O cheiro dos anos 30 e a tentação totalitária

“Crises econômicas, guerras, inflação e insegurança social não produzem automaticamente o autoritarismo. Elas oferecem, porém, a matéria-prima que movimentos extremistas transformam em ressentimento, inimigos públicos e licença para perseguir. Hannah Arendt descreveu esse processo antes que as redes sociais lhe conferissem velocidade planetária”.

Há algo perturbador na comparação feita pelo professor Leonardo Trevisan em conversa com o jornalista Fernando Gabeira. O mundo estaria novamente impregnado pelo cheiro dos anos 1930. A imagem pode parecer excessiva até que se observe a sequência apresentada por ele: guerra, pressão sobre o petróleo, inflação persistente, juros elevados, retração econômica, perda de empregos e redução das expectativas de mobilidade social.

Foi nesse terreno que o fascismo europeu encontrou sua oportunidade histórica. Também é nele que a extrema direita contemporânea procura instalar seus laboratórios políticos.

tentação totalitária
Facismo

As semelhanças não autorizam a reprodução mecânica da história. A Alemanha de Weimar, a crise de 1929, o nazismo e a ordem internacional surgida depois da Primeira Guerra pertencem a circunstâncias específicas. O que retorna são determinados mecanismos de captura política do medo. Quando a economia deixa de oferecer segurança e o futuro se torna uma sucessão de ameaças, cresce a procura por explicações simples, culpados reconhecíveis e autoridades que prometam devolver ao mundo uma ordem supostamente perdida.

A advertência de Trevisan completa e amplia o debate sobre o avanço da direita radical na Alemanha. A ascensão da AfD não pode ser compreendida apenas pela habilidade eleitoral de seus dirigentes, pelo uso das redes sociais ou pelo endurecimento do discurso contra imigrantes.

Ela ocorre dentro de uma sociedade pressionada pelo baixo crescimento, pela perda de competitividade industrial, pelo encarecimento da energia, pelas consequências econômicas das guerras e pela sensação de que o Estado já não consegue assegurar a estabilidade que durante décadas sustentou a prosperidade europeia.

É nesse intervalo entre o medo real e a explicação fabricada que o autoritarismo trabalha.

A extrema direita escolhe esse momento para apresentar um inimigo público. Na Europa, o imigrante, o refugiado, o muçulmano, o estrangeiro pobre. Em outros contextos, podem ocupar esse lugar o comunista, o professor, o jornalista, o cientista, a feminista, o indígena, o movimento social ou qualquer grupo transformado em ameaça à identidade nacional.

A operação é antiga. Problemas econômicos complexos, acumulados durante décadas, são convertidos em conflitos morais de compreensão imediata. O desemprego deixa de estar relacionado à reorganização produtiva, à concentração de renda, às políticas fiscais, à automação ou às escolhas das grandes corporações. Passa a ser atribuído à presença daquele que veio de fora. A deterioração dos serviços públicos já não decorre da insuficiência de investimentos ou das prioridades orçamentárias. Seria causada por pessoas que estariam recebendo aquilo que pertenceria aos “verdadeiros cidadãos”.

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(Credit: Dorothea Lange)

A fórmula possui enorme eficiência porque oferece ao indivíduo atingido pela crise algo que a economia lhe retirou: uma posição de superioridade. Ele pode estar desempregado, endividado e abandonado pelas instituições, mas ainda pertence à comunidade imaginária dos puros, dos autênticos, dos nacionais, dos que supostamente foram roubados por minorias protegidas.

Primeiro vêm as insinuações. Depois, as generalizações. Crimes individuais são atribuídos a povos inteiros. Estatísticas selecionadas circulam sem contexto. Mentiras repetidas adquirem aparência de experiência coletiva. Por fim, a violência simbólica prepara a sociedade para aceitar a violência administrativa, policial e jurídica.

