de reduzir a zero até 2030 o desmatamento ilegal. Além disso, o governo se comprometeu a compensar as emissões de gases de efeito de estufa provenientes da supressão legal da vegetação. Para honrar tais responsabilidades uma das metas é o restauro e florestamento de 12 milhões de hectares, além da ampliação dos sistemas de georeferenciamento e rastreabilidade aplicáveis ao manejo de florestas nativas para desestimular práticas ilegais e insustentáveis. Para que os atores locais detenham e aprofundem o protagonismo nas ações e responsabilidades em relação ao seu grande bioma, é importante um envolvimento cada vez maior nas tarefas preservacionistas em curso na Região. O monitoramento, a prevenção e a repressão foram determinantes na redução da taxa anual de desmatamento, que era de 28 mil quilômetros quadrados em 2004, e decresceu para 5 mil quilômetros quadrados em 2015. O desmatamento é, sem dúvida, o grande exterminador das potencialidades existentes neste bioma. Já se evidencia, entretanto, o fortalecimento de mecanismos e diretrizes para submetê-lo. A começar, sobretudo, pela convicção de que é preciso reduzir drasticamente os ganhos das forças nele envolvidas. Estas forças respondem por suas causas pontuais, antes exclusivamente focadas na grande lavoura de soja. Na verdade, o desmate é consequência de outros plantios, os itinerantes, que provocam as queimadas; de uma pecuária destrutiva, sem regras técnicas ou preocupações legais; e, sobretudo, da extração predatória da madeira. Um aspecto não suficientemente difundido é a culpa da pecuária no desmatamento e nas queimadas, quase sempre atribuído apenas à indústria madeireira ilegal. O futuro pode estar na Amazônia. Não há lugar no Brasil tão propício a experiências avançadas em biotecnologia ou procedimentos de integração e reencontro do homem com a natureza. A região oferece todas as precondições para a realização do sonho ambientalista. O caminho para isso, entretanto, não é mais a estrada curta da utopia. Aí estão fatores emergentes de ordem econômica e política, incluindo aspectos de uma nova sociedade jamais imaginada pelos visionários de ontem.

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. 
Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

Descanse em paz, companheiro Athaydes!

Athaydes Mariano Felix (Foto: Divulgação)
Athaydes Mariano Felix (Foto: Divulgação)

Talvez não tenhamos detalhes de arroubos a destacar na trajetória do guerreiro Athaydes Mariano Felix, até porque os guerreiros de verdade não precisam de destaque individual quando se irmanam a seus pares, transpiram os mesmos ideais, comungam das mesmas inquietações e tem plena consciência de que precisam de muitas guerras para sorver em conjunto o licor da vitória. E cada conquista remete sempre a uma única certeza: a luta continua. Obrigado, Athaydes, pelo testemunho de obstinação em defesa da Zona Franca, de sua interiorização e integração com uma desejável e robusta política industrial brasileira. E parabéns pelo exemplo de peleja diuturna em favor do setor produtivo do Amazonas. Sentiremos sua falta, mas sua lembrança estará presente, sempre e quando estiverem em jogo os destinos de nossa terra. Descansa em paz, dileto companheiro!!!

CIEAM entra no debate

Propositor insistente da busca de novos caminhos, modulações alternativas da economia local e regional, o presidente do CIEAM, Wilson Périco, já fez saber ao país que este modelo para se manter hígido, respeitado, integrado a política ambiental, industrial e de ciência e tecnologia do país, precisa diversificar. Foi nesse contexto que o líder empresarial apontou algumas sugestões e questionamentos, a seguir listadas, na discussão da Matriz Econômica e Ambiental do Amazonas. E o fez a partir da seguinte questão: o que a indústria espera e pode contribuir com esta iniciativa do poder público na busca de Novas modulações econômicas para o Amazonas?

“EXPECTATIVAS E CONTRIBUIÇÕES DA INDÚSTRIA:

  1. Queremos, sobretudo, a construção das novas oportunidades de emprego e renda, que o aproveitamento da vocação de negócios regionais pode oferecer. É duro carregar o ônus do desemprego, como se isso fosse responsabilidade do empreendedor. Com novos empregos, a economia volta a rodar e a apontar o caminho da recuperação. Temos boas notícias da iniciativa do Banco do Povo que está promovendo ações de crédito na capital e no interior para abrir espaços de pequenos empreendimentos com os recursos da Afeam, a agência estadual de fomento, que utiliza recursos do FMPES.
  1. Nesse contexto, a nova matriz econômica ambiental precisa ser mais econômica que ambiental, afinal, não há como cuidar do meio ambiente com o desemprego. Desconhecemos mecanismos de preservação ambiental que dispensa a base econômica. A legislação ambiental no Amazonas precisa ser olhada do ponto de vista do fator humano. É ridículo, para não dizer obscuro, obstar a modernização portuária alegando risco de comprometer a sobrevivência do morcego pescador, como já foi argumentado por técnicos do órgão ambiental local.
  1. Temos referências promissoras para a produção de agricultura com base tecnológica de caráter orgânico, pois esta é a via inteligente para atender às exigências de segurança alimentar do mercado Por isso, as novas matrizes no setor de alimentos podem integrar-se, como faz o Peru, na produção de agricultura orgânica, numa integração inteligente e até publicitária com a agenda de desenvolvimento, sustentável e global.
  1. Integrar-se com as políticas públicas nacionais – infelizmente, já é um outro departamento, pois inexiste integração, muito menos política pública que inclua a economia da ZFM e nem disposição da Pasta do Desenvolvimento em recomendar parcerias com as políticas de diversificação e interiorização deste modelo. É mais fácil, além de preocupante e deprimente, recomendar que as empresas brasileiras invistam no Paraguai, algo escabroso se detectado entre as ações de um Ministério. O Amazonas segue a própria sina de um Estado apartado, excluído do Programa Nacional de Banda Larga e transformado em exportador de recursos para os cofres federais.
  1. Iremos a lugar algum com a Nova matriz Econômica Ambiental do Amazonas, se continuar o boicote da conexão rodoviária do Estado com o restante do país, com a recuperação da BR 319, cujos inimigos federais contam com aliados locais. Chega de enrolação e hipocrisia, em nome de interesses inconfessos! Chega de confisco das verbas aqui arrecadadas. Essas verbas, diz a Lei: “Os recursos provenientes da TSA serão destinados exclusivamente ao custeio e às atividades fins da Suframa, obedecidas as prioridades por ela estabelecidas”. Portanto, deveriam estar sendo utilizadas para diversificação do desenvolvimento, com inovação tecnológica e biotecnológica das cadeias setoriais. Chega de boicote às alternativas energéticas, notadamente aquela que aproveita as vocações regionais de produção de energia limpa, como a alternativa solar. Chega de fogueira das vaidades que impediram nos últimos 10, 11 anos o florescimento do polo de bioindústria com o fortalecimento institucional e funcional do Centro de Biotecnologia da Amazônia.
  1. E chega, sobretudo, desta visão tacanha que descreve a postura de alguns gestores e pesquisadores que tratam P&D como extensão de seus domicílios bancários e antídotos das próprias crises existenciais. A hora é de somar, conjugar o verbo construir na primeira do plural, identificar os avanços ensaiados, valorizar o saber local, não apenas acadêmico, mas especialmente o saber tradicional, ponto de partida de investigação e ação focada no interesse social e no mercado que desembarca na prosperidade.
  1. A indústria precisa apostar na própria competitividade, para recuperar seus ativos e resguardar sua sobrevivência, reduzindo sua folha de custos com o controle de qualidade, comprometida com o transporte das mercadorias na buraqueira do Distrito Industrial. Uma folha de custos que alcança 20% com as despesas da logística de transportes. E ainda: o custo elevado da alimentação, quase toda comprada em outros estados, quando poderia ser produzida no Distrito Agropecuário da Suframa.
  1. Com recursos da indústria, estimulados pela Afeam, os produtores de guaraná orgânico de Urucará desenvolveram biodefensivos agrícolas, ou seja, além do guaraná e da Marapuama, eles dominam a técnica dos bioinseticidas. Existem, em ação carente de respaldo, os produtores de café do Nova Olinda. Pouca gente sabe que o cafeeiro veio primeiramente para a Amazônia – Café Palheta – depois levado para o Sudeste porque aqui já havia a pujança da borracha.
  1. Alegra-nos representar um segmento que recolheu, nos últimos 5 anos, R$ 6,8 bilhões para os fundos de interiorização, turismo e qualificação técnica e académica da juventude. “Queremos continuar participando na gestão desses recursos, promover a inovação, sugerir qualificações técnicas coerentes, incentivar o plantio racional e extensivo da seringueira para atender a indústria local, conversar e aprender com os plantadores de castanheiras e pupunheiras, e oferecer tecnologia de bioindústria de cosméticos, nutracêuticos, fitoterápicos, insumos dos extratos vegetais para a bioindústria do Polo Industrial de Manaus.
  1. E só assim, alinhados, poderemos dialogar, permanentemente, sobre o significado da integração entre os segmentos sociais para resguardar a competitividade empresarial na Matriz Econômica Ambiental do Amazonas”.
Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. 
Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

