Enquanto os alertas se concentram nos incêndios de 2027, a redução das chuvas pode alcançar muito antes os rios, os portos, o abastecimento do interior e as linhas de produção do Polo Industrial de Manaus
Coluna Follow-Up
A chegada de um novo El Niño muito forte ao Pacífico acende o alerta sobre uma possível temporada severa de incêndios na Amazônia em 2027. A preocupação tem fundamento. A floresta submetida a meses de calor e deficiência de chuvas perde umidade, acumula material inflamável e fica mais vulnerável ao fogo provocado pela ação humana.
Uma análise divulgada pelo Programa de Monitoramento da Amazônia Andina, o MAAP, examinou oito episódios de El Niño desde 2002 e identificou um padrão preocupante. As temporadas mais destrutivas de incêndios em florestas primárias ocorreram, frequentemente, no ano seguinte aos eventos mais intensos.
Em 2015, a temperatura da superfície do Pacífico registrou forte anomalia. No ano seguinte, 1,76 milhão de hectares de floresta primária amazônica foram afetados pelo fogo. Depois do El Niño de 2023, a perda chegou a 2,79 milhões de hectares em 2024, a maior já registrada pela série utilizada no levantamento.
A relação merece atenção, mas a experiência do Amazonas recomenda ampliar a lente. Por aqui, uma crise provocada pelo El Niño dificilmente começará pelas labaredas observadas por satélite. Seus primeiros sinais poderão aparecer nos rios, nos portos, no transporte de combustíveis, no preço dos alimentos, na circulação entre as comunidades e no planejamento das fábricas de Manaus.
Quando o fogo finalmente ocupar as manchetes, parte da conta econômica talvez já tenha sido contratada.
Um oceano quente, uma floresta sob pressão
O Centro de Previsão Climática da NOAA informou, em 13 de agosto último, que o El Niño está se fortalecendo e tem probabilidade superior a 90% de alcançar intensidade muito forte no outono e no inverno do Hemisfério Norte, período correspondente ao fim de 2026 e ao início de 2027.
Para o trimestre entre outubro e dezembro deste ano, a NOAA estima em 69% a possibilidade de um episódio histórico, capaz de superar a intensidade dos eventos registrados desde 1950.
Essas probabilidades não funcionam como uma sentença para cada parte da Amazônia. O próprio órgão norte-americano observa que um El Niño mais intenso aumenta a possibilidade dos efeitos associados ao fenômeno, sem determinar antecipadamente onde eles ocorrerão e qual será sua dimensão.
A ressalva é importante porque a bacia amazônica responde a diferentes combinações de temperatura oceânica, circulação atmosférica, disponibilidade de umidade e distribuição das chuvas. O Pacífico interfere na formação das nuvens ao modificar a circulação de Walker e favorecer movimentos descendentes do ar sobre partes da região. O Atlântico também exerce influência decisiva sobre a entrada de umidade.
A água que passa diante de Manaus, por sua vez, não depende apenas da chuva que cai no Amazonas. Ela é formada por precipitações ocorridas a milhares de quilômetros, em territórios do Peru, da Colômbia, da Bolívia e de outros estados brasileiros. Solimões, Negro e Madeira possuem cabeceiras, tempos de resposta e regimes distintos.
Por isso, uma previsão genérica para a Amazônia precisa ser traduzida para cada sub-bacia. Essa tradução ainda é uma das fragilidades do planejamento regional.
O que 2023 ensinou
Um estudo publicado em 2024 pela revista Scientific Reports, com a participação de pesquisadores do Cemaden e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, mostrou que a seca de 2023 resultou de mecanismos sucessivos.
O déficit de umidade começou no sudoeste da bacia durante a transição da La Niña. Depois, o El Niño contribuiu para intensificar o movimento descendente do ar sobre o norte amazônico, dificultando a formação de chuvas. Tudo isso ocorreu num período de aquecimento excepcional dos oceanos e de temperaturas muito altas no continente.
Em 26 de outubro de 2023, o rio Negro atingiu 12,70 metros em Manaus, então o menor nível da série iniciada em 1902. A distância entre a cheia e a vazante daquele ano chegou a 15,6 metros, aproximadamente 50% acima da amplitude média de longo prazo.
