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ZFM – Paraíso fiscal ou do Fisco?

Palavra do presidente

O governo federal instituiu, por Medida Provisória, no apagar das luzes de 2016, mais duas cobranças tributárias em favor da Superintendência da Zona Franca de Manaus: Taxas de Controle de Incentivos Fiscais (TCIF) e Taxas de Serviço (TS). Serão recolhidas pela própria instituição para custeio de suas atividades. A autarquia, hoje desprovida de autonomia administrativa e financeira, é vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e gerencia a Zona Franca de Manaus-ZFM no segmento industrial, comercial e agropecuário. Elas substituem a TSA, taxa que tinha a mesma função e foi considerada inconstitucional pela Suprema Corte, mesmo sendo cobrada pelo poder de polícia da instituição sobre importação de produtos e insumos para o setor produtivo. As empresas já ensaiam reprisar o questionamento se as novas taxas forem confiscadas pela União, como a anterior, para outros fins. Criada em 2000, a TSA, a taxa de serviço administrativo gerava mais de R$ 200 milhões por ano, dos quais 80% eram “contingenciados”, esvaziando a Suframa e a competitividade da economia local. O governo alega que os dois novos tributos criados oferecem mais clareza, segurança jurídica e formato de cobrança mais simplificado, mas esqueceu de assinar embaixo no compromisso de deixar na região a riqueza aqui gerada para “reduzir as desigualdades regionais”, o mandamento constitucional que criou a ZFM. Mesmo sendo a sétima economia do país e a única modelagem que presta contas dos incentivos fiscais, segundo o TCU, a economia do Amazonas ainda convive com o cenário inaceitável de 11 municípios entre os 50 piores IDHs (Índices de Desenvolvimento Humano) do país.

Temos demonstrado que a União fez do Amazonas um baú de sua felicidade fiscal, apesar dos incentivos fiscais. Segundo dados obtidos pelo pesquisador Jorge de Souza Bispo, autor da tese de doutoramento na FEA USP, a Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo, Criação e Distribuição de riqueza pela Zona Franca de Manaus, “…de toda a riqueza produzida por indústrias da ZFM, 54,42% vão para o governo, 27,28% são distribuídas entre os empregados e apenas 1,82% ficam com os proprietários das empresas. Em compensação, no restante do País o governo recebe 41,54% de toda a riqueza produzida, os empregados ficam com 36,31% e os empresários com 6,44%.”

Passados 50 anos, chegou a hora dessa galinha dos ovos de ouro, envelhecida pela mesmice da dependência fiscal, fazer um omelete de protagonismo gerencial. É insano incentivar e, no mesmo momento, tolher a expansão e a sustentabilidade desta economia. As entidades do setor produtivo e, necessariamente, a classe política regional, precisam exigir a retenção destes recursos na região para criar novas modulações econômicas, adensando, regionalizando e diversificando com inovação tecnológica o setor produtivo. Para tanto, pelo menos 3% dessa riqueza deverá ser investida em infraestrutura de transportes, comunicação e energia. Chega de confisco e de ilegalidades! E ao reter aqui os recursos, defendemos a formação de um Conselho Interinstitucional e representativo da Amazônia Ocidental, mais Macapá-Santana, sob a égide da Suframa, com o propósito de definir critérios e prioridades da aplicação e gestão dos recursos das novas Taxas da Suframa, bem como aqueles oriundos de P&D, a vista da representação, demandas e necessidades dos respectivos membros. Este Conselho terá sua estruturação e credenciamento subordinados ao Conselho de Administração da Suframa. Caso esses recursos sigam sendo objeto de contingenciamento, o Conselho a ser formado tomará as providências cabíveis.

O protagonismo se estenderá, também, na direção da proteção da floresta, um compromisso exaustivamente assumido pelas empresas aqui presentes, que não consta do Decreto 288/67 que criou a Zona Franca de Manaus há 50 anos. Entretanto, este é um ativo econômico e ambiental que precisa ser precificado. Afinal, com 150 milhões de hectares de floresta conservada, caso o Itamaraty venha a liberar a valoração desta floresta como “sumidouros” de carbono, esta moeda vai agregar ao PIB do Amazonas o valor de bilhões de toneladas de carbono que este Estado sequestra de emissões na atmosfera. Temos, pois, as mãos, o ativo econômico da biodiversidade, base de uma economia de baixo carbono que, esta sim, o Brasil pode usurpar para cumprir sua parte no Acordo do Clima. Afinal, a meta de recompor 15 milhões de hectares removidos pelo agronegócio, se cumprirá no protagonismo efetivo de proteção de 150 milhões de hectares de floresta no Amazonas.

Queremos e podemos, com os recursos recolhidos para a ZFM, nos próximos 50 anos, a assumir a efetiva gestão da proteção florestal, destinando atenção, programas e recursos de P&D das empresas para conferir uma finalidade econômica ao patrimônio natural. Dos 600 mil hectares destinados ao Distrito Agropecuário, nas cercanias de Manaus, 80% não foram utilizados pela ausência de um projeto de P&D que orientasse/definisse as fragilidades e potencialidades desta porção florestal. Aqui, no paraíso do fisco, cabem programas interdisciplinares e interinstitucionais de bioeconomia, demonstrativos de tudo aquilo que é inadiável fazer com a riqueza aqui produzida, em favor da região e do Brasil.

Por Wilson Périco – economista, presidente do Cieam e vice-presidente da Technicolor para a América Latina. Texto publicado no portal Infomoney/Bloomberg  

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

Protagonismo florestal: economia e clima

A proteção da floresta está ausente do Decreto 288/67 que criou a Zona Franca de Manaus há 50 anos. Entretanto, aqui viceja um ativo econômico e ambiental à disposição das empresas incentivadas na região. Afinal, com 150 milhões de hectares de floresta conservada, tão logo os ‘sumidouros’ de carbono sejam transformados em moeda – isso depende do Itamaraty.

O PIB do Amazonas deverá ser multiplicado pelos bilhões de toneladas de carbono que suas florestas retiram da atmosfera. Para tanto, a viabilidade desta mudança sugere duas atitudes: uma no âmbito político – mobilização da bancada parlamentar amazônica – e outra na gestão dos negócios que isso representa.

O protagonismo do zelo e guarda efetivo da floresta começa pela precificação inteligente e imediata do serviço ambiental que a floresta oferece ao clima da Terra. Esse protagonismo da proteção florestal – até aqui fortuito, não buscado – poderá ser associado diretamente à reputação do padrão produtivo regional e reivindicado como o maior legado da ação empresarial na Amazônia.

