Iniciativa do Idesam conecta ciência, comunidades e indústria para desenvolver cosméticos, rastrear árvores e ampliar o aproveitamento de matérias-primas da biodiversidade amazônica.
Caroços de açaí, resíduos de buriti e farinha de babaçu estão entre as matérias-primas de dez propostas selecionadas pelo Desafio Bioinovação Amazônia. Anunciado em 21 de outubro, o resultado reúne tecnologias voltadas à produção de ingredientes cosméticos, conservação de alimentos, rastreabilidade de árvores e desenvolvimento de materiais para a saúde.
Promovida pelo Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), por meio de sua iniciativa de geração de negócios ZÔMA, a chamada recebeu quase 500 inscrições, com interesse de participantes de mais de 80 países. O programa tem financiamento do Bezos Earth Fund e parceria da Penn State University.
As equipes avançam agora para atividades de validação tecnológica e aproximação com organizações comunitárias e parceiros industriais. O Desafio Bioinovação Amazônia prevê cerca de R$ 100 mil por equipe para testar e aprimorar as soluções, além de uma premiação final de R$ 450 mil, dividida entre as três mais bem classificadas.
Do aproveitamento de resíduos aos cosméticos
Entre as selecionadas, a BioExtrativa, de Ramon Sousa Barros Ferreira e Carolina Itoda, pretende obter extratos bioativos do caroço de açaí com um método de extração de menor impacto ambiental. Weliton Pedro Batiston e Silvia Luciane Basso propõem aproveitar resíduos do buriti para produzir ingredientes cosméticos ricos em carotenoides. Cooperativas poderão participar do pré-beneficiamento da matéria-prima.
A farinha de babaçu é a base do modificador sensorial para cosméticos proposto por Leonardo Sia e Menfecy Almeida Amaral. Já Nathiel Moraes e Paula Moreira desenvolveram a proposta BioGel, que utiliza uma plataforma à base de amido para conservar açaí e extrair compostos bioativos.
Outra frente do Desafio Bioinovação Amazônia busca aumentar o aproveitamento dos óleos amazônicos. Danilo José Machado de Abreu e Cassiana Mendes apresentaram uma combinação de enzimas para melhorar a extração do óleo de buriti, preservando seus bioativos. Segundo os ensaios apresentados pela dupla, o rendimento mais que dobrou.
A Oiru Bio, de Isabella Barbosa e Marina Aoe Shimono, aposta na combinação de sensores não invasivos e software de rastreabilidade. A proposta busca identificar espécies oleaginosas e estimar seu potencial produtivo, incluindo o de copaibeiras.
Aplicações na pele e no cuidado de feridas
Quatro propostas exploram aplicações ligadas à saúde e ao cuidado da pele. A ACUS, de Letícia Scherer Koester e Taris Macedo, trabalha com microagulhas de polímeros que se dissolvem para liberar bioativos amazônicos na pele. Samanta Finsterbuch e Cassiana Mendes propõem um nanorrepelente com compostos de andiroba e copaíba.
Andrey Marcos Pinho da Silva e Taris Macedo apresentam a BioSpin NanoLift, uma nanofibra biodegradável para liberação gradual de bioativos no cuidado de feridas. A Cahuchu Elixir, de Ana Karoline Almeida da Silva e Rashmi Prakash, combina biopolímeros reaproveitados e nanobioativos amazônicos em uma plataforma de cuidado da pele.
As soluções selecionadas pelo Desafio Bioinovação Amazônia estão em diferentes estágios de desenvolvimento. A classificação não significa que estejam prontas para comercialização, ainda serão necessárias etapas de validação e aprimoramento.
Demandas das comunidades orientam a pesquisa
Os seis desafios tecnológicos da chamada foram definidos com a participação da COOPEACRE, no Acre, e da Vem do Xingu, no Médio Xingu, no Pará. As organizações contribuíram com demandas produtivas e conhecimentos dos territórios. Uma análise do Instituto SENAI de Inovação em Biossintéticos e Fibras, da Firjan, também ajudou a identificar oportunidades industriais para matérias-primas amazônicas.
“Nesse arranjo, as indústrias indicam suas demandas tecnológicas, as comunidades apontam oportunidades nas matérias-primas com que trabalham, e o Idesam mobiliza pesquisadores e especialistas em P&D para construir soluções conjuntas”, afirma o gerente de inovação do Idesam, Paulo Simonetti.
Antes da escolha das dez propostas, o programa selecionou 50 participantes: 25 inovadores e 25 especialistas em pesquisa e desenvolvimento. Após a formação das equipes, as soluções foram apresentadas a uma banca avaliadora.
A próxima fase do Desafio Bioinovação Amazônia prevê residência na região, apoio técnico e acesso à infraestrutura de pesquisa. O objetivo é avaliar a viabilidade das tecnologias e abrir caminhos para licenciamento, criação de startups e parcerias comerciais.