Quando o perseguido deixa de ser percebido como pessoa, sua exclusão pode ser apresentada como medida de segurança.

Em Origens do totalitarismo, publicado em 1951, Hannah Arendt analisou o nazismo e o stalinismo como formas de poder que pretendiam alcançar algo mais profundo do que a obediência política. O impulso totalitário buscava reorganizar a realidade, destruir a espontaneidade humana e submeter os indivíduos a uma explicação única da história.

Arendt não escreveu um manual de previsões. Sua obra contém algo talvez mais inquietante: a anatomia de uma tentação permanente das sociedades modernas.

Para ela, os movimentos totalitários prosperam entre pessoas atomizadas, solitárias e politicamente desenraizadas. São indivíduos que perderam vínculos de classe, referências comunitárias e confiança nas instituições. Encontram nos movimentos de massa uma identidade pronta, acompanhada de uma narrativa capaz de explicar tudo, desde a perda do emprego até a suposta decadência moral da civilização.

Essa solidão política ganhou novas dimensões no século XXI. Milhões de pessoas passam horas conectadas e, ao mesmo tempo, vivem isoladas em universos informacionais que raramente se encontram. Os algoritmos oferecem pertencimento, indignação e confirmação. Cada grupo recebe uma realidade própria, abastecida diariamente por imagens, fragmentos de discursos, teorias conspiratórias e inimigos comuns.

A propaganda totalitária descrita por Arendt pretendia construir uma ficção coerente o bastante para competir com o mundo verificável. As plataformas digitais ampliaram essa capacidade. A mentira já não precisa convencer todos de uma mesma versão. Basta destruir a possibilidade de uma realidade compartilhada.

Quando nenhum jornal merece confiança, toda universidade é suspeita, cada eleição pode ter sido fraudada e todo dado contrário é tratado como parte da conspiração, o cidadão perde os instrumentos necessários para julgar. Nesse ambiente, vence quem dispõe de força, repetição e lealdade organizada.

O objetivo da desinformação contemporânea raramente se limita a fazer alguém acreditar numa falsidade específica. Seu efeito mais corrosivo consiste em produzir exaustão e cinismo. Depois de algum tempo, parte da sociedade conclui que todos mentem, que toda instituição serve a interesses ocultos e que a verdade depende apenas do grupo ao qual se pertence. A autoridade pessoal do líder ocupa então o lugar dos fatos.

Existe uma expectativa enganosa de que o autoritarismo somente se torna visível quando tanques aparecem nas ruas, parlamentos são fechados ou opositores desaparecem. A experiência contemporânea mostra processos mais graduais, conduzidos frequentemente por governos eleitos.

As instituições permanecem abertas, mas são esvaziadas. As eleições continuam, embora submetidas a campanhas de intimidação e descrédito. A imprensa funciona sob assédio permanente. Professores e cientistas passam a medir palavras. Juízes são classificados segundo sua utilidade política. Servidores públicos transformam-se em alvos de campanhas de suspeição.

Uma regra eleitoral é modificada aqui. Um órgão de fiscalização perde autonomia ali. Uma emissora é submetida a pressão econômica. Uma universidade tem seu orçamento reduzido. Uma minoria perde determinada proteção. Cada episódio, examinado isoladamente, pode parecer insuficiente para caracterizar uma ruptura. O conjunto altera silenciosamente a estrutura da democracia.

O governante autoritário também procura confundir sua pessoa com o país. A crítica ao líder passa a ser apresentada como ataque à nação. Seus adversários deixam de representar alternativas legítimas e tornam-se traidores, inimigos internos, agentes estrangeiros ou criminosos. A política perde o caráter de disputa entre projetos e assume a forma de uma guerra pela sobrevivência.

Essa passagem é decisiva. Adversários podem vencer eleições. Inimigos devem ser eliminados.