Assim procedendo, estaríamos adotando a recomendação da ONU, feita em Cancun, México, recentemente, exortando a relação sustentável da economia com proteção da biodiversidade, agricultura, pesca, florestas e turismo.

De acordo com matéria publicada nesta quinta-feira pela revista “Science”, baseada em pesquisas das Universidades do Estado de Oregon, College Dublin, da Wisconsin e do Museu de Ciência da Virgínia, o nível do mar está em tendência preocupante de alta como resultado do aquecimento global.

Embora as temperaturas atuais da superfície do oceano sejam idênticas ao último período quente da Terra, há 125 mil anos, o nível do mar naquela época era de seis a nove metros acima do que é hoje. Um cenário de previsões assustadoras! É significativo especular o investimento, o peso das instituições e dos pesquisadores dessa iniciativa, comparativamente a escassez de recursos na Amazônia.

Aqui habita certamente o ‘antídoto’ para esta mazela/tragédia. Aqui resiste um único programa de pesquisa para mensurar o papel da floresta e planejar a expansão dos benefícios para o clima.

Trata-se do LBA, o Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia, gerenciado por Niro Higuchi, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, MCTI, especializado em extrair leite de pedra, ou seja, recursos, cada dia mais escassos, para formação de pessoal e organização/disponibilização das informações climáticas.

Nos últimos anos, para quem já teve aportes de instituições estrangeiras, incluindo o Departamento de Estado norte-americano, ele viu minguar as verbas federais para gerenciar os núcleos LBA de Manaus, Belém, Santarém, Rio Branco, Ji-Paraná, Cuiabá, Palmas e Brasília.

Desde 1988, LBA já mobilizou 280 instituições, sendo mais de 100 delas brasileiras, 1 700 pesquisadores e mais de 900 jovens cientistas.

Ao completar 50 anos, a ZFM tem a oportunidade de assumir a efetiva gestão da proteção florestal, destinando atenção, programas e recursos de P&D das empresas para conferir uma finalidade econômica ao patrimônio natural. Higuchi lembra que dos 600 mil hectares destinados ao Distrito Agropecuário, 80% não foram utilizados pela ausência de um projeto de P&D que orientasse/definisse as fragilidades e potencialidades desta porção florestal.

Ali caberiam programas interdisciplinares e interinstitucionais de agricultura orgânica para abastecer Manaus – que importa de outras regiões 90% da alimentação consumida –  plantio de espécies propagadas por engenharia genética, manejo sustentável de espécies arbóreas de alto valor, com definição e adoção de espécies com alto teor de fixação de carbono, ações monitorados pela ótica científica da dinâmica florestal climática, combinado produção de riqueza, com inovação e adição de tecnologias já disponíveis na região.

O IBGE ainda não em tem indicadores econômicos de ativos da biodiversidade. Tem a valoração de mercado da água, tanto nas prateleiras como no fornecimento residencial e industrial. Porém, não diz quanto custa o fornecimento deste ativo pelos ‘rios voadores’ que transportam água da Amazônia para o Sudeste do Brasil.

Sustentabilidade econômica e protagonismo da gestão florestal surge, pois, como urgente e inteligente questão e sugestão para celebrar os 50 anos de renúncia fiscal da Zona Franca de Manaus.

(*) Alfredo é filósofo e consultor [email protected]

Amazônia: economia, academia e gestão

É preciso deixar claro, na delicada e preciosa relação entre economia e academia, neste momento de adversidade inquietante, o que a universidade pode fazer para ajudar a economia a sair do atoleiro em que a má gestão a enfiou. Afinal, está em jogo o futuro da própria sociedade, de onde emerge e da qual depende a universidade. Neste momento em que os indicadores econômicos desabam todo esforço é pouco para encontrar respostas rápidas para o enfrentamento da crise. É nesse contexto que a definição dos temas e problemas do Doutorado Interinstitucional entre São Paulo-USP e Amazonas-UEA, cujo edital se encontra à disposição de todos, respeitadas as prioridades da instituição local, precisa focar as urgências regionais de gestão de projetos, infraestrutura, negócios e oportunidades. Ou seja, a academia precisa debruçar-se sobre as emergências da economia. Ou alguém tem outro encaminhamento mais adequado para o rescaldo socioeconômico e ambiental provocado pela desarticulação generalizada que tomou conta da região e do Brasil.

O Amazonas é o Estado da região Norte com maior número de incubadoras implantadas, entretanto, em termos de aceleração de empresas o empreendedorismo local padece de inaceitável paralisia. As ideias são incubadas mas não amadurecem as oportunidades que lhes deram origem. Poucas realidades reúnem tantas oportunidades num só lugar como este Estado, gigante em demografia e tímido em realizações. Não levamos em conta a conjugação do III PIB industrial do Brasil com todas as demandas de insumos e serviços imanentes, num contexto de 20% do banco genético da Terra para ser transformada em bionegócios. Falta gestão no sentido clássico de identificar metas, promover planejamento, identificar, conhecer e solucionar problemas, organizar recursos financeiros, tecnológicos, liderar movimentos, motivar pessoas, tomar decisões e avaliar, controlar resultados. Um beabá que é urgente encarar.

E quais são as urgências administrativas mais evidentes? Padecemos de um planejamento de curto, médio e longo prazo, devidamente elaborado por todas as forças e atores envolvidos. Esta foi a ideia motriz das Jornadas do Desenvolvimento, em 2016, que juntou empreendedores, poder público, academia, cooperativas e mercado. Por que não evoluiu? Por que Rondônia, Roraima, Pará, para citar vizinhos, desprovidos de incentivo fiscal, andaram mais rápido na direção de saídas na geração de emprego e oportunidades? Por que o Pará está anos luz à frente no segmento dermocosmético, refino sustentável de dos óleos vegetais, gastronômico, entre outros avanços robustos de sua bioeconomia? Aprendem sustentabilidade criando base econômica. As razões saltam aos olhos: além de uma comunhão política civilizada na defesa do seu estado, os vizinhos têm logística e energia mais competitivas. Por que não conseguimos, até hoje, precificar os serviços ambientais do polo industrial de Manaus, que emprega, gera renda, oportunidades e qualificação académica, evitando que a economia avance na direção da floresta? Somos um estado que grita aos sete mares que superou o modelo predatório desta civilização. Entretanto, é tímida nossa aposta em inovação, como criação de novas soluções para velhos problemas do empreendedorismo. Por que não abrimos as portas do polo industrial para novos segmentos produtivos, aqueles que podem recolher com inteligência e tecnologia as soluções que a natureza oferece para fazer a humanidade mais saudável, mais jovem, mais orgânica. Imitar a natureza é a obviedade dos bons empreendimentos, e a certeza de bons resultados.