Os números hidrológicos logo se converteram em problemas econômicos. A navegação foi restringida, comunidades ficaram isoladas, o abastecimento encareceu e empresas precisaram rever rotas e estoques.
A ciência também indica que o El Niño já não atua sobre as mesmas condições ambientais dos episódios do século passado. O aquecimento global eleva a evaporação do solo e a perda de água pela vegetação. A repetição de secas intensas reduz o tempo de recuperação da floresta e dos ecossistemas aquáticos.
Um evento de intensidade semelhante a outro ocorrido décadas atrás pode encontrar agora uma região mais quente, fragmentada e vulnerável.
A economia que navega
O Amazonas possui uma característica que raramente aparece com a devida força nas análises nacionais sobre extremos climáticos. Esta semana, a mídia do Sudeste fez uma citação relevante do professor Augusto Rocha a propósito do assunto. Aqui, o rio desempenha funções que outras regiões distribuem entre rodovias, ferrovias e diferentes redes de infraestrutura.
Pelo rio chegam alimentos, medicamentos, gás, combustíveis e componentes industriais. Também viajam estudantes, pacientes, trabalhadores e a produção das comunidades rurais. A mesma rede hidrográfica atende embarcações familiares, transporte regional, grandes navios, terminais portuários e cadeias internacionais de suprimento.
Essa sobreposição torna a economia amazonense especialmente exposta à variação do nível das águas.
O Polo Industrial de Manaus encerrou 2025 com faturamento de R$ 227,67 bilhões e média superior a 131 mil empregos diretos. É uma estrutura produtiva relevante para o país, organizada a partir de cadeias que recebem componentes e equipamentos de outras regiões do Brasil e do exterior e enviam produtos acabados ao mercado nacional.
Quando o calado diminui, o problema começa antes de qualquer interrupção formal da navegação. Navios precisam reduzir carga, operações de transbordo tornam-se mais frequentes, escalas são alteradas e o mercado incorpora o risco aos contratos. Surgem sobretaxas, seguros mais caros, viagens adicionais e prazos menos previsíveis.
A indústria reage ampliando estoques. Essa proteção também tem custo. Componentes armazenados por vários meses imobilizam capital, exigem espaço e aumentam despesas financeiras. Se o estoque for insuficiente, uma peça que deixou de chegar pode paralisar uma linha inteira.
A estiagem, portanto, interfere nas decisões industriais muito antes de o rio alcançar sua cota mínima.
Manaus e o interior vivem a mesma seca de maneiras diferentes
Na capital, a vulnerabilidade costuma aparecer nos terminais portuários, na indústria, no comércio, na qualidade do ar e no abastecimento. Nos municípios do interior, a redução dos rios alcança diretamente a mobilidade cotidiana.
Um canal que deixa de comportar determinada embarcação pode obrigar famílias a percorrer trechos maiores, utilizar barcos menores ou improvisar deslocamentos terrestres. O combustível consumido aumenta, a viagem demora mais e o transporte de carga perde capacidade.
O custo adicional chega ao preço do botijão de gás, do alimento, do medicamento e do material de construção. Ao mesmo tempo, produtores encontram dificuldade para escoar pescado, frutas, farinha e produtos extrativistas. Em cadeias perecíveis e de baixa margem, alguns dias de atraso podem eliminar a renda de semanas de trabalho.
Há ainda a dependência energética. Manaus está conectada ao Sistema Interligado Nacional, enquanto diversas localidades do interior continuam atendidas por sistemas isolados, muitos deles abastecidos com combustível transportado por via fluvial. A vazante pode dificultar a logística necessária para manter eletricidade, refrigeração, comunicação, bombeamento de água e serviços de saúde.
A seca amplia, assim, desigualdades já profundas. As empresas conseguem formar estoques e contratar soluções logísticas. Pequenos produtores, comerciantes locais e famílias ribeirinhas dispõem de margem financeira muito menor para se proteger.
