Dom Hilário Moser, meu pai na fé

68 anos de um sacerdócio educado pelo Amor

Por Alfredo Lopes

Em toda a História existem datas que pertencem ao calendário. Outras passam a morar dentro de nós.

O dia 15 de agosto de 1958 pertence às duas categorias. Naquele dia, em São Paulo, o jovem salesiano Hilário Moser recebeu a ordenação sacerdotal. Sessenta e oito anos depois, aquela escolha continua produzindo frutos muito além dos lugares por onde passou seu ministério.

Para mim, esta é também uma data de família.

Devo a ele uma das descobertas mais simples e, ao mesmo tempo, mais profundas que a fé cristã pode oferecer a alguém: somos irmãos porque temos um Pai. O mesmo Pai.

Foi uma aprendizagem que não veio apenas dos livros de Teologia, embora Dom Hilário seja homem de sólida formação teológica, professor, educador, pregador e escritor. Veio principalmente da convivência, da palavra oferecida no momento necessário, do acolhimento e daquela forma salesiana de ensinar na qual a verdade cristã precisa antes de tudo ser experimentada como presença.

Dom Hilário Moser

É por isso que sua trajetória me conduz inevitavelmente a São João Bosco.

Dom Bosco compreendeu que educar não consistia simplesmente em transmitir conhecimentos ou estabelecer normas. Seu Sistema Preventivo organizou-se em torno da razão, da religião e da amorevolezza, palavra italiana difícil de traduzir em toda a sua extensão, porque reúne afeto, proximidade, cuidado, confiança e presença. A tradição salesiana atravessou gerações ensinando que o jovem precisa perceber concretamente que é amado.

Foi dessa escola que veio Hilário Moser. E foi um pouco dessa escola que chegou até mim por meio dele.

Existe ainda uma delicadeza providencial nessa história.

Hilário Moser foi ordenado sacerdote em 15 de agosto, dia em que a Igreja celebra a Assunção de Maria.

Mais tarde escolheria como lema episcopal “Iuxta Matrem”Junto à Mãe de Jesus. Quando assumiu a Diocese de Tubarão, em 1992, a posse também ocorreu em um 15 de agosto. (Diocese de Tubarão)

Há fios que atravessam uma vida inteira. O fio mariano atravessa também a minha. Devo a Dom Hilário parte importante de minha trajetória devotada a Maria. E digo Maria sabendo que, na piedade de nosso povo, ela recebe muitos nomes porque habita muitas geografias da esperança.

E aquela que, no coração desta floresta e deste povo, gosto de chamar de Maria da Amazônia.

É sempre a mesma mulher de Nazaré. Aquela que disse sim quando o projeto de Deus ainda parecia humanamente incompreensível.

A mulher que acolheu no próprio corpo o mistério da Redenção e permaneceu próxima quando aquele projeto atravessou perseguição, sofrimento, cruz e morte.

Uma presença que ajuda a compreender uma dimensão essencial do cristianismo que tantas vezes se perde entre construções doutrinárias e disputas humanas: a história de Jesus começou e continuou cercada por pessoas que cuidaram.

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E entre elas estavam as mulheres. Maria, sua mãe e Maria Madalena. E tantas outras cujos nomes atravessaram os Evangelhos ou desapareceram nos silêncios da História.

Depois da violência do Calvário, quando o medo poderia ter dispersado definitivamente aquela pequena comunidade, foram também mulheres que conservaram vínculos, memória, presença e esperança. Maria Madalena ocupa lugar singular na narrativa da Ressurreição. A mensagem que começaria a atravessar continentes passou primeiro pela experiência de uma mulher que foi procurar Jesus quando muitos já haviam se escondido.

Há algo profundamente salesiano nessa permanência. O amor que acompanha. O amor que procura. O amor que não abandona.

Quando olho para os 68 anos de sacerdócio de Dom Hilário, penso e lembro com firmeza a palavra amor como a das melhor das chaves para compreender sua caminhada.

Um amor sem espetáculo. O amor que se transforma em formação, orientação, estudo, escuta, disciplina, disponibilidade e serviço.

Nascido em Rio dos Cedros, Santa Catarina, em 1931, Hilário Moser entrou para os Salesianos de Dom Bosco ainda jovem. Depois da ordenação sacerdotal, dedicou-se à Filosofia e Teologia e à formação religiosa. Tornou-se professor, formador, superior salesiano e, posteriormente, bispo auxiliar de Olinda e Recife. Em 1992 assumiu a Diocese de Tubarão, que conduziu até 2004. Mesmo depois de se tornar bispo emérito, continuou escrevendo, ensinando e acompanhando pessoas.

Aos 94 anos, continua sendo um homem de presença. E presença, com certeza, é a palavra mais importante da pedagogia de Dom Bosco.

Podemos financiar escolas, construir instituições, elaborar excelentes projetos pedagógicos, escrever encíclicas, teses e tratados. Tudo isso importa. Mas existe um território da educação humana ao qual se chega somente pela convivência.