O Peru fatura 1/5 bilhão/ano de dólares na agricultura orgânica. Sequer abrimos as fronteiras para seus produtores para que venham aqui vender seu know-how de saúde. O DINTER USP-UEA precisa sacudir a inércia académica local, tirando cada macaco do galho da acomodação para promover o mutirão interdisciplinar da inovação, conectado às empresas, atuais e em gestação. Este caráter interinstitucional tem um sentido mais urgente e mais abrangente, tecnológico, não apenas acadêmico mas sobretudo estratégico, na junção dos entes federativos, da comunhão entre pesquisa, desenvolvimento, sustentabilidade e mercado. Sem delongas conservadoras nem temor de avançar…

A suíça Givaudan, a maior e mais antiga empresa global de fragrâncias, sabores e cosméticos, firmou parceria com o InMetro, no apagar das luzes de 2016. O acordo é amplo e se consolidará em Manaus, afinal a Floresta da Tijuca é bucólica mas não tão pródiga em biodiversidade. Enfim, chegou(?) a hora do Centro de Biotecnologia da Amazônia, ora atrelado ao Instituto e à Suframa. Publicada no Diário Oficial da União, em 27/12/16, a parceria prevê cooperação técnico-científica intercâmbio de informações, treinamento e formação de pessoal especializado e desenvolvimento de projetos nas áreas de ingredientes para alimentos, cosméticos, perfumaria e higiene pessoal. Descobrimos o rumo à bioeconomia, algo que parece óbvio, e vital, nesse momento de indefinições.

Quem segura a balança comercial do Brasil é o agronegócio. Entretanto, esta atividade responde por 70% das emissões do Brasil, o que compromete a reputação ambiental do Brasil segundo os ambientalistas. Um deles, o climatologista Carlos Nobre, do INPE e da Academia Americana de Ciências, defende a Bioeconomia, para reduzir as emissões. “Com 100 produtos da Amazônia na área de cosméticos ou fármacos, em 10 anos dobramos a riqueza gerada pelo agronegócio” . Em busca do tempo perdido ou vamos nos perder no tempo? Há 17 anos, na gestão FHC, foi criado o CBA, Centro de Biotecnologia da Amazônia, justamente para agregar o polo de bioindústria na Zona Franca de Manaus. Na era Lula, o CBA ficou 14 anos à espera de um CNPJ para operar negócios e parcerias. Empresas como a Novartis e a Givaudan foram expulsas da Amazônia sob o argumento paranoico da biopirataria. O retorno da Givaudan sinaliza recuperar o tempo perdido de um Brasil que precisa descobrir e profissionalizar sua gestão, leia-se, a Amazônia. Tomara!

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Piscicultura: sustentabilidade e oportunidades

Entre os ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) sugeridos pela ONU e aprovados em Paris, em dezembro de 2015, para dar suporte ao cumprimento do Acordo Global, em  favor do clima – todos direta ou indiretamente relacionados ao bioma florestal amazônico – dois merecem uma reflexão pedagógica sobre o conceito de sustentabilidade. Os de número 9 e 15: “Construir uma infraestrutura resiliente, promover a industrialização inclusiva e sustentável e promover a inovação”. E  “… proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação do solo e a perda da biodiversidade”.

Este conceito surgiu na travessia conflituosa entre desenvolvimento e meio ambiente, tema da Conferência do Rio de Janeiro, a Rio-92, quando a manipulação da mídia global pôs na berlinda do aquecimento global as supostas queimadas da Amazônia. Estava decretada, na ótica de um empreendedor e pensador que o Brasil começa a conhecer, Samuel Benchimol, a Guerra na Floresta, tema de um de seus livros para enfrentar o entrevero ambiental com os verdadeiros promotores das emissões dos gases do efeito estufa-GEE. Com mais de 115 títulos sobre a Amazônia, e com o DNA desbravador da saga dos judeus na floresta,  Samuel Benchimol, com inteligência profética detalhou há quase três décadas, um conceito e as premissas  de qualquer empreendimento envolvendo a floresta: há que ser ambientalmente  adequado, politicamente equilibrado, socialmente justo e economicamente viável. Qualquer descuido numa dessas pilastras, o empreendimento desanda em seus propósitos e resultados.

Para além da teoria, que ainda precisa aprofundar as implicações de cada pilar, a gestão de bons negócios da Amazônia já conta com experiências que aprovam este paradigma.  Uma referência de desenvolvimento que a Ciência  recomenda e da qual o clima depende.

Na lógica do capitalismo florestal, obviamente, a substituição  da pecuária tradicional – como fizeram os empreendedores paranaenses que chegaram na Amazônia rondonienses nos anos 70 para produzir proteína bovina – pela produção sustentável de tambaqui, pirarucu ou matrinchã, deu excelentes resultados. São peixes deliciosos – sonho de consumo gastronômico para quem se dispõe e experimentar e degustar a Amazônia. E com uso de tecnologia avançada, que respeita a formulação inteligente  de indicadores de sustentabilidade. Em poucos anos, passaram de 500 quilos/hectare de terra, na pecuária, para 22 toneladas/hectare de lâmina d’agua, na piscicultura. Rondônia, pelos dados da Receita Federal, concentra o maior número de milionários em proporção a seus habitantes.

Com a regeneração natural da floresta, viram em torno das lâminas d’agua as árvores removidas para implantação do pasto retomar seu papel de saneamento ambiental. O conceito de sustentabilidade foi transformado em metodologia de monitoramento por parte do poder público, que aufere confiabilidade e fomento no delicado processo de gerenciamento e aproveitamento das potencialidades regionais. Nesse contexto, sustentabilidade é também interatividade de todos os atores sociais. O empreendimento se consolida na medida em que todas as fases dos trabalhos são acompanhadas com transparência,  desde a concepção até a gestão dos indicadores e sobretudo na fase de monitoramento da rotina produtiva, com vistas a assegurar e otimizar interesses individuais e coletivos, dando legitimidade e segurança que a atividade requer. Na explicação dos bons resultados, o conceito de sustentabilidade se relaciona a acertos na medida em que leva em conta as expectativas e o conhecimento tradicional das populações locais, sugerindo a importância da educação para a inovação como  enfrentamento dos baixos índices de escolaridade regional, a precariedade das comunicações e de transporte desafio da serem enfrentados para consolidar empreendimentos, gerar emprego e receita pública. Eis um caminho…

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Brasil, o berço esplêndido da bioeconomia

Seguiremos deitados no berço esplêndido da bioeconomia? Os ingleses, longe de serem amaldiçoados pelo sequestro das sementes da seringueira – a lendária árvore da fortuna, a hevea brasilienses –  deveriam receber nossos aplausos pelo pioneirismo da industrialização inteligente da biodiversidade: as luvas hipodérmicas que ajudaram o mundo a ser mais asséptico e os pneus que ajudaram a economia a andar mais rápido, são dois entre milhares de produtos da borracha. Sabe quantos inventados no Brasil? Zero. E a seringueira é uma das milhares de plantas com benefícios surpreendentes na Amazônia.

