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Pós-verdade, a banalização da barbárie

“Mas vocês têm de ver o que é caixa dois e o que é corrupção”. Frase atribuída a Marcelo Oderbrecht, o presidente da maior empreiteira do país, serve para ilustrar as razões pelas quais, segundo dizem as boas línguas, o Brasil inspirou a Universidade britânica de Oxford, mais precisamente a Oxford Dictionaries, o departamento acadêmico dos léxicos, em sua decisão de considerar o termo pós-verdade (“post-truth”) como aquele que mais traduz o que fizeram com a verdade dos fatos, no ano que se encerra. “Pós-verdade é um adjetivo que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. Pós-verdade, trazida para o cotidiano do Brasil, nada mais é do que corromper a própria tentativa de combater a corrupção, de naturalizar a barbárie de desviar milhões de aposentados que se endividaram, por exemplo, com empréstimos consignados. Pós-verdade serve como uma tradução mais adequada da tentativa de desqualificar a iniciativa das Dez Medidas, um gesto eloquente do tecido social para dizer basta! Aqueles que perpetraram a barbárie hoje não se constrangem de manobrar a inversão dos ilícitos, com medidas legalistas para criminalizar quem os acusa.

Desqualificar o judiciário é esvaziar a indignação generalizada contra o mais espetacular assalto aos cofres públicos da história da República, de todas elas. No caso do Brasil, o presidente da Oderbrecht – sob o nome de corrupção ou caixa dois – com a classe política que o acompanhou – é sim o maestro dessa patologia institucional, seja que nome tiver. Uma compulsão desmesurada pela pecúnia cívica, com sequelas sociais incalculáveis. Pós-verdade, portanto, é satanizar quem se levanta com eficiência e legitimidade contra essa anomalia sem precedentes. Para o procurador Edmilson Barreiros, em entrevistam ao portal Amazonas Atual, os políticos estão mesmo é empenhados em legitimar a ilegalidade do caixa dois, apavorados com o que lhes espera no estatuto legal. Esta é uma conduta que se presta a camuflar a disfunção. Ou seja, uma classe querendo livrar a própria cara, pondo no banco dos réus quem os acusa de evidentes delitos. Não se trata, aqui, de saber quem vai atirar a primeira pedra. Muito menos quem é mocinho ou bandido. Importa é dar um basta no uso perverso dos recursos legalmente pertencentes ao cidadão. Combater a corrupção é um princípio universalmente aceito e a sociedade definiu no Estado de Direito – do qual depende a ordem social constituída, a quem compete julgar quem a pratica. Ponto. Este é o fundamento das Dez Medidas.
No livro “Petrobras – Uma história de orgulho e vergonha”, que a Editora Objetiva lançou em julho, a repórter Roberta Paduan descreve como a empresa que já foi espelho do que o Brasil tem de melhor se tornou sinônimo de roubo, humilhação, patologia institucional em grande escala. Fruto de um trabalho extenso de pesquisa e apuração, o livro narra como a estatal foi cenário de um rombo ainda sob avaliação de tamanho e estragos. Há registro antigo de vários casos de mau uso político e desvio de verbas da empresa, desde sempre, mas nunca como sob as presidências de Lula e Dilma. A frase atribuída a Marcelo Oderbrecht, sobre corrupção ou caixa dois, diante da Polícia Federal, no início da delação premiada, é de outra repórter, Malu Gaspar, da revista Piauí. Ambas descrevem a sedução da barbárie, a pós-verdade que nos tentam impor, e a tragédia humana que isso representa ao país, aos mais humildes, os que mais padecem a banalização da corrupção, da barbárie, do caos….Basta, basta!!!!

Alfredo é filósofo e ensaísta.

Alfredo MR Lopes (*) [email protected]

Marcovitch, um emérito companheiro

Em carta do CIEAM, assinada pelo presidente Wilson Périco, o Amazonas se fez presente na solenidade de outorga do título de Professor Emérito da FEA USP, Faculdade de Economia, Contabilidade e Administração da Universidade de São Paulo, ao Dr. Jaques Marcovitch, ex-reitor e atual professor daquela instituição. Diz a missiva: “Em nome das empresas associadas ao CIEAM, e em meu próprio, quero felicitar VSa. pelo digno e justo reconhecimento que lhe é conferido nesta data. Professor Emérito é uma honraria concedida, no âmbito dessa Universidade, uma das mais destacadas do Continente, apenas àqueles profissionais que se destacam pela relevância e magnitude de sua produção e atividade científica e grande reconhecimento da comunidade acadêmica. Aqui, da Amazônia, alvo de seu apoio irrestrito, compromisso e dedicação constante, somos testemunhas e beneficiários dessa trajetória cívica e pioneira. Agradecemos por sua presença entre nós, seu companheirismo, regozijados e solidários por esta data, reiterando nossa admiração profunda e particular afeto.” Trata-se de um parceiro de primeira grandeza, presente em muitos dos avanços recentes da Universidade do Estado do Amazonas, com quem a USP tem partilhado, sob olhares colaborativos desta entidade, preciosas parcerias, além da FEA, incluindo a área médica, com a Faculdade de Medicina da USP, de Tecnologia, Química e Farmácia.

Sob a batuta dos Pioneiros

Em 2013, sob a luz das lições dos pioneiros do Brasil, reunidos com os do Amazonas, na sede da Federação da Indústria, FIEAM/CIEAM organizaram em agosto, o Seminário Pioneirismo no Brasil e o Estado do Amazonas, com o objetivo de debater o futuro da economia, as alternativas, embaraços e promessas de novos modelos de desenvolvimento e prosperidade social para a região. O evento celebrou o desfecho da Mostra do Pioneirismo Brasileiro e o Estado do Amazonas, ocorrida no Centro Cultural Palácio da Justiça, com a coordenação do professor Jacques Marcovitch, com apoio do Ministério da Cultura, Museu Nacional, Governo do Amazonas, Grupo Bemol e das entidades da indústria, FIEAM/CIEAM, entre outros. Naquela semana, a ONU publicou informações preocupantes para o Amazonas, que saltou da 14a posição para a 18ª no ranking do IDH, atrás de Roraima, Rondônia e Amapá. Nos indicadores de Educação, o Amazonas não aparece com alguma cidade entre as 50 melhores do país, mas tem 11 entre as 50 piores (Envira, Maraã, Beruri, Japurá, Jutaí, Santa Isabel do Rio Negro, Pauini, Barcelos, Ipixuna, Itamarati e Atalaia do Norte). O que fariam os Pioneiros que reconstruíram a economia do Amazonas após a queda do Ciclo da Borracha, para apostar na construção de um futuro melhor? Foi esta a questão que norteou o Seminário, onde estavam presentes 70 pessoas, representando 35 entidades, instituições e/ou empresas. Este evento que captou e organizou um movimento em várias direções e definições, desembarcou na ampliação de luta pelo resgate do CBA – Centro de Biotecnologia da Amazônia, e pela mobilização de atores públicos e privados na busca de NOVAS MATRIZES ECONÔMICAS.

