Futuro Tecnológico da Amazônia e o AGIN/UEA: Entrevista com o Prof. Dr. Antônio Mesquita

“Estamos formando talentos, criando laboratórios, desenhando políticas públicas e fomentando redes de pesquisa e empreendedorismo. Com a nanotecnologia, transformamos fibras da floresta em materiais biodegradáveis de alta resistência. Com a biotecnologia, replicamos compostos bioativos em escala industrial.”

Prof. Dr. Antônio Mesquita – Diretor Executivo da AGIN – Agência de Inovação da UEA

Coluna Follow-Up

BrasilAmazôniaAgora – Professor Mesquita, a AGIN celebra 14 anos em um momento de profunda transformação. Qual o significado dessa data para o senhor e para a Universidade do Estado do Amazonas?

Prof. Dr. Antônio Mesquita – A celebração dos 14 anos da AGIN é, antes de tudo, um marco de afirmação institucional. Ela consolida uma trajetória construída com base no compromisso da UEA com a ciência, a tecnologia e a inovação como vetores do desenvolvimento sustentável da Amazônia. Neste momento, ao lançar nosso Planejamento Estratégico Integrado – elaborado em mutirão acadêmico em consonância com as prioridades da Amazônia|- firmamos um pacto com o futuro. Não se trata apenas de comemorar o que já fizemos, mas de declarar com clareza o que queremos construir até 2034: uma economia mais diversa, densa e regionalizada, inclusiva, com base na qualificação e na inteligência tecnológica amazônica.

Portal BAA – O reitor André Zogahib tem tido um protagonismo claro nesse novo ciclo. Como avalia sua liderança nesse movimento de transformação?

Prof AM. – O reitor André – com sua equipe e experiência – tem sido a liderança fundamental na condução desse novo ciclo da UEA. Sua visão é estratégica e profundamente comprometida com o papel social e científico da universidade. Ele tem liderado pessoalmente as articulações institucionais com centros de excelência e atua para que a UEA assuma a vanguarda da inovação tecnológica, sem perder sua identidade amazônica. O professor André compreende que desenvolvimento sustentável exige ciência de ponta com raízes fincadas no território — e tem dado à comunidade acadêmica as condições políticas e institucionais para avançar nesse horizonte.

Estamos formando talentos, criando laboratórios, desenhando políticas públicas e fomentando redes de pesquisa e empreendedorismo. Com a nanotecnologia, transformamos fibras da floresta em materiais biodegradáveis de alta resistência. Com a biotecnologia, replicamos compostos bioativos em escala industrial. 

Prof. Dr. Antônio Mesquita – Diretor Executivo da AGIN – Agência de Inovação da UEA
Dr Antonio Mesquita Dr. André Luiz Nunes Zogahib

Portal BAA – Entre as boas notícias, o que representa a parceria firmada entre a UEA e o SENAI Cimatec?

Prof AM. – Essa parceria é um divisor de águas. Pela primeira vez, a UEA se insere de forma estruturada no ecossistema das tecnologias quânticas, ao lado de uma das instituições mais avançadas do país em pesquisa aplicada. Mas vamos além: queremos que essa vanguarda esteja a serviço da bioeconomia, da biotecnologia e das vocações produtivas do Amazonas. A cooperação com o SENAI Cimatec insere a UEA em redes nacionais e internacionais, ao mesmo tempo em que fortalece nossas agendas locais, como os hubs de inovação no interior do estado.

Portal BAA – Como esses hubs estão estruturados e qual o impacto esperado para o desenvolvimento regional?

Prof AM. – Os hubs representam um novo paradigma de presença universitária no território. Já temos iniciativas concretas: Tabatinga com o hub de drones para segurança de fronteiras; Parintins com foco em semicondutores; Itacoatiara na transformação digital; e Manaus com inteligência artificial e o novo Laboratório de Tecnologias Quânticas. A ideia é clara: descentralizar a inovação, permitir que o conhecimento gerado na universidade dialogue com as necessidades e vocações de cada região. Isso fortalece a interiorização do desenvolvimento e reduz desigualdades territoriais.

