O clima fora da campanha, a conta dentro de casa


Coluna Follow-Up


A campanha eleitoral já está próxima de seu desfecho s permite identificar suas prioridades, seus conflitos e suas promessas.  O clima, entretanto, ainda aparece de maneira lateral, quase sempre acomodado em algum parágrafo genérico sobre sustentabilidade. Resguardadas pontuais excreções. É uma ausência difícil de explicar num país que  atravessa enchentes devastadoras, secas históricas, ondas de calor, incêndios florestais e sucessivas crises de abastecimento. No Amazonas, onde a economia e a vida social dependem do regime das águas, o silêncio da maioria se torna ainda mais inquietante.

Talvez seja necessário traduzir essa ausência em cifras.

Um estudo do Ministério do Planejamento e Orçamento, elaborado com apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento, estimou que o custo acumulado da inação climática para o Brasil poderá alcançar entre R$ 10,3 trilhões e R$ 17,1 trilhões até 2050, conforme o cenário de aquecimento considerado. O valor corresponde a algo entre 89% e 146% de toda a riqueza produzida pelo país em 2024. O próprio estudo reconhece que a conta pode estar subestimada, pois não incorpora satisfatoriamente todos os danos regionais, as perdas sociais e os possíveis pontos de ruptura dos ecossistemas. Entre os efeitos projetados está a perda de 3,4 milhões a 4,4 milhões de postos de trabalho que poderiam ser criados até meados do século. Ministério do Planejamento e Orçamento⁠.

Esses números parecem distantes até que o rio baixe ou suba.

Na seca de 2023, as indústrias do Amazonas calcularam em R$ 1,4 bilhão seus custos extraordinários. Faltaram insumos, a produção perdeu ritmo, mercadorias tiveram de ser transportadas por modais mais caros e as importações pelo transporte aquaviário despencaram. Em 2026, as sobretaxas voltaram antes mesmo de o rio atingir seu ponto mais baixo. Armadores anunciaram cobranças adicionais de até US$ 1.900 por contêiner refrigerado, e o transbordo de cargas em Itacoatiara voltou a ocupar a agenda das empresas.

O clima entrou na planilha industrial, no frete, no preço dos alimentos, no orçamento público e no cotidiano das comunidades. Apenas ainda não encontrou o espaço correspondente na campanha eleitoral. A polarização virou critério de disputa.

O Painel El Niño 2026-2027, produzido por INPE, INMET, ANA, Cemaden, Defesa Civil e outros órgãos federais, aponta probabilidade bem superior a 90% de ocorrência de um evento muito forte entre setembro e novembro. As projeções indicam chuvas abaixo da média no centro-norte do país, temperaturas elevadas em praticamente todo o território, maior déficit hídrico e risco crescente de incêndios na Amazônia Legal e no Pantanal. O fenômeno poderá permanecer ativo pelo menos até o início de 2027. INPE⁠.

Trata-se, portanto, de uma ameaça conhecida, medida e anunciada. Os candidatos ao governo do Amazonas precisam explicar como pretendem proteger o abastecimento dos municípios, assegurar a navegação, manter escolas e unidades de saúde funcionando, apoiar as comunidades isoladas, combater incêndios e reduzir a exposição da população à fumaça. Precisam dizer também quais estruturas permanecerão depois que o rio voltar a subir e as câmeras de televisão forem embora.

A prevenção costuma perder espaço porque seus resultados são menos visíveis do que uma obra inaugurada. Uma ponte que resiste, uma escola que permanece aberta, um bairro que não alaga e uma comunidade que recebe água potável antes do colapso dificilmente produzem imagens de emergência. Produzem, entretanto, economia de recursos públicos e alguma segurança para quem vive no território.

O custo climático tampouco se limita às mercadorias e à infraestrutura. Em 2024, a seca amazônica interrompeu as atividades de cerca de 1.700 escolas e prejudicou aproximadamente 436 mil estudantes, segundo o UNICEF. Em todo o Brasil, enchentes e secas afastaram pelo menos 1,17 milhão de crianças e adolescentes das aulas. Cada dia perdido amplia desigualdades que o sistema educacional já tinha dificuldade de enfrentar. UNICEF

O clima fora da campanha, a conta dentro de casa
Foto: Jacqueline Lisboa / WWF-Brasil.

⁠É nesse ponto que a educação ambiental precisa deixar de ser uma atividade eventual no calendário escolar. Conhecer o ciclo das águas, compreender a formação da fumaça, identificar riscos, proteger nascentes, manejar resíduos e perceber a relação entre floresta, chuva, agricultura e energia constitui uma aprendizagem prática para uma geração que viverá sob condições climáticas mais instáveis. No Amazonas, essa formação deveria atravessar todo o currículo, combinando conhecimento científico e saberes acumulados pelas populações indígenas, ribeirinhas e extrativistas.