Os ingleses levaram as sementes  para os laboratórios de Kew Gardens, um magnífico parque no oeste londrino, antes de cultivarem extensivamente nos seringais asiáticos. Ali, mais de 100 mil espécies amazônicas, levadas pelos Viajantes da Coroa, seguem – discretamente – nos laboratórios de bio-nano-info-tecnologia – alimentando a bioindústria de Sua Majestade. Fizeram o simples: a mimese, ou seja, imitação da natureza que multiplica ativos econômicos de saúde, juventude, nutrição orgânica, de acordo com a demanda ambiental e do mercado. Imitar ou refinar a dinâmica reprodutiva natural é o mais antigo e rentável caminho dos bons bionegócios.

Dois eventos marcaram este final de novembro – na pauliceia mais do que nunca desvairada – a procura ansiosa da academia, economia e poder público por entender os estragos que a recessão espalha em todas as direções. Um deles, na USP, sobre o Futuro do Trabalho e o outro sobre Desenvolvimento com Economia de Baixo Carbono, no Insper/Instituto Escolhas, por caminhos diversos e razões das mais distintas, desembarcaram na Amazônia.

É curiosa a forma com que esta região é tratada na narrativa de todos esses atores. É como se a geografia do Brasil ainda parasse em Minas Gerais e, dali para frente – e esta é uma boa notícia – não dá mais para ficar na desculpa da ignorância. Todo mundo já descobriu, há muito tempo, que chegou a hora de entender/decifrar/degustar/precificar o resto do território nacional e continental florestal, a Amazônia.

Na procura de achar caminhos ninguém se constrange em reconhecer e validar o agronegócio do Brasil central – o amparo messiânico da balança comercial brasileira. Dizer que essa façanha global é “culpada” por 70% das emissões de carbono nada acrescenta sem contextualizar os benéficos fatos. Emite, mas compensa e gera riqueza pra criar soluções compensatórias, como tem feito a Coalizão Brasil Clima, Floresta, Agricultura. Uma delas é apostar nos bioprodutos florestais amazônicos com baixa emissão de carbono.

O CBA (Centro de Biotecnologia da Amazônia), que começa a funcionar depois de 13 anos sem CNPJ, ou seja, definição do modelo de gestão, formalizou um Termo de Cooperação InMetro/Suframa com a Fazenda Agropecuária Aruanã, no Amazonas. Um projeto de pecuária dos anos 70 que trocou pasto por plantio de espécies com alto valor agregado. Recompôs a floresta com produção de castanhas (selênio para Alzheimer, diabetes e obesidades), pupunha (palmito e fruto) e copaíba (Unicamp desenvolveu 10 alternativas de tratamento para câncer, além de infecções e viroses).

Com descobertas recentes, o Termo de Cooperação já apontou, nos resíduos da Fazenda, as biomoléculas que a indústria farmacêutica e cosmética tanto procuram. Sem derrubar a floresta, com replantio de árvores e geração de atividade econômica de baixo carbono, exatamente como o país prometeu e assinou no Acordo do Clima. Tudo como a Fapesp, agência de pesquisa paulista, recomenda, e os dois eventos de novembro encaminharam.

Em Cancun, a ONU reconheceu a biodiversidade como um ativo econômico vital, na discussão do clima, e já havia dito que a mandioca, o base alimentar da civilização amazônica, é o alimento do século XXI. Eis, pois, razões inadiáveis para começar a investir na região os recursos de pesquisa e desenvolvimento, gerados pelas indústrias da Zona Franca de Manaus – algo superior R$ 6 bilhões, nos últimos 10 anos, equivalente ao  PIB de vários países do Continente. Isso permitiria desenvolver na floresta uma bioeconomia tão  pujante como o agronegócio, segundo Carlos Nobre, cientista do INPE e da AAC (Academia Americana de Ciências), com a vantagem de reduzir drasticamente as emissões como o Brasil precisa e o clima agradece.

Alfredo Lopes é filósofo e ensaísta, e consultor do CIEAM, Centro da Indústria do Estado do Amazonas. Contato: [email protected]

Um Natal para louvar e agradecer…

Entre os sentimentos que se destacam – neste momento  de reflexão teológica que o Natal recomenda – a gratidão se manifesta como ação de graças de toda a Humanidade ao Senhor, por  nos ter  enviado seu filho a partilhar a fragilidade de nossa condição humana. Lucas, o evangelista médico, nos brinda com uma passagem das mais eloquentes para descrever o quanto apraz ao Senhor este sentimento. No capítulo 17, versículos 11 a 19, fala dos dez leprosos, certamente acompanhados de mulheres e crianças, que pedem a misericórdia da cura de sua lepra, uma doença estigmatizada pela tradição e pela cultura judaica, que os marginalizava radicalmente. Em respeito ao preceito legal – Moisés ordenara que fossem excluídos do convívio social – Jesus apenas lhes disse “Ide e mostrai-vos aos sacerdotes”, que poderiam autorizar sua reintegração social. No caminho, os leprosos se perceberam curados. Apenas um, entretanto, voltou, glorificando a Deus em alta voz, prostrando-se aos pés de Jesus. E este um  era samaritano, um povo considerado inimigo dos judeus. “Levanta-te, e vai – disse Jesus – a tua fé te salvou”. Quantas vezes – diante das bênçãos cotidianas – voltamos para, ajoelhados e penitentes, louvar, bendizer e agradecer o presente da vida, o ar que respiramos entre tantos regalos  de toda nossa caminhada?

Em outubro último, dia 29, atacado por uma crise cardiorrespiratória fulminante, em pleno voo de São Paulo a Manaus, vi de perto que minha hora chegara. Meus sinais vitais estavam em queda livre… E chegaria, não fosse a intervenção competente da boa samaritana Sharala Kumari, médica do Hospital Adventista e da Escola de Saúde da UEA, que estava voltando para Manaus depois de um curso exaustivo de atualização na Medicina da USP. Foram três horas e meia de agonia, tratada com a habilidade afetuosa de quem escolheu a Medicina por vocação e missão. Uma missionária da boa nova da saúde, de salvar vidas repartindo este dom precioso que o Senhor nos emprestou. Obrigado, Sharala, eternamente, muito obrigado!  Ao saber de quem tratava, ela relatou os benefícios acadêmicos e médicos conquistados  pela parceria UEA e USP, da gestão Cleinaldo Costa  – que aproximou as duas escolas na rotina ambulatorial, de tele-medicina, os profissionais da saúde para multiplicar benefícios… Por fim, mobilizou, através de distribuição digital do seu Relatório de conduta, seus colegas de trabalho para recepcionar o paciente no serviço de emergência do Adventista. Ao chegar em Manaus, é justo lembrar,  os socorristas Mercedes e Geberson, da Infreaero, se integraram à operação que me repôs respiração e vida. A eles, minha especial gratidão, extensiva à equipe da Gol.

