Energia barata, conta cara: onde as baterias entram nessa equação


Há uma contradição instalada no sistema elétrico brasileiro que começa a ficar difícil de explicar ao consumidor. O país dispõe de sol abundante, ventos excepcionais, grandes reservatórios hidrelétricos, biomassa e uma matriz elétrica cuja participação renovável alcançou 86,8% em 2025. Mesmo assim, energia barata na origem não significa necessariamente eletricidade barata na tomada. 

A discussão sobre a abertura do mercado livre de energia, prevista para alcançar consumidores industriais e comerciais de baixa tensão até novembro de 2027 e os demais consumidores, inclusive residenciais, até novembro de 2028, expõe essa questão com particular nitidez. Milhões de brasileiros ganharão gradualmente o direito de escolher de quem comprar eletricidade. A liberdade contratual, porém, encontrará pela frente uma estrutura tarifária complexa, custos de rede, encargos, tributos e necessidades crescentes de segurança e flexibilidade do sistema. 

Eis a segunda etapa da transição energética brasileira.

Depois de aprender a produzir cada vez mais eletricidade renovável, o país já desempenha o papel de guardar energia por meio de reservatórios hidrelétricos. A nova etapa consiste em ampliar e diversificar a flexibilidade do sistema, incorporando baterias de forma complementar.

O desafio de reduzir os custos do consumo de energia depende de vários fatores, além daquele que o armazenamento possibilita, reduzindo o acionamento térmico, o desperdício de energia renovável e os investimentos da construção de redes. O benefício ao consumidor, em qualquer cenário, dependerá muito do modelo regulatório. 

O ganho efetivo, entretanto, se dará na passagem da energia limpa para a energia inteligente.

O paradoxo brasileiro

Os números ajudam a compreender o tamanho da transformação. Em 2025, eólica e solar já responderam juntas por 26,4% da geração elétrica brasileira. A geração solar chegou a 88,1 TWh, crescimento de 24,7% em apenas um ano, enquanto a capacidade instalada dessa fonte alcançou 64,8 GW. A geração eólica chegou a 116,5 TWh. 

São números impressionantes. Mas há outro dado igualmente relevante.

No mesmo período, a geração termelétrica cresceu 12,3%, alcançando 169,9 TWh, enquanto o gás natural destinado à produção de eletricidade aumentou 22,7%. A participação das renováveis na matriz elétrica, que havia sido de 88,2% em 2024, caiu para 86,8% em 2025. A EPE atribui esse movimento à redução da geração hidráulica e da importação de Itaipu, combinada ao aumento da geração a gás. 

Produzir eletricidade renovável em abundância não resolve, sozinho, o problema da segurança elétrica. O sol produz quando há sol. O vento sopra segundo sua própria dinâmica. O consumo, por sua vez, segue outra curva. Quando produção e demanda não coincidem, o sistema precisa de flexibilidade.

Historicamente, parte dessa função foi exercida pelos reservatórios das hidrelétricas. Em situações críticas, entram também as termelétricas. A expansão acelerada das fontes variáveis acrescenta agora uma terceira possibilidade tecnológica: armazenar eletricidade quando ela está disponível e utilizá-la quando o sistema mais precisa dela.

A bateria muda de função

Durante muitos anos, bateria foi associada principalmente a automóveis, equipamentos eletrônicos e sistemas emergenciais. Essa percepção está ficando velha.

Grandes sistemas de armazenamento, conhecidos internacionalmente pela sigla BESS, Battery Energy Storage Systems, começam a integrar a infraestrutura dos sistemas elétricos modernos.

BESS UCB Power

Uma bateria conectada à rede pode absorver eletricidade em determinado momento e devolvê-la posteriormente. Parece simples, mas essa capacidade altera profundamente a lógica econômica da eletricidade. Energia deixa de ser uma mercadoria que precisa ser consumida praticamente no instante em que é produzida. Passa a existir uma variável adicional: o tempo.

Um megawatt-hora produzido ao meio-dia, durante elevada geração solar, pode ter um valor econômico completamente diferente daquele mesmo megawatt-hora necessário no início da noite. Armazenar significa construir uma ponte entre esses dois momentos. E essa ponte pode ter consequências importantes para o custo sistêmico.