Portal BAA – A tríade quântica, nano e biotecnologia parece ser a base de diversificação dessa nova economia. Como a UEA está se preparando para liderar esse movimento?

Prof AM. – Estamos formando talentos, criando laboratórios, desenhando políticas públicas e fomentando redes de pesquisa e empreendedorismo. Com a nanotecnologia, transformamos fibras da floresta em materiais biodegradáveis de alta resistência. Com a biotecnologia, replicamos compostos bioativos em escala industrial. E com a computação quântica, aceleramos a descoberta de moléculas com potencial farmacológico e a criação de novos materiais. Nosso compromisso é traduzir ciência em soluções, com respeito ao conhecimento tradicional e foco no bem-estar das populações locais. Sem esquecer que Manaus é uma cidade industrial, com empresas que sustentam a universidade e respondem por 85% da movimentação da economia.

Portal BAA – E quanto ao envolvimento das comunidades e instituições locais nesse virada de chave?

Prof AM. – A UEA não trabalha sozinha. Buscamos integração com instituições como INPA, Embrapa e Fiocruz, e dialogamos com comunidades tradicionais, cooperativas, startups e setor privado. A bioeconomia só será viável se for inclusiva. A formação de consórcios colaborativos interinstitucionais e a criação de laboratórios de arranjos produtivos são peças-chave para garantir que o conhecimento circule e se traduza em inovação e geração de renda para quem vive na Amazônia.

Portal BAA – O senhor acredita que a UEA pode ser protagonista de um novo modelo de desenvolvimento para a região?

Prof AM. – Sem dúvida. O conhecimento amazônico, articulado com ciência de ponta e redes de cooperação, é capaz de reinventar a economia regional. Estamos saindo da lógica do extrativismo predatório e avançando para uma bioindústria sustentável, ancorada na biodiversidade e na inteligência local. É isso que estamos construindo com a AGIN e com o apoio de toda a comunidade da UEA — docentes, discentes, técnicos e parceiros externos. O futuro da Amazônia passa pela educação, pela pesquisa e pela inovação com identidade cultural, social e desenvolvimento sustentável.

Devastação de florestas pode comprometer rios voadores e funcionamento de hidrelétricas brasileiras
foto: Jose Caldas

Portal BAA – Que mensagem o senhor deixaria para a sociedade nesse momento em que a Amazônia volta ao centro das atenções globais?

Prof AM. – O futuro da Amazônia não se escreve apenas com boa vontade ou com alertas sobre o desmatamento. Ele se constrói com ciência, tecnologia e coragem política para inovar com raízes. A UEA está mostrando que é possível desenvolver a região valorizando a floresta em pé e as pessoas em pé. Convidamos a sociedade, o setor produtivo e os formuladores de políticas a se somarem a esse movimento. A Amazônia quer ser referência global não só em biodiversidade, mas também em conhecimento e inovação.

Portal BAA – Por fim, a quantas andam os entendimentos e parcerias com as empresas do Polo Industrial de Manaus? 

Prof AM. – Muito bem, obrigado. Mais do que uma parceria, a ação compartilhada com as empresas são um compromisso inarredável. Esta gestão avançou nesta direção, entre outros propósitos, para alinhar a produção do conhecimento com o projeto maior do desenvolvimento sustentável do Estado e da região. Precisamos adensar nossa economia e envolver as unidades do interior no desafio da diversificação, adensamento e interiorização das cadeias produtivas. Dar suporte a uma Bioeconomia integrada significa assegurar cadeias de produção e de inovação na perspectiva da produtividade e da prosperidade. Temos talentos e demandas neste beiradão amazônica que só dependem de suporte de inovação e tecnologia

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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