As dez pragas e o evangelho do meu pirão primeiro

O economista Marcos Jank recorre ao livro do Êxodo para descrever o momento vivido pelo agronegócio brasileiro. Assim como o Egito teria sido castigado por dez pragas, o campo estaria cercado pela gastança pública, pelos juros, pelo Super El Niño, pelo câmbio valorizado, pela geopolítica, pelo custo dos insumos, pela inflação, pela queda das margens, por uma política agrícola envelhecida e pela insegurança jurídica.

A analogia é engenhosa. Também é bastante conveniente. Ao chamar esses problemas de “pragas”, o artigo os converte em forças exteriores que se abatem sobre um setor inocente, quase desprovido de responsabilidade pela ordem econômica, territorial e política na qual prosperou. Praga chega sem convite. Não tem acionistas, bancada parlamentar, política de crédito, renúncia tributária nem escolha empresarial. Acontece.

No final do percurso, Jank procura um Moisés capaz de abrir o Mar Vermelho e conduzir o agro à terra prometida. Resta saber quem fará o papel do faraó. Pelo conjunto dos argumentos, parece ser um personagem formado pelo governo federal, pelo Banco Central, pelas autoridades ambientais, pelos povos indígenas, pelos fiscais tributários, pelo licenciamento e por todos aqueles que, de alguma maneira, dificultam a passagem triunfal do setor.

Nasce assim uma espécie de agroteologia econômica. Seu primeiro mandamento determina disciplina fiscal rigorosa. O segundo exige crédito abundante e barato. O terceiro condena o gasto público. O quarto reivindica seguro rural subvencionado, infraestrutura, armazenagem, dragagem, pesquisa, defesa sanitária e socorro financeiro quando a safra fracassa. E, quando os mandamentos se contradizem, entra em vigor a doutrina brasileira da escassez seletiva: farinha pouca, meu pirão primeiro.

A gastança dos outros

A primeira praga seria a “gastança sem limites e a sanha arrecadatória” do governo federal. A expressão tem a precisão analítica de uma faixa de protesto. Reúne dívida, despesa e tributação numa única condenação, sem perguntar quem paga os impostos, quem recebe os benefícios e quais grupos dispõem de força política para proteger seus próprios privilégios.

Há, inclusive, problemas nos números. Jank afirma que a carga tributária chegou a 34% do PIB. A estimativa do Tesouro Nacional para 2025 é de 32,4%. Pode parecer uma diferença pequena, mas representa mais de R$ 200 bilhões numa economia do tamanho da brasileira. Também apresenta uma dívida próxima de 100% do PIB como destino praticamente consumado. Em junho de 2026, a dívida bruta do governo geral estava em 81,9% do PIB. Projeções importam, porém continuam sendo projeções, dependentes de juros, crescimento, câmbio, inflação e resultado fiscal. Tesouro Nacional⁠, Banco Central

O silêncio mais eloquente está em outra parte. Nos 12 meses encerrados em junho, o déficit primário do setor público alcançou 1,19% do PIB. A despesa nominal com juros chegou a 8,8%. O custo financeiro da dívida, portanto, foi mais de sete vezes superior ao déficit produzido pelas despesas não financeiras. Essa diferença não autoriza desprezar o desequilíbrio fiscal. Apenas impede que ele seja explicado pela caricatura de um Estado que gasta porque perdeu o juízo.

Também seria útil examinar o orçamento sem apagar suas destinações. A equalização do crédito rural é despesa pública. A subvenção ao seguro agrícola é despesa pública. Estradas, ferrovias, portos, dragagens, pesquisa agropecuária, defesa sanitária e renegociações de dívidas custam dinheiro público. Quando financiam saúde, educação, previdência ou transferência de renda, transformam-se em gastança. Quando reduzem custos de produção e protegem margens privadas, adquirem o nome respeitável de política de competitividade.

A teologia do pirão começa por essa transubstanciação.

Os juros que caem do céu

A segunda praga, os “juros indecentes”, é bastante real. Uma taxa básica de 15% encarece investimento, custeio e rolagem de dívidas. O problema aparece na explicação monocausal que a acompanha. A política monetária brasileira envolve decisões do Banco Central, comportamento do mercado financeiro, estrutura da dívida, inflação, câmbio e expectativas. Reduzi-la ao excesso de gasto do governo serve à batalha política, mas pouco ajuda a compreender por que o país convive há décadas com juros reais excepcionalmente altos, sob governos de orientações distintas.