O custo da ponta

Nos momentos de maior demanda, o operador precisa garantir potência suficiente para atender ao sistema. Se as fontes disponíveis naquele instante não forem suficientes, outras usinas precisam ser acionadas. Frequentemente são unidades térmicas, com custos operacionais e emissões superiores aos das fontes renováveis.

Uma bateria carregada anteriormente pode fornecer energia exatamente nesses períodos. Ela pode ainda prestar serviços à rede, auxiliar no controle de frequência, suavizar oscilações, reduzir congestionamentos e aumentar a capacidade de integração de solar e eólica.

Essa discussão já deixou os laboratórios e entrou definitivamente na política energética brasileira. O avanço regulatório em torno do armazenamento mostra que baterias começam a ser tratadas como parte da infraestrutura necessária à modernização do sistema elétrico.

Esse movimento interessa especialmente ao Brasil porque o crescimento das fontes variáveis está ocorrendo em grande velocidade. Quanto maior a participação de solar e eólica, maior tende a ser o valor econômico da flexibilidade.

Mercado livre também precisará de inteligência

A abertura integral do mercado adicionará outra transformação. Hoje, o ambiente livre permanece concentrado nos consumidores conectados em alta tensão. Com o novo marco regulatório, a abertura avançará gradualmente até chegar às residências em 2028. 

Essa mudança pode ampliar competição, inovação comercial e diversidade de contratos. Mas o consumidor do futuro provavelmente não escolherá apenas quem vende o quilowatt-hora mais barato.

Medidores inteligentes e digitalização da rede, após a abertura do mercado, permitirão acompanhar o consumo em intervalos cada vez menores, com reflexos nas tarifas, que poderão refletir horários e condições do sistema. Geração distribuída, baterias, veículos elétricos e sistemas digitais de gestão poderão conversar entre si.

Uma residência equipada com painéis solares, bateria e medidor inteligente poderá consumir, gerar, armazenar e eventualmente fornecer serviços ao sistema. Uma indústria poderá combinar contratos de energia, armazenamento e gerenciamento de demanda para reduzir exposição aos horários mais caros.

Um data center poderá utilizar baterias simultaneamente para confiabilidade operacional e gestão energética. A fronteira entre consumidor e produtor começará a ficar menos rígida.

É nesse ponto que existe uma agenda industrial brasileira

O debate sobre baterias costuma concentrar-se na mineração de lítio e na fabricação de células. A cadeia é muito maior. Inclui química, materiais, eletrônica de potência, sistemas de gerenciamento de baterias, inversores, software, integração, engenharia, segurança, reciclagem, manutenção e inteligência de rede.

Para uma economia industrial como a brasileira, armazenamento representa também política tecnológica. Empresas nacionais que acumulam experiência em baterias e sistemas energéticos passam a ocupar uma posição interessante nessa transformação.

É nesse ambiente que a UCB Power, com atuação brasileira em soluções de armazenamento e sistemas energéticos, tem ampliado suas competências e investimentos na construção de uma infraestrutura coerente com a importância emergencial da eletrificação racional das fontes renováveis. Importar toda essa inteligência significaria trocar uma dependência energética por uma dependência tecnológica.

Desenvolvê-la aqui significa incorporar valor à transição.

E então chegamos à Amazônia

Poucos lugares tornam essa discussão tão concreta quanto a Amazônia. Em centenas de localidades afastadas dos grandes centros, eletricidade ainda depende de sistemas isolados, logística complexa e combustíveis transportados por longas distâncias.

Nesses territórios, cada litro de combustível carrega consigo o custo do transporte. Rio acima, estrada adentro, algumas vezes por avião. O resultado é uma eletricidade cuja conta econômica precisa ser observada junto com a conta logística, ambiental e social.

Ao mesmo tempo, boa parte da Amazônia dispõe de excelente disponibilidade solar.

A combinação entre geração fotovoltaica, armazenamento e sistemas inteligentes oferece uma oportunidade particular para reduzir gradualmente a dependência térmica em diferentes configurações locais.