Alguém precisa estar ali. Alguém precisa ouvir. Alguém precisa perceber quando o outro está sofrendo. Alguém precisa dizer, muitas vezes sem nenhuma solenidade: você importa.

Foi essa dimensão que Dom Bosco transformou em método educacional e espiritual. A ideia atribuída a ele e tantas vezes repetida pela Família Salesiana continua extraordinariamente atual: “Não basta amar os jovens; é preciso que eles percebam que são amados.” 

De longe,  esta é a definição mais bonita de paternidade espiritual que conheço.

Chamar alguém de pai na fé é assumir uma dívida que não se paga. Pode apenas ser reconhecida.

Existem pessoas que nos oferecem respostas. Outras nos ensinam a formular perguntas. Algumas, muito raras, modificam silenciosamente a maneira como enxergamos o mundo.

Dom Hilário pertence a essa última categoria na minha vida. Com ele compreendi melhor que a fé cristã encontra sua expressão mais radical na fraternidade.

Se Deus é Pai, então o outro deixa de ser completamente estranho. Pode ser alguém distante. Pode pensar diferente. Pode pertencer a outra cultura, outra geografia, outra condição social. Ainda assim permanece o essencial que nos vincula.

Esse princípio acompanhou minhas escolhas, minha maneira de observar a Amazônia, de pensar desenvolvimento, de compreender justiça social e até mesmo de exercer o jornalismo.

Porque a pergunta sobre o próximo inevitavelmente acaba chegando à política, à economia, à educação, à floresta, ao alimento, ao trabalho e à dignidade humana.

Que espécie de fraternidade aceitaria crianças sem escola? Que fraternidade conviveria tranquilamente com fome? Que fraternidade destruiria nossa casa comum deixando a conta para quem ainda nem nasceu?

Que fraternidade permitiria que povos inteiros fossem tratados como obstáculos ao progresso?

A fé aprendida na pedagogia do Amor acabou me ensinando também a desconfiar de qualquer projeto de sociedade incapaz de reconhecer o rosto humano do outro.

Minha devoção mariana amadureceu nesse mesmo caminho. Quando digo Maria da Amazônia, não pretendo criar outra Maria. Procuro reconhecer a mulher de Nazaré entre nós. Imagino-a percorrendo nossos rios. Entrando numa pequena comunidade ribeirinha.

Sentando-se ao lado de uma mãe indígena preocupada com seus filhos.

Esperando uma embarcação no Solimões. Rezando diante da água que sobe ou da floresta que arde. Visitando uma família na periferia de Manaus.

Maria conheceu deslocamentos, insegurança, maternidade, perseguição, pobreza e perda. Certamente por isso povos tão diferentes tenham conseguido reconhecê-la como próxima.

A devoção popular compreendeu algo muito antes dos teólogos: Maria cabe nos lugares onde alguém precisa de consolo.

E a Amazônia precisa muito dele.

Mas precisa igualmente daquilo que Maria representa no Evangelho: coragem para dizer sim. Sim à vida. Sim ao cuidado. Sim ao outro.

Sim à responsabilidade diante daquilo que recebemos e teremos de entregar às gerações seguintes.

Sessenta e oito anos depois daquele 15 de agosto de 1958, a fotografia da ordenação de Hilário Moser pertence à História.

O sacerdócio, porém, continua acontecendo. Continua quando alguém que foi seu aluno ensina outra pessoa.

Quando uma palavra escrita por ele desperta uma reflexão. Quando alguém que recebeu seu aconselhamento decide cuidar de outro. Quando um jovem encontra no carisma salesiano uma razão para acreditar em si mesmo.

Quando um filho espiritual descobre que somos irmãos porque temos o mesmo Pai. É assim que certas vidas se multiplicam.

A Igreja concedeu a Hilário Moser muitos títulos ao longo de sua caminhada. Padre, professor, formador, superior salesiano, bispo auxiliar, bispo diocesano, bispo emérito.

Para mim existe um título anterior a todos eles.

Neste 15 de agosto, minha oração é de gratidão. Gratidão pelo sacerdote. Gratidão pelo teólogo. Gratidão pelo salesiano. Gratidão pelo educador.

Sobretudo, gratidão pelo homem que me ajudou a compreender que o Evangelho pode caber inteiro dentro de uma palavra aparentemente pequena e humanamente exigente.

O amor de Dom Bosco, que precisa ser percebido. O amor de Maria, que acompanha. O amor de Madalena, que procura mesmo quando tudo parece terminado.

O amor de Jesus, que transforma estranhos em irmãos.

E o amor de um notável sacerdote salesiano que, naquele distante 15 de agosto de 1958, disse seu próprio sim.

Sessenta e oito anos depois, ainda somos muitos vivendo um pouco dentro daquele sim.

Seu filho na fé.

Alfredo Lopes

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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