UEA: legado, compromisso e futuro

A Universidade do Estado do Amazonas, o maior legado do modelo ZFM, completa 16 anos. Assim como a Universidade Federal do Acre, entre outras ações de qualificação dos recursos humanos, este representa a certeza do melhor caminho para a construção do futuro desta região. No limite, em vez de dizer que é o melhor, sob diversos pontos de vista, este é o único caminho para equacionar, pela via da qualificação dos recursos humanos e da inovação tecnológica, os entraves que separam a gestão da prodigalidade dos recursos naturais amazônicos em oportunidades efetivas de prosperidade geral. E qual a vocação de uma Universidade no Estado do Amazonas com a maior distribuição multicampi do Brasil, quiçá do planeta, presente em todos os municípios do interior? Certamente não é porfiar com instituições congêneres de outras regiões do país, abastecidas de infraestrutura de transportes, comunicação e energia, e da oferta de recursos humanos para cumprimento de suas finalidades e programas. Daí a importância relativa, a rigor secundaria, de indicadores de desempenho como o RUF, Ranking Universidade da Folha. O destaque da UEA será sempre sua habilidade em formular parcerias e socializar o papel e desafio que é decifrar as oportunidades e fragilidades do bioma amazônico, suas potencialidades de negócios socialmente promissores, ambientalmente equilibrados e economicamente rentáveis. O polo produtivo de Manaus, de onde a União retira mais da metade da riqueza aqui gerada, contribuindo, dados da Suframa, com mais de R$ 50 bilhões líquidos nos últimos 10 anos, jamais poderia ser chamado de paraíso fiscal. Aqui as empresas instaladas, recolhem mais recursos para o poder público que as outras plantas produtivas do Brasil, se associa as festividades de mais um aniversário da UEA, o maior legado deste projeto, a ZFM, o mais acertado modelo de desenvolvimento regional do Brasil fundado em renúncia fiscal. E é gratificante, do ponto de vista de um investidor, poder contribuir com a formação acadêmica de dezenas de milhares de jovens e adultos desta região e de outros quadrantes nacionais que aqui aportam. São 550 indústrias instaladas na região que financiam integralmente a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), somando investimentos anuais de R$ 400 milhões que garantem a manutenção do ensino e pesquisas realizadas pela instituição. Única presente em todas as cidades de um estado, o feito é ainda mais relevante por se tratar do Amazonas, com suas dimensões continentais e regiões isoladas pela natureza e infraestrutura precária. Entretanto, deixar um legado de caráter eminentemente educacional, de preservação e dinamização da cultura, da potencialização de talentos, de afirmação de valores, e criação de novos caminhos de realização profissional, pessoal, social e familiar é algo que, decididamente, tem valor e gratificação inestimável.

Aproximação necessária

Uma passeata dos alunos da Escola Superior de Tecnologia, há três  anos, com faixas e palavras de ordem, exigindo professores na área de Engenharia e Afins, além de gratificar quem acompanhou o feito – não é todo dia que alunos vão às ruas para exigir mais professores – motivou o Centro da Indústria do Estado do Amazonas, que representa as empresas mantenedoras da instituição a buscar  a direção da UEA para propor maior interatividade e debater demandas comuns e eventuais projetos compartilhados que pudessem dinamizar a relação entre academia e setor produtivo. Surgiu, então, com apoio e presença da Federação da Indústria e a Fundação de Amparo à Pesquisa, a formação de um grupo de trabalho para levar adiante essa aproximação, considerada necessária, salutar e emergencial sob todos os pontos de vista. Ainda não foi autorizado pela lentidão burocrática a composição do Conselho Curador onde tenha assento as entidades que representam as empresas mantenedoras, mas desde então uma interação entre os parceiros já se consolidou num Grupo de Trabalho que está funcionando. A expectativa do setor produtivo, longe de interferir na autonomia universitária, é promover a partilha de conhecimentos e procedimentos a serviço do desenvolvimento e da prosperidade geral, de tal forma que a construção da indústria do conhecimento fosse o resultado mais imediato desta parceria. Trabalhar em conjunto, formular propostas e desenhar cenários de prosperidade e progresso, em última instância, significa apostar no compromisso de que é mais inteligente e eficiente dar saltos permanentes de qualidade quando os caminhos e desafios são compartilhados. Tecnologia, Biotecnologia, Educação, Gestão, entre outras áreas do saber e do fazer, em interação, vão apontar as saídas de um novo tempo.