Gestão da Amazônia

Com esta preocupação e proposta, Jaques Marcovitch trouxe, em 2011, ao debate do Brasil e da Amazônia, um trabalho de extrema atualidade. Gestão da Amazônia, uma publicação que, também, é um de nossos maiores desafios. Gestão competente, consciente e comprometida com esta e com as futuras gerações. Para ele, “o futuro pode estar na Amazônia. Não há lugar no Brasil tão propício a experiências avançadas em biotecnologia ou procedimentos de integração e reencontro do homem com a natureza. A região oferece todas precondições para a realização do sonho ambientalista. O caminho para isso, entretanto, não é mais a estrada curta da utopia. Aí estão fatores emergentes de ordem econômica e política, incluindo aspectos de um novo capitalismo jamais imaginado pelos visionários de ontem”. Este NOVO CAPITALISMO, acontece em O Grande Cenário, onde Marcovitch expõe as macro questões regionais: o quadro social, a floresta e seus tesouros, infraestrutura científica, o efeito estufa e a região (considerada o ar condicionado do mundo), os conflitos visíveis e invisíveis, o povo indígena. Entre as parcerias mencionadas pelo presidente Wilson Périco, o Acordo de Cooperação entre UEA e USP desencadeou um DINTER, doutoramento interinstitucional, que começa em 2017, para formar doutores em GESTÃO DA AMAZÔNIA, requisito essencial da Economia Verde, cujas premissas remetem ablutor trabalho, “Para Mudar o Futuro – Mudanças climáticas, políticas públicas e estratégias empresariais”. O texto destaca igualmente parcerias recentes entre o setor público e a iniciativa privada que facilitam o caminho para o fortalecimento de uma economia verde no Brasil e na Amazônia. Para credenciar seu posicionamento, Marcovitch incluiu o legado e o portfólio de Berta Becker, Charles Clement, Enéas Salati, Márcio Macedo da Costa, Paulo Artaxo, Philip Martin Fearnside, Roberto Smeraldi entre outros.

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

Economia da Amazônia na era Trump

Por Wilson Périco – Presidente do Cieam

Historicamente irrelevante nas relações comerciais das grandes economias, o subcontinente América do Sul pode ocupar função estratégica e determinante na era Trump. Será longa e tortuosa a caminhada de superação desta recessão. As previsões de recomposição da economia do Brasil, com ou sem o novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recomendam paciência e expansão da criatividade. Entretanto, os reflexos da nova política externa do governo republicano – confirmada nos pronunciamentos pós-eleitorais – revelam desafios e oportunidades para a América do Sul, para o país e, especialmente, para a Amazônia. A melhor maneira de conservar o patrimônio natural é atribuir-lhe função econômica. Por isso, a diplomacia brasileira já se movimenta para aproveitar/ocupar os espaços que se ensaiam. A China, confirmada as promessas, ou ameaças do futuro governo Trump, vai olhar para os trópicos com mais interesse. Sol combina com produção de alimentos e nenhum governo próspera com insegurança alimentar do povo. Este mercado, hoje familiar aos asiáticos, será a melhor saída para eventuais barreiras de exportações para os Estados Unidos. Por que não flexibilizar e aceleração da Transpacífico, e de quebra recompor os corredores logísticos internos, BR-319, BR 164, BR-174 de olho no Caribe e no México? Chances novas para a América do Sul, carta fora do baralho desde 1989, com o fim da bipolaridade e da Guerra Fria, entre soviéticos e americanos. O subcontinente sul-americano pode voltar a ter relevância no novo desenho das relações multilaterais. Caso as ameaças de Trump se confirmem em relação ao México – ele vai governar para a reeleição – será natural um redirecionamento de investimentos e de fluxo comercial dos mexicanos com o Brasil e vizinhos.

Inserção da ZFM na política indústria do Brasil

Para integrar este novo mosaico, a ZFM, Zona Franca de Manaus, a rigor, o Amazonas, precisa inserir-se no sumário de uma nova política industrial, ambiental e de ciência, tecnologia e inovação, cuja estruturação e definição são inadiáveis. Afinal, além da proteção da floresta, contribuição vital para o Acordo do Clima, a ZFM – para levar adiante seus polos de biotecnologia e tecnologia da comunicação e da informação – não pode seguir usurpada em 80% dos recursos para este fim. O país gasta muito e gasta mal para manter sua ineficiência e compulsão perdulária. Chega! Do mesmo modo, não podemos congelar a expansão industrial da ZFM – atualmente o Amazonas arrebanha somente 0,64% dos estabelecimentos industriais do Brasil – por abuso de burocratas de Brasília – e seus interesses inconfessos – que alegam prejuízos fictícios a novos empreendimentos em outras regiões do país. Reter na região as contribuições das empresas para pesquisa e desenvolvimento é essencial para diversificar, adensar e regionalizar a economia. Como cumprir o dever constitucional de reduzir as desigualdades regionais, se o Brasil confisca, para fins obscuros, 80% dos recursos para pesquisa e regionalização da economia pagos pelas empresas de Manaus? E mais: suspender o confisco de suas verbas é o único caminho para recompor a autonomia da Suframa, órgão responsável pelos acertos da ZFM, o melhor arranjo fiscal da história do Brasil para redução das desigualdades regionais.

Biotecnologia e Tecnologia da Informação e Comunicação

Desenvolvemos aqui tecnologia para propagação de espécies de alto valor comercial em laboratório – caminho inteligente do reflorestamento de áreas degradadas – e dispomos de inteligência regional para agregar inovação tecnológica aos produtos fabricados no polo industrial de Manaus. Às vésperas de completar 50 anos, e desfalcada de infraestrutura de comunicação, energia e logística de transportes, mortal para sua competitividade, a ZFM convida o Brasil para conhecer um mundo de oportunidades de acelerar os caminhos de recuperação da economia, com a consolidação e ampliação do polo industrial de Manaus, base das incontáveis promessas da bioeconomia sustentável, tanto no manejo florestal como prospecção de princípios ativos da floresta, para segurança alimentar – a piscicultura –, a produção de fármacos e cosméticos, as oportunidades do polo mineral e turístico. São caminhos que demandam um mutirão de parcerias tecnológicas, vontade política e integração de talentos em favor da proteção da floresta e de um novo projeto Brasil.