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Também desaparecem as diferenças internas do campo. Grandes companhias e produtores capitalizados acessam CPRs, Fiagros, LCAs, tradings, crédito privado e mercado internacional. Pequenos e médios agricultores permanecem mais dependentes das políticas oficiais e sofrem com maior intensidade nas crises. Ao falar em nome de “milhares de produtores e empresas rurais”, o artigo acomoda dentro da mesma categoria o agricultor familiar endividado e o grupo econômico com patrimônio bilionário.

O plural genérico produz solidariedade retórica entre atores que vivem realidades muito diferentes. Na prosperidade, cada qual recebe conforme a escala, o patrimônio e o acesso ao capital. Na crise, todos passam a integrar o mesmo povo hebreu diante do faraó.

O clima como força estrangeira

O Super El Niño ocupa o terceiro lugar. A ameaça é séria. Em agosto, a NOAA indicava probabilidade superior a 90% de um evento muito forte e 69% de chance de que sua intensidade atingisse patamar histórico no último trimestre de 2026. A mesma previsão advertia que os impactos regionais não são automáticos nem uniformes. NOAA⁠.

Jank chama o fenômeno de extremo e imprevisível. Extremo, sim. Imprevisível apenas até certo ponto. A localização e a intensidade exata das perdas carregam incertezas, mas o agravamento dos riscos climáticos está anunciado há décadas. Depois de sucessivas secas, inundações e ondas de calor, ocupar áreas vulneráveis, reduzir a diversidade produtiva e sustentar cadeias dependentes de poucas commodities tornou-se uma decisão econômica tomada sob risco conhecido.

As dez pragas e

Há ainda uma questão evitada com muito cuidado. O agro sofre os efeitos da mudança climática, mas parcelas importantes de sua expansão continuam relacionadas ao desmatamento, às queimadas, à alteração do uso da terra e à pressão sobre ecossistemas. A natureza aparece como autora da agressão, enquanto o sistema produtivo comparece apenas como vítima e candidato a receber seguro subsidiado.

O pedido é compreensível. O que falta é a contrapartida. Se a sociedade assume parte crescente do risco climático da produção, pode exigir rastreabilidade, conservação do solo, redução de emissões, proteção hídrica e respeito integral aos territórios. O seguro rural precisa funcionar como instrumento de adaptação e responsabilidade, além de mecanismo de proteção da rentabilidade.

O câmbio só é livre quando favorece

A valorização do real aparece como quarta praga porque reduz, em moeda nacional, a receita das exportações. A constatação contábil está correta. O enquadramento ignora que a desvalorização cambial, durante longos períodos, elevou receitas, valorizou propriedades e aumentou a competitividade do setor.

A conta social da moeda fraca chega sob outra forma. Fertilizantes, máquinas, medicamentos, combustíveis e componentes industriais ficam mais caros. Os alimentos exportáveis também recebem estímulos para acompanhar os preços externos. O ganho do exportador e o custo pago pelo consumidor pertencem ao mesmo movimento.

O artigo trata o câmbio como satisfatório quando melhora a remuneração do agro e hostil quando beneficia importadores e consumidores. É a versão monetária do meu pirão primeiro.

A geopolítica e a dependência dos insumos, apresentadas como quinta e sexta pragas, revelam algo ainda mais profundo. O Brasil tornou-se potência exportadora de produtos agropecuários sem alcançar soberania proporcional em fertilizantes, defensivos, máquinas e derivados de petróleo. Jank reconheceu, em outra ocasião, que o país importa entre 85% e 90% dos fertilizantes que utiliza e cerca de um quarto dos derivados de petróleo consumidos internamente. CNN Brasil⁠.

Essa dependência não foi produzida pela guerra na Ucrânia nem pelas tensões no estreito de Ormuz. Os conflitos apenas a expuseram. Durante décadas, a importação foi tratada como escolha eficiente dentro de cadeias globais supostamente estáveis. Políticas industriais, produção nacional de insumos e planejamento estratégico perderam espaço diante da crença de que o mercado internacional abasteceria o país ao menor preço.

Quando esse arranjo funcionava, seus resultados comprovavam a superioridade empresarial do agro. Quando deixou de funcionar, seus custos receberam o nome de geopolítica.