O nó da competitividade industrial

Convidado para o debate sobre a nova Matriz Econômica Ambiental do Amazonas, na discussão iniciada nesta segunda-feira, entre os atores públicos e não-governamentais, o presidente do CIEAM, Wilson Périco,  ao falar  sobre Competitividade Industrial no contexto do novo programa do governo, lembrou que o setor produtivo está fazendo sua parte, e que as entidades tem alertado o poder público há alguns anos sobre os gargalos de expansão do crescimento, razão pela qual a indústria vem encolhendo sua atuação e, consequentemente, a contribuição social. Há 11 anos, quando promoveu entre seus associados um levantamento das principais dificuldades para insuflar o crescimento e assegurar a competitividade, o CIEAM tornou público e com dados estatísticos demonstrativos, o gargalo na logística dos transportes, fonte de custos inaceitáveis que inviabilizam a competitividade do setor industrial. Por R$ 300 não dá para pagar o serviço de um motoboy para ir e voltar dos aeroportos de Campinas e Guarulhos (SP) ou mandar uma caixa de Sedex com 5 kg de Manaus a São Paulo. Mas é dinheiro suficiente para pagar o frete de um contêiner com 20 toneladas de produtos da China para o Brasil. O valor do frete marítimo de contêineres entre a Ásia e o Brasil está até 85% mais baixo que o de 2014. É o menor da história da navegação entre os país, segundo o maior operador em atuação, a empresa Maersk. Em Manaus, isso não paga sequer a diária de uma carga que ficou retida no armazém de uma das empresas portuárias porque faltou fiscal do MAPA para liberar o contêiner. E por que essas mazelas perduram? Por que a questão energética não foi estabilizada, a despeito dos generosos repasses deste modelo ZFM para a União? Por que, apesar de tanta afinidade política da representação parlamentar com o grupo político no poder, fomos excluídos do Plano Nacional de Banda Larga? Isso sem falar na maldição burocrática, que consome recursos, talentos e planilhas de custo. Como competir com tantas forças públicas remando ao contrário?

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. 
Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

Esfarraparam-se as desculpas

Nesta segunda-feira, 29 de fevereiro, o governo estadual reúne a tribo para arrematar seu plano de trabalho e buscar sair da crise e da dependência quase exclusiva do modelo ZFM, a Zona Franca de Manaus. Trata-se da  Nova Matriz Econômica Ambiental do Amazonas, um plano de ação para consolidar alternativas de crescimento e renda. Cabem aqui algumas inquietações, quando vem à mente outros planos recentes, como Terceiro Ciclo, Zona Franca Verde, Amazonas Rural e, mais recentemente, o Plano Safra, do semestre passado. Todos fizeram água, no sentido do fracasso, e ninguém – o que é pior –  ficou preocupado efetivamente em investigar as razões objetivas. Com diferenças pontuais, todos esbarraram em problemas que o próprio Estado não priorizou resolver, como a burocracia perversa, a priorização de recursos para  obras com prioridade questionável, em detrimento do essencial. Não sobrou recurso para a Arena do empreendedorismo com suporte e flexibilização do burocratismo, a consolidação dos pilares de infraestrutura, como portos, hidrovias, energia e comunicação sem o que não há competitividade nem efetividade empresarial. Desse ponto de vista, a reunião para anunciar saídas  será inócua se não listar um programa de  financiamentos para projetos factíveis, acompanhado de outros três  programas, a saber, o de desburocratização, o de investimento em infraestrutura e de qualificação em C&T&I (Ciência, Tecnologia e Inovação).

Numa aula de empreendedorismo, disponível no portal  TED (Technology, Entertainment, Design, Tecnologia, Entretenimento, Design), destinado à disseminação de ideias, o economista Denis Minev demonstra que  é possível produzir 10 toneladas de proteína por hectare, em programas de piscicultura. Esta é a performance do Estado de Rondônia, sem incentivos fiscais como os da ZFM, mas que abastece Manaus e o resto do país com um irresistível tambaqui, matrinxã ou pirarucu. Isso significa que dá para produzir alimento de boa qualidade, baixo custo e sabor inigualável. O  inventário de áreas degradadas que o governo estadual acabou de fazer apontou 15 milhões de hectares, o que significa espaço para a produção potencial de 150 milhões toneladas de peixe, no padrão empresarial amazônico já consolidado. Em 2013, o Brasil produziu pouco mais de 2% deste potencial: 392.500 toneladas de peixes em cativeiro, com um valor desta produção de R$ 2,02 bilhões. A pecuária tradicional, por sua vez, produz 300 quilos de proteína por hectare, mas os sistemas agroflorestais da Embrapa utilizam tecnologia de redução territorial e multiplicação de resultados. A lista de arranjos das Novas Matrizes Econômicas para os programas a serem implementados é alentada e os recursos recolhidos pela indústria – para qualificar recursos humanos e financiar algumas dessas ações e os requisitos de infraestrutura que se impõem – alcançou nos últimos anos, preste atenção, R$ 6,8 bilhões. Este é o total dos FTI, Fundo UEA/CETAM e FMPES. Foram usados para o fim que a Lei determina?

Esta, portanto, será uma semana decisiva. Ninguém estará cobrando o que se fez com esse dinheiro até aqui, posto que, em alguns casos, foi usado em outras destinações. Não foram convocados os auditores das contas públicas, mas o interesse público não pode ser barrado no baile da mudança. Importa, portanto, combinar o daqui pra frente. E definir, além das estratégias operacionais do programa, e dos critérios de aplicação e auditoria transparente desses recursos, a métrica dos resultados, tanto da produção como do cumprimento do papel do Estado, como facilitador da transformação do programa em efetivas mudanças. Fica proibido o papel do vendedor de dificuldades ambientais e outras distorções burocráticas. Em lugar de proibir, urge construir saídas corretas e duradouras. É o que o Amazonas precisa. De resto, com todo respeito, não cabe mais falação inócua, que nos levará a lugar algum, exatamente aonde todos não queremos chegar. Esfarraparam-se, pois, as desculpas e nada nos resta senão antecipar e materializar o amanhã… preferencialmente de manhã.

ZFM 49 anos: construindo a Nova Matriz Econômica – parte II

“Os recursos estão aqui, apesar de tanto confisco, e para consolidar novas matrizes de revitalização da economia não precisamos ir de pires na mão a Brasília”, disse ao ministro Armando Monteiro o presidente do CIEAM, Wilson Périco, na última reunião do CAS (Conselho de Administração da Suframa), que completa 49 anos neste dia 28. Nos últimos seis anos, foram recolhidos aos cofres do governo federal, de TSA, Taxa de Serviços Administrativos – Suframa, aproximadamente R$ 2,5 bilhões. A ilegalidade da cobrança e, pior ainda, do confisco que detém recurso, reduziu drasticamente as ações de desenvolvimento e de diversificação econômica na região, única forma de reduzir a renúncia fiscal. No âmbito estadual, as empresas recolheram R$ 6,8 bilhões para FTI – Fundo de Turismo e Interiorização do, Desenvolvimento, destinado a criar oportunidades econômicas a partir das opções de atração de interesse turístico regional, Fundo UEA, e FMPES, para estimular micro e pequenas empresas. E no âmbito municipal foram, recolhidos, à parte Alvará e IPTU, R$ 3,2 bilhões do Polo Industrial de Manaus, onde, vale lembrar, taxas e fundos a parte, a União recolhe no Amazonas 50% dos impostos federais da Região Norte. Isso quer dizer, entre outras ilações, que este modelo é um acúmulo de acertos e de irradiação de oportunidades, embora a própria sociedade beneficiada, local e nacional, desconheça e, certamente por isso, não o defenda com a coerente veemência. E mais: seu papel de expansão nas suas potenciais matrizes econômicas, propiciado pela indústria instalada, não implica na remoção adicional de um hectare da cobertura vegetal. De acordo com Muni Lourenço, presidente da Federação da Agricultura do Estado do Amazonas, “…podemos desenvolver as novas matrizes econômicas e ambientais desenhadas pelo governo do Estado, mantendo a floresta nos patamares atuais de seus estoques naturais”.

