Eleições na Amazônia 2026: Tocantins chega às urnas entre desmatamento autorizado e mercado de carbono 

Balanço dos governos Carlesse e Barbosa revela avanços tardios na fiscalização, pressão agropecuária sobre o Cerrado e pouco espaço para a bioeconomia no Tocantins.

Entre o avanço da fronteira agrícola, as altas taxas de desmatamento no Cerrado e a aposta no mercado de carbono, o Tocantins chega às eleições de 2026 com um saldo socioambiental contraditório. Esta reportagem integra a série Eleições na Amazônia 2026: O saldo que chega às urnas, sobre o legado dos últimos governos estaduais da Amazônia Legal para o meio ambiente e as populações que vivem nesses territórios.

O período atravessa as gestões de Mauro Carlesse (União Brasil) e Wanderlei Barbosa (Republicanos). Eleito em 2018, Carlesse foi afastado judicialmente em 2021 e renunciou no ano seguinte, antecedendo um processo de impeachment. Então vice-governador, Barbosa assumiu o cargo e foi reeleito em primeiro turno em 2022.

Agropecuarista e ex-presidente do Sindicato Rural de Gurupi, Carlesse governou próximo aos interesses do agronegócio. Barbosa incorporou a sustentabilidade e as finanças climáticas ao discurso, mas preservou a agropecuária como eixo econômico. A mudança ocorreu mais nos instrumentos do que no modelo de desenvolvimento.

Planos mudam de tom, mas entregas ficam aquém das promessas

O programa de Carlesse priorizava o ajuste fiscal e tratava o meio ambiente de forma genérica, ao defender crescimento com preservação. Sua principal entrega na área foi a modernização do ICMS Ecológico, com novos critérios ambientais para os repasses aos municípios, medida que conviveu com a flexibilização das autorizações de uso do solo e o incentivo à infraestrutura agrícola.

Barbosa apresentou um plano mais detalhado, com promessas de reduzir o desmatamento ilegal e as queimadas, estruturar o mercado de carbono e fortalecer políticas para indígenas e quilombolas. A gestão avançou na agenda climática, mas o desmatamento permaneceu elevado e as políticas para comunidades tradicionais não receberam orçamento específico. Em 2022, Barbosa também não assinou a carta-compromisso da agricultura familiar e da agroecologia.

No centro do Matopiba, agricultura avança enquanto falta prioridade para a bioeconomia 

Único estado totalmente inserido no Matopiba, o Tocantins está no centro de uma das principais frentes de expansão agrícola do país. O avanço de lavouras, pastagens, estradas e projetos de irrigação pressiona principalmente o Cerrado, que ocupa cerca de 91% do território estadual. Carlesse apoiou a infraestrutura produtiva e a irrigação intensiva. Barbosa acrescentou o pacto contra o desmatamento e o programa jurisdicional de REDD+, sem alterar a prioridade dada à agropecuária.

A bioeconomia permaneceu à margem das prioridades estaduais. A gestão Carlesse não apresentou ações significativas para o setor. No governo Barbosa, houve algum avanço institucional, mas ainda limitado: em 2023, a Assembleia Legislativa aprovou um requerimento para a elaboração do Plano Estadual de Bioeconomia, que ainda não foi concluído.

Uma iniciativa setorial surgiu em 2026, com a criação da Política Estadual de Desenvolvimento Sustentável da Pesca e da Aquicultura. A lei reconhece a pesca artesanal e a aquicultura familiar como atividades da bioeconomia e prevê linhas de fomento e o Selo Tocantinense de Sustentabilidade do Pescado, voltado à valorização da produção sustentável e à agregação de valor aos produtos locais. Ainda assim, a medida não substitui uma política estadual abrangente para a bioeconomia.

Desmatamento recua, mas estado segue entre os líderes

Em 2024, 66% da porção do Cerrado localizada no Tocantins ainda permanecia coberta por vegetação nativa, segundo o MapBiomas. Ao mesmo tempo, os dados do Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostram que a supressão continuou elevada durante os dois governos. A área desmatada passou de 1.587 km², em 2018, para o pico de 2.235 km² em 2023.

A trajetória começou a se inverter em 2024. Em 2025, o desmatamento caiu para cerca de 1.489 km², redução de 33% em relação ao pico, mas o Tocantins ainda teve a segunda maior área suprimida no Cerrado, atrás apenas do Maranhão, conforme o Prodes.

Na gestão Barbosa, o Plano de Prevenção e Combate aos Desmatamentos e Incêndios Florestais (PPCDIF) 2021–2025 estabeleceu a meta de eliminar o desmatamento ilegal. O governo integrou dados no Centro de Inteligência Geográfica em Gestão do Meio Ambiente (Cigma) e informou ter investido cerca de R$ 5 milhões em monitoramento e regularização ambiental.

Os resultados foram tardios e parciais. A queda coincide com o reforço do monitoramento estadual e com a retomada da fiscalização federal, o que impede atribuí-la apenas ao governo tocantinense. Além disso, 67,9% da área suprimida em 2025 possuía autorização ambiental. O dado mostra o limite de uma estratégia concentrada nas ilegalidades: a vegetação continua sendo perdida quando a maior parte da conversão permanece autorizada.

