Apesar do frenesi cotidiano, sempre é tempo de celebrar 

O frenesi cotidiano nem sempre nos permite dedicar a Manaus a atenção que ela merece. Entre urgências, disputas e preocupações, passam quase despercebidas as realizações de uma cidade que trabalha, aprende e se transforma. Celebrá-la exige esse olhar para seus moradores, para o que conseguiram construir e para as oportunidades que ainda precisam encontrar.

Manaus começa sua jornada muito antes de o sol aparecer por inteiro. Nos bairros, trabalhadores aguardam o transporte para as fábricas, pequenos comerciantes abrem as portas e estudantes se preparam para mais um dia de aula. Há uma cidade inteira em movimento para sustentar a produção, os serviços e a vida de suas famílias. É a essas pessoas que dirijo meu primeiro reconhecimento.

À frente do Sindicato da Indústria de Aparelhos e Componentes Elétricos e Eletrônicos do Estado do Amazonas, acompanho uma atividade que exige precisão, aprendizado permanente e capacidade de adaptação. Essa experiência permite perceber quanto conhecimento humano existe em cada etapa da produção. Uma operação bem executada reúne treinamento, responsabilidade e competências que levam tempo para ser construídas.

Parte importante da história contemporânea de Manaus está nesse aprendizado. Ao longo de décadas, trabalhadores, empresários, educadores e instituições ajudaram a formar uma base industrial cujo valor precisa ser compreendido também pela experiência acumulada. São profissionais que aprenderam, ensinaram colegas, acompanharam mudanças tecnológicas e ajudaram a preparar novas gerações.

Quem conhece o ambiente industrial sabe quanto trabalho existe entre a decisão de investir e a entrega de um produto. É preciso organizar equipes, desenvolver fornecedores, assegurar qualidade, cuidar da segurança e responder às exigências do mercado. Em Manaus, esse esforço acontece sob condições logísticas que tornam cada ganho de eficiência especialmente relevante.

Por isso, defender a Zona Franca de Manaus envolve preservar uma construção coletiva. Sua continuidade interessa às famílias que vivem do emprego industrial, aos empreendedores que atendem às fábricas e à rede de comércio e serviços que participa dessa economia. Interessa também ao Brasil, que mantém na Amazônia uma capacidade produtiva integrada a outras regiões do país.

frenesi cotidiano
Zona Franca de Manaus

Essa defesa exige segurança jurídica, regras estáveis e compreensão das particularidades regionais. Um investimento industrial é planejado com antecedência e precisa de condições para atravessar diferentes governos. A previsibilidade permite modernizar instalações, qualificar pessoas e desenvolver projetos com perspectivas de continuidade.

Ao mesmo tempo, precisamos ampliar as possibilidades abertas por essa base produtiva. A experiência que Manaus acumulou oferece condições para avançar em engenharia, pesquisa, desenvolvimento de produtos e fornecedores locais. Esse caminho depende de cooperação e de escolhas persistentes, capazes de aproximar o conhecimento produzido nas instituições de ensino das demandas encontradas nas empresas.

Celebrar Manaus inclui olhar com atenção para o percurso entre a casa e a fábrica. O trabalhador que enfrenta um deslocamento demorado chega ao fim do dia com menos tempo para estudar, conviver com os filhos ou descansar. A deficiência do saneamento afeta a saúde da família. A insegurança interfere na rotina dos bairros e no funcionamento dos negócios.

Essas condições fazem parte da discussão sobre desenvolvimento. A qualidade dos serviços públicos influencia a produtividade, a atração de investimentos e, sobretudo, o bem-estar da população. Uma cidade com a importância econômica de Manaus precisa receber investimentos públicos compatíveis com suas necessidades e com sua contribuição para o país.

Panorama Urbana do Porto Fluvial

O setor produtivo tem responsabilidades na qualificação profissional, na segurança do trabalho, na modernização de suas atividades e no diálogo com a sociedade. Ao poder público cabem planejamento urbano, infraestrutura e serviços que acompanhem as demandas da cidade. A cooperação entre essas frentes funciona melhor quando cada uma assume suas atribuições e os resultados podem ser acompanhados pela população.

As entidades de classe têm disposição para participar desse esforço. Conhecemos dificuldades que afetam as empresas e seus trabalhadores e podemos contribuir para construir soluções. Esse diálogo precisa ter continuidade, responsáveis definidos e projetos que avancem para além dos anúncios.

Uma das melhores maneiras de homenagear Manaus é cuidar das perspectivas de seus jovens. Temos o dever de aproximar a escola das possibilidades profissionais existentes na região e de ampliar o acesso à formação necessária para ocupá-las.

Isso começa na educação básica, passa pelo ensino técnico e alcança a universidade. Exige atenção à formação dos professores, aos laboratórios, aos estágios e às oportunidades de pesquisa. Também pede que empresas e instituições de ensino conversem com regularidade sobre as transformações do trabalho e as competências que precisam ser desenvolvidas.

Para muitas famílias, a presença de um filho na universidade ou em um curso técnico representa um esforço de anos. É importante que esse esforço encontre oportunidades em Manaus. Queremos que mais jovens possam desenvolver projetos, assumir funções qualificadas, empreender e construir sua trajetória profissional perto das comunidades às quais pertencem.

Essa perspectiva também amplia nossa contribuição para o futuro da Amazônia. A indústria eletroeletrônica reúne conhecimentos que podem ajudar a desenvolver soluções para conectividade, eficiência energética, monitoramento ambiental e outras necessidades regionais. A aproximação com pesquisadores e com as populações que conhecem essas necessidades pode abrir novas possibilidades de produção e inovação.

Manaus tem uma história que merece respeito e tarefas que exigem trabalho conjunto. Como representante do setor industrial, reconheço a contribuição de quem investe, de quem produz e de quem dedica sua vida à formação de pessoas. Há muito dessa dedicação no que a cidade conseguiu construir.

Em meio ao frenesi cotidiano, sempre haverá razão para celebrar essa trajetória. Nossa homenagem ganha sentido quando o reconhecimento se traduz em compromisso: preservar empregos, melhorar as condições de investimento e ampliar o acesso à educação. Essas responsabilidades se encontram na vida dos moradores. É com eles, e com os jovens que começam agora sua caminhada, que precisamos construir os próximos anos de Manaus.

Rildo Silva
Rildo Silva
Rildo Silva é empresário e conselheiro da FIEAM e do CIEAM e membro da comissão ESG da indústria

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