A extrema direita volta a assombrar a Alemanha

Anotações de Alfredo Lopes

A Alemanha dedicou oito décadas à construção de uma democracia protegida contra o retorno das forças que produziram o nazismo. Criou instituições vigilantes, criminalizou símbolos, preservou os lugares da memória e transformou o Holocausto em parte incontornável da formação das novas gerações. Poucos países examinaram seus próprios crimes com semelhante persistência.

Ainda assim, no último domingo, quase 44% dos eleitores da Saxônia-Anhalt entregaram seus votos à Alternativa para a Alemanha, a AfD. O partido terminou a eleição a apenas três cadeiras da maioria absoluta no Parlamento regional. Sua liderança local defende o endurecimento das políticas migratórias, a revisão do ensino da história alemã e a redução do espaço dedicado à responsabilidade do país pelos crimes do Terceiro Reich.

A vitória não autoriza a afirmação apressada de que o nazismo regressou sob a mesma forma. A história raramente se repete com seus velhos uniformes, suas bandeiras originais e seu vocabulário intacto. O que reaparece são disposições sociais, estruturas emocionais e mecanismos políticos capazes de preparar novamente o terreno autoritário.

Foi precisamente esse terreno que os pensadores da Escola de Frankfurt procuraram compreender.

O fascismo como possibilidade interna da sociedade moderna

Theodor Adorno e Max Horkheimer recusaram a explicação confortável segundo a qual o nazismo teria sido apenas um acidente irracional ocorrido no interior de uma Europa civilizada. Em Dialética do esclarecimento, sustentaram que a própria razão moderna, quando reduzida à administração, ao cálculo e ao domínio, poderia converter-se em instrumento de barbárie.

A técnica continuaria avançando enquanto a capacidade humana de julgar, conviver e reconhecer o outro se tornaria mais estreita. Uma sociedade altamente organizada poderia, nessas circunstâncias, empregar sua ciência, sua burocracia e seus meios de comunicação para perseguir, excluir e destruir.

O nazismo revelou que progresso técnico e progresso moral seguem caminhos diferentes. Essa constatação preserva uma atualidade incômoda. O século XXI dispõe de instituições democráticas, comunicação instantânea, inteligência artificial e uma capacidade de vigilância que os regimes totalitários do século passado jamais imaginaram. Nada disso assegura, por si mesmo, uma sociedade mais democrática.

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Imagem: History Channel.

Adorno aprofundou essa questão em A personalidade autoritária, investigação sobre indivíduos inclinados à submissão diante dos fortes e à agressividade contra grupos considerados inferiores. O autoritarismo encontrava apoio em pessoas aparentemente integradas à vida comum, movidas pela insegurança, pelo conformismo, pela rigidez moral e pela necessidade de localizar um culpado para frustrações que não conseguiam compreender.

Erich Fromm, outro nome ligado à primeira geração de Frankfurt, percebeu uma contradição semelhante. A liberdade pode ser experimentada como emancipação, mas também como abandono. Diante da instabilidade econômica, da perda de referências e da sensação de impotência, parte da sociedade procura refúgio em líderes que prometem ordem, pertencimento e simplicidade. O indivíduo entrega autonomia em troca da sensação de proteção.

A AfD cresce justamente onde essas feridas permanecem abertas. A Saxônia-Anhalt integra a antiga Alemanha Oriental, atravessada desde a reunificação pelo esvaziamento demográfico, pela saída de jovens, pela desigualdade em relação ao oeste e por uma memória persistente de rebaixamento social. Embora apenas uma pequena parcela de sua população seja estrangeira, a imigração foi convertida em explicação para dificuldades produzidas por décadas de transformações econômicas, abandono territorial e enfraquecimento dos serviços públicos.

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(Eingeschränkte Rechte für bestimmte redaktionelle Kunden in Deutschland. Limited rights for specific editorial clients in Germany.) ERICH FROMM (1900-1980). German psychoanalyst. (Photo by ullstein bild via Getty Images)

O imigrante passa a representar, no imaginário político, tudo o que parece ameaçar o cidadão desamparado. Trata-se de uma operação antiga. A ansiedade econômica recebe um rosto, a frustração social encontra um inimigo e a política deixa de discutir a distribuição da riqueza para administrar ressentimentos.