Os próximos 50 anos

O dirigente da Embrapa Amazônia Ocidental, Marcelo Rossi é uma presença constante, disponível e angular no desenho deste novo cenário de economia inserida no bioma florestal amazônico. Reconhecida mundialmente por sua contribuição extraordinária no enfrentamento de um dos mais delicados e essenciais desafios da humanidade, a segurança alimentar, a Embrapa está aqui, com reputação de uma empresa como instituição geradora de conhecimento e inovação no Amazonas, onde está a quase 50 anos. Suas linhas de pesquisa e desenvolvimento na Amazônia Ocidental são: óleo de palma, guaraná, seringueira, banana, manejos florestais e silvicultura, cupuaçu, mandioca, aquicultura, sistemas agroflorestais, fruticultura, integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF), plantas medicinais, grãos e olericultura e fibras vegetais. O badalado é desejável imperativo da Biotecnologia já existe, funciona e gera benefícios há muito tempo na Embrapa, bem ali, no quilômetro 29 da Rodovia AM 10 – Manaus Itacoatiara. Desde os anos 90, a empresa faz para Biotecnologia de controle de pragas e doenças, propagação de espécies, e melhoramento genético. Para qualificar pessoa que possam levar adiante o cerne da proposta que será apresentado e debatida na próxima semana, buscando desenvolver novas matrizes econômicas e ambientais. São necessários, no mínimo, 15 anos de investimento em capital humano. Essas pessoas já existem e estão trabalhando dentro da Embrapa.

Economia, ecologia e biotecnologia

O Amazonas já pode anunciar algumas linhas de ação estratégica de produção sustentável que integre atividades agrícolas, pecuárias e florestais, com base tecnológica, com inovação em biotecnologia a partir da disseminação dos testados e aprovados sistemas agroflorestais. Um deles, pecuária, lavoura e floresta, realizando na mesma área, em cultivo consorciado, em sucessão ou rotação, e busca efeitos sinérgicos entre os componentes do agro-ecossistema, contemplam, por extensão, a adequação ambiental, a valorização do homem e a viabilidade econômica da atividade agropecuária. O objetivo deste sistema é a intensificação do uso da terra, fundamenta-se na integração espacial e temporal dos componentes do sistema produtivo, para atingir patamares cada vez mais elevados de qualidade do produto, qualidade ambiental e competitividade. Os índices de resultados deste sistema agroflorestal, em áreas antropizadas do Centro-Oeste, são positivamente assustadores, com taxas de 90% de aproveitamento dos resultados estimados. O governo do Amazonas promoveu um levantamento preliminar das áreas degradadas, ou antropizadas, por uso apressado ou mal planejado, para seu programa de diversificação da economia e consignar respostas rápidas de arrecadação. Um dos primeiros resultados aponta para 1% de área disponível para trabalhar. De 1.577.820,2 km² de área absoluta, portanto, existem 15.778,2 km², sem qualquer risco para a maior floresta equatorial do planeta. Essa área, suficiente para produzir proteínas para o Brasil e para o Continente, consorciada com o aproveitamento de sua bacia hidrográfica, com 6.217.220 Km² de espelho d’Água, o substrato das fazendas aquáticas, fábrica de deliciosa economia pesqueira. Ordenar a economia pesqueira, e aproveitar 45% dos resíduos que hoje é desperdiçado, assim como o desafio de promover a piscicultura em alta escala, supõe a adesão do investimento em Biotecnologia, resgatar e recompor o CBA, fazer com o INPA a transformação de seus inventários em oportunidades de mercado para impulsionar a economia cabocla.  Sem Biotecnologia, resta ao país a ausência nos negócios dos defensivos agrícolas, com passe livre para os pesticidas importados contaminarem livremente a genética humana, o solo e a água. Para quem tem 20% do banco genético como o Brasil tem na Amazônia, Biotecnologia é o caminho e a promessa de que as Novas Matrizes Econômicas, propostas por esta entidade Cieam e assumidas pela governança estadual representam a transformação do limão da adversidade numa limonada de oportunidades para o Amazonas e nossa gente.

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

Construindo a nova matriz econômica

Nesta segunda-feira, dia 29, o Governador José Melo recebe alguns dos principais atores do debate econômico e social para reunir as contribuições relevantes e costurar as linhas gerais da Nova Matriz Econômica Ambiental do Amazonas, um plano de ação para consolidar alternativas de crescimento e renda para o Estado. É compreensível que o governo destaque o aspecto ambiental, para iniciar o debate com as premissas de sua política de meio ambiente, à luz das pressões de toda a ordem em cima do bioma amazônico, notadamente neste Estado que carrega a batuta da preservação ambiental, em troca da renúncia fiscal recebida. “Políticas Ambientais para o Desenvolvimento Sustentável no Amazonas”, a palestra a ser proferida pelo Secretário de Estado do Meio Ambiente, Antonio Stroski, merece uma apreciação. Neste momento de busca dos novos caminhos, em que a indústria é açoitada por uma de suas mais graves crises em quase 5 décadas do modelo ZFM, é hora de mudar o foco proibicionista. Em vez de deter-se no verbo vetar, que tal optar por ajudar a fazer, com inteligência e equilíbrio socioambiental, um novo arranjo econômico? Com ênfase sempre no fator humano, a razão primeira e vital de ser da ação ambiental. Importa, entretanto, estimular o empreendimento, e corrigir, em conjunto, eventuais riscos e distorções. O social precede o ecológico na cadeia da evolução e na valoração ética universal. A quem serve uma árvore frondosa se a sua sombra um ribeirinho padece de humilhantes indicadores humanos de desenvolvimento? Não postulamos abater a floresta para aquinhoar o capital predatório. Mas não existe sustentabilidade ambiental sem suporte econômico nem atendimento às demandas sociais. Se estamos de acordo, mãos à obra!

Expectativas e embaraços

Nova matriz econômica – e ambiental – do Amazonas deve ser, sobretudo, a construção das novas oportunidades de emprego e renda, que o aproveitamento da vocação de negócios da floresta pode oferecer. Nesse contexto, a nova matriz econômica ambiental pode integrar-se, como faz o Peru, na produção de alimentos orgânicos, numa integração inteligente e até publicitária com a agenda de desenvolvimento, sustentável global. Integrar-se com as políticas e públicas nacionais já é um outro departamento, pois inexiste integração, muito menos política pública que inclua a economia da ZFM e nem disposição da Pasta do Desenvolvimento em recomendar parcerias com as políticas de diversificação e interiorização deste modelo. É mais fácil, além de preocupante e deprimente, recomendar que as empresas brasileiras invistam no Paraguai, algo escabroso se detectado entre as ações de um Ministério. O Amazonas segue a própria sina de um Estado apartado. Iremos a lugar algum com a Nova matriz Econômica Ambiental do Amazonas, se continuar o boicote a reconstrução da conexão rodoviária do Estado com o restante do país, a maldita falácia da BR 319. Chega de enrolação e hipocrisia, em nome de interesses inconfessos! Chega de confisco das verbas aqui conquistadas e legalmente destinadas a diversificação do desenvolvimento, com inovação tecnológica e biotecnológica das cadeias setoriais. Chega de boicote às alternativas energéticas, notadamente aquela que aproveita as vocações regionais de produção de energia limpa, como a alternativa solar. Chega de fogueira das vaidades que impediram nos últimos 13 anos o florescimento do polo de bioindústria com o fortalecimento institucional e funcional do Centro de Biotecnologia da Amazônia. E chega, sobretudo, desta visão tacanha que descreve a postura de alguns gestores e pesquisadores que tratam P&D como extensão de seus domicílios bancários e antídotos das próprias crises existenciais. A hora é de somar, conjugar o verbo construir na primeira do plural, identificar os avanços ensaiados, valorizar o saber local, não apenas acadêmico, mas especialmente o saber tradicional, ponto de partida de investigação e ação focada no interesse social e no mercado que desembarca na prosperidade. E como preparar a nova matriz senão partilhando os trocados da penúria econômica com o capital promissor da disposição de fazer e acontecer.