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

Amazônia: luz para (quase) todos

A ANEEL aprovou, na última sexta-feira, no 2º Leilão de Energia de Reserva de 2016, a contratação de energia das fontes Solar Fotovoltaica e Eólica, com início de suprimento de energia elétrica em 1º de julho de 2019. Aprontem suas ofertas (!) para abastecer diversos estados com alternativas renováveis, à exceção da Amazônia, particularmente do Amazonas, onde 30% dos aglomerados urbanos não está conectado com ONS Operador Nacional do Sistema, aproximadamente 500 comunidades. Desde junho de 2016, por conta disso, tramita ação civil pública na 3ª Vara da Justiça Federal no Amazonas, sob o número 0009577-78.2016.4.01.3200, do MPF, Ministério Público Federal “…por não fornecimento de energia elétrica, especialmente no meio rural, (…) um bem essencial para concretização de direitos inerentes à condição humana, além de ser uma ferramenta no combate à desigualdade e à exclusão social”.

Esta ação está diretamente relacionada ao Acórdão apresentado ao MPF em março último pelo Tribunal de Contas da União, onde está demonstrada a desarticulação/omissão da presença federal na Amazônia. Nos corredores do poder em Brasília, os burocratas que liberam o PPB, o processo produtivo básico para a fabricação de novos produtos no polo industrial de Manaus, por razões obscuras – leia-se defesa de interesses inconfessos – vetam a fabricação de placas solares na ZFM, Zona Franca de Manaus. Na outra ponta da política energética, a defesa da opção termelétrica, hoje dominante, resguarda outros interesses, igualmente sombrios, que mantém o atraso e o descaso cívico de que fala o MPF. Até hoje a EletroNorte não recompensou as etnias pelos desastres socioambientais da Hidrelétrica de Balbina, e segue adotando a energia predatória do óleo diesel.

As vantagens socioeconômicas e ambientais da energia renovável são infinitas. Com base na tecnologia desenvolvida pelo Instituto de Energia e Ambiente, da Universidade de São Paulo, por exemplo, o Instituto Mamirauá, localizado no Médio Rio Solimões, Amazonas, o uso de energia solar já pode transformar cada barco de pesca numa estação frigorífica. O Astro-Rei de nosso sistema planetário despeja o equivalente a 150 usinas de Itaipu a plena carga sobre a Amazônia a cada dia. Com uso de tecnologia solar já consagrada isso significaria melhor qualidade de vida para 23 milhões de pessoas. Caso houvesse vontade política para este fim.

O mundo só irá equilibrar o clima quando adotar energia renovável e limpa. É óbvio. E de onde vem a energia renovável senão dos trópicos, diz J.W. Bautista Vidal, em Geopolítica da Energia e Biomassa, artigo publicado em 2005, pela Unicamp. “Temos tecnologia, luz solar e espaço geográfico para ser a grande potência energética que pode livrar o mundo da hecatombe climática, através da energia da biomassa”. Hoje precisaríamos de bem menos do que 20 anos, prazo do desmatamento zero, assinado pelo Brasil no Acordo do Clima, para reflorestar 15 milhões de hectares, dos 70 milhões desmatados. De acordo com a Embrapa, plantando dendê nesta área – consorciado com agriculturas de ciclo curto – teríamos aproximadamente 3 milhões de barris de óleo vegetal/ano, em 4 anos de cultivo e segurança alimentar para a Ásia. O que isso representa em riqueza, em postos de trabalho, desenvolvimento tecnológico e credibilidade/reputação internacional?

Entre os gargalos/descasos dos órgãos federais responsáveis pela gestão de 2/3 desta brasilidade sem rosto, eira e beira, que é a Amazônia, está a ausência de conclusão do Zoneamento Ecológico-econômico (ZEE), e de saneamento básico, claro. (Há 16 anos quem mora em Manaus paga esgoto e só 20% usufrui deste privilégio). Quanto ao ZEE, este é um instrumento que define fragilidades e potencialidades do território, e respectivas atividades produtivas sustentáveis que agreguem valor aos produtos regionais com potencial exportação e, permite ainda, “… interiorizar o desenvolvimento pela identificação de novas áreas com potencial para a produção de energia”, diz o TCU. Enquanto adiam-se essas prioridades, grupos políticos locais investem fortunas em advocacia criminal para livrar-se da Lei e se rasgam em conflitos estéreis que semeiam o descaso com a cidadania e ofendem a dignidade das pessoas… Até quando?

Alfredo MR Lopes

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O troféu da cizânia

A entidade que congrega os auditores fiscais da Receita Federal exibiu, em entrevistas para a mídia nacional, como se fosse um troféu, o desempenho de deixar sem liberação 4 mil contêineres na alfândega portuária de Manaus. Uma “conquista” do movimento paredista associada a prejuízos de toda ordem. Um autêntico troféu da cizânia, uma palavrinha do jargão antigo mas que se presta a descrever um movimento que se espalha ao redor do planeta, com o recrudescimento do nacionalismo xenófobo que – todos sabemos – levou a humanidade à beira da destruição no século XX. CIZÂNIA vem do Latim zizania, e do Grego zizanion, “joio”. Esta é uma planta que cresce com o trigo, tema de uma emblemática parábola evangélica. Joio não serve para consumo e é uma dor-de-cabeça para os cultivadores. A única função do joio é prestar-se a exemplo pedagógico de que confronto pelo confronto não leva a lugar algum. Que o digam os agricultores. Deixa-os desnorteados pois desagrega, impede o viço, o brilho e o crescimento integral. Isso não significa negar a importância do contraditório, força que obriga o conjunto a achar saltos de maturidade e crescimento. Joio destrói, nada deixando atrás de sua trajetória deletéria. E não há como não identificar neste troféu às avessas uma contribuição adicional ao cenário de dificuldades porque passa o setor produtivo no Amazonas. Nos últimos doze meses, a produção industrial do Estado registrou o segundo pior desempenho do país aponta o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas). Há mais de 50 meses este cenário não reage positivamente. De acordo com os números do instituto divulgados nesta quarta-feira, a indústria amazonense recuou 16,4% no acumulado de doze meses. Na comparação com setembro de 2015, a queda de produção foi na ordem de -10,9%.