A indústria cultural encontra os algoritmos

Adorno e Horkheimer analisaram também o papel da indústria cultural na fabricação de conformismo. Rádio, cinema e publicidade não apenas entretinham. Eles padronizavam percepções, desejos e comportamentos, reduzindo a capacidade crítica ao oferecer continuamente as mesmas formas de reconhecimento e consumo.

A indústria cultural do século XXI tornou-se personalizada. As plataformas conhecem os medos, as preferências e as irritações de cada usuário. Seus algoritmos não precisam produzir uma mensagem única para milhões de pessoas; podem entregar a cada indivíduo a versão do mundo mais adequada às suas predisposições.

A extrema direita compreendeu cedo essa mudança. Substituiu parte da antiga militância partidária por ecossistemas digitais nos quais indignação, rumor e identidade circulam com enorme velocidade. A mensagem chega com aparência de confidência pessoal, muitas vezes apresentada como revelação contra uma imprensa, uma universidade ou uma burocracia supostamente comprometidas com o encobrimento da verdade.

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Foto Markus Spiske

Herbert Marcuse advertia que as sociedades industriais desenvolvidas eram capazes de absorver a contestação e reduzir o pensamento a uma única dimensão. As redes sociais pareciam, em seu início, romper esse bloqueio. Acabaram também criando novas formas de fechamento. Cada comunidade digital passa a habitar sua própria realidade, munida de seus fatos, seus heróis, seus traidores e seus inimigos.

Nesse ambiente, o extremismo se normaliza antes de chegar ao governo. Expressões antes repelidas pelo debate público aparecem como provocações; depois, como opiniões possíveis; por fim, como programas eleitorais. O êxito autoritário começa pela mudança daquilo que uma sociedade aceita ouvir sem escândalo.

O centro que se desloca para sobreviver

A análise do New York Times chama atenção para o enfraquecimento do “cordão sanitário” construído na Europa do pós-guerra. Partidos tradicionais mantiveram durante décadas o compromisso de não formar governos com forças extremistas. Essa barreira começa a sofrer pressão à medida que a extrema direita cresce e o centro político tenta recuperar seus eleitores incorporando parte de sua agenda.

O cálculo costuma produzir o efeito contrário. Quando partidos convencionais adotam o vocabulário nacionalista e tratam imigração, diversidade e direitos humanos como concessões excessivas, confirmam a interpretação oferecida pelos extremistas. Se o problema foi formulado pela extrema direita, muitos eleitores preferirão quem apresenta a versão original.

Essa adaptação contém outro risco. O autoritarismo contemporâneo raramente precisa destruir imediatamente todas as instituições. Pode avançar por dentro delas, alterando currículos escolares, intimidando jornalistas, ocupando órgãos de controle, enfraquecendo tribunais, restringindo direitos de minorias e convertendo a administração pública em instrumento partidário.

A legalidade permanece formalmente em vigor enquanto sua substância vai sendo consumida.

A onda azul atravessa a América Latina

Na América Latina, a chamada “onda azul” reúne experiências diferentes. Javier Milei na Argentina, Nayib Bukele em El Salvador, José Antonio Kast no Chile, Daniel Noboa no Equador e outras lideranças conservadoras não compõem um bloco perfeitamente uniforme. Há diferenças econômicas, institucionais e nacionais relevantes.

O que as aproxima é uma gramática política baseada na rejeição ao Estado social, no combate ao suposto inimigo interno, na exaltação das soluções de força e numa relação direta entre líder e eleitor, frequentemente mediada pelas plataformas digitais. A insegurança pública e a inflação fornecem a matéria-prima. A frustração com governos progressistas completa o ambiente.

A esquerda latino-americana participa dessa crise quando se acomoda na administração das carências, perde contato com o cotidiano popular e substitui um projeto de transformação por uma coleção de gestos simbólicos. A população que enfrenta transporte precário, violência, desemprego e serviços públicos degradados dificilmente aceitará por muito tempo que a defesa abstrata da democracia baste como programa de governo.

Nancy Fraser descreve essa situação como uma crise mais ampla de hegemonia. O neoliberalismo dissolveu vínculos sociais, concentrou riqueza e enfraqueceu a capacidade protetora do Estado. Ao mesmo tempo, parcelas progressistas da sociedade associaram-se a uma modernização econômica que ampliava direitos culturais enquanto mantinha intocadas estruturas severas de desigualdade. A extrema direita ocupou o vazio oferecendo reconhecimento, identidade nacional e proteção, ainda que sua política econômica frequentemente aprofunde as mesmas inseguranças que alimentam sua ascensão.

