Eliane Mezari: a arte como liturgia da Amazônia

“A obra de Eliane Mezari se coloca na fronteira entre o humano e o espiritual, entre a denúncia e o anúncio, entre o silêncio e a revelação. Na Amazônia que a acolheu, sua arte pulsa como sinapse entre o belo e o mistério — convite a um novo tempo”

Artista plástica e psicóloga, Eliane Mezari vive há mais de três décadas na Amazônia e por ela se deixou envolver. Gosta de dançar e performar desde tenra infância e interpreta livremente a música com gestos. Seu trabalho transborda a condição de pintura para se tornar um gesto de acolhimento: estética e amorosa, sua arte abre espaço para que o observador se reconheça e encontre serenidade em tempos de ruídos e desassossegos.

“Não quero