O desmatamento acrescenta outra dimensão à conta. A taxa consolidada da Amazônia Legal caiu 12,07% em 2025, resultado importante que precisa ser reconhecido. Mesmo assim, foram derrubados 5.731 quilômetros quadrados de floresta em um ano. O Amazonas respondeu por 979 quilômetros quadrados, a segunda maior área entre os estados da região. INPE⁠.

Cada área perdida reduz a capacidade de regular a temperatura, armazenar carbono, proteger os solos e reciclar a umidade que abastece as chuvas em grande parte do continente. A floresta presta serviços indispensáveis à agropecuária, à geração de energia e ao abastecimento urbano brasileiro. O ativo ambiental amazônico, tão mencionado em conferências e discursos, ainda permanece subavaliado no orçamento público e pouco convertido em renda para quem o conserva.

O país cobra da Amazônia a manutenção desses serviços, mas não organizou uma remuneração estável e proporcional à sua importância. O resultado é uma contradição conhecida. Os municípios que preservam grandes extensões florestais convivem com baixa arrecadação, infraestrutura precária, saneamento insuficiente e poucas alternativas econômicas. A floresta vale muito para o equilíbrio climático, mas essa riqueza raramente chega às pessoas que vivem ao redor dela.

A política climática do Amazonas terá de enfrentar essa equação. Pagamento por serviços ambientais, bioeconomia, ciência, manejo florestal responsável, restauração de áreas degradadas e financiamento internacional precisam formar uma estratégia de desenvolvimento. Preservar a floresta exige fiscalização, mas também requer uma economia capaz de oferecer renda, tecnologia, mercado e perspectiva às populações do interior.

Manaus expõe outra face do problema, o desmatamento urbano. Uma metrópole cercada pela maior floresta tropical do planeta tornou-se uma cidade excessivamente impermeabilizada, pouco sombreada e vulnerável ao calor. A expansão urbana suprimiu igarapés, ocupou áreas frágeis e deixou bairros inteiros quase sem arborização. O resultado aparece na temperatura das ruas, no consumo de energia, nas doenças respiratórias, na dificuldade de caminhar e no desconforto das escolas.

Um programa contínuo de reflorestamento urbano deveria integrar saúde, mobilidade, drenagem e planejamento territorial. Árvores bem escolhidas e cuidadas reduzem ilhas de calor, ajudam a reter a água das chuvas, filtram poluentes e tornam os espaços públicos mais habitáveis. Isso exige viveiros, inventário da arborização, metas por bairro, manutenção, proteção dos igarapés e participação das comunidades. Plantar mudas para uma fotografia anual tem pouco efeito sobre uma cidade que continua perdendo cobertura vegetal.

A pauta climática também precisa alcançar a fumaça. Todos os anos, Manaus e cidades do interior convivem com ar contaminado, suspensão de atividades, aumento das doenças respiratórias e prejuízos ao trabalho e à aprendizagem. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas pagam a parcela mais pesada. Ainda sabemos pouco sobre o custo acumulado das consultas, internações, medicamentos, faltas ao trabalho e perda de produtividade. Essa falta de cálculo ajuda a manter o problema fora das prioridades.

A campanha de 2026 poderia prestar um serviço ao Amazonas se obrigasse seus protagonistas a apresentar metas verificáveis. Quanto será investido em prevenção? Que estrutura terá a Defesa Civil? Como será organizado o enfrentamento das secas? Quais municípios receberão sistemas seguros de abastecimento? Que áreas serão reflorestadas? Qual será a meta de redução do desmatamento e das queimadas? Como serão monitorados o ar, os rios e a cobertura vegetal? De onde virão os recursos e quem responderá pelos resultados?

Essas perguntas cabem tanto ao governo federal quanto aos candidatos estaduais, parlamentares e administrações municipais. O clima atravessa todas as competências administrativas. Quando as instituições agem separadamente, a população recebe alertas, decretos de emergência e socorro tardio. Quando há coordenação, os dados científicos podem orientar estoques, rotas, dragagens, calendários escolares, atendimento médico, combate ao fogo e proteção das comunidades.

A omissão climática parece barata apenas enquanto sua fatura permanece escondida. Ela reaparece no frete mais caro, no alimento que sobe de preço, na fábrica que reduz o turno, na escola fechada, no ar-condicionado funcionando por mais horas, na criança respirando fumaça, na família que perde a casa e no município que gasta às pressas o que deixou de investir com antecedência.

O debate eleitoral deveria começar por reconhecer essa realidade. O próximo governo do Amazonas será obrigado a administrar o clima, ainda que escolha não falar sobre ele durante a campanha. A diferença estará entre preparar o estado para o risco conhecido ou continuar pagando, a cada seca, enchente e temporada de fumaça, o preço crescente do improviso.


A Coluna Follow-Up é publicada sob a responsabilidade do CIEAM às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Comércio do Amazonas, com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal brasilamazoniaagora.com.br

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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