Sharala Kumari, no dia seguinte, voltou ao hospital, onde fiquei internado, para uma visita de cuidados e cortesia, acompanhada de seus pais, Ashok e Edna. Uma família radiante e carismática, movida pela alegria que descreve os verdadeiros filhos da Luz. Ele, um pesquisador  da terra de Ghandi, ela, Edna, da Paraíba, que vieram para Manaus há mais de duas décadas, trazendo um anjo em forma de benção, cura e alegria, Sharala Kumari, a quem, neste dia de Natal –  que nos sugere a mais sublime das ações de graça – é oportuno, digno e justo, louvar, bendizer, adorar e agradecer ao Senhor por sua vida e testemunho. Como não lembrar de história de gratidão, descrita por Lucas? Como ninguém, ele, um profissional da cura, sabia do sofrimento que a exclusão e o abandono da doença nos causam. E o quão agrada aos olhos do Pai o gesto humilde de um portador da lepra de voltar para agradecer… A gratidão, que reconhece na misericórdia divina o dom da vida, do oxigênio, o sopro divino, no limite,  nos devolve a própria vida, esta benção retratada em plenitude na simplicidade do presépio. Obrigado, infinitas vezes, obrigado por Sharala, Senhor, por ensinar-me com gestos o sentido do Natal. Obrigado por sua família e demais missionários da saúde e arautos de sua mensagem de vida que somente o Amor pode traduzir.

ZFM: empregos, prosperidade e compromisso com o Brasil

Por Wilson Périco (economista e presidente do Cieam – Centro da Indústria do Estado do Amazonas)

Encerra-se 2016, um ano de muitas dificuldades e, ao mesmo tempo, de muita aprendizagem. Um ano em que a Zona Franca de Manaus, bode expiatório da incompetência federal, segue alvo de muitos bombardeios. Entretanto, para quem souber ajustar a lupa, lemos algumas boas notícias, entre elas, os avanços da Universidade do Estado do Amazonas, uma instituição integralmente mantida pelas empresas da Zona Franca de Manaus. Saiu no Diário Oficial: Amazonas e São Paulo se juntam, a partir da UEA, a maior Universidade Multicampi do Brasil, e a USP, Universidade de São Paulo, através de sua Faculdade de Economia e Administração, na celebração do DINTER UEA/USP, um projeto interinstitucional de qualificação docente em nível de doutoramento. Temos que nos curvar em oração e gratidão pela vida e pelas oportunidades de trabalho. Os desafios nos convidam a crescer. É na adversidade que nós crescemos e aprendemos com mais afinco para sobreviver. Um dos desafios, olhando para as ações da UEA, é encarar este gargalo nacional e regional, que é formação urgente de bons gestores. Como viver num país tão agraciado de riquezas naturais e tantas dificuldades para fazer disso a prosperidade geral? A crise recessiva que nos açoita decorre exatamente da má gestão dos bens públicos. A parceria com a USP, os 70 anos da FEA, no caso, deve priorizar e ampliar a percepção dos novos negócios que se impõem, para retirar a economia da dependência quase exclusiva do Polo Industrial de Manaus. São as matrizes econômicas, adotadas pelo poder local, objetos de intensos, variados e eloquentes debates para desenhar os novos caminhos, num momento em que a ONU recomenda um olhar da biodiversidade como fator econômico, a melhor maneira de superar a economia predatória. O adensamento da indústria local, com a inclusão de insumos regionais, os investimentos em inovação, entre outras ações, buscarão recuperar os empregos e oferecer a biodiversidade, associada a tecnologia da comunicação e da informação as saídas de que o Brasil precisa.

Desinformação destrutiva

Temos que fazer o mea-culpa. Demoramos muito a dar a cara pra bater e dizer ao resto do país o que somos e o que fazemos. Uma inverdade dita muitas vezes começa a ganhar foros de verdade. Por isso é urgente esclarecer mais uma referência equivocada à Zona Franca de Manaus, contida num artigo publicado no Estadão, “Ajustes em andamento”, dos economistas Caio Carbone, Marcelo Gazzano, da AC Pastore & Associados. Entendemos e apoiamos ações para decifrar as distorções que levaram o Brasil ao rombo do déficit público. Mas repudiamos a inclusão da economia do Norte como causa deste problema, e não como parte da solução de impasses do Brasil. “A ZFM custa mais que a renda gerada pelos empregos criados”, diz o artigo, com o qual visceralmente discordamos. São múltiplos os acertos desta renúncia. E as empresas que aqui se instalaram – resguardadas pontuais exceções – não iriam para outras unidades da federação. E aqui essas empresas, entre outros benefícios, guardam o patrimônio natural, submetendo-se aos novos paradigmas de produção e sustentabilidade. A matéria do Estadão sugere, indiretamente, que aqui se vive num paraíso fiscal, embora esta planta industrial seja aquela que mais recolhe tributos e benefícios entre as demais plantas. Os acertos da ZFM se dão a partir de 1967, e englobam a proteção da floresta: “integrar para não entregar”, nem ao desmatamento, nem ao narcotráfico. Manter a floresta em pé vale ouro. Nos anos 1950 se implantou a indústria automobilística, também, como renúncia fiscal, historicamente muito mais robusta, numa região em que hoje se concentra mais da metade da riqueza do Brasil. Toda a Amazônia é incentivada com R$ 25 bilhões de renúncia fiscal, segundo o portal da Receita Federal, isso representa 12% das isenções do País, enquanto a Região Sudeste foi responsável, em 2014, por 53% do total da renúncia fiscal da federação. Naquele ano, eram 130 mil empregos diretos em Manaus, 600 mil indiretos e 2,2 milhões ao longo de toda a cadeia produtiva, incluindo distribuição, securitização e assistência técnica dos produtos da ZFM, em todo o país.

