Entre o asfalto e as cinzas: A recuperação da BR-319 e o futuro em disputa

“Construir pontes. Não só de concreto, mas de legitimidade. A BR-319 só fará sentido se for instrumento de justiça — não de injustiça legalizada. Cumprir a lei é a resposta simples e inegociável, mas a lei que nasce do povo, que serve ao bem comum e que constrói o futuro.”

Coluna Follow-Up

Está provado que precisamos de sabedoria para encarar, entender e gerenciar os desafios amazônicos. Um deles, emblemático e urgente, é a recuperação da rodovia BR-319. Trata-se de retomar a conexão terrestre com o restante do país, garantindo o direito de ir e vir a milhares de cidadãos que vivem em seu entorno e, sobretudo, devolvendo dignidade às famílias que ali foram assentadas por iniciativa do próprio poder público.

A boa notícia: Plano BR-319

A boa notícia é o anúncio do Plano BR-319, com a criação de uma Comissão Interministerial e de um Comitê Executivo com representantes técnicos. Essa iniciativa, mais do que uma resposta administrativa, é um sinal claro de boa vontade e compromisso do atual governo com a superação dos impasses que travam a pavimentação da rodovia. O envolvimento direto dos ministérios do Meio Ambiente, dos Transportes e da Casa Civil revela uma ação coordenada com o objetivo de destravar o trecho do meio com responsabilidade ambiental e sensibilidade social.

Desmatamento e queimada no entorno da BR 319 em Humaita no Amazonas em setembro de 2022. Foto Michael Dantas AFP
foto: Michael Dantas

Importância da Ação Coordenada

O acordo político estabelece diretrizes inovadoras, como a criação de “bolsões verdes” e medidas obrigatórias para reduzir o impacto sobre a biodiversidade local.

Cumprir a Lei: Pacto entre Gerações ou Pretexto para Retrocessos?

O ponto central permanece o mesmo: cumprir a lei. Mas é preciso aprofundar o que isso realmente significa. No Brasil, há leis — e leis. Há aquelas construídas a partir de longos processos democráticos, com escuta social, base científica e pactos intergeracionais. Mas há também leis feitas sob encomenda — moldadas por lobbies econômicos que buscam transformar seus interesses em norma jurídica.

Exemplo de Lei Sob Encomenda

O projeto AMACRO — zona territorial de “integração” entre Amazonas, Acre e Rondônia — foi divulgado sob o discurso de desenvolvimento sustentável, mas serviu para legitimar a devastação de uma área gigantesca da floresta.

O Planeta pede socorro

Estamos vivendo a radicalização dos efeitos do aquecimento global. A floresta amazônica não é apenas uma paisagem brasileira — é uma garantia de sobrevivência planetária. Recuperar a BR-319 é necessário, mas não a qualquer custo. A estrada já existe, e milhares de famílias vivem às suas margens. Elas não pedem licença para destruir, mas condições para viver com dignidade.

A floresta só permanecerá de pé se valer a pena para quem a habita — e a escuta é o primeiro passo para isso.

Desmatamento não é manejo

Desmatamento não é manejo florestal. O manejo é técnica, ciência e respeito aos ciclos da natureza. É retirar com sabedoria, regenerar com consciência e gerar emprego sustentável.

O desmatamento ilegal é devastação pura e atinge até os que se acham imunes, como produtores do agronegócio do Centro-Oeste.

Trecho da BR-319, uma das estradas na Amazônia.
Trecho da BR-319, uma das estradas na Amazônia. | Foto: Divulgação/DNIT

Licenciamento ambiental: Pacto civilizatório ou ficção legal

Nesta madrugada de 17/07/25, o Congresso Nacional aprovou a chamada Lei Geral do Licenciamento Ambiental, que é, na prática, um salvo-conduto para destruir — legalmente. A nova norma permite suprimir vegetação em áreas sensíveis sem autorização federal e transforma licenciamento em autodeclaração.

Pontos Negativos da Nova Norma:
  • Permite suprimir vegetação em áreas sensíveis sem autorização federal
  • Transforma licenciamento em autodeclaração
  • Enfraquece IBAMA, ICMBio e FUNAI
  • Rompe com o pacto climático internacional

A BR-319 como símbolo de reconstrução ética

As medidas anunciadas para a BR-319 — como a Avaliação Ambiental Estratégica e a proposta de uma Parceria Público-Privada para governança socioambiental — são um começo. Mas só terão sentido se forem acompanhadas de transparência, escuta ativa das populações locais e rigor ético e ambiental.

Importância da transparência 

A Amazônia pode ser a locomotiva verde do desenvolvimento nacional se mantivermos de pé aquilo que importa: a floresta, seus povos, seus saberes e sua biodiversidade.

O que precisamos?

Construir pontes. Não só de concreto, mas de legitimidade. A BR-319 só fará sentido se for instrumento de justiça — não de injustiça legalizada. Cumprir a lei é a resposta simples e inegociável, mas a lei que nasce do povo, que serve ao bem comum e que constrói o futuro.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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