Guaraná, café, castanha… E por aí vai!

Os gurus desta nova matriz precisam levar em conta o parecer daqueles que hoje ocupam as comunidades com suas experiências contidas. Conhecer os produtores de guaraná orgânico de Urucará, eles desenvolveram biodefensivos agrícolas, ou seja, além do guaraná e da Marapoama, eles dominam a técnica dos bioindeticidas. Existem, em ação carente de respaldo, os produtores de café do Nova Olinda, isso mesmo, foi para a Amazônia – Café Palheta – que vieram as primeiras mudas desta rubiácea milagrosa, o cafeeiro, que tanta riqueza produziu no Brasil, levada para o Sudeste porque aqui já havia a pujança da borracha. Fizemos, porém, esse Ciclo de pujança uma rede em dimensões amazônicas, onde deitamos para usufruir o glamour embalados pela preguiça de promover a inovação, com o plantio racional e extensivo da seringueira. Deu no que deu. Vamos conversar com os plantadores de castanheiras e pupunheiras, e oferecer tecnologia de bioindústria de cosméticos, nutracêuticos, fitoterápicos, insumos dos extratos vegetais para a bioindústria do Polo Industrial de Manaus. E assim poderemos dialogar, permanentemente, sobre “A competitividade empresarial na Matriz Econômica Ambiental do Amazonas”, título da palestra a ser proferida pelo presidente do Centro da Indústria do Estado do Amazonas, Wilson Perico.

Caminhos alternativos

“Somos irresponsáveis em continuar dependendo de um único cesto de geração de riqueza. Se ele se rompe todos naufragamos”. Com esse alerta, o presidente do CIEAM abriu um seminário histórico, no dia 5 de agosto de 2013, em Manaus, no Auditório Gilberto Mendes de Azevedo, na sede da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas – FIEAM. Eram 70 participantes de instituições de ensino, pesquisa e empresas públicas e privadas, entidades de classe, que debateram questões amazônicas durante o Seminário sobre o Futuro da região, à luz das lições dos Pioneiros e Empreendedores do Brasil e do Estado do Amazonas, tema da Mostra realizada pela USP, Ministério da Cultura, Museu Nacional e o Governo do Amazonas, com apoio da Bemol e FIEAM/CIEAM. Estas entidades organizaram o debate que teve como objetivo identificar os fatores que favorecem e inibem o empreendedorismo e buscou priorizar ações indutoras do empreendedorismo no Amazonas, com a intenção de sensibilizar os sistemas de educação, de inovação e de apoio ao empreendedorismo. Novas matrizes econômicas foi a palavra de ordem proposta pelas representações presentes. Na ocasião, os relatos das empresas Cupuama, Bombons Finos, Oiram, na área de alimentos com a utilização de insumos e tecnologia regional, da Pentop, tecnologia da informação e Fucapi, na área de ensino e inovação tecnológica, mostraram que é necessário priorizar qualificação técnica, investir em pesquisa e desenvolvimento, tendo em vista agregar valor à indústria existente e à imensidade do potencial de negócios na fruticultura, agroindústria de alimentos, fármacos e cosméticos. As empresas, aqueles que se metem a investir, padecem de infraestrutura de transporte, energia e comunicação, e apontam a dificuldade de acesso ao crédito. Nada mais oportuno, portanto, em clima de celebração dos 49 anos da Suframa, preparar, em conjunto, para valer, a Nova Matriz Econômica Ambiental do Amazonas. Voltaremos.

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

Os buracos, as taxas e as contribuições

Na divisão constitucional das atribuições de cada um dos os entes federativos, tendo em vista o interesse do tecido social, é consolidada a competência do município para implantar e manter as vias urbanas. Na polêmica que se arrasta desde sempre, para definir o papel de quem responde pelos buracos das vias do Distrito Indústria da Zona Franca de Manaus, União, Estado e Município se revezam em atribuir a um ou a outro a responsabilidade de equacionar a situação inaceitável a solução deste constrangimento. As indústrias instaladas no polo industrial de Manaus pagam, para usufruir dos benefícios fiscais, aquilo que a Lei estipula com relação aos citados entes federativos. É bem verdade que, embora seja o ente responsável por esta atribuição, a Prefeitura de Manaus é a única das três instâncias que não recebe contribuições adicionais, como as taxas da Suframa, consignadas em R$ 2,11 bilhões, nos últimos 5 anos, além das verbas de Pesquisa e Desenvolvimento, no âmbito federal e os fundos setoriais pagos ao Estado, para a Universidade do Estado do Amazonas e o Centro de Educação Tecnológica, para Turismo e Interiorização do Desenvolvimento e das Pequenas e Médias Empresas. Nos últimos 5 anos, o modelo ZFM recolheu para o Estado do Amazonas a importância de R$ 6,8 bilhões. O município, à parte as taxas de alvará e IPTU, e a quem compete legalmente a manutenção das vias urbanas, recolheu no polo industrial de Manaus aproximadamente R$ 3,2 bilhões de 2010 a 2014. No jogo do empurra, onde o município já alegou que o Distrito Industrial é área federal, a despeito de sua transformação em bairro com intensa ocupação demográfica, a Prefeitura recolhe mais da metade de sua arrecadação municipal. Como resolver esta questão?

Comitê Cidadão

Nesta segunda-feira, o CIEAM e a FIEAM, foram convidados para debater o ABANDONO DO DISTRITO INDUSTRIAL, entre outros atores envolvidos nos desafios do cotidiano da cidade. O anfitrião foi o Comitê Cidadão, uma iniciativa de cunho cívico, sob a orientação de entidades do tecido social, Sinduscon, Corecon, CREA, CAU, entre outros, com respaldo ético da Arquidiocese Metropolitana e da Igreja Presbiteriana de Manaus, além de movimentos como Pedala Manaus, Movimento Ficha Verde, Idesam, entre outros. Dois temas recentes movimentaram as atenções do Comitê Cidadão: As 10 medidas de Combate à Corrupção, com a adesão do Ministério Público Federal. Esta adesão do Comitê, atuando nas pastorais da Arquidiocese e nas unidades religiosas associadas, ajudaram na divulgação das 10 Medidas Contra a Corrupção, que tiveram um crescimento vertiginoso em Manaus, segundo o arcebispo dom Sergio Castriani. O outro tema recente é o Plano de Mobilidade Urbana da Prefeitura de Manaus, objeto da penúltima reunião. Nesta segunda-feira, por indicação de um dos mentores do Comitê, o pastor José João, o tema, surgido no âmbito da discussão da mobilidade urbana, foi o ABANDONO DO DISTRITO INDUSTRIAL, focando pontualmente a questão dos buracos, a perda de vidas por acidentes já ocorridas, os danos aos veículos e seus usuários, às empresas, que reportam taxas de 10% de prejuízos, detectados na qualidade nos produtos. Novos investimentos não estão ocorrendo se as empresas percorrem o cenário de guerra dos buracos. Por iniciativa do Comitê, foi elaborado um Documento já encaminhado ao Ministério Público Estadual e Federal, retratando o problema, destacando os danos causados pelos buracos, o matagal, a falta de saneamento/acúmulo de lixo, que comprometem a sobrevivência do modelo ZFM de onde depende 85% da economia do Estado.