O fogo chega depois
A análise do MAAP oferece um alerta particularmente relevante. O estresse hídrico acumulado durante o El Niño pode criar as condições para uma temporada intensa de incêndios em 2027.
Florestas amazônicas conservadas mantêm o sub-bosque úmido e apresentam resistência natural à propagação das chamas. Com calor prolongado, deficiência de chuva e redução da umidade, essa proteção enfraquece. Queimadas abertas em áreas agrícolas ou recém-desmatadas encontram condições para avançar sobre a vegetação vizinha.
O El Niño prepara o terreno. A ignição permanece predominantemente humana.
No Amazonas, a fumaça também possui dimensão econômica. Ela aumenta a incidência de problemas respiratórios, pressiona o sistema de saúde, afasta trabalhadores, prejudica atividades ao ar livre e interfere na rotina das escolas. Aeroportos e operações logísticas podem enfrentar restrições de visibilidade.
O prejuízo provocado pelo fogo não termina no perímetro queimado. Espalha-se pela saúde pública, pela produtividade, pelo turismo, pela aviação e pelo orçamento das famílias.
As perguntas que precisam ser feitas agora
A história recente mostra que o Amazonas conhece razoavelmente bem os efeitos de uma seca depois que ela se instala. O desafio permanece na capacidade de antecipação.
Quais níveis dos rios acionarão os planos de contingência industrial, social e humanitária em 2027?
Existe um sistema integrado para acompanhar as chuvas nas cabeceiras do Solimões, do Negro e do Madeira e transformar esses dados em cenários de navegabilidade?
Quando começarão os levantamentos batimétricos dos trechos críticos?
Há planejamento permanente de dragagem e sinalização das hidrovias ou o poder público voltará a trabalhar sob pressão, quando o rio já estiver próximo das cotas mais baixas?
Qual é a capacidade de armazenamento de combustíveis nos municípios atendidos por sistemas isolados?
Quais comunidades apresentam maior risco de perder acesso fluvial e quais rotas alternativas estão sendo preparadas?
O Polo Industrial de Manaus possui um protocolo compartilhado para formação de estoques, restrições de calado, transbordo e sobretaxas?
Como serão protegidas as cadeias de pescado, agricultura familiar e extrativismo, que perdem renda rapidamente quando a circulação fluvial se torna irregular?
A rede de saúde está preparada para a combinação de calor extremo, fumaça, baixa umidade e dificuldade de deslocamento dos pacientes?
Há orçamento preventivo disponível ou a resposta dependerá novamente de decretos de emergência e liberações extraordinárias?
Essas perguntas precisam envolver governo estadual, União, prefeituras, Marinha, ANA, Serviço Geológico do Brasil, Antaq, Suframa, setor portuário, indústria, universidades e organizações comunitárias. Cada instituição dispõe de uma parte da informação. A ausência de coordenação transforma dados dispersos em decisões tardias.
O calendário do risco
A possibilidade de incêndios severos em 2027 não deve conduzir à espera pela próxima estação do fogo. O calendário econômico e hidrológico começa antes.
Nos próximos meses, será necessário acompanhar o fortalecimento do El Niño, o comportamento do Atlântico e a distribuição das chuvas. No início de 2027, a atenção deverá se concentrar nas cabeceiras e na formação da cheia. Depois virão o nível máximo dos rios, a duração do período de águas altas e a velocidade da vazante.
Somente mais tarde o fogo poderá ocupar a paisagem.
Entre uma fase e outra, empresas decidirão seus estoques, municípios calcularão suas reservas de combustível, produtores avaliarão o escoamento das safras e comunidades observarão se os caminhos de água continuam abertos.
O Amazonas já atravessou duas secas históricas em anos consecutivos, 2023 e 2024. A chegada de um El Niño possivelmente excepcional encontra uma sociedade que conhece os danos, dispõe de centros científicos respeitados e mantém uma economia profundamente ligada aos rios.
Desta vez, a qualidade da resposta será medida pelo que for preparado antes que as embarcações encalhem.
A Coluna Follow-Up é publicada sob a responsabilidade do CIEAM às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Comércio do Amazonas, com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal https://brasilamazoniaagora.com.br