Estudo aponta caminhos para transição energética no Brasil

Transformação do setor depende de descentralização do planejamento e integração de diferentes agentes sociais

Para haver uma transformação relevante do setor energético do Brasil seria necessário a integração de diferentes níveis de governança local e regional, assim como levar em consideração os conflitos de demandas entre diferentes setores.

A conclusão é de estudo realizado por pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública e do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com o Instituto de Energia da Universidade de Durham, do Reino Unido, publicado na revista “Energy Research & Social Science”.

Os autores usaram dados públicos do setor energético do estado de São Paulo e do Brasil da base de dados de 1980 a 2019. As análises dos balanços energéticos documentados pelo Ministério de Minas e Energia foram realizadas sob um dos modelos de avaliação validados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês).

A pesquisa considerou os indicadores de consumo de energia, emissões de gases do efeito estufa por consumo de combustíveis, geração de energia renovável e frota de veículos do estado.

Estado de São Paulo

bagaço da cana
Foto: Joseph Mucira | Pixabay

A partir da avaliação das mudanças energéticas ocorridas no estado de São Paulo no período, o estudo discutiu o papel e influência de políticas públicas nessas transições energéticas a um nível local e, posteriormente, nacional. A matriz energética de São Paulo figura como uma das mais limpas do mundo, com destaque para hidrelétricas e derivados da cana-de-açúcar.

Ainda assim, os pesquisadores concluíram, esse cenário não pode ser considerado uma transição energética, mas sim uma adição de fontes de energia. Isso porque o consumo do estado, por mais diverso que seja hoje, permanece altamente dependente de derivados do petróleo. Isso pode ser associado, afirmam os autores, ao fato de que a maior parte do seu consumo é representado pelo setor de transporte.

Segundo o estudo, uma transição energética integral precisa alterar o consumo do estado ou considerar sua real demanda e ir além do que apenas disponibilizar outras fontes no contexto. Da mesma forma, é necessário que as transições sejam realizadas contemplando a gestão de outros setores associados.

De acordo com Leandro Giatti, coautor do estudo, “a indústria do bioetanol compete com a produção de alimento, demanda energia e gera impacto pelo uso do solo e de recursos hídricos. Tudo isso está interconectado”, afirma.

O trabalho também mostra que a matriz energética de São Paulo apresentou experiências mais bem sucedidas e avanços. Contudo, tais avanços não são expandidos a um nível federal, dado que qualquer tomada de decisão dessa área, de acordo com o artigo 22 da Constituição de 1988, é de responsabilidade do governo federal.

Decisões descentralizadas

empresas sustentabilidade
Imagem: Pixabay

Lira Lázaro, autora principal do artigo, diz que no Brasil o governo não consegue conhecer as realidades de pequenos municípios e não avaliaria o que os governos subnacionais estão fazendo para contribuir em soluções. Para ela, levantar a discussão sobre o impacto que uma governança multinível teria nas decisões foi uma grande motivação para o estudo e essa necessidade aumenta com as mudanças climáticas.

Nesse contexto, assim como no Acordo de Paris foram estabelecidas as contribuições nacionalmente definidas, o mesmo poderia ser aplicado a nível nacional. A partir de um problema do país, cada região poderia contribuir com soluções a partir do seu próprio contexto e possibilidades. 

No entanto, devido à centralização de políticas energéticas, os estados são impossibilitados de que suas colaborações promovam alguma reestruturação. “Mostramos que São Paulo está criando várias alternativas, mas não existe o espaço desse recorte regional para fazer uma voz atuante na estrutura da governança atual. Para nós, essa é a grande falha que exploramos”, diz Giatti.

Fonte: Agência Bori

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

Artigos Relacionados

Estudo revela que fumaça das queimadas gera custo anual de R$ 17,6 milhões ao SUS

Fumaça das queimadas eleva internações e gera custo anual de R$ 17,6 milhões ao SUS na Amazônia Legal e no Cerrado.

Combate ao desmatamento e incêndios terá R$ 337 milhões para Ibama e ICMBio

Governo destina R$ 337 milhões ao combate ao desmatamento, incêndios florestais e fiscalização ambiental pelo Ibama e ICMBio.

UM NOVO TEMPO PARA AS RESPONSABILIDADES PÚBLICAS

A nova configuração institucional proporcionada pela Lei Orgânica cria...

“O futuro do Amazonas está no interior”, afirma Marcelo Pereira ao projetar o pós-Reforma Tributária

Na primeira parte desta entrevista, “Podemos ser engolidos, Marcelo Pereira apresentou um...

Pesquisa questiona capacidade das florestas de armazenar carbono no futuro 

Estudo mostra que florestas podem armazenar carbono abaixo do previsto, mesmo quando árvores seguem absorvendo CO₂ pela fotossíntese.