“Não é a estiagem que paralisa. É a estrutura nacional que insiste em deixar a Amazônia isolada, a cada nova seca”
Artigo de Alfredo Lopes e Maurício Loureiro
Coluna Follow-Up
Série: O pacto contra a Amazônia
Mais uma estiagem, muitas omissões
A seca de 2025 começou. E com ela, a repetição do velho ritual: barcos encalhados, comunidades isoladas, logística comprometida, cidades à beira do colapso — e a Amazônia, mais uma vez, deixada por conta própria, como uma sobrevivente dos valentes amazônicos.
Taxa adicional de seca
A resposta das empresas de navegação foi imediata: a aplicação da Taxa Adicional de Seca (TAS), uma cobrança sobre o frete para compensar os custos da estiagem severa.
– Legal? Sim. Justa? Discutível. Iminente? Inevitável. Gananciosa? Talvez!
Decreto de 1953, abandono de 2025
Desde 1953, com o decreto de Getúlio Vargas que criou a Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia, o Brasil sabe que a região depende de investimento, integração e infraestrutura adaptada à realidade climática e geográfica da floresta. Floresta esta, incomum quando e fala de Amazônia.
Setenta anos depois, os rios continuam sendo a espinha dorsal da circulação de pessoas e cargas. E o abandono, o mesmo, e a inercia e suplicante.

Taxa de seca ou taxa ou o custo da negligência?
A TAS, anunciada pelas empresas que operam no transporte fluvial, é sintoma de um problema maior: a precariedade logística crônica da Amazônia.
– Não há hidrovias dragadas com regularidade. Não há alternativas ferroviárias, rodoviárias, ou viárias eficientes. Não há plano logístico nacional que priorize a Amazônia como vetor de desenvolvimento e integração nacional.
Quando o Brasil quiser enxergar, o rio pode secar
A estiagem, segundo a vontade climática, é cada vez mais precoce, severa e previsível. A ciência já alertou. Os dados estão disponíveis. Mas Brasília e boa parte da imprensa fingem surpresa ou cegueira institucional.
De cócoras, de costas — e sem bússola, porque os caboclos, não fogem da luta e das adversidades
O Brasil segue de cócoras, escondido atrás de taxas, portarias e relatórios. De costas para a Amazônia, como se não fizesse parte dela. Como se o colapso hídrico e logístico da floresta fosse um problema local — e não nacional.

Mas aqui, seguimos de pé. E com os pés firmes na lama da estiagem. Porque sabemos o que está em jogo: soberania, dignidade, e o futuro da floresta preservada.
Acima, a imagem simbólica: uma Amazônia vista de satélite, onde a lama cobre o que antes era rio, e o isolamento cobre o que poderia ser integração. Uma fotografia que denuncia, silencia e exige: é hora de virar esse jogo. O jogo da dignidade e da integração nacional.
(*) Coluna Follow Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas às quartas, quintas e sextas feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal BrasilAmazoniaAgora.
Maurício Loureiro é conselheiro do Centro da Indústria do Estado do Amazonas e membro da Comissão da ESG

