Educar para cuidar: uma aliança pela vida na Amazônia

O futuro da Amazônia também se decide na maneira como ensinamos nossas crianças a compreender o lugar onde vivem. Na relação que estabelecem com a água, no destino que aprendem a dar aos resíduos, na percepção de que a floresta sustenta possibilidades de trabalho, saúde e bem-estar. A educação ambiental começa nessas descobertas e ganha força quando mobiliza famílias, comunidades e instituições em torno de uma responsabilidade compartilhada.

É com esse entendimento que celebramos a parceria entre o Tribunal de Contas do Amazonas e a Arquidiocese de Manaus para ampliar o Projeto Caminho Sustentável, desenvolvido pela nossa Escola de Contas Públicas. Ao aproximar conhecimento técnico, experiência educativa e presença comunitária, buscamos fazer chegar a mais pessoas os instrumentos necessários para compreender os desafios ambientais e participar de suas soluções.

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Dom Leonardo Steiner e conselheira Yara Lins assinam acordo de parceria para educação ambiental (Foto: TCE/AM)

Essa união acontece em um momento que exige lucidez e capacidade de agir. As advertências da ciência são graves. No Relatório sobre a Lacuna de Emissões de 2025, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente estimou que as políticas então vigentes conduziriam o planeta a um aquecimento de aproximadamente 2,8°C ao longo deste século, em relação aos níveis pré-industriais. Mesmo o cumprimento integral dos compromissos climáticos nacionais considerados naquela avaliação apontava para uma elevação entre 2,3°C e 2,5°C. São projeções condicionadas às escolhas humanas, e justamente por isso devem orientar decisões, investimentos e prioridades. (unep.org⁠)

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas reforça que cada incremento do aquecimento amplia riscos para as pessoas e os ecossistemas. A gravidade desse diagnóstico torna a prevenção mais urgente e dá valor a cada avanço capaz de reduzir danos. O futuro permanece em disputa nas decisões que tomamos hoje. (ipcc.ch⁠)

Crise climatica sobre a Terra

Para quem vive na Amazônia, cuidar da água significa cuidar também dos caminhos que ligam comunidades, do alimento que chega à mesa e das condições que permitem estudar, trabalhar e permanecer no território. Por isso, a educação ambiental precisa conversar com a experiência cotidiana da população. Precisa ouvir quem conhece os rios, quem acompanha os ciclos da floresta e quem enfrenta as dificuldades dos bairros e das comunidades.

A relevância da parceria nasce da complementaridade de suas instituições. O Tribunal de Contas traz a perspectiva da responsabilidade pública, do planejamento e da boa aplicação dos recursos. A Arquidiocese contribui com sua experiência educativa e com uma rede de relações comunitárias que pode dar continuidade ao diálogo muito além de uma atividade pontual.

A reputação que importa para uma iniciativa dessa natureza se sustenta na coerência entre missão e prática. Para uma instituição de controle, isso significa associar fiscalização, orientação e prevenção. Para uma instituição religiosa com atuação social, significa traduzir o cuidado com a vida em presença, escuta e serviço. A confiança que ambas podem mobilizar amplia sua responsabilidade de apresentar resultados à sociedade.

Sob a coordenação do conselheiro Júlio Pinheiro, a Escola de Contas Públicas oferece ao Caminho Sustentável uma base educativa voltada à gestão da água, aos resíduos sólidos e às mudanças climáticas. A participação do vice-presidente do Tribunal, conselheiro Josué Neto, reforça o compromisso de ampliar a circulação desses conteúdos. Na Arquidiocese, o cardeal Leonardo Steiner representa uma interlocução que aproxima a iniciativa das comunidades, pastorais e instituições vinculadas à Igreja.

educar para cuidar
(Foto: Joel Arthus)

Essa cooperação encontra afinidade com a reflexão proposta pelo papa Francisco na encíclica Laudato si’: o cuidado ambiental está ligado à dignidade humana, à justiça social e à formação de hábitos de responsabilidade. Sua perspectiva de ecologia integral ajuda a compreender por que a proteção da natureza e a atenção às pessoas precisam caminhar juntas. (vatican.va⁠)

A previsão inicial de cerca de mil cartilhas e a possibilidade de disseminar conteúdos em aproximadamente mil comunidades oferecem uma dimensão do alcance pretendido. São pontos de partida. O valor educativo se realizará na leitura compartilhada, na conversa com as famílias, na participação das escolas e na capacidade de transformar informação em escolhas mais conscientes. O acordo prevê planejamento conjunto e acompanhamento das ações, sem transferência de recursos financeiros entre as instituições. (tceam.tc.br⁠)

Precisamos reconhecer, ao mesmo tempo, que a responsabilidade ambiental tem diferentes escalas. Uma criança pode aprender a evitar o desperdício e a cuidar do lugar onde vive. Aos governos, às empresas e às instituições cabem decisões estruturais sobre saneamento, infraestrutura, produção e proteção ambiental. A educação fortalece a cidadania também quando ajuda a população a compreender essas atribuições e a cobrar seu cumprimento.

Na Amazônia, esse aprendizado deve valorizar os conhecimentos das próprias comunidades. A experiência de povos indígenas, populações ribeirinhas, educadores e lideranças locais precisa participar da construção das soluções. Educar pressupõe diálogo e reconhecimento de saberes.

Defender a floresta em pé exige criar condições dignas para quem vive com ela. Significa aproximar conservação, ciência, oportunidades econômicas e serviços públicos de qualidade. Uma sociedade que compreende essas relações está mais preparada para escolher caminhos de desenvolvimento compatíveis com a continuidade da vida.

Como presidente do Tribunal de Contas do Amazonas, compreendo essa parceria como uma responsabilidade com o presente e com as próximas gerações. Sua importância será confirmada pela continuidade do trabalho, pelo envolvimento das comunidades e pela capacidade de produzir aprendizado.

Diante de previsões tão preocupantes, a esperança precisa ganhar forma concreta: uma instituição que assume sua parte, uma escola que abre espaço para o conhecimento, uma comunidade que participa das decisões. É nessa construção cotidiana que o Caminho Sustentável poderá cumprir sua missão.

Educar para cuidar da Amazônia é preparar nossa sociedade para defender a vida e construir o futuro que deseja habitar.

Yara Amazônia Lins
Yara Amazônia Lins
Yara Amazônia Lins é conselheira e presidente do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM) e Diretora da Atricon. Pós-graduada em Ciências Contábeis pela UFAM e reúne um portfólio robusto em Espírito Publico nos seus mais de 40 anos de serviços prestados ao TCE-AM. Em seu atual mandato tem direcionado esforços, dentro das competências do órgão e da função que ocupa, para maiores realizações de valorização da Amazônia e da preservação do Meio Ambiente.

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