A soberania que desembarca na Amazônia

Essa discussão interessa diretamente à Amazônia. A dependência de fertilizantes pode ser usada para transformar qualquer projeto de mineração de potássio em urgência nacional. A palavra “soberania” chega antes dos estudos completos sobre viabilidade econômica, impactos ambientais, direitos territoriais, repartição dos benefícios e alternativas tecnológicas.

A região conhece esse expediente. Uma vulnerabilidade construída no centro da economia converte-se em justificativa para abreviar cautelas na periferia. O restante do país demanda fertilizantes; a Amazônia oferece o território, os rios, os riscos e as populações que deverão conviver com as consequências.

Algo semelhante ocorre quando Jank inclui a “proibição da dragagem de rios na Amazônia” entre as manifestações de insegurança jurídica. A formulação não informa qual rio, empreendimento, decisão ou fundamento técnico estaria em discussão. Uma intervenção potencialmente capaz de alterar sedimentos, margens, ecossistemas, pesca, navegação local e dinâmica hidráulica é reduzida a uma obra impedida pela burocracia.

Rios amazônicos não são corredores vazios à espera de uma retroescavadeira. São sistemas vivos, territórios de circulação, fonte de alimento, lugar de trabalho e referência cultural de milhões de pessoas. Dragagens podem ser necessárias em determinados trechos, desde que estejam apoiadas em monitoramento, estudos consistentes, transparência e participação das populações atingidas. Chamar essas exigências de insegurança jurídica empobrece o debate e procura resolver antecipadamente quem tem o direito de definir o futuro do rio.

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Dragagem dos rios da Amazonia

Safra recorde, calamidade nos preços

A inflação e a queda das margens aparecem como sétima e oitava pragas. O artigo admite que a alta dos alimentos atinge as populações vulneráveis, mas atribui o fenômeno aos juros, ao El Niño e aos conflitos internacionais. Não examina a concentração da comercialização, a fragilidade dos estoques públicos, a redução da diversidade agrícola nem a competição entre exportação, produção de energia, ração animal e abastecimento interno.

O Brasil pode produzir uma safra recorde e manter milhões de pessoas sob insegurança alimentar. Soja e milho acumulados em silos não se transformam espontaneamente em arroz, feijão, frutas, verduras e proteínas acessíveis.

Há uma ironia adicional. A abundância, que deveria afastar a imagem bíblica da fome, torna-se ela própria uma praga porque derruba os preços das commodities. Safras recordes de soja e milho, diz Jank, comprimem as margens do produtor. A produtividade é celebrada quando amplia o lucro e lamentada quando a expansão mundial da oferta reduz a cotação.

Esse é o funcionamento elementar dos ciclos de commodities. Períodos de preços elevados estimulam compra de terras, máquinas, insumos e expansão financiada por dívida. Quando a oferta cresce e os preços recuam, produtores muito alavancados encontram dificuldades. A gestão empresarial, tão exaltada na fase de prosperidade, desaparece da narrativa da crise.

Socializar o risco, privatizar a bonança

A nona praga é a política agrícola envelhecida. Jank aponta corretamente a insuficiência do seguro rural e a necessidade de reformar mecanismos de crédito e gestão de riscos. Nesse ponto, a agroteologia fecha seu círculo.

O Estado acusado de gastar sem limites deve gastar melhor, o que, na tradução setorial, significa destinar mais recursos à proteção da produção. O crédito público precisa aumentar, embora a arrecadação seja descrita como sanha. O seguro deve cobrir parcela maior das lavouras, embora sua ampliação dependa de dinheiro do orçamento. A infraestrutura deve avançar, embora pontes, rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e armazéns não brotem do solo depois da chuva.

Há argumentos sólidos para uma política agrícola moderna. Ela precisa alcançar prioritariamente quem não dispõe de instrumentos privados de proteção, estimular adaptação climática, diversificação, produção de alimentos, agregação de valor e desenvolvimento regional. O que não cabe é exigir que a sociedade absorva os riscos de um modelo sem participar da definição de suas prioridades.

Durante a bonança, o lucro remunera propriedade, escala, tecnologia e capacidade empresarial. Na adversidade, a seca vira calamidade pública, a dívida pede renegociação, o crédito exige equalização e o seguro reclama subvenção. O risco privado encontra sempre um caminho para chegar ao Tesouro. A recompensa raramente faz o percurso de volta.