Wendy Brown observa processo semelhante ao mostrar como a racionalidade neoliberal transforma cidadãos em unidades concorrentes, esvazia a vida pública e prepara o terreno para políticas autoritárias. Quando tudo se torna competição, o adversário deixa de ser alguém com quem se divide uma comunidade política. Passa a ser obstáculo, ameaça ou inimigo.

O risco de encolhimento do Brasil

O Brasil enfrenta essa onda numa posição singular. Por seu território, sua população, sua economia e sua influência ambiental, poderia liderar uma articulação latino-americana capaz de negociar com Estados Unidos, China e União Europeia sem submissão automática a qualquer desses polos. Poderia também organizar uma agenda regional de industrialização, transição energética, segurança alimentar, ciência e proteção da Amazônia.

Um continente progressivamente alinhado à direita conservadora reduz o espaço dessa liderança. O isolamento brasileiro poderia comprometer a integração sul-americana, enfraquecer a cooperação ambiental e converter a região em terreno de uma disputa externa sobre a qual seus próprios países teriam pouca capacidade de decisão.

Para a Amazônia, o risco é ainda mais concreto. Governos orientados pela exploração imediata dos recursos naturais, pela flexibilização ambiental e pela entrega de cadeias estratégicas ao capital externo tendem a considerar a floresta apenas como estoque de madeira, minério, petróleo e terra. A bioeconomia baseada em ciência, conhecimento tradicional, indústria regional e repartição de benefícios perde espaço para economias de enclave.

O Brasil seria encolhido também internamente. O projeto conservador radical oferece uma ideia de nação concentrada nos centros econômicos, culturalmente homogênea e socialmente disciplinada. Nessa visão, a Amazônia aparece como fronteira a ser ocupada, protegida militarmente ou explorada economicamente. Sua população, sua diversidade cultural e seu direito ao desenvolvimento permanecem na periferia do projeto nacional.

Celso Furtado ensinou que o subdesenvolvimento constitui uma forma histórica de organização do poder e da economia. Superá-lo exige planejamento, autonomia nacional e transformação das estruturas produtivas. A agenda ultraliberal da nova direita latino-americana segue em outra direção: reduz a capacidade estatal, amplia a dependência externa e concentra decisões econômicas nas mãos de grupos que não precisam responder pelos efeitos territoriais de seus investimentos.

O resultado pode ser um continente mais integrado aos mercados globais e menos capaz de escolher o próprio futuro.

O futuro progressista precisa voltar ao presente

A vitória da AfD contém uma advertência para as forças democráticas. Memória histórica, instituições constitucionais e condenações morais continuam indispensáveis, porém não substituem políticas capazes de reorganizar a vida cotidiana.

O avanço autoritário precisa ser enfrentado onde ele recolhe seus votos: no custo da alimentação, na insegurança, na precariedade do trabalho, no abandono das periferias, na ansiedade das famílias e na percepção de que as decisões públicas acontecem em algum lugar distante.

Um projeto progressista para o século XXI terá de reconstruir a capacidade do Estado, democratizar a economia, regular o poder das plataformas, recuperar a soberania tecnológica e oferecer segurança pública sem converter o cidadão em suspeito permanente. Na América Latina, deverá combinar integração regional, transição ecológica, industrialização e redução das desigualdades.

A Escola de Frankfurt ajuda a perceber que a barbárie pode crescer dentro da normalidade institucional, alimentada por pessoas que se sentem esquecidas, humilhadas ou ameaçadas. Também ensina que denunciar a irracionalidade do adversário é insuficiente quando a própria sociedade produz continuamente o medo e o desamparo de que ele se alimenta.

A eleição da Saxônia-Anhalt não determina o futuro da Alemanha, assim como a onda azul não define antecipadamente o destino da América Latina. Ambas revelam um espaço político em disputa. Se as forças progressistas quiserem ocupá-lo, precisarão oferecer mais que a conservação defensiva das instituições. Terão de devolver à democracia sua capacidade de interferir materialmente na vida, repartir poder e permitir que as maiorias voltem a reconhecer algum futuro diante de si.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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