Competitividade às cegas: por que o Amazonas cai no ranking mesmo sustentando a economia e a floresta em pé

“Corrigir essa miopia é corrigir também a forma como o Brasil enxerga a Amazônia: não como periferia, mas como centro de soluções para a economia, a sociedade e o clima do planeta”

Coluna Follow-Up

O Amazonas caiu seis posições no Ranking de Competitividade dos Estados 2025, passando do 11º para o 17º lugar. Para quem lê o número isoladamente, trata-se de uma fotografia fria. Para quem conhece a realidade da Zona Franca de Manaus (ZFM), é uma caricatura de competitividade.

A ZFM não pode ser tratada tão somente como é um polo industrial. Ela é uma política de Estado que sustenta: 85% da economia do Amazonas; 30% do PIB da região Norte a preservação de 97% da cobertura florestal original, contra 15% no resto do país. Ao ignorar esses fatores, o ranking transforma virtudes em ausência de mérito.

O paradoxo da arrecadação

Em plena crise climática, marcada pelas duas maiores secas da história recente, o Amazonas continuou entre os maiores contribuintes fiscais do país. A ZFM sustenta uma arrecadação federal que ultrapassa dezenas de bilhões de reais ao ano, devolvendo muito mais do que recebe em incentivos. 

A competitividade, no entanto, foi medida apenas pelo prisma da carga tributária local, sem levar em conta que boa parte dos tributos gerados aqui financia políticas públicas em todo o Brasil. O Amazonas é, ao mesmo tempo, pilar de arrecadação nacional e vítima de métricas que o tratam como deficitário.

Imagem satelite amazonia amazonas ZFM 1

O mito da inovação ausente

Outro equívoco é tratar os investimentos bilionários em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) como se fossem “insumos improdutivos”. Esses recursos, aplicados pela Suframa em toda a Amazônia Ocidental e no Amapá, não se traduzem apenas em laboratórios ou editais: eles qualificam carreiras acadêmicas, formam mestres e doutores, geram base científica para a bioeconomia e pavimentam a entrada na Indústria 4.0. 

No ranking, porém, essa trajetória não aparece. Fica a imagem de um polo industrial sem inovação, quando, na realidade, estamos diante de um processo de maturação que conecta indústria, universidade e ciência aplicada.

A logística como calcanhar de Aquiles

O Amazonas possui o frete mais caro do Brasil. Isso já seria suficiente para explicar parte de suas desvantagens. Mas em tempos de seca severa, esse custo se multiplica. Aqui, mais uma distorção: o ranking atribui ao estado a culpa por um gargalo logístico cuja responsabilidade é da União. Dragagem, sinalização de hidrovias, estudos para criação de canais — tudo isso são deveres federativos não cumpridos. A ZFM não pode ser penalizada por um déficit estrutural que está fora de sua alçada.

Sustentabilidade invisível

A maior prova de que o modelo ZFM funciona está na floresta em pé. Mais de 97% do território preservado não é resultado do acaso, mas da substituição de uma economia predatória por uma economia legal, industrial e formal. 

Cada eletrodoméstico, cada motocicleta, cada celular produzido no Polo Industrial de Manaus é uma tonelada de madeira que deixou de ser derrubada, um hectare que permaneceu intocado, uma contribuição real à agenda climática global. Reduzir essa preservação a indicadores de saneamento urbano é, no mínimo, uma injustiça conceitual.

Uma miopia metodológica

O Amazonas não é menos competitivo. É medido por critérios que não captam sua singularidade. A ZFM não cabe no molde de índices homogêneos. Precisa ser reconhecida como aquilo que é: um processo de desenvolvimento regional que alia produção industrial, inclusão social e preservação ambiental.

O que está em jogo

Revisar os critérios de avaliação não é apenas um ajuste técnico. É uma questão de justiça federativa. O Brasil não pode continuar avaliando a Amazônia como se fosse apenas mais um estado na planilha. A floresta em pé, a inovação potencial e a contribuição fiscal extraordinária da ZFM precisam ser tratadas como parâmetros de competitividade.

Se o Amazonas cai no ranking, não é porque é frágil. É porque o país insiste em medir sua força com régua errada. Corrigir essa miopia é corrigir também a forma como o Brasil enxerga a Amazônia: não como periferia, mas como centro de soluções para a economia, a sociedade e o clima do planeta. 

*Texto construído com a colaboração de André Costa, Augusto Rocha e José Alberto Machado, membros do Conselho Editorial da Coluna Follow Up. 

*Follow-up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas, às quartas, quintas e sextas feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor-geral do portal BrasilAmazoniaAgora 

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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