O Brasil conhece essa gramática. Ela apareceu na perseguição aos “subversivos” durante a ditadura militar e reapareceu, com novas roupas, nas campanhas recentes contra universidades, jornalistas, artistas, ambientalistas, povos indígenas e instituições eleitorais.

A Amazônia ocupa um lugar particular nessa engrenagem. Cientistas que alertam sobre o desmatamento são acusados de servir a interesses estrangeiros. Organizações indígenas tornam-se suspeitas de conspirar contra a soberania nacional. Jornalistas que investigam crimes ambientais são tratados como obstáculos ao desenvolvimento. A própria floresta pode ser transformada em inimiga quando sua proteção limita interesses econômicos que preferem operar sem fiscalização.

O método consiste em inverter responsabilidades. Quem denuncia a destruição passa a responder pelo conflito. Quem apresenta os dados torna-se culpado pela repercussão. Quem protege direitos territoriais é acusado de impedir o progresso. O autoritarismo precisa controlar também os nomes das coisas, porque a violência prospera quando consegue se apresentar como defesa da ordem.

A experiência brasileira recente mostrou ainda a facilidade com que ressentimentos sociais podem ser reunidos em torno de uma cruzada moral. Crise econômica, corrupção, insegurança pública, frustração com os partidos e desconfiança institucional foram combinadas numa narrativa que prometia purificação nacional. Nela, a pluralidade aparecia como fraqueza e a negociação democrática como degeneração.

As instituições resistiram, embora tenham saído feridas. Permanecem a disposição para desacreditá-las, as redes de desinformação, a intolerância transformada em negócio e uma parcela da sociedade receptiva à ideia de que somente uma autoridade sem limites conseguiria restaurar o país.

O cheiro dos anos 1930 percebido por Trevisan não vem da repetição integral daquele período. Ele emana da normalização de seus procedimentos.

Está na escolha de minorias como explicação para crises econômicas. Na promessa de grandeza nacional sustentada pela exclusão. Na conversão da política em cruzada. No desprezo pelo conhecimento. Na identificação entre líder, povo e pátria. Na suspeita lançada sobre eleições, tribunais e imprensa. Na transformação da mentira em técnica cotidiana de governo.

Também está na resposta insuficiente das democracias. Governos e partidos tradicionais frequentemente defendem as instituições sem responder às condições materiais que alimentam o ressentimento. Uma democracia que preserva seus ritos enquanto convive com desemprego, precarização, desigualdade e abandono oferece terreno fértil aos vendedores de inimigos.

Arendt compreendeu que a liberdade depende da existência de um mundo comum, no qual as pessoas possam falar, agir e reconhecer fatos compartilhados. Quando esse mundo se dissolve, resta ao indivíduo procurar abrigo em comunidades fechadas e explicações absolutas. O autoritarismo oferece exatamente isso: pertencimento em troca da consciência, segurança em troca da liberdade e uma identidade construída sobre a perseguição de alguém.

A tentação totalitária começa quando uma sociedade aceita que certas pessoas têm menos direito à palavra, à proteção legal ou à própria existência pública. Depois dessa concessão inicial, a lista pode crescer rapidamente.

Os anos 1930 não estão voltando como fotografia. Retornam como repertório. E encontram sociedades tecnologicamente avançadas, economicamente inseguras e emocionalmente disponíveis para a velha promessa de ordem obtida pela fabricação do medo.

Hannah Arendt deixou uma advertência que atravessa nosso tempo. O totalitarismo não chega apenas pelas mãos de homens excepcionalmente perversos. Ele depende também de milhões de pessoas comuns que, isoladas, ressentidas ou cansadas, consentem em trocar a complexidade do mundo pelo conforto de uma mentira organizada.

Referências: Origens do totalitarismo de Hannah Arendt⁠; análise de Leonardo Trevisan sobre a guerra, o petróleo e seus efeitos econômicos⁠; pesquisa da USP sobre fascismo, desinformação e ataques ao conhecimento⁠.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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