Impacto das mudanças climáticas em Recife amplia riscos e desigualdades

Entre o avanço do mar, enchentes e desigualdade urbana, o impacto das mudanças climáticas em Recife revela como geografia, urbanização e políticas públicas moldam os riscos climáticos.

No Brasil, poucas cidades sintetizam de forma tão evidente a tensão entre ambição climática e vulnerabilidade urbana quanto o Recife. A capital pernambucana foi a primeira cidade do país a declarar oficialmente emergência climática, em 2019, devido ao  impacto das mudanças climáticas em Recife. Segundo avaliações associadas ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o município ocupa a 16ª posição entre as cidades mais ameaçadas pela elevação do nível do mar.

A declaração foi formalizada pelo Decreto nº 33.080, que determinou que o enfrentamento das mudanças climáticas passasse a orientar o planejamento urbano da cidade. A partir desse marco, o Recife estruturou, em parceria com a rede internacional ICLEI, o Plano Local de Ação Climática (PLAC), que estabelece metas como neutralidade de carbono até 2050 e uso integral de energia renovável nas operações municipais até 2037.

Apesar do pioneirismo institucional, a própria geografia da cidade amplia o impacto das mudanças climáticas em Recife. O município foi construído sobre uma região onde rios encontram o mar, formada por sedimentos, manguezais e terrenos naturalmente baixos. Grande parte do território está próxima ao nível do mar e é atravessada por rios, canais e áreas alagáveis, o que aumenta a vulnerabilidade tanto a inundações fluviais quanto ao avanço do oceano.

Rua alagada após chuva intensa ilustra o impacto das mudanças climáticas em Recife e os desafios de drenagem urbana em áreas vulneráveis da cidade.
Rua alagada no Recife. Foto: Alfeu Tavares/Folha de Pernambuco

Estudos conduzidos com apoio do Banco Mundial e da Universidade de Columbia indicam que cerca de 45,7% da linha costeira da cidade se encontra em zonas de alta vulnerabilidade. Os efeitos dessa dinâmica já aparecem no cotidiano urbano. Em bairros como Imbiribeira e Afogados, a chamada “inundação em dia de sol” tornou-se cada vez mais frequente: a elevação da maré faz com que a água retorne pelo sistema de drenagem e invada as ruas mesmo sem ocorrência de chuvas.

Ao mesmo tempo, a política de ocupação do solo revela contradições. Nas últimas décadas, grandes projetos urbanos avançaram sobre ecossistemas sensíveis, como manguezais e áreas de várzea, ambientes que funcionam como barreiras naturais contra enchentes.

A construção da Via Mangue, na Zona Sul, se tornou um exemplo emblemático desse conflito ambiental. A obra suprimiu áreas significativas de manguezal na bacia do Pina, um ecossistema essencial para o equilíbrio costeiro e para a proteção contra eventos extremos.

A vulnerabilidade climática do Recife também possui forte dimensão social. Hoje, estima-se que 206 mil pessoas vivem em áreas vulneráveis a eventos climáticos extremos em Recife. Nessas regiões, a combinação entre urbanização precária, solos instáveis e instabilidade climática cria um cenário de alta exposição a deslizamentos e enchentes, evidenciando como o impacto das mudanças climáticas em Recife se entrelaça com desigualdades sociais e desafios históricos de planejamento urbano.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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