A insegurança jurídica de mão única

A décima praga reúne recuperações judiciais, disputas fundiárias, marco temporal, licenciamento ambiental, ocupações de propriedades, dragagem de rios e conflitos tributários. A lista parece ter sido montada para que qualquer resistência à expansão econômica caiba sob a expressão “insegurança jurídica”.

Recuperação judicial pode nascer do clima e dos preços, mas também de endividamento excessivo, decisões empresariais equivocadas, fraude ou expansão imprudente. Licenciamento ambiental decorre do dever constitucional de prevenir danos. Direitos indígenas não são favores administrativos sujeitos ao calendário do investimento. Conflitos fundiários não começaram quando alguém ocupou uma fazenda; muitos remontam à formação dos títulos, à grilagem e à ausência histórica de regularização.

Para o grande proprietário, segurança jurídica costuma significar estabilidade do domínio e rapidez das licenças. Para indígenas, ribeirinhos, posseiros e comunidades tradicionais, significa a certeza de que seus territórios, rios e modos de vida não serão sacrificados por decisões tomadas sem consulta adequada.

Ambos têm direitos. O artigo reconhece apenas com nitidez aqueles que protegem o investimento.

É nesse ponto que a metáfora do Êxodo se torna involuntariamente reveladora. Para que o agro encontre sua terra prometida, alguém deverá ceder a terra real. Para que o Mar Vermelho se abra, talvez seja necessário dragá-lo. E, se houver povos vivendo na outra margem, a agroteologia cuidará de incluí-los entre as dificuldades de travessia.

A décima primeira praga

Os dez problemas relacionados por Jank existem, embora alguns números e nexos causais exijam correção. A superficialidade está na maneira como são organizados. O agro surge sem conflitos internos, sem concentração patrimonial, sem responsabilidades climáticas e sem participação na formulação das políticas que agora critica.

O modelo é eficiente dentro da porteira e dependente fora dela. Precisa de crédito, seguro, infraestrutura, estabilidade cambial, insumos importados, abertura de mercados, proteção diplomática e tolerância territorial. Seus êxitos aparecem como obra do empreendedor. Suas crises chegam sempre montadas nos cavalos do Apocalipse.

Talvez exista uma décima primeira praga, ausente da lista. É a pretensão de apresentar interesses setoriais legítimos como se fossem automaticamente idênticos ao interesse nacional.

O Brasil precisa de um agronegócio forte, tecnologicamente avançado, ambientalmente responsável e menos vulnerável ao exterior. Precisa também de agricultura familiar, segurança alimentar, indústria, ciência, floresta em pé e direitos territoriais respeitados. A política pública deve organizar essa convivência, distribuir custos e cobrar contrapartidas.

Na terra prometida da agroteologia, porém, a disciplina fiscal vale para os demais; o crédito barato, para o campo; o risco climático, para o Tesouro; os rios, para a logística; e os territórios, para quem promete produzir mais.

Farinha pouca, meu pirão primeiro. E que Moisés apresente a conta ao contribuinte.——————

Referências e contrapontos

Este ensaio dialoga criticamente com o artigo de Marcos Jank, “As dez pragas do agro brasileiro”⁠, publicado pelo Estadão em 5 de setembro de 2026.

Os dados utilizados na análise foram confrontados com as estatísticas fiscais do Banco Central⁠, que registraram dívida bruta de 81,9% do PIB e despesa com juros equivalente a 8,8% do PIB; com o Tesouro Nacional⁠, que estimou a carga tributária de 2025 em 32,4% do PIB; e com estudos do Ipea sobre crédito rural⁠, que documentam a participação histórica do Estado na modernização da agropecuária.

Para os aspectos climáticos e territoriais, foram consultados o IPCC⁠, sobre agricultura, uso da terra e emissões, e o MapBiomas s⁠egundo o qual Amazônia e Cerrado concentraram mais de 84% da área desmatada no país em 2025.

A expressão “agroteologia do meu pirão primeiro” designa a retórica que condena o Estado quando ele financia direitos sociais, mas o convoca a subsidiar crédito, seguro rural, infraestrutura e perdas privadas. A crítica dirige-se à conversão de interesses setoriais legítimos em suposta expressão automática do interesse nacional.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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