Os antecedentes do atraso

Mas não se deve à greve as dificuldades crônicas porque passa a ZFM, a Zona Franca de Manaus. Recentemente, a despeito do projeto bem desenhado de exportação, no âmbito do ministério do Desenvolvimento, pensado para abrir mercados para a indústria brasileira, os resultados se mostraram frustrantes para não dizer desastrosos para a ZFM. E a razão estrutural é muito simples, a competitividade do polo industrial de Manaus é pífia e, tudo sugere, os atores envolvidos incluídos, que esta premissa dos bons negócios industriais e comerciais habita a casa do sem jeito. Tanto que, em virtude das dificuldades crônicas, as empresas do Sudeste, cansadas de esperar os generosos investimentos resolveram optar pelo mais fácil: o Paraguai, onde os encantos do programa de atração de investimentos desenha o melhor dos mundos e fica ao lado de um dos mais atrativos mercados de consumo: o Brasil. Em 2005, lembra Mauricio Loureiro, então presidente do CIEAM, à vista do fracasso do EIZOF, a velha ideia de construir um entreposto aduaneiro nos moldes da logística panamenha, esta Entidade fez um levantamento junto a seus associados para aferir os impactos de infraestrutura nos empreendimentos locais. A logística de transportes apareceu e, 11 anos depois, aparece como o maior gargalo. A expectativa de aplicar 3% do faturamento da ZFM em infraestrutura, infelizmente, um compromisso que a classe política e os anúncios que costuma fazer, surge como algo razoável, factível é necessário. Ao se cogitar a necessidade de portos públicos, poderíamos pensar em Sistema Logístico, que permitisse aos empreendedores ter eficiência competitiva. Manaus não é longe do centro consumidor. Longe é a China. Há, porém, controvérsias. Os chineses entregam um televisor em Santos num custo de frete menos do que seu similar feito em Manaus.

Competitividade capenga

Desde sempre, estudos promovidos e debatidos pelo CIEAM, notadamente a partir do governo FHC, apontam algumas saídas. Uma delas, a matriz racional que envolve a utilização do Aeroporto de Ponta Pelada, como Hub para as cargas aéreas (in/out), consagrando assim a possibilidade de privatização, a exemplos de outros no País. A demanda militar não pode se sobrepor à base material que lhe dá amparo, dizem os próprios militares. Aquele aeroporto sendo consolidado como cluster logístico do PIM, propiciaria racionalidade econômica competitiva sem precedentes. Isto, em função de que já há portos naquela localidade, cuja competição reporta ao livre mercado. Ou seja, concorrência efetiva. Por outro lado, faria com que a Infraero pudesse deixar de ter hegemonia solitária na área aeroportuária. A questão de fundo neste aspecto são os interesses inconfessos que trabalham sempre à sombra do atraso e do oportunismo. Assistimos à conversão súbita de “celebridades” locais ao ambientalismo e patrimonialismo arqueológico com a possibilidade instalação de um porto a 2,4 quilômetros a jusante do Encontro das Águas. A modernização e a competição como premissa de competitividade enterradas como se fazem com os caranguejos do Amazonas que se atrevem a por a cabeça de fora do cesto da mesmice, essa moléstia que reúne o pacto obscuro e destrutivo entre alguns atores da esfera pública e seus consortes do oportunismo privado. Não poderíamos assistir a outro desfecho senão a desindustrialização da ZFM. Empregos em baixa, competitividade capenga, custos logísticos, os mais altos do Brasil. E o que é pior: uma burocracia que assusta o investidor. Colocada na ponta do lápis a somatória de custos e os níveis de competitividade, resta sobretudo o espanto, mesmo com o apelo dos incentivos fiscais. Por isso, o troféu da cizânia é uma conquista insípida, greves que não miram nos direitos, apenas nas mazelas da desconstrução.! Enquanto isso, um país chamado MERCOSUL, que a cada dia, através dos HERMANOS, paraguaios e uruguaios, avançam sorrateiramente na atração das empresas aqui instaladas, fazem roteiros de piadas, ao atrair nossos investimentos e potenciais investidores da ZFM para aquela área, que oferecem exceções mais atraentes, num jogo de cartas mais convincentes. No Paraguai, em comparação ao Brasil, o custo unitário de mão-de-obra para um fabricante de calças jeans é 135 vezes menor. No Brasil, porém, este custo fica para o governo, que aplica mal, onera a produção e retira competitividade dos produtos. Está passando da hora de virar este jogo!

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A greve da Receita: afinal, quem é o “outrem”?

O Artigo sexto, da Lei Nº 7.783, de 28 de junho de 1989, que encaminha os Direitos de Greve, e esclarece o que são atividades essenciais, é muito claro no seu primeiro parágrafo ao determinar as limitações do movimento paredista: “§ 1º Em nenhuma hipótese, os meios adotados por empregados e empregadores poderão violar ou constranger os direitos e garantias fundamentais de outrem”. Sob disfarces estratégicos, desenvolvidos pela tecnologia sindical para driblar a Lei, a greve dos auditores fiscais da Receita, formalmente assumida em 18 de outubro último, já iniciou a espalhar seus constrangimentos aos direitos do “outrem” desde 14 de julho do ano corrente. Vamos aqui refletir sobre a descrição do que a Lei chama de “outrem”, a alteridade onde deve estancar o direito de greve de quem quer que seja no exato instante em que esta greve ameaça o direito que a lei lhe confere, sua proteção legal, ou seja, seus direitos. Aqui o “outrem”, pra resguardar a objetividade, é fundamentalmente a classe trabalhadora, pois em cima dela explodem os maiores estragos dessa estratégia vesga de forçar um entendimento entre auditores e o governo às custas alheias. O governo, aliás, já mostrou o grau de atenção e prioridade que a greve dos auditores fiscais da Receita representa. Algo próximo a zero. Mas o grau de tensão entre os empregados é extremo, quando veem, no cotidiano das fábricas linhas inteiras paralisadas pela falta de peças, pelos contêineres retidos na alfândega por falta de liberação. As empresas estão driblando prejuízos da crise há mais de dois anos. Muitas já se foram. “No Paraguai não tem disso”. Tomemos o caso do segmento de duas rodas, um dos mais importantes e, por conta da crise, um dos mais alcançados em prejuízos acumulados. Nos dez primeiros meses de 2016, as vendas totalizaram a redução para 742.589 unidades, queda de 29,3% em relação ao registrado no mesmo período de 2015. Em comparação ao mesmo período do ano passado, a retração é de 35,2%. O “outrem” é a família do trabalhador demitido, e toda a rede local, estadual e nacional que daí se espalha, considerando venda, transporte, securitização, assistência técnica, comunicação, etc. etc… A ZFM está presente em todos os lares com seus produtos e com o desemprego com a falta deles. A greve alcança um período simbólico do calendário anual, quando a economia aguarda repor perdas e o tecido social se prepara para vivenciar o sentido de comunhão da quadra natalina. A greve dos Auditores ajuda, exatamente, a estancar a fonte de recursos daqueles que dependem do emprego e do salário adicional para externar a cultura festiva de todo final de ano. As empresas fecham suas portas, o Brasil congela seus gastos, todos buscam alternativas de deter o amontoado de estragos decorrentes da farra do dinheiro público. Faz sentido esticar uma greve nestas circunstâncias? Ninguém é contra direitos, mas ninguém pode construir alicerces em cima dos danos alheios, muito menos resgatar conquistas em cima dos danos de “outrem”.