Queimadas expõem fragilidade da prevenção

O Tocantins passou de 8.033 focos de calor em 2018 para mais de 17 mil em 2024, quando ficou entre os três estados mais atingidos do país. Segundo o MapBiomas, a área queimada cresceu 103% naquele ano.

Carlesse concentrou a resposta no Comitê Estadual de Combate aos Incêndios e em ações de educação, fiscalização e combate. Barbosa incorporou a meta de reduzir os incêndios em 15% ao PPCDIF, ampliou o monitoramento pelo Cigma e desenvolveu o projeto Foco no Fogo, com campanhas e formação de brigadistas.

Em 2025, os focos caíram 33,1%, para 11.529, segundo a Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos. Mais de 60%, porém, foram classificados como incêndios florestais e quase um quarto como queimadas não autorizadas. A melhora não eliminou a vulnerabilidade devido à falta de fiscalização permanente.

Mercado de carbono amplia agenda climática

O governo firmou parceria com a suíça Mercuria Energy para preparar, certificar e comercializar créditos de carbono. O acordo prevê investimento mínimo de R$ 15 milhões e repartição de benefícios com povos indígenas, quilombolas e pequenos produtores.

A iniciativa conviveu com os picos de desmatamento de 2022 e 2023 e ainda faltam dados consolidados sobre créditos, vendas e destinação dos recursos. A criação da Secretaria dos Povos Originários e Tradicionais e as consultas foram avanços, mas a participação das comunidades será decisiva para avaliar o programa.

Irrigação mantém disputa pela água na Ilha do Bananal

No sudoeste tocantinense, a agricultura irrigada pressiona os rios Formoso, Urubu e Javaés, essenciais para os povos Iny, especialmente Javaé e Karajá. O modelo apoiado durante a gestão Carlesse depende de grandes captações na estiagem.

A disputa judicial começou em 2016, antes de Carlesse, mas atravessou seu governo sem controle contínuo das captações. Mesmo produtores com outorga não eram monitorados regularmente para verificar o cumprimento dos volumes e horários autorizados.

Barbosa adotou instrumentos mais estruturados. O Decreto nº 6.604/2023 regulamentou a cobrança pelo uso da água na Bacia do Rio Formoso, enquanto a telemetria ampliou o acompanhamento das vazões. As medidas melhoraram a capacidade de gestão, mas não comprovaram uma redução das captações, e fiscalizações continuaram identificando barragens irregulares.

Na Ilha do Bananal, IPAM e MapBiomas apontam a perda de cerca de um terço da superfície de água em quatro décadas. A irrigação está entre as causas, ao lado de mudanças climáticas, desmatamento, queimadas e assoreamento. Barbosa avançou no controle, mas não resolveu o desequilíbrio entre a água destinada à produção e a necessária aos rios e aos modos de vida indígenas.

Policiamento rural cresce, mas conflitos persistem

A política fundiária estadual também favoreceu a segurança jurídica de grandes proprietários. Em 2019, Carlesse sancionou a Lei nº 3.525, que permitiu convalidar determinados registros de imóveis rurais. Organizações do campo alertaram para o risco de validar títulos precários em áreas públicas e a norma foi questionada no STF pela Contag em 2023.

Carlesse também implantou a Patrulha Rural para cadastrar propriedades e combater crimes patrimoniais. Em áreas de litígio, porém, surgiram denúncias de atuação favorável a fazendeiros. Na Gleba Tauá, famílias registraram 20 boletins de ocorrência em três anos por ameaças e agressões. 

Barbosa ampliou a estrutura: em 2023, formou 105 militares e destinou 40 viaturas às unidades da Patrulha Rural. O reforço, entretanto, não foi acompanhado de queda contínua dos conflitos. Os registros da Comissão Pastoral da Terra passaram de 43 ocorrências em 2018 para 81 em 2023. Em 2024, a CPT contabilizou 15 vítimas de violência contra pessoas no campo, entre elas duas assassinadas.

Em 2025, foram registrados 70 conflitos, 40% a mais que no ano anterior, envolvendo mais de 3,8 mil famílias. Do total, 45 estavam relacionados à terra, 12 à água e oito ao trabalho análogo à escravidão. Os dados não provam que a Lei de Terras ou a Patrulha Rural tenham provocado o aumento, mas mostram que regularização de propriedades e policiamento ostensivo não produziram uma redução duradoura da violência nem substituíram políticas de mediação fundiária e proteção das comunidades.

Mais instrumentos, mas o mesmo modelo de pressão

O saldo é marcado mais pela continuidade do que pela ruptura. Carlesse priorizou infraestrutura, irrigação e segurança rural. Enquanto Barbosa estruturou o monitoramento, aderiu a pactos ambientais e levou o estado ao mercado de carbono.

Os avanços coincidiram com a redução do desmatamento e das queimadas em 2025, mas vieram depois de picos registrados no próprio governo Barbosa. A persistência do desmatamento autorizado, dos incêndios ilegais e dos conflitos por terra e água mostra que a agenda climática não alterou as bases do modelo agroexportador no Tocantins. 

O balanço que chega às urnas é contraditório: o Tocantins tem hoje mais instrumentos ambientais e oportunidades de financiamento, mas continua entre os estados mais pressionados do Cerrado. O próximo mandato terá de mostrar se monitoramento e mercado de carbono serão convertidos em conservação e garantia de direitos ou permanecerão como um discurso verde divergente da realidade da expansão agrícola.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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