Entre Etnias e Terras Raras: a Amazônia de fronteira e o dever de proteger

“O Brasil tem uma dívida com sua fronteira norte. Mas há sinais de que a conta começa a ser paga — não com moedas, mas com presença, dignidade e projeto. E neste projeto, a indústria da Amazônia quer ser parte da solução”.

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Na Amazônia profunda, onde o Brasil encontra a Colômbia e a Venezuela, pulsa um território tão vasto quanto invisível para os olhos da maioria. Um território onde se concentra a maior diversidade étnica de povos originários das Américas, vivendo em condições adversas sobre um dos solos mais ricos do planeta. Ali, no entorno do Parque Nacional do Pico da Neblina, repousa uma fronteira esquecida — e com ela, um Brasil que resiste.

Foi para reencontrar esse Brasil e assumir um novo protagonismo que a indústria do Amazonas atravessou o mapa e fincou um marco histórico. No último final de semana, a Federação e o Centro das Indústrias do Estado do Amazonas (FIEAM e CIEAM) protagonizaram uma missão institucional à tríplice fronteira, em parceria com o Comando Militar da Amazônia.

A visita não foi simbólica. Foi estratégica, sensível e visionária, disse Antônio Silva, presidente da FIEAM. Um movimento de corpo, alma e coração — como definiu Luiz Augusto Rocha, presidente do Conselho Superior do CIEAM — que reposiciona as entidade da Indústria no centro do desenvolvimento sustentável, da defesa e da soberania da Amazônia.

O Exército e o Brasil profundo

Quem já esteve em São Gabriel da Cachoeira sabe: a presença do Estado brasileiro se resume, em grande parte, à presença do Exército, disse Lúcio Flávio Morais de Oliveira, presidente executivo do CIEAM. É o militar quem assegura transporte, acolhimento, atenção à saúde, respeito à diversidade cultural e vigilância das fronteiras. E é justamente este papel, por vezes mal compreendido nas capitais, que se revela essencial para a proteção da floresta, dos povos e das riquezas minerais.

Ao visitar a região, Luiz Augusto Rocha viu com os olhos da sensibilidade o que muitos ignoram por conveniência: o Exército Brasileiro, em sua atuação mais nobre, é guardião da Amazônia viva, não da Amazônia sitiada. É defensor de comunidades, não de interesses escusos. E a indústria que se quer aliada do território deve estar ao lado de quem o protege com dignidade.

A reconstrução de uma reputação — e de um compromisso

A articulação entre indústria e forças armadas não é nova. Mas agora assume uma nova roupagem: a reputação institucional das Forças Armadas se afirma em suas atribuições constitucionais e ganha novo fôlego pela aliança ganha-ganha com a inteligência produtiva da Amazônia. É a aliança formada entre FIEAM, CIEAM e CMA na formatação do CONDEFESA, entidade criada à luz da indústria da defesa prevista na Nova Indústria Brasil, a política industrial federal, que lidera esse movimento de reconhecimento do território — e o faz não com discursos fáceis, mas com gestos concretos. 

Essa missão à fronteira é, ao mesmo tempo, um ato de reconciliação com os valores constitucionais das forças militares e uma convocação para que a indústria assuma, de vez, o papel que lhe cabe: desenvolver, integrar e proteger. Como disse um dos articuladores do projeto: “É preciso reconstruir um patrimônio da brasilidade amazônica : o papel civilizatório da força militar junto à população. E isso se faz com respeito, escuta e compromisso com o território.”

sentinela do pico da neblina exercito indigenas

As terras raras e o futuro compartilhado

O Brasil possui um dos maiores acervos de terras raras do mundo, e grande parte dessas reservas está concentrada justamente naquela zona remota, mapeada nos anos 1970 pelo Projeto RADAM. Em tempos de transição energética, disputa geopolítica e corrida por minerais estratégicos, as terras raras da Amazônia tornaram-se objeto de cobiça global. Mas o caminho para sua exploração não pode ser o da pilhagem colonial.

A proposta da missão tripartite que nasce dessa articulação é outra: exploração sustentável com protagonismo amazônico, consentimento dos povos originários e governança nacional estratégica. Para isso, é preciso visão, articulação política, base científica e, acima de tudo, presença. E foi isso que a missão representou.

O novo protagonismo da indústria — com alma e estratégia

Não foi apenas uma visita. Foi o anúncio silencioso de um novo ciclo para a indústria representada pelo CIEAM. Um ciclo em que a entidade, sempre em parceria com a FIEAM, reafirma seu compromisso não apenas com os associados, mas com a Amazônia real, com as pessoas, com os povos e com o futuro. Um ciclo em que as comissões setoriais — coordenadas majoritariamente por mulheres — ganham protagonismo e sofisticação.

Um tempo em que a governança se fortalece, as entidades se renovam e o diálogo com a sociedade se aprofunda. Essa missão marca a retomada do lugar do CIEAM como formiga obstinada, como bem definiu Cláudio Barrela, um dos conselheiros — pequena, persistente, corajosa. Uma entidade que assume, sem alarde, a missão de articular, pensar, integrar e inspirar.

O Brasil tem uma dívida com sua fronteira norte. Mas há sinais de que a conta começa a ser paga — não com moedas, mas com presença, dignidade e projeto. E neste projeto, a indústria da Amazônia quer ser parte da solução.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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