O papel de cada um

O dano alcança, ainda, as empresas que dão amparo à economia local, regional, nacional. Afinal, mais de 90% da base socioeconômica do Amazonas está calcado nos investimentos aqui alocados e, ora, atingidos pela greve dos auditores. Nesta terça-feira, havia 300 contêineres retidos na área alfandegada de um dos portos locais. Apenas 10 ou 12 são liberados por dia, quando os fiscais decidem operar. Os contêineres retidos contêm peças e partes de produtos que paralisam linhas inteiras de produção. Açoitadas pela crise, como nenhuma outra planta industrial do país, as empresas aqui instaladas são quem pagam os salários diferenciado dos auditores. Afinal, em tempo de rotina produtiva, elas recolhem 50% de toda a carga tributária federal da Região Norte. Somos um dos oito estados que mais recolhem do que recebem da União. Se a União repassa ao Amazonas, a cada trimestre, R$ 10 bilhões pelas contrapartidas federais, este Estado repassa para Brasília 2,5 vezes, ou seja, R$ 25 bilhões, ou seja, repassava. Os auditores fiscais sabem disso. A receita caiu, o desemprego cresceu, o Brasil entra em sobressalto pois não há certezas de virada no horizonte. Só promessas. Isso, se cada um fizer sua parte. Prejudicar o emprego, desequilibrar a produção, complicar o que já está comprometido, não é papel de quem quer achar saídas que resultem no interesse de todos.

Caminhos minados

A quem os grevistas querem punir? A que outros propósitos, além das reposições salariais e resguardo de novos e antigos direitos, está greve pretende servir? E de onde partem as ações de mobilização, inteligentemente planejadas e efetivamente bem-sucedidas em seus objetivos predatórios, como “ Dia sem computador”, “Operação Tartaruga”, “Maré Vermelha”, “Operação Padrão”. A ação das entidades levou em conta a orientação do MPF – Ministério Público Federal, o órgão guardião do interesse público e zelador da Lei. No caso da greve da Polícia Federal, ensaiada para utilizar a realização das Olimpíadas no Brasil e as ameaças dos atentados que espocam a toda hora pelo mundo, o MPF ingressou com várias ações que hoje tramitam no STF Superior Tribunal Federal, e o entendimento dos ministros em diversas decisões é que essas operações são ilegais, porque trazem prejuízos irreparáveis à sociedade. Como medida de combater essa prática os tribunais vêm condenando a ilegalidade em multas astronômicas e isso praticamente desestimulou os agentes da PF em fazer greve desse tipo, ou seja, pararam de penalizar a sociedade por melhorias salariais. O direito de Greve no serviço público ainda não foi regulamentado, mas esse entendimento dos tribunais foi justamente para evitar movimentos da PF nos eventos da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Dificilmente o Brasil vai achar caminhos sem passar por atitudes efetivas de desarmamento de espíritos na busca do entendimento. As leis são necessárias por falta exatamente deste espírito proativo de colaboração que compatibiliza interesses e gera saídas de atendimento do ganha-ganha da solidariedade. O resto significa minar as saídas de que o Brasil precisa para descortinar novos caminhos.

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Indicadores do dever cumprido

Em seu artigo publicado no Infomoney/Bloomberg, neste fim de semana, o presidente Wilson Périco resgatou sua participação, a convite do Grupo de Estudos Estratégicos do INPA, nos eventos de celebração dos 64 anos do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia, para pontuar os motivos pelos quais este acerto fiscal, social, ambiental e econômico não decolou como poderia, tendo em vista que recolhe muito 2,5 mais recursos do que recebe nas contrapartidas constitucionais. Como reduzir as desigualdades regionais, como recomenda a Carta Magna, se a riqueza aqui gerada para esse fim tem outra destinação? Passados 50 anos da instalação da Zona Franca de Manaus, já poderíamos – com os recursos confiscadas – ter consolidado os polos industriais existentes e diversificado a economia com a instalação de dois polos adicionais, nas áreas industriais de Manaus, o de biotecnologia e tecnologia da comunicação e informação. Obviamente, com a experiência de empreender na floresta, poderíamos também ter consolidado o polo Naval, com a expertise de quem constrói barcos adequados para a navegação fluvial desde os tempos imemoriais. Cabe, ainda, destacar o polo de silvicultura para o MFS, manejo florestal sustentável, mantendo, fortalecendo e enriquecendo os estoques naturais com a expertise de quem descobriu que a melhor maneira de conservar os parâmetros naturais é atribuir-lhe função econômica. O polo de segurança alimentar e o de recursos minerais, por sua vez, dariam à economia florestal a oportunidade de promover a prosperidade social, além de ajudar o Brasil a cumprir seus compromissos no Acordo do Clima. Entretanto, se continuarmos reténs do burocratismo federal, em lugar do Norte retomar o crescimento nacional como os prognósticos anunciam, seguiremos exportadores de recursos líquidos para a União, e reféns da infraestrutura precária e competitividade capenga, e cobrados pelos supostos privilégios da renúncia fiscal. É preciso virar esse jogo.