Orgulho do dever cumprido

Segundo o portal da Receita Federal, dos 27 entes federativos, apenas 8 devolvem à União mais do que dela recebem. O Amazonas, a rigor, a economia da ZFM, recolhe 3 vezes mais do que recebe. E mais: os incentivos não se esgotam nos empregos que geram, mas cumprem o papel adicional de proteger a biodiversidade, vital para o equilíbrio climático do país e do planeta. Quantos empregos são gerados e quantos recursos daí são arrecadados por uma geração formada pela Universidade do Estado do Amazonas, presente em 62 municípios, e paga integralmente pela ZFM? No total, são R$ 1,4 bilhão/ano para promover a interiorização do desenvolvimento. Portanto, além de resguardar o patrimônio da biodiversidade, já poderíamos – não fosse o confisco federal da riqueza aqui produzida – ter desenvolvido novas matrizes econômicas, que permitiriam a dispensa paulatina da renúncia fiscal. A União confisca 80% dos recursos da Lei de Informática, destinados a pesquisa e desenvolvimento, mais de R$ 6 bilhões nos últimos 10 anos.

Inovação, parceria e bioeconomia 

Com a criação do CBA, Centro de Biotecnologia da Amazônia, pago, também, pela indústria, a ZFM construiu um modelo para o desenvolvimento da Amazônia, baseado em conhecimento e inovação tecnológica. Depois de 14 anos, a União autoriza retomar este novo caminho, capaz de brecar a devastação. Poderia gerar muito mais empregos e renda, se estes recursos desenvolvessem, segundo o cientista Carlos Nobre, cem produtos da biodiversidade econômica, capazes de gerar, em dez anos, uma economia cinco vezes maior do que o atual agronegócio, responsável por 70% das emissões de carbono do Brasil. “Isso colocaria o Brasil na linha de frente das pesquisas com temas como o biomimetismo, que é o desenvolvimento de tecnologias aplicáveis inspirada no funcionamento dos sistemas da natureza, além do uso da biodiversidade para desenvolvimento de produtos, como alimentos, fármacos e cosméticos. Além disso, seria uma contribuição real do Brasil para a estabilização da questão climática em menos de 2ºC, estabelecido no Acordo do Clima de Paris”, diz o único brasileiro convidado pelo governo americano para integrar a Academia Americana de Ciências. Trata-se de mais um passo no enfrentamento deste desafio de mobilizar olhares da Amazônia e sobre a Amazônia para pensar o Brasil de outro jeito, formular parâmetros de governança qualificada que aproveitem experiências, saberes e fazeres de integração entre academia, economia e brasilidade num novo patamar: a construção do futuro, integrado, sustentável, amazônico, nacional, continental, na interação com um planeta atrás de novas saídas. Que 2017 nos aguarde! Juntos, fraternos e focados num só objetivo, somos e seremos cada vez mais fortes. Que as luzes do Natal de Deus-Menino iluminem nossos destinos e que a simplicidade da manjedoura, o desprendimento participativo de José, à dedicação de Maria nos sirvam de paradigma para seguir na luta por este Estado que – de tão nosso e pródigo de oportunidades – seja um padrão de desenvolvimento, prosperidade e sustentabilidade a serviço da região amazônica e do Brasil.

Esta coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do Cieam – Editor responsável: Alfredo M Lopes ([email protected])

USP e UEA apostam em governança na Amazônia

O Amazonas, através da UEA, a maior Universidade multicampi do Brasil, se integra aos festejos dos 70 anos da FEAUSP, a Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo, com a celebração do DINTER UEA/USP, um projeto interinstitucional de qualificação docente em nível de doutoramento, para credenciar gestores num momento em que a ONU reconhece na biodiversidade, a economia e a respectiva governança necessárias à quarta revolução industrial. A recomendação se deu na conferência ambiental da ONU, encerrada no sábado, em Cancún, no México. A medida reafirma a percepção de que conservar a biodiversidade supõe atribuir-lhe uma função econômica, como se faz historicamente com agricultura, pesca, florestas e turismo.

Trata-se de mais um passo no enfrentamento deste desafio de mobilizar olhares da Amazônia e sobre a Amazônia para pensar o Brasil de outro jeito, formular parâmetros de governança qualificada que aproveitem experiências, saberes e fazeres de integração entre academia, economia e brasilidade num novo patamar: a construção do futuro, integrado, sustentável, amazônico, nacional, continental, na interação com este planeta, conturbado e depredado, atrás de novas saídas.

Vale lembrar que esta é mais uma etapa da reunião histórica, que encerrou a Mostra Pioneiros e Empreendedores do Brasil, realizada em agosto de 2013, sob a batuta de Jaques Marcovitch, que permitiu o resgate dos pioneiros da floresta, Samuel Benchimol à frente, e que recomendou o caminho da inovação, parceria e sustentabilidade como o melhor paradigma de gestão da Amazônia, da consolidação da ZFM, e da formatação das novas modulações econômicas: o destino em nossas mãos.

Temas emergem em profissão, como os serviços ambientais do polo industrial, que emprega, gera renda, oportunidades e qualificação académica, superando o modelo predatório desta civilização, e apostando em inovação, como novas soluções para velhos problemas associados a empreendedorismo, dentro dos compromissos de Sustentabilidade ambiental, na perspectiva da Cooperação internacional, no âmbito prioritário da Amazônia que atravessa fronteiras, focando no significado e nas oportunidades das Unidades de conservação, mais de 30% do território estadual. O DINTER será mais do que um doutoramento institucional. Seus pressupostos e visão de governança vão priorizar e se configurar numa Plataforma de sinergias, preferencialmente no espaço de inovação da EST, Escola Superior de Tecnologia, sinalizando um momento plural, interdisciplinar, digital e universal, e de integração, olhando a preparação do futuro de um Brasil que vai completar 200 anos em 2022. Nesse contexto, além de tema, problema, e metas de solução, o Acordo do Clima será a demonstração de que todos apostam num novo paradigma de desenvolvimento a partir da floresta, de sua integração e reconciliação entre Homem e Natureza. As dissertações serão compartilhadas entre docentes e doutorandos, destes com seus alunos e colegas, e todos, na multiplicação de redes e pontes, com um novo modelo de sociedade, mercado e sustentabilidade. Poucas ações são tão importantes neste momento de gestão do futuro como tematizar a esfinge amazônica, carente de debate emergencial e muita investigação interdisciplinar – a condição primeira de sua gestão e integração à brasilidade.

