Resíduos de caroços de açaí viram combustível alternativo na produção de cimento no Pará 

No Pará, toneladas de caroços de açaí deixaram de ser passivo ambiental e viraram combustível sustentável na indústria do cimento, reduzindo emissões de carbono e metano.

O Brasil detém os títulos de maior produtor, consumidor e exportador de açaí do mundo. No Pará, que concentra 90% da produção nacional de açaí, toneladas de caroços de açaí antes descartados agora são usados como fonte de energia renovável. Cerca de 80% do fruto é resíduo, e seu acúmulo gerava um passivo ambiental para produtores de polpa. Hoje, parcerias entre empresas dão destino sustentável a esse material, reduzindo emissões e fortalecendo a economia circular.

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Colheita do açaí no Pará, estado que concentra 90% da produção nacional da fruta.

Na Eco Foods, em Marituba, a produção diária de 150 toneladas de caroços de açaí deixou de ser custo de descarte. O material é adquirido pela PHS da Mata, que coleta, desidrata e vende o resíduo como biomassa. A empresa atende indústrias de diversos setores e, só na região metropolitana de Belém, recolhe cerca de 100 mil toneladas por ano, evitando que o resíduo seja jogado em rios ou áreas urbanas.

Caminhão despeja caroços de açaí durante o processo de coleta do resíduo no Pará.
Caminhão descarrega toneladas de caroços de açaí em depósito para destinação sustentável. Foto: Diego Feitosa/Divulgação Votorantim Cimentos.

O principal destino dos caroços de açaí é a fábrica de cimento da Votorantim em Primavera (PA), que passou a utilizar o resíduo como combustível alternativo. Com capacidade anual de 1,2 milhão de toneladas de cimento, a unidade consome cerca de 48 mil toneladas por ano, em substituição ao carvão mineral e ao coque de petróleo. Em 2024, o uso de biomassas, incluindo os caroços de açaí, garantiu cerca de 64% de substituição térmica, reduzindo a emissão de aproximadamente 44 mil toneladas de CO₂.

Além de reduzir emissões de carbono, a destinação evita que os caroços de açaí descartados liberem metano, gás de efeito estufa muito mais potente que o CO₂. No contexto do setor cimenteiro, responsável por até 8% das emissões globais, a experiência no Pará mostra como resíduos regionais podem ser incorporados a processos industriais de alta demanda energética, unindo redução de impactos ambientais e geração de valor econômico.

Montanha de caroços de açaí em depósito industrial no Pará, com pilha de carvão ao fundo.
Caroços de açaí estocados em pátio industrial com carvão ao fundo, mostrando a transição para biomassa limpa. Foto: Diego Feitosa/Divulgação Votorantim Cimentos.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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