Não existe solução única. Cada comunidade possui curva de carga, infraestrutura, logística e condições ambientais próprias. Baterias na Amazônia enfrentam ainda calor, umidade, transporte difícil e exigências específicas de manutenção.

Precisamente por isso, a região pode tornar-se um extraordinário campo brasileiro de engenharia energética tropical. Tecnologia desenvolvida para funcionar em São Paulo pode ser relevante.

Tecnologia capaz de funcionar continuamente em São Gabriel da Cachoeira, Tabatinga ou comunidades remotas do interior amazônico enfrenta outro conjunto de exigências. Há conhecimento industrial a construir aí.

Painéis solares com baterias de lítio da UCB Power em projeto de energia limpa na Amazônia.
Projeto da UCB Power na Amazônia usa painéis solares e baterias de lítio para levar energia limpa a comunidades isoladas. A empresa é uma das principais indústrias brasileiras do setor. Foto: Divulgação.

A floresta também precisa de eletricidade

Existe ainda uma dimensão pouco discutida da bioeconomia amazônica. Uma economia da floresta em pé precisa de energia.

Precisa refrigerar pescado e alimentos. Processar frutos. Operar pequenas agroindústrias. Conservar medicamentos. Bombear água. Manter escolas conectadas. Alimentar equipamentos científicos. Permitir telecomunicações e serviços digitais.

Sem eletricidade confiável, boa parte da agregação de valor continua acontecendo longe da floresta. E quando isso ocorre, a riqueza também parte. Energia distribuída associada ao armazenamento pode, portanto, desempenhar uma função que ultrapassa a descarbonização.

Pode tornar-se infraestrutura da bioeconomia. Uma comunidade capaz de conservar, transformar e processar sua produção localmente aumenta sua possibilidade de participar de cadeias de maior valor agregado. Nesse sentido, bateria também pode significar renda.

O Brasil diante da segunda metade da transição

Durante décadas, o debate energético brasileiro esteve concentrado em construir capacidade de geração. Essa agenda continuará existindo. Mas uma matriz com participação crescente de fontes variáveis exige outra camada de infraestrutura.

Precisaremos produzir. Transmitir. Distribuir. Armazenar. Medir. Gerenciar. E fazer essas coisas conversarem entre si.

A própria queda da renovabilidade elétrica de 88,2% em 2024 para 86,8% em 2025, acompanhada do crescimento da geração térmica, oferece um lembrete útil: possuir recursos renováveis extraordinários não elimina os desafios de operação de um sistema elétrico continental. 

Talvez seja essa a questão que a abertura do mercado livre acabará colocando diante do país. O consumidor poderá escolher seu fornecedor. Mas alguém continuará precisando garantir que haja eletricidade disponível quando ele apertar o interruptor.

Quanto mais solar e eólica entrarem no sistema, mais sofisticada será essa tarefa. As baterias começam a ocupar justamente esse intervalo entre abundância e necessidade.

Para o Brasil, há uma escolha industrial associada a essa transformação. Podemos simplesmente comprar equipamentos quando a demanda explodir ou aproveitar os próximos anos para desenvolver engenharia, produção, software, integração e conhecimento tecnológico dentro do país.

Ali, armazenar o sol pode significar queimar menos combustível. Pode significar eletricidade mais confiável em lugares onde a rede convencional dificilmente chegará com a mesma qualidade. Pode permitir processamento local, refrigeração, conectividade e novas atividades econômicas.

E talvez esteja justamente aí uma das peças que faltam para aproximar duas agendas que durante muito tempo caminharam separadas. A política industrial e a floresta em pé. A eletricidade que o Brasil aprendeu a produzir precisa agora ser melhor administrada.

A próxima fronteira energética brasileira pode estar menos na descoberta de uma nova fonte e mais na inteligência para aproveitar plenamente aquelas que já temos.

Ronaldo Gerdes
Ronaldo Gerdes
Ronaldo Gerdes é CEO da UCB Power e Conselheiro do Centro da Indústria do Estado do Amazonas

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