Parece publicidade, mas o Brasil se comprometeu, na Cúpula do Clima de Paris, a reflorestar 12 milhões de hectares de florestas até 2030. Na pratica, este é aproximadamente o tamanho da Inglaterra, e em termos de volume, para plantar tantas árvores, são necessárias 8 bilhões de mudas. Bravatas climáticas à parte, o Amazonas, que conserva mais de 150 milhões de hectares intactos, tem tecnologia de propagação para múltiplas espécies de valor comercial. O pulo do gato não se esgota em plantar. O verbo é manejar a biodiversidade, mobilizando parcerias acadêmicas, formulando novos padrões de governança na conservação da biodiversidade como premissas de prosperidade para a região e para o Brasil. Mãos à obra!


                

PLANMOB: inquietações e proposições nas empresas

Começa um novo governo municipal, mesmo com reeleição de Arthur Neto, que toma posse hoje juntamente com o Vice-prefeito e vereadores. Ano novo, nova gestão, muitas expectativas e inquietações. Uma delas, presente no imaginário de todo o tecido social é o desafio de implantar a Lei Nº 12.587, de 3 de janeiro de 2012, que instituiu as diretrizes da Política Nacional de Mobilidade Urbana. Com ela, os Municípios brasileiros passaram a dispor de um instrumento referencial para debater, identificar seus gargalos da vida social e propor a reinvenção do espaço urbano, pontuando a mobilidade urbana como o ponto nevrálgico desta discussão. Em artigo proféticos e atual, publicado pela Associação Nacional de Transportes Públicos, ANTP, o Conselheiro do CIEAM, Lucio Flavio Moraes de Oliveira, com o título Sensibilização à Mobilidade Urbana, chamava a atenção, há três anos, para a delicadeza e relevância do problema. “É fundamental, desde o Artigo 1º, perceber na legislação da Política Nacional de Mobilidade Urbana o instrumento referencial da política de desenvolvimento urbano de que trata o inciso XX do art. 21 e o art. 182 da Constituição Federal, objetivando a integração entre os diferentes modos de transporte e a melhoria da acessibilidade e mobilidade das pessoas e cargas no território do Município”. Para ele, o que todos buscamos é atingir um desenvolvimento urbano sustentável e esse passa a ser um grande desafio que implica em refazer ou reinventar as cidades de forma inteligente e inclusiva. “Se queremos mobilidade temos que ter uma cidade acessível inclusiva e integrada”.

Setor produtivo se movimenta

E é exatamente este o espirito das iniciativas, ora conduzidas com a participação do CIEAM, FIEAM e Sinduscon em conjunto com as respectivas entidades do setor, resguardar espaço e pleitear a participação permanente nos debates e encaminhamentos do Plan-Mob, o Plano de Mobilidade de Manaus. Foram entregues, antes da edição final da legislação, dois documentos para o poder público com este propósito, ambos sem resposta. Tanto para o poder público municipal, como estadual e federal, uma pergunta não pode calar. Como inserir neste PlanMob, assim como nas demais ações que afetam a ZFM, o fato ululante de que Manaus é uma cidade eminentemente industrial de onde emana mais de 80% da vida econômica do Estado e como tal precisa ser tratada. Como, pois, considerar a mobilidade de 120 mil trabalhadores diretos e 700 mil indiretos, as rotas de leva e traz trabalhadores em 2.500 viaturas de transporte, o transporte de cargas, e sua inserção nas prioridades de gestão da cidade? Afinal, tratam-se de fatores, vitais e essenciais para a municipalidade, a região e o país. Aqui funciona o III PIB Industrial do Brasil e a sexta economia do Brasil, integrando as 7 capitais que respondem por 25% do PIB. O PlanMob, na extensão de suas ponderações e metas, deixou de lado este fato como tem feito o poder público no enfrentamento deste e de outros desafios que constrangem trabalhadores, empresários e usuários das vias públicas assustadoramente esburacadas do Distrito Industrial, carentes de reurbanização, alvo de violência cotidiana e fator de constrangimento para quem pretende atrair novos investidores.

Cercada de florestas, cortada por Igarapés

Segundo o professor Augusto Rocha, da Ufam, e empresário associado desta Entidade, o poder público adotou padrões urbanos consagrados em outras metrópoles para pensar soluções para Manaus. O que nós precisamos é pensar mobilidade urbana para uma cidade cercada de florestas e cortadas por Igarapés. Mobilidade urbana é um conceito bem amplo. E o que se espera com uma política de mobilidade urbana – vou dar um exemplo – é que o custo econômico para as necessidades de movimentação dos habitantes desta cidade seja o menor possível, no que diz respeito ao custo financeiro e ao tempo das pessoas. Assim, se uma pessoa conseguir fazer uma viagem não motorizada diária, como uma caminhada entre sua casa e o trabalho, será muito melhor para a economia e para a cidade do que ela fazer um percurso no mesmo tempo de carro. Lembro, como exigência vital, que Manaus precisa adotar o reflorestamento de sua área. Árvores amenizam o calor e espalham vidraceiro energia. Assim, podemos avançar na construção de um cenário urbano viável e interessante para o morador, onde se faz necessário que o movimento pendular diário casa-trabalho-casa ou casa-escola-casa, um deslocamento que seja inferior a uma hora ou não muito mais que isso. Assim, será adotado o modo de transporte mais apropriado. Até 2km: a pé. Até 6km de bicicleta, ônibus ou outro transporte coletivo, preferencialmente, para que tenha um menor custo para a economia. Distâncias superiores a 6km podem indicar ônibus ou outros modos, uma vez que combinações também são válidas – parte a pé, parte de bicicleta, parte de ônibus. Não é uma conta rígida, o grande objetivo é buscar o menor custo com sustentabilidade. Isso indica: sempre que possível não usar motores. Quando motores forem necessários, sempre que possível para transportes públicos de capacidade compatível com o volume de pessoas a serem transportadas, com grande frequência e rápido e, em último caso, usar automóveis.

A geografia e as pessoas

Precisamos pensar na mobilidade urbana considerando nossa geografia, insiste Augusto Rocha. Desta forma, a política deve buscar induzir o habitante a utilizar o modelo mais sustentável possível. Com isso faria todo o sentido a nossa política de mobilidade adotar múltiplas soluções de transporte, pois é um problema sistêmico e problemas sistêmicos demandam soluções diversas. Não será possível ter apenas um modal de transporte. Barcos, catraias, bicicletas, carros, caminhadas etc. Tudo deve ser considerado. Outras formas devem também ser consideradas, como trens, metrôs, VLT, BRT, BRS… há espaço para múltiplas soluções em Manaus. As discussões têm sido bem pequenas, como se Manaus ainda fosse um Porto de Lenha. Não parece que temos um legítimo debate técnico, onde se é duro com os problemas e leve com as pessoas. Estamos sendo duros com as pessoas e leves com os problemas ou mesmo leve com as pessoas e leve com os problemas. Não temos enfrentado os problemas. Entendo que a academia poderia contribuir muito para este debate, se houvesse interesse real em ouvir nossos especialistas, mas parece que nossa sociedade não reconhece a ciência… precisamos chegar a um Iluminismo Amazônico…