Omissão e submissão política

Numa reportagem de alto nível jornalístico, o site Amazonas Atual anotou a ausência da bancada parlamentar do Amazonas no debate sobre a reforma política. Num país em que as grandes definições estratégicas, econômicas, socioambientais e de ciência, tecnologia e inovação, dependem de acordos políticos, ficar fora deste debate, não por exclusão, mas por opção, é motivo de inquietação e alerta. O que significa esta ausência? Por que, nos últimos anos, os grupos políticos em ação de confronto permanente não conseguem abrir mão de seus interesses imediatos e priorizar as urgências do bem comum. E mais: não fazer parte de um novo desenho político, objetivo da reforma, num momento em que esta categoria experimenta o maior descrédito do tecido social como um todo, significa que a bancada parlamentar do Amazonas está integralmente satisfeita com o status quo. Isso é estarrecedor. Nenhum dos oito deputados federais do Estado participa da Comissão Especial para Análise, Estudo e Formulação de Proposições Relacionadas à Reforma Política. Somos o maior estado da federação. Temos uma base econômica, apesar de seu amparo constitucional, integralmente monitorada e desrespeitada pelo poder central e alvo permanente de agressões de outros estados, particularmente das unidades federativas do Sudeste, a região mais rica do Brasil. Ora, olhando a retrospectiva dos últimos 16 anos, a bancada parlamentar esteve muito próxima do núcleo duro de poder, mesmo assim, apesar da comunhão política e adesão parlamentar ao poder de plantão, o Amazonas não emplacou a utilização local dos recursos aqui produzido para minorar as mazelas de infraestrutura que açoitam a competitividade da economia da ZFM, condenando-a a viver refém e de pires na mão diante do governo federal. E nossa bancada, apesar disso, ou por causa disso, optou por ausentar-se dessa configuração que desequilibra, desautoriza e desqualifica o setor produtivo e o poder político local. Do jeito que está, diz o bom senso, é preciso mudar.

A gastança e a cangalha tributária

Crescem os rumores de que o governo federal deverá recorrer a velha fórmula predatória do aumento da carga tributária. Uma saída desgastada, que se desvia do enfrentamento desta chaga histórica que é a má gestão dos recursos públicos. Credibilidade e eficiência são essenciais em qualquer cenário de mudança. E como reivindicar credibilidade na contenção de gastos, o imperativo preliminar da gestão, que compatibiliza receita e despesa, se os gastos do governo federal com cartão corporativo – pra ficar num exemplo, entre outros – aumentaram substantivamente nos últimos quatro meses, na gestão Temer. Nesse período, em que se alardearam cortes, o poder Executivo gastou mais de R$ 29 milhões com os tais cartões. Mais de 50% se comparado aos R$ 22 milhões, de janeiro a junho, do governo anterior. A comparação é entre 4 e 6 semestres. E para quem conhece o gabinete do líder do governo, historicamente suntuoso, num momento de recessão absurda, o Senado Federal celebra contrato de R$ 283 mil com a empresa JDC Engenharia para a execução de reforma no gabinete do senador Romero Jucá (PMDB-RR), que deixou a Casa Civil pelos rumores das delações e irá defender o governo no Congresso Nacional, sob o signo perdulário da gastança. O extrato do contrato está no Diário Oficial da União desta segunda-feira, 7. Enquanto isso, ficamos na expectativa dos surrados expedientes da majoração tributária. Ninguém merece.

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

Dendê, curauá e juta: critérios da sustentabilidade na Amazônia

Raimundo Rocha, um inveterado apostador nas oportunidades da agricultura inteligente para fazer a Amazônia autossuficiente em segurança alimentar com base na agroindústria tropical, é um agrônomo da Embrapa Amazônia Ocidental. Ele tem a receita para a moléstia da desarticulação das políticas públicas que dissocia academia, economia e sustentabilidade com prejuízos históricos da prosperidade regional. “A sinergia do sistema empresarial com a agricultura familiar na Amazônia se torna ainda mais vantajosa quando o manejo da palma-de-óleo, ou qualquer plantio de longo prazo, é intercalado com culturas alimentares na fase pré-produtiva”. Estudos relacionam esses cultivos da segurança alimentar com amortização de custos de implantação dos sistemas. De quebra, asseguram proteção ao solo, permitem exploração contínua dos plantios e renovam a atmosfera. Ou seja, milho, feijão-caupi, banana, mamão, abacaxi, mandioca, cará, berinjela, já são receitas orgânicas de repovoamento agroflorestal nos critérios do Acordo do Clima. A AFEAM, Agência de Fomento do Amazonas, financia a produção de guaraná orgânico, exportado para Europa e EUA, em regime de cooperativa financiada e certificada com recursos recolhidos pela indústria. O Amazonas, entretanto, importa 90% do alimento que consome, e deveria constranger-se de concentrar em Manaus mais de 85% de sua economia, com todas as mazelas que esse desequilíbrio impõe.

O Estado do Pará fez o Zoneamento do Dendê, o boi vegetal, e já ocupa uma área de plantio de 200 mil hectares da palma-de-óleo, lembrando que o sucesso deste cultivo na Amazônia se expande nas áreas onde há o consorciamento agrossilvopastoril: dendê, frutíferas e criação de animais. Em 2012, na busca do que fazer com milhares de cachos vazios de dendê, a Embrapa Agroenergia iniciou a prospecção de nanofibras de celulose, assim como o pesquisador da UEA, Antonio Mesquita, na mesma época, descobriu como transformar as fibras do caroço de açaí – milhares de toneladas jogadas no meio ambiente – em placas de MDF, um aglomerado de fibras de celulose com múltiplas utilidades. Se o dendê pode render até seis toneladas de óleo por hectare – enquanto a soja gera entre 500 e 600 quilos no mesmo espaço – a nanofibra do dendê, por sua alta resistência, pode substituir a fibra de vidro, por ser ambiental e economicamente viável. Pode ainda adensar a tecnologia de produção de pneus – pois robustece o papel da borracha – e ainda diversificar a indústria têxtil. De olho no parque industrial da região de Campinas, as empresas de dendê do Pará abriram uma unidade de refino de óleo de dendê em Limeira-SP.

O mesmo interesse industrial se deu em relação ao curauá, outro alvo de nanopesquisas da Embrapa Agroenergia. O CBA, Centro de Biotecnologia da Amazônia, atualmente sob nova direção, encontrou em seus viveiros um acervo de milhares de mudas de curauá (Ananás erectifolius), uma fibra vegetal amazônica utilizada pelos índios para confecção de redes, cordas, fios de pesca, embarcações, por sua alta densidade e resistência. Há testes para construção civil, consorciando curuá a estruturas de sustentação. Já estão consolidados os estudos da nanofibra desta planta para indústria instalada em Manaus: informática, têxtil e de duas rodas. Só falta conter o confisco federal das verbas de pesquisa recolhidas pelas empresas e alinhar a interlocução entre os atores. No Amazonas existe a maior unidade fabril do país em uniformes profissionais, que poderia consorciar suas fibras tradicionais com as fibras tropicais amazônicas, lembrando que, no caso do curauá, a propagação da espécie em laboratório já é rotina, no CBA, há uma década. O mesmo ensaio poderia ser feito, também, com a fibra da juta, uma atividade consolidada pela família Mário Guerreiro e Isaac Sabba, desde os anos 50, desestimuladas pelas prioridades equivocadas das políticas públicas. O Amazonas já ensaiou a produção de dendê em Tefé, incluindo a criação de uma empresa pública, a EMADE. Já pesquisou e comprovou os benefícios e ganhos do dendê. E já promoveu e usufruiu da economia da juta e da malva. Por que não integrar pra valer indústria e economia florestal, em parâmetros de sustentabilidade para consolidação recíproca? Na BrasilJuta dos anos 50/60, a cadeia produtiva de juta e malva ocupava 30 mil empregos diretos e na fábrica de tecidos havia creche, assistência médica e odontológica para os trabalhadores. Entender o abandono dessas oportunidades é ponto de partida para retomar caminhos alternativos de uma nova prosperidade, na perspectiva sustentável, que a diversificação e interiorização da economia exige.

