Com 75% menos água, seca no Pantanal é a pior dos últimos 40 anos

Estudo mostra que a seca no Pantanal é agravada pelo avanço da agropecuária e do desmatamento nas cabeceiras dos rios, comprometendo o equilíbrio hídrico da região.

O Pantanal, maior planície alagável do planeta, enfrenta a década mais seca desde 1985. De acordo com dados do MapBiomas, a área anualmente alagada caiu 75% nos últimos 40 anos: de 1,6 milhão de hectares (1985–1994) para apenas 460 mil hectares entre 2014 e 2024. O ano de 2024 registrou o nível mais crítico da série histórica, com área alagada 73% abaixo da média. A seca no Pantanal tem se intensificado a cada década.

Essa seca prolongada está diretamente ligada à degradação no Planalto da Bacia do Alto Paraguai (BAP), que abastece os rios pantaneiros. A região, que ocupa partes de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, perdeu cerca de 5,2 milhões de hectares de vegetação nativa desde 1985, pressionada pelo avanço da agropecuária. Hoje, 60% do Planalto é ocupado por áreas antrópicas, como lavouras e pastagens, sendo 80% da agricultura dominada pela soja.

O desmatamento reduz a capacidade de infiltração da água no solo e compromete o fluxo hídrico que abastece a planície. Segundo Eduardo Reis Rosa, do MapBiomas, a perda de florestas e savanas nas cabeceiras fragiliza a proteção do solo e interfere diretamente no pulso de cheias do Pantanal. “A perda de florestas e savanas fragiliza a proteção dos solos nas cabeceiras do bioma, o que interfere no fluxo de água que chega à planície”, afirma. A seca no Pantanal está diretamente relacionada às mudanças no uso da terra ao longo das últimas décadas.

Vista aérea do Parque Nacional Encontro das Águas com áreas secas devido à seca no Pantanal.
Parque Nacional Encontro das Águas. Foto: Gustavo Figueiroa

Na própria planície, a conversão de vegetação nativa para pastagens também se intensificou. A área de pastagem saltou de 563 mil hectares em 1985 para 2,2 milhões em 2024. Atualmente, 85% dessas pastagens têm baixo ou médio vigor vegetativo. Outro fator de alerta é o crescimento de 60% da mineração na última década.

A análise histórica mostra uma sequência de perdas: nos anos 1990, a pastagem avançou sobre formações savânicas; nos anos 2000, o desmatamento chegou ao interior do bioma e a partir de 2005, houve redução nas áreas alagadas e aumento de vegetação lenhosa. Entre 2015 e 2024, a situação se agravou: o Pantanal perdeu mais vegetação nativa do que o Planalto.

Com 40% da BAP ocupada por atividades agropecuárias, a degradação no planalto compromete o futuro da planície. O relatório indica que a seca no Pantanal não é apenas climática, mas também consequência direta de um modelo de uso da terra que desequilibra todo o ecossistema.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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