À margem da Lei

Diz o texto do Documento: “Após 49 anos de instalação da Zona Franca de Manaus, as contribuições das empresas incentivadas passaram a ser utilizadas na contramão do que a Lei determina”. Criada pelo Decreto-Lei nº 288, de 28/02/1967, este modelo baseado em benefícios fiscais, previa a implantação de polo industrial, comercial e agropecuário, numa área física de 10 mil km² em Manaus. E isto foi feito à luz da Constituição. “Para efeitos administrativos, a União poderá articular sua ação em um mesmo complexo geoeconômico e social, visando a seu desenvolvimento e à redução das desigualdades regionais”, conforme o artigo 43 da Constituição. Este modelo foi inserido na Constituição Federal de 1988, e prorrogada pelo Congresso Nacional em agosto de 2014, por mais 50 anos. A ilegalidade se dá em diversos pontos nevrálgicos de sua estruturação jurídica. “Em desacordo com a Lei, diz o Documento, este modelo desacata a Lei nº 9.960 de 28/01/2000 – criada para fazer funcionar a Suframa, referendando as Taxas de Serviços Administrativos da Suframa (TSA). E há 14 anos esses recursos são progressivamente confiscados pela União. Nos últimos seis anos, foram arrecadados pela Suframa, mais de R$ 2,5 bilhões para este fim.  A ilegalidade reduziu drasticamente as ações de desenvolvimento e de diversificação econômica na região, única forma de reduzir a renúncia fiscal”.  O texto chama a atenção para o Art. 6º “Os recursos provenientes da TSA serão destinados exclusivamente ao custeio e às atividades fins da Suframa, obedecidas as prioridades por ela estabelecidas”. Neste ponto, cabe perguntar o que é a atividade fim da Suframa? Certamente não é asfaltar ruas, urbanizar o espaço municipal. Assegurar, entretanto, a mobilidade urbana e o escoamento da produção, no perímetro do Distrito Industrial, em padrões que permitam a qualidade dos produtos e a competitividade do modelo, certamente é uma das atribuições vitais da autarquia. No mínimo, esta responsabilidade poderia ser agregada a do município a luz dos objetivos e deveres de cada ente federativo. O mesmo raciocínio se aplica a presença do Estado no enfrentamento da questão, posto que deste modelo depende o funcionamento das instituições acima elencadas. No Documento, chancelado pelas instituições e entidades presentes, o Comitê Cidadão solicita uma reunião de trabalho com o Ministério Público Federal e Estadual visando debater, com os atores envolvidos interessados, formas legais de encaminhar as questões do ABANDONO DO DISTRITO INDUSTRIAL.

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. 
Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

O Boto e a biotecnologia

Nesta terça-feira, o Amazonas celebra a memória de Gilberto Mestrinho, um de seus mais  ardorosos  defensores, e um dos críticos mais ferozes da hipocrisia ambiental, ainda em voga. Em 1992, quando o planeta reuniu-se no Rio de Janeiro para acusar supostas queimadas na Amazônia, como causa do aquecimento global, ele chamou algumas lideranças do Planeta a passear na floresta, entre as quais  o primeiro-ministro da Alemanha, Helmuth Kohl, com quem  sobrevoou a mata, pedagogicamente, apontando a diferença entre fumaça e neblina. No ano seguinte, Kohl empenhou-se em estreitar colaboração com o Amazonas, de olho, naturalmente, no ordenamento institucional para o manejo florestal. Afinal, o sindicato dos madeireiros, que inclui a indústria plástica, é a maior força política tedesca. Com isso, ambos começaram a desmontar o sofisma do primado da ecologia sobre a sociologia, uma desfaçatez política sem precedentes na qual muita gente dita consciente ainda embarca. Enquanto os dirigentes do planeta queriam “salvar” a Amazônia deixando-a intocada, Gilberto, o Boto, fazia barulho no Fórum Global, evento simultâneo da Conferência da ONU, com  entrevistas – ao lado de Alvim Toffler, um escritor visionário e polêmico – erguendo a bandeira da biotecnologia como premissa do desenvolvimento e equilíbrio climático. O Brasil, afirmava,  paga um preço muito alto por seu atraso na corrida biotecnológica, repetindo o equívoco de fazer o que fez com a reserva de mercado para a informática. Nada mais atual.

Com esta convicção e missão, e de braços com a representação acadêmica local, Ufam e Utam, Mestrinho, pós-Rio 92, foi  convidar pessoalmente o Instituto Tecnológico de Massachussets e o Technion, o Instituto de Tecnologia de Israel‎, as maiores referências de tecnologia e biotecnologia nos anos 90,  para instalarem-se em Manaus. Foi boicotado pelos arautos da paranoia e do atraso. Depois, no Senado, tratou de assegurar recursos no Orçamento – cuja comissão mista do Congresso dirigiu por três oportunidades – para a Ufam e Embrapa, com quem mantinha estreita interlocução. Empenhou-se na instalação de uma unidade da Embrapa em Tabatinga, sede da mesorregião do Alto Solimões, a mais pobre do Estado e uma das mais ricas em recursos naturais. Com sua saída da vida pública  e falecimento, o núcleo perdeu o padrinho e a existência. Na criação do CBA (Centro de Biotecnologia da Amazônia), atuou junto a FHC e Marco Maciel, filho e marido de amazonenses, para resguardar o apoio político e material da empreitada, fulminada, em seguida, pelos arautos da sombra.

Nessa interlocução visionária, em discurso polêmico no Senado em março de 2003,  Gilberto chamava a atenção  para a ausência do Brasil nos negócios da biotecnologia, cobrava do INPA a transformação de seus inventários em oportunidades de mercado para impulsionar a economia cabocla sem biotecnologia, resta ao país a ausência nos negócios dos defensivos agrícolas, com passe livre para os pesticidas importados contaminarem livremente  a genética humana, o solo e a água. E para denunciar os defensores da intocabilidade amazônica, respaldava e defendia a adoção inteligente dos sistemas de integração desenvolvidos pela Embrapa, dentro das áreas que a lei permite manejar, para a produção de grãos, fibras, madeira, energia, leite ou carne numa única área, em plantios em rotação, consorciação e/ou sucessão. Nas estações climáticas da Amazônia, indagava, por que não incentivar o  plantio durante o verão de culturas agrícolas anuais (arroz, feijão, milho, soja ou sorgo) e de árvores, associado a espécies forrageiras? Só mais recentemente, com a credibilidade de entidades como a Faea (Federação de Agricultura do Estado do Amazonas), o Amazonas começou a acordar para a combinação equilibrada entre os componentes agrícola, pecuário e florestal, considerando espaço e tempo disponível, resultando em diferentes sistemas integrados, desenvolvidos com sucesso como lavoura-pecuária-floresta, entre outros. Um avenida de oportunidades. Dia 29,  Amazonas vai reunir a tribo para combinar caminhos alternativos, a produção de novas matrizes de negócios, bionegócios, coerentes com sua vocação e focados na interiorização do desenvolvimento do Beiradão, como o Boto sempre quis.