Alfredo Lopes é ensaísta e consultor do Centro da Indústria.

CIEAM presta homenagem ao Inpa

Com artigo de seu presidente, Wilson Périco, sobre as Matrizes Econômicas e do Conhecimento, a ser publicado em mídia global, Infomoney/Bloomberg, o Centro da Indústria do Estado do Amazonas presta homenagem ao Inpa, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, por ocasião de mais um ano de avanços na investigação do bioma florestal. “É necessária e promissora a presença do setor produtivo, aqui representada pelo CIEAM, Centro da Indústria do Estado do Amazonas, no ambiente dos cientistas do Inpa, Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia, mediatizada pelo Grupo de Estudos Estratégicos dessa instituição, que completa 64 anos de investigação de nossa biodiversidade. Esta aproximação mais estreita se dá, ainda bem, no momento em que a Zona Franca de Manaus padece uma de suas crises mais devastadoras. Juntos, podem e isso implica em múltiplas possibilidades de parcerias e avanços na medida em que precisamos, sem demoras, buscar novos caminhos para a economia. Hoje, o polo industrial de Manaus está fincado em apenas três segmentos de produtos: o polo eletroeletrônico, com destaque para os televisores, informática e o de 2 rodas, que apresentaram queda vertiginosa nos últimos 5anos. Se analisado o polo eletrônico com os bens de informática, que são os smartphones, os tabletes e monitores, a composição fabril alcança 46%, incluindo segmentos afins, enquanto o de duas rodas, somado ao metalúrgico, chegam a 20%, restando o polo químico, em que entra parte dos isqueiros e concentrados dos refrigerantes, para compor o faturamento. Em suma, nós temos 4 produtos básicos que sustentam a atividade da indústria e consequentemente dão o suporte socioeconômico de nosso estado. Isso nos impõe uma fragilidade preocupante, especialmente num momento como este de indefinições. A insegurança alcança o consumidor, um número inquietante de pessoas que perderam seus empregos, perderam seu poder de compra. Com menos consumo, menos demanda por nossos produtos, menor atividade na linha de produção, e risco de mais desemprego. Hoje as pessoas estão consumindo aquilo que é de primeira necessidade, itens que não fazem parte do grupo de produtos fabricados no polo industrial. Os dados de maio, registrados oficialmente, mostram um recuo de mais 45 mil empregos em relação a 2014, onde saímos de 125 mil vagas para apenas 80 mil pessoas empregadas”.

Na luta pelos direitos

“E aí temos que insistir na defesa dos direitos, para que se cumpram as leis e a segurança jurídica de nossa presença como investidores na região. Temos anteparo constitucional desta atividade econômica, recentemente reconhecida e prorrogada pelo Congresso Nacional, fato que algumas regiões do país e alguns representantes políticos insistem em não reconhecer. Temos apenas 0,64 % dos estabelecimentos industriais do país, enquanto o Sudeste engloba 30% das empresas e usufrui de 53% da renúncia fiscal, contra apenas 13% da Região Norte. E mesmo assim a burocracia tem vetado a liberação de novos produtos industriais cuja fabricação nos permitiria adensar e diversificar o polo industrial de Manaus. O veto se dá a despeito de apenas cinco itens serem riscados da lista de produtos que podem ter isenção fiscal, armas e munições, perfumes, bebida alcoólica, fumos e seus derivados e automóveis de passageiros. Alguns enxergam a renúncia fiscal como dano, não como o melhor acerto de nossa história para reduzir as disparidades entre Norte e Sul do Brasil, e como o melhor instrumento econômico de proteção do patrimônio florestal. Este mecanismo fiscal, porém, não utiliza recursos públicos. A aquisição de todos os equipamentos, a montagem das unidades fabris, a contratação de mão de obra são investimentos absolutamente privados. O incentivo só se concretiza na hora que as empresas faturam o produto.”

O Brasil nas costas

“Mesmo assim, dos 27 estados da Federação, apenas 8 devolvem à União em arrecadação de tributos federais valores que superam o que recebem. O Amazonas recolhe 2,5 vezes o valor que recebe dos repasses constitucionais. E em média isso dá 3,5 bilhões ano, a favor dos cofres federais. No contexto das arrecadações federais da Região Norte, a ZFM responde por metade da arrecadação de tributos da Região Norte. Parte deste recurso deveria ser legalmente investido aqui na nossa região, pois a ZFM existe para reduzir as desigualdades regionais. Só assim, retendo o recurso aqui produzido, poderíamos desenvolver outras matrizes de desenvolvimento regional, adensando o modelo, diversificando seus produtos e regionalizando as oportunidades. Historicamente a União tem confiscado 80% das verbas legalmente destinadas para esta finalidade. O polo industrial de Manaus dá embasamento para uma economia concentrada em mais de 90% em Manaus. Daí a importância da nossa aproximação, de ações compartilhadas entre o setor produtivo e as instituições de ensino, pesquisa e produção de conhecimento para promover as infinitas oportunidades de nossa região.”

A proteção da Amazônia

“Certamente o Inpa tem em suas coleções e acervos de pesquisa o mapa de novas matrizes econômicas, a indústria da bioeconomia, com as respostas que a humanidade precisa para se manter saudável, jovial e equilibrada, com alimentação natural, fármacos e cosméticos. Precisamos ajudar o país a criar uma indústria e bioindústria sustentável é promissora, e para tanto carecemos de mobilização e, especialmente, de competência política e capacidade gerencial para dizer ao país o tamanho e a contribuição deste acerto fiscal de redução das desigualdades regionais e proteção florestal. A parceria institucional com o Inpa nos envaidece e nos estimula a buscar novos caminhos, um instituto de excelência, capaz de fazer, a integração de novas matrizes de prosperidade, com o Centro de Biotecnologia da Amazônia, a Embrapa, Ufam e UEA, nossa universidade estadual, integralmente mantida pela indústria, caminhos que partem da potencialidade natural da Amazônia para novos cenários de prosperidade geral, equilibrada e inteligente, em favor daqueles que aqui vivem e do Brasil.”