Industrial e sustentável

A ZFM, além de responder pelo compromisso de ajudar a reduzir as desigualdades regionais, hoje contribui decisivamente para proteger a floresta. Manaus é uma cidade eminentemente industrial, sem chaminés. Temos aqui um referencial de sustentabilidade, apto a compatibilizar as demandas urbanas de desenvolvimento com fragilidades ambientais. Este é o desafio, diz o professor Augusto Rocha. É um trabalho hercúleo. Se juntássemos UFAM, UEA, PMM, entidades industriais e comerciais (CIEAM, FIEAM, FECOMERCIO, FAEA, ACA, CDL, SINDUSCON, CREA, CRA…) com nossos melhores especialistas e que conhecem nossa realidade… mesmo assim, já teríamos um desafio descomunal. O Brasil já abdicou de aceitar essa missão. Se todos estes atores olhassem para a mesma massa de dados de pesquisa primária seria um método que teríamos boas chances de sucesso. Qualquer coisa longe disso é pouco provável, pois não temos entre nós (por enquanto) nenhum Jaime Lerner ou Jan Gehl amazonense. Assim, é preciso trazer todos os especialistas para trabalhar o tema. Em conjunto. De um grupo assim, emergirá a solução. Não consigo perceber outra forma para este tipo de problema, pois é um problema técnico e problemas técnicos precisam de especialistas para resolver. Você usaria um Clínico Geral sozinho para resolver um problema em todo o seu sistema circulatório e sistema nervoso? Sozinho? Ou usarias uma junta médica com diferentes profissionais? Por que para o corpo temos tanto cuidado e tanto desleixo para as cidades? Temos um problema multidisciplinar que exigem, no mínimo, especialistas de Arquitetura, Engenharia Civil, Pesquisa Operacional e Urbanismo. Não há respostas prontas e nossa atividade industrial precisa ser respeitada. Por exemplo, não vejo como restringir tráfego de caretas em muitas vias de Manaus, pois este tráfego faz parte de nossa principal atividade econômica. Não vejo como não aproveitar nossos igarapés e suas margens – deveríamos ter ciclovias por margens bosqueadas dos igarapés. Precisamos explorar nossa belíssima natureza. Poderíamos ter diversos parques pela cidade ao lado de todos os igarapés, com vias construídas com custo baixo e não com montanhas de concreto. É preciso aprender com as soluções de outros lugares: econômicas e simples.

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

Phelippe Dao, um pioneiro apaixonado pela Amazônia

O jornalista e empresário Phelippe Daou faleceu em São Paulo neste 14 de dezembro e faria aniversário de 88 anos justamente em 15 de dezembro. Ele nasceu em Manaus, no ano de 1928, filho do comerciante José Nagib Daou e da Sra. Nazira Chamma Daou. A Amazônia perde um de seus filhos mais apaixonados. Fez seus primeiros estudos na Escola Progresso de Manaus, dirigida pela professora Julita Berjona. Em seguida, ingressou no Colégio Estadual do Amazonas, onde concluiu o curso secundário e o científico. Ingressou na Faculdade de Direito do Amazonas, onde se bacharelou. Muito cedo, ainda, iniciou-se no jornalismo, como repórter do Jornal do Comércio, mas a ascensão na carreira começaria um ano depois, com sua transferência para a empresa Archer Pinto, proprietária, na época, de O Jornal e do Diário da Tarde, onde exerceu diversas funções redacionais. Atuou ainda como redator da Rádio Rio Mar. Defensor da Amazônia, naquela empresa Phelippe Daou liderou campanhas memoráveis, destacando-se, entre outras, “A Constituição da Siderama” e a “Companhia de Eletricidade de Manaus” (hoje Amazonas Energia); a implantação da “Universidade do Amazonas”; o “Aeroporto Eduardo Gomes” e as “Rodovias AM-10” (Manaus-Itacoatiara) e “BR-319” (Manaus-Porto Velho).

Nas origens da ZFM

Teve participação importante no levantamento de subsídios para a redação final do texto proposto ao Dr. Arthur Amorim e ao ministro Roberto Campos, visando à implantação da Zona Franca de Manaus, tarefa que executou com êxito, como membro da comissão especial da Associação Comercial do Amazonas (ACA). Como advogado, militou no Fórum de Manaus e foi membro do Conselho da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), seção Amazonas. Ingressou por concurso nos quadros do IAPB (hoje integrado ao INSS), como procurador, atuando nas Delegacias de Manaus e São Paulo, tendo sido delegado nesta última. Marcou sua passagem com importantes contribuições, como o primeiro representante das classes empresariais do Amazonas no Conselho de Administração da Suframa.

As iniciativas pioneiras da TV

Em 1968, junto com Milton Cordeiro e Joaquim Margarido, fundou a Amazonas Publicidade, o embrião empreendedor que deu origem à Amazonas Distribuidora Ltda e a Rádio TV do Amazonas S.A., que abrange, entre outras emissoras, a Rede Amazônica de Televisão. Empresário bem-sucedido no ramo das Comunicações, Phelippe Daou destacou-se, sempre, como um ferrenho defensor da Zona Franca de Manaus. Presidiu o Conselho Deliberativo da Associação Comercial do Amazonas, instituição sesquicentenária que, por consenso e historicamente, sempre representou a classe empresarial e a defesa da economia regional. Dedicado ao jornalismo, foi correspondente em Manaus da Folha da Manhã (hoje Folha de São Paulo) e das revistas Visão e Manchete.

Reconhecimento público

São dezenas as condecorações que recebeu de entidades e instituições públicas e privadas, que revelam e reafirmam seu compromisso permanente e inarredável com os interesses da Amazônia e de sua gente. A defesa e preservação da Amazônia são a maior bandeira e razão da vida do cidadão Phelippe Daou, que procurou ocupar os espaços vazios da região, levando através da Rede Amazônica os anseios de todo o tecido social, defendendo em todos os aspectos o que temos e o que somos no contexto nacional. Sua marca principal ficou sedimentada através do trabalho. Provou, aos menos entusiastas, que a Amazônia é capaz de conquistar suas aspirações, incorporando a preservação do meio ambiente como garantia de um futuro promissor. Phelippe Daou é um aglutinador – conseguiu reunir pessoas em prol de uma boa causa, ao mesmo tempo em que procurou formar opiniões em torno da defesa intransigente de nossos direitos e interesses, tendo como pano de fundo, meta e razão de vida a AMAZÔNIA!

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