Contato: [email protected]

Antídotos da crise

Uma reunião que ficará registrada com otimismo e motivação de esforços renovados, a despeito das incertezas da economia, ocorreu nesta quarta-feira, dia 17, na Reunião Ordinária dos associados do CIEAM, Centro da Industria do Amazonas, com a presença dos secretários de Planejamento e de Fazenda do Governo do Amazonas, Thomaz Nogueira e Afonso Lobo, respectivamente. Com o auditório lotado, tendo em vista o anúncio das medidas de revisão da legislação fiscal, os presentes esperavam esclarecer dúvidas e sugerir medidas num diálogo transparente, público e proativo. E o que se viu foi uma troca de informações, reveladoras das dificuldades que o Estado atravessa e as medidas que estão sendo tomadas para enfrentar os estragos acusados pela queda significativa da arrecadação, quase 20% em comparação com o ano passado. Mais do que nunca se faz urgente encontrar respostas rápidas para repor as finanças do Estado e promover a interiorização do desenvolvimento. Em sua fala, Thomaz Nogueira reconheceu que todos ali estiveram empenhados em prorrogar o modelo e isso havia ocupado o melhor das energias e esforços de todos. E que agora, entretanto, não teríamos mais desculpas para não enfrentar este desafio histórico de desconcentrar as atividades produtivas, ora centradas na capital. E para tanto, a aproximação do poder público com o setor produtivo impunha-se como essencial. E entre as metas e projetos em discussão estavam os produtos da biodiversidade, a produção de alimentos, de cosméticos, nutracêuticos… tudo aquilo que este espaço editorial tem apontado exaustivamente para reduzir a dependência de uma fonte instável de receitas, o polo industrial de Manaus. Com a crise e a falta de diversificação, o encolhimento da economia, causando a queda de receita, ficou evidente o susto e o dano dessa dependência. Novas Matrizes Econômicas foi o mote e a nota insistente desde sempre, quando esta Entidade passou a mostrar, com o paradigma da moeda americana para descrever o desempenho do polo industrial de Manaus, o esvaziamento dos diversos polos e o enfraquecimento do polo de duas rodas e eletroeletrônicos, pilares históricos da indústria de Manaus. A reunião desta quarta-feira mostrou que o antídoto da crise é o entendimento, a troca de informações, inquietações e sugestão de saídas. Ninguém tem o privilégio da inspiração divina, todos têm suas proposições, demandas e limitações de análises. O grande mérito deste encontro foi o foco na discussão de alternativas para o equilíbrio financeiro do estado e todos os estragos em saúde, educação, segurança, moradia e outras demandas da população que começam a mostrar seus paradoxos e sequelas.

Tomada de posição

E quais são as expectativas e sugestões desta Entidade – que representa a indústria do Estado do Amazonas – já tornadas públicas em diversas oportunidades, ao reafirmar seus compromissos, expectativas e proposições na relação com os atores públicos, tendo em vista o cidadão, o interesse e a responsabilidade deste setor produtivo no tecido social onde está inserido? As empresas investem no Amazonas com a transparência de seus propósitos, na expectativa do retorno aí implícito, dentro das regras do jogo, com a combinação prévia de direitos e deveres de cada um. Por isso, ao cumprir sua parte, no nojo dessa combinação, as empresas assumem seu compromisso de transparência na relação com os interlocutores da esfera municipal, estadual e federal, na busca de soluções conjuntas. O desemprego, as dificuldades de assistência médico-hospitalar, a insegurança das famílias, a espiral da violência, neste contexto, são problemas que afetam a rotina do setor produtivo e, obviamente, a consciência cívica dos empreendedores. Por isso, e à luz deste desafio coletivo de revitalização da economia, cabe retomar algumas posições assumidas pela entidade, e reconhecidas pelos agentes públicos, no que se refere ao descuido generalizado com o setor produtivo, especialmente com o polo industrial de Manaus. Os fundos recolhidos pela indústria – contrapartida efetiva que se somam aos empregos e renda oferecidos – precisa ser retomado em sua aplicação e efetividade para que sejam redimensionados seus objetivos e alcançados seus benefícios previstos em Lei. E essa aproximação e sintonia fina, é premissa considerada essencial para formular, em conjunto com o poder público e demais atores sociais, um novo cenário socioeconômico para o Estado e região.

As crateras do constrangimento

A reunião desta quarta-feira com o setor público mostrou as crateras que impedem a livre movimentação, não apenas das ruas do polo industrial, mas da falta de integração e interatividade maior entre os setores. Os buracos do Distrito, para revolta e constrangimento geral, são o retrato de crateras maiores, que deixamos, por omissão ou inércia, crescer no limite do tolerável, a ponto de questionar a viabilidade e a continuidade de seu funcionamento e sobrevivência. Os buracos das ruas do Distrito são os buracos desta cumplicidade precária, que não prioriza o bem público e as condições de infraestrutura de seu bom funcionamento. Por que não entramos num acordo para assegurar, pelo menos, um investimento anual de 3% dos recursos fiscais gerados pelo modelo para seus gargalos e entraves de competitividade. Por que não levamos adiante o compromisso de reduzir, pra valer, o equacionamento dos nocivos gargalos burocráticos? Ficamos reféns destes embaraços, e o que foi feito, em comum acordo e em torno de estudos sistemáticos e elucidativos, para virar o jogo dessa insensatez?

Agenda positiva

Amiudar este entendimento, numa agenda proativa, produtiva, pragmática, daria um gás e uma energia para enfrentar os sobressaltos a que todos estão submetidos. Este ensaio de ação compartilhada seria o começo do fim da buraqueira, físicas e institucionais, onde os entes da federação, município, estado e união fossem elos de uma cadeia com o setor produtivo em favor da sociedade e do enfrentamento de seus desafios. Quando lá atrás foi proposto por esta Entidade, a Reforma do papel do Estado, era exatamente essa articulação proativa que se ensaia, sem ingerência burocrática e autoritária na dinâmica produtiva e do mercado, mas na partilha de decisões e proposições para a construção conjunta das melhores saídas, frequentemente travadas pelo cipoal legalista que compromete a competitividade e a formalização da economia. Estruturas organizacionais dos poderes, esta é uma convicção segura, devem ser otimizadas e redesenhadas numa administração mais enxuta e baseada na meritocracia. Trabalhar, assim, em sintonia respeitosa, é um dos desafios intrigantes das empresas na relação com setor público no que se refere à gestão da atividade do polo industrial de Manaus. Defendemos, em parceria com o poder público, consolidar INSTITUIÇÕES voltadas para pesquisa e ensino, na perspectiva do desenvolvimento, para estreitar as ações da Academia com antineutrino e construção de um setor produtivo diversificado e atento as vocações regionais. Postulamos esta parceria para o enfrentamento dos GARGALOS DE INFRAESTRUTURA, a questão portuária, a discussão das tarifas de energia, uso competitivo, com custos equivalentes ao mercado Internacional. E viabilização do acesso à INTERNET E TELEFONIA COMPATÍVEL com os serviços ofertados nos países desenvolvidos (custos, velocidade e confiabilidade). A pauta é grande, a meta é resguardar e fortalecer o modelo ZFM e os beneficiários serão todos, a começar pela população.