Grupo de Estudos Estratégicos

O Grupo de Estudos Estratégicos Amazônicos (GEEA), responsável pelo convite ao CIEAM para o debate com os cientistas, é uma iniciativa do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA/MCTI), sendo formado por estudiosos de várias áreas do conhecimento e de diversas instituições e que tem como objetivo o debate franco sobre relevantes temas amazônicos. O Secretário-executivo do GEEA, o pesquisador do Inpa Geraldo Mendes, revelou que no próximo ano o Grupo completa dez anos de existência. Na página do GEEA, no Facebook, o professor GERALDO assim se manifestou: “Agradecimento: A todos que compareceram à reunião de hoje, dia 2 de agosto, especialmente ao palestrante Wilson Périco, que deixou um recado contundente e que considero histórico para o GEEA. Agradecimento especial aos debatedores, que aportaram suas ideias de maneira franca, aberta e colaborativa; além disso souberam confrontá-las com ideias distintas, às vezes contrárias, mas sempre num clima respeitoso e solidário que o GEEA vem cultivando com esmero, desde a sua fundação. Agradecimento ao arcebispo de Manaus, dom Sergio Castriani, pela mensagem carinhosa e espiritualizada. Agradecimento aos assessores do INPA (eclético Augusto e atenta jornalista Fernanda), assessores do CIEAM e todos os presentes, solidários na escuta e no acompanhamento das falas. Agradecimento aos que não compareceram, mas tiveram a gentileza de manifestar a respeito do convite. Gratidão aos que tem acompanhado a movimentação do GEEA e às vezes, sem falar, prestam seu apoio na solidariedade intelectual, no silêncio. Gratidão… esse é o sentimento que reina absoluto em nossa alma e com o qual retribuímos a todos que estão conosco nesta caminhada em prol do GEEA e do desenvolvimento da Amazônia”. Em resposta, o presidente Wilson Périco também agradeceu a oportunidade e o privilégio de debater cenários melhores para o Amazonas e toda a região com seleto grupo de cientistas e pensadores.

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

Amazônia, a invasão inadiável

Com a velocidade, diversidade e simultaneidade da comunicação, o mundo virou um arraial onde a informação, apesar de fragmentada e inteligentemente desarticulada, se oferece, no esplendor de sua superficialidade, ao alcance de qualquer um. Por isso, não faz sentido – se é que algum dia já fez – o conceito de nacionalismo, ligado ao fechamento de fronteiras e a criminalização da informação sobre, por exemplo, as oportunidades da biodiversidade tropical. Conceitos como o de biopirataria precisam ser revistos e, no limite, abolidos, pelos equívocos e estragos que o atraso provoca no avanço civilizatório. Cabe lembrar os argumentos – de nacionalistas do esquerdismo anacrônico – de biopirataria expulsaram uma empresa do calibre corporativo da Novartis, há 16 anos, e a empurram para outro país tropical, Cingapura, onde fundou uma cidade de biotecnologia. As circunstâncias econômicas e as emergências de saídas nos obrigam a virar e arrancar essa página de imprecações. Hoje, assistimos ao alarmante impasse do desemprego estrutural decorrente do modelo gerencial desenvolvido por esta civilização. As previsões dos planejadores não apontam para o curto, médio prazo a retomada dos zilhões de empregos diretos e indiretos que o Brasil deixou de resguardar e ampliar com seus paradigmas burocrático e jurássico de gestão de suas oportunidades. Ironicamente, o contraponto dessa percepção vesga da administração de oportunidades, e os estragos gerados pelo avanço tecnológico, incluindo a robotização intempestiva, responsável por essa situação alarmante, no caso da Amazônia se constitui numa saída disponível/necessária para contribuir com o encaminhamento do desequilíbrio socioambiental dominante.

Pelo Acordo do Clima, para ficar num exemplo, o Brasil assumiu reflorestar (?) 12 milhões de hectares. Ou seja, a mesma tecnologia que deslocou/dispensou a mão de obra do mercado de trabalho pode desenvolver alternativas de inovação para cumprir esta meta com inteligência, sustentabilidade e geração de múltiplas oportunidades. Isso, porém, há que se promover com fronteira aberta, como em Cingapura ao propiciar e facilitar o acesso de uma centena de renomados bioespecialistas que consignaram um feito de ciência, tecnologia e oportunidades como jamais se viu e dificilmente reprisará: uma cidade de biotecnologia. Hoje, esta cidade da bioindústria abastece a demanda mundial na farmacopeia de ponta.

É inócuo lamentar fatos consumados, como é insano não refletir sobre as lições que oferecem. As riquezas de nossa biodiversidade, o leque das alternativas energéticas ecologicamente corretas de que dispomos, nossa potencialidade na produção de alimentos e fármacos estão disponíveis para a Humanidade, e de quebra para cumprir o Acordo do Clima, instaurar um padrão decente que contrarie a galopante insegurança alimentar e a miserabilização da Amazônia e, de resto, no arraial do planeta, a tal da sociedade global.

Certamente estas ponderações vão descabelar o nazismo escondido no nacionalismo tardio que ainda campeia nos corações e mentes da burocracia federal. A ocupação da Amazônia, aliás, é uma emergência da sustentabilidade, para partilharmos erros e acertos de seu manejo racional. Os acertos da engenharia florestal de recomposição alemã, os avanços da inovação na silvicultura canadense – eles corrigiram os danos do arraste na floresta, o que é mais predatório que o corte aloprado – a agricultura orgânica do Peru, que adensa e conserva a floresta, a produção de proteína da piscicultura dos ex-pecuaristas de Rondônia, e a milenar sabedoria alimentar dos orientais para inventar saídas proteicas com manejo insetos são soluções que precisam invadir a Amazônia… Ora, o setor florestal brasileiro é o mais atrativo do mundo em termos de investimento. Tecnologias florestais no Piauí, Maranhão, Tocantins são paradigmáticos em termos de programas florestais de suporte à indústria, atração de investimento, geração de emprego e renda, colocando o Brasil no topo no ranking mundial de manejo florestal sustentável. Quando olhamos para a Amazônia, porém, vemos que a tecnologia florestal estancou no século XIX, tanto pela exclusão social como pela depredação ambiental. A dendrocronologia, método de precisão do corte sustentável para adensar e renovar floresta, fixar carbono e gerar riqueza não desembarcou por aqui. Tecnologia, gestão e sustentabilidade para a Amazônia, portanto, são as premissas da inadiável invasão…