A floresta em pé insiste em entrar nas contas da sustentabilidade 

Coluna Follow-Up

Anotações de Alfredo Lopes

Na Amazônia, a relação entre natureza e resultado financeiro pode ser percebida no orçamento de uma viagem, no frete de uma mercadoria e no planejamento de uma fábrica. Quando a navegação fica comprometida, surgem despesas, atrasos e dificuldades de abastecimento. Essa experiência oferece uma boa perspectiva para acompanhar um movimento que ganha espaço nas finanças internacionais.

O International Sustainability Standards Board, o ISSB, abriu consulta pública sobre orientações para divulgar riscos e oportunidades relacionados à natureza. A proposta procura melhorar as informações oferecidas aos investidores sobre como a dependência de água, biodiversidade e ecossistemas pode afetar as perspectivas das empresas. As contribuições poderão ser apresentadas até 19 de fevereiro de 2027.

A discussão, apresentada em reportagem de Thais Folego no Reset, interessa diretamente à indústria da Amazônia. Uma empresa pode administrar suas instalações com eficiência e continuar exposta à deterioração das condições ambientais de que depende sua cadeia produtiva. Conhecer essa exposição passa a integrar o trabalho de quem avalia investimentos, concede crédito e planeja a produção.

A natureza participa do resultado

O alcance dessa mudança merece atenção. Os padrões do ISSB já contemplam informações relevantes sobre riscos de sustentabilidade, incluindo os relacionados à natureza. A consulta detalha como apresentá-las, com atenção à localização das atividades e à relação com povos indígenas e comunidades locais. O documento proposto tem aplicação voluntária, e o conselho também consulta o mercado sobre a possibilidade de adotar outro formato, como uma norma específica.

Para o Amazonas, há uma tarefa empresarial e institucional nessa agenda. Precisamos compreender melhor onde estão nossas vulnerabilidades, quanto custam e quais investimentos podem reduzi-las. Uma análise consistente exige reunir conhecimento industrial, pesquisa científica, informações hidrológicas e experiência das populações que vivem nos territórios.

Também exige cuidado com a qualidade dos relatórios. A multiplicação de formulários pouco acrescentará se as informações permanecerem distantes das decisões. O avanço será mais relevante quando ajudar a orientar a escolha de fornecedores, a localização de empreendimentos, a gestão da água e a preparação para interrupções logísticas.

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Foto: Italo Guimas/Unsplash

O valor econômico da floresta ganha consequências práticas quando sua conservação passa a influenciar decisões de financiamento e investimento.

O anúncio da Holanda merece destaque

Outra notícia publicada pelo Reset, em reportagem de Clarissa Freiberger, acrescenta uma dimensão importante a esse debate. Em 26 de outubro, um dia após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governo dos Países Baixos anunciou a intenção de aportar até US$ 500 milhões no Fundo Florestas Tropicais para Sempre, conhecido pela sigla TFFF. Segundo a publicação, o país estava entre os potenciais investidores que aguardavam o resultado eleitoral brasileiro para confirmar apoio.

O comunicado oficial holandês prevê a contribuição ao longo de dez anos e informa que ela permanece sujeita a condições. Também registra o interesse de investidores institucionais do país. Portanto, trata-se de uma intenção de investimento com requisitos e calendário de execução, cuja concretização precisará ser acompanhada.

A sequência dos acontecimentos permite uma leitura política e econômica. A continuidade da agenda ambiental brasileira parece ter contribuído para dar segurança a uma decisão preparada anteriormente. Esse sinal merece ser considerado na avaliação das perspectivas abertas pelo novo mandato.

A confiança internacional tem efeitos sobre a capacidade de reunir parceiros, estruturar instrumentos e atrair recursos de longo prazo. Para uma região que necessita de investimentos persistentes, a credibilidade da política ambiental constitui um componente das condições de desenvolvimento.

Remunerar a conservação

O TFFF procura organizar pagamentos aos países pela manutenção de suas florestas tropicais, com base em resultados verificados. Sua estrutura combina capital público e privado, aplicado em uma carteira de investimentos cujos rendimentos líquidos devem sustentar a remuneração pela conservação. Pelo menos 20% dos pagamentos florestais deverão ser destinados a povos indígenas e comunidades locais.

Há uma aproximação entre os dois movimentos. Enquanto os relatórios empresariais procuram tornar mais visíveis os riscos econômicos associados à degradação, o fundo busca criar uma receita ligada à continuidade dos serviços prestados pela floresta.

São iniciativas com funções distintas, mas que podem contribuir para uma compreensão mais completa da economia amazônica. A conservação tem custos, requer presença pública, conhecimento e trabalho. Seus benefícios alcançam atividades e populações muito além dos territórios que assumem essa responsabilidade cotidiana.

A qualidade da execução será decisiva. Será preciso acompanhar os recursos efetivamente integralizados, o desempenho financeiro, os critérios de pagamento e o acesso das comunidades. Para o Amazonas, interessa especialmente que essa arquitetura reconheça quem conserva e produza condições duradouras de desenvolvimento.

Uma agenda para a indústria da Amazônia

No âmbito do CIEAM, essa discussão deve aproximar a defesa da Zona Franca de Manaus de uma agenda de preparação empresarial. Cabe estimular diagnósticos das dependências ambientais das cadeias produtivas, cooperação com universidades e formação técnica para produzir informações úteis à gestão.

Cabe também contribuir para o debate internacional a partir das particularidades amazônicas. Quem opera numa economia dependente de rios e de longas conexões logísticas tem conhecimento a oferecer sobre riscos que os modelos financeiros precisam compreender melhor.

A remuneração da conservação deve integrar um conjunto mais amplo de políticas, acompanhado de infraestrutura, pesquisa, educação e atividades produtivas capazes de gerar renda. O desafio regional continua sendo oferecer perspectivas às pessoas que vivem na Amazônia, inclusive aos milhões de moradores de suas cidades.

A floresta em pé precisa participar da formação da renda e das oportunidades de quem vive com ela. O anúncio holandês e a consulta do ISSB oferecem caminhos para avançar nessa direção. Ao Amazonas compete participar de sua construção, com capacidade técnica e clareza sobre suas necessidades, para que o reconhecimento internacional da floresta encontre correspondência na economia e na vida de sua população.

A indústria pode participar dessa construção

Essa discussão encontra uma contribuição importante nos estudos da Comissão CIEAM de ESG, sobre compensação de emissões e estratégia industrial. O tema chama a atenção para uma distância que o Amazonas precisa enfrentar. A presença das fábricas no território amazônico ainda oferece possibilidades de cooperação com a conservação que permanecem pouco desenvolvidas.

A Comissão tem examinado como as estratégias climáticas das empresas podem se aproximar de iniciativas ambientais na região onde elas produzem, empregam e investem. Essa conexão permite associar compromissos corporativos ao conhecimento do território, à participação das comunidades e a resultados que possam ser acompanhados.

A proximidade da floresta oferece oportunidades cuja realização depende de ciência, segurança jurídica e governança. Trata-se de um  arcabouço necessário para medir, monitorar, definir titularidades, esclarecer questões fundiárias, assegurar direitos e estabelecer uma distribuição transparente dos benefícios. A qualidade desses fundamentos determina a credibilidade dos projetos e dos compromissos empresariais associados a eles.

É preciso compreender também as funções de cada instrumento. A divulgação de riscos relacionados à natureza orienta investidores sobre a exposição das empresas. A compensação de emissões envolve créditos e critérios próprios de integridade. Já o TFFF prevê pagamentos por resultados de conservação e não gera créditos de carbono ou biodiversidade. Esses mecanismos podem contribuir para objetivos convergentes, preservando suas regras e finalidades.

Conhecimento também gera valor

Outro ponto relevante é a aproximação entre conservação e inovação. Inventários florestais, sensoriamento remoto, rastreabilidade e avaliação dos serviços ecossistêmicos exigem equipes qualificadas, tecnologia e continuidade de pesquisa. Há espaço para ampliar a cooperação entre empresas, universidades, institutos científicos e organizações comunitárias.

Para o Polo Industrial de Manaus, essa agenda merece integrar o planejamento empresarial e as discussões sobre pesquisa e desenvolvimento. Podemos formar competências locais para conhecer melhor os riscos ambientais das cadeias produtivas e avaliar oportunidades de investimento vinculadas à conservação.

No âmbito do CIEAM, a Comissão ESG segue empenhada em organizar esse diálogo, reunir experiências e ajudar as empresas a compreender quais iniciativas apresentam consistência técnica e jurídica. A participação dos interessados desde as etapas de estruturação permitirá ao setor industrial contribuir com as metodologias e os arranjos institucionais em formação.

O reconhecimento financeiro da floresta em pé terá maior acolhimento regional na medida em que gerar conhecimento, trabalho qualificado e renda no Amazonas.

Esse é o elo que a contribuição das pesquisas locais do INPA e IDESAM acrescenta ao debate. O anúncio holandês e a consulta do ISSB ampliam as perspectivas internacionais; a preparação das instituições e das empresas amazonenses ajudará a transformar essas perspectivas em oportunidades para quem vive e produz na região.


A Coluna Follow-Up é publicada sob a responsabilidade do CIEAM às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Comércio do Amazonas, com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, portal brasilamazoniaagora.com.br

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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