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. 
Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

Mutirão de parcerias é a proposta da ABRH-AM

Entrevista com Katia Andrade

Katia Andrade

Nesta terça-feira, dia 16, assumiu a nova equipe responsável pela Associação Brasileira de Recursos Humanos-Amazonas, sob a batuta de Katia Andrade, pós-graduada em recursos humanos e pioneira na gestão de pessoas no setor produtivo da Zona Franca de Manaus. Com uma proposta focada em conectividade, inovação e pragmatismo, a nova presidente da ABRH-AM conta seus planos e convoca um mutirão de parcerias para o Amazonas fazer da crise um momento de grandes oportunidades. Confira.

Follow-UpO que significa enfrentar mais uma crise econômica no modelo ZFM com as armas dos Recursos Humanos?

Katia Andrade: Nós, da ABRH, temos a absoluta convicção que tudo se dá, tudo se movimenta e se justifica, na origem, processo e destino, em função das pessoas. E quando levantamos a bandeira dos Recursos Humanos, num momento de adversidade econômica, o fazemos absolutamente convencidos de que a gestão de pessoas, para potencializar talentos, promover lideranças, reforçar competências… é sempre a melhor estratégia para encontrar saídas. E não há mágica nem mistério nisso. A solução se constrói sempre e, necessariamente, com as pessoas, dividindo e envolvendo a energia e a criatividade das saídas. Os momentos de crise, portanto, são os mais estimulantes e oportunos para criar soluções mais eficientes, portanto, mais duradouras.

FUp São preocupantes os prognósticos deste e, provavelmente, do próximo ano. Como mobilizar e motivar as pessoas na direção da maior eficiência financeira e operacional?

KA – Nosso desafio é decodificar na interatividade transparente com os parceiros o sentido do conceito de produtividade e eficiência, seja no setor público ou privado, num momento de crise. Impõe-se uma postura pragmática. E isso significa planejar e ir além: EXECUTAR, AGIR, tirar os planos do imaginário, do papel, e fazê-lo com cautela, minimizando os riscos. E neste cenário, sair da inércia é fundamental!  E sair do lugar, quando se fala em gestão de pessoas, significa destacar a premissa da Inovação, afinal, a perenidade das empresas depende de resultados efetivos que estão atrelados diretamente à capacidade de inovar em um ambiente altamente volátil, incerto, complexo e ambíguo.

FUp Gestão de pessoas, em momentos difíceis, se transforma, então, em caça aos talentos?

KA – Mais do que caça aos talentos, a palavra de ordem é caça de soluções. Talentos estão ao nosso redor, em cada uma das pessoas, e estes são os nossos desafios. Identificar, fomentar e promover a interatividade na atratividade de talentos, com engajamento e foco na execução de programas inovadores – trilhando caminhos ainda não percorridos. Esta é a pauta e o desafio. Cenários complexos podem trazer oportunidades de renovação e crescimento – Depende da nossa ATITUDE!  O que queremos protagonizar? Temos escolhas a fazer! A ABRH Amazonas escolhe AGIR e INTERAGIR, alicerçada em seus valores de postura ética e apartidária, de conectividade, de crescimento sustentável, de inclusão, colaboração e retorno à sociedade.

FUp O que é o PPB da Fábrica de Soluções?

KA: Foi a expressão que criamos para dizer que estamos abertos às parcerias, estamos ávidos por companheiros genuínos nessa jornada! Só a soma de esforços e recursos nos fará transpor os desafios coletivos desse momento. Só assim iremos, juntos, construir um PPB da Fábrica de Soluções. Porque não vamos jogar a toalha, como diz o presidente Wilson Périco, pois, definitivamente, precisamos unir as lideranças institucionais, as capacidades intelectuais e as forças políticas do nosso Estado para elaborar, em conjunto, um projeto exequível com metas claras a curto, médio e longo prazo, no sentido de aproveitarmos todo o aprendizado com o modelo ZFM e avançarmos no desenvolvimento de novas matrizes econômicas, novos modelos da organização produtiva garantindo a perenidade do desenvolvimento da nossa região.

FUp Como a ABRH Amazonas, sob sua gestão, pode ajudar a fazer a diferença, nesse momento de crise, de incertezas e indefinições?

KA – Vamos meditar sobre as origens da palavra CRISE. Os gregos usavam este termo para significar “separação”. O verbo respectivo significa, também, escolher, reparar, julgar. Portanto, a crise é um momento de reinvenção das oportunidades, propício para reparar erros, separar o joio do trigo e nos fazer crescer. E o prefixo KRI, da palavra CRISE, para os indianos, significa purificar, limpar, renovar. E me permito aqui relembrar a missão da ABRH-AM “Fomentar uma comunidade inovadora e colaborativa, que conecte diferentes atores do cenário de relações do trabalho, com o objetivo de difundir as melhores práticas em gestão de pessoas”. O protagonismo desta entidade, formada por um colegiado que trabalha na primeira do plural, se dá a partir e por causa das pessoas, que detém as saídas criativas, a otimização dos recursos, a racionalidade e a efetividade dos processos, a melhor rentabilidade dos investimentos. Aqui no Amazonas, o estado mais açoitado pelos equívocos e atropelos da gestão econômica inadequada, a ABRH tem um desafio mais instigante. Um desafio de separar o joio da ineficiência do trigo da purificação. E como se faz isso senão fomentando, de forma inovadora e colaborativa, a conexão de diferentes atores no cenário de relações do trabalho? É aqui que vão surgir as soluções criativas e reativas de enfrentamento das adversidades.

FUp: A receita, portanto, é conectividade, inovação e pragmatismo?

KA – Nossa expertise são os recursos humanos. Assim, nos apresentamos para discutir alternativas de enfrentamento dessa crise que tem impactado tão fortemente a nossa gente, nossos empregos, a rentabilidade de nossas empresas e a confiança dos investidores para a retomada do nosso crescimento. Percebam que estou insistindo neste sagrado pronome: NOSSO… sim, porque é NOSSO, nem só meu, nem só seu, não estamos e não precisamos estar a sós. É nosso o dever de reagir, de ir em frente e de desbravar novos caminhos. Vamos trabalhar, sim, em conexão, com inovação e pragmatismo! Não há outro jeito, nem caminhos pre-determinados. Fazemos e descobrimos, os caminhos juntos. Caminhando. Estas são, pois, as premissas, os compromissos e os pilares desta nova gestão da ABRH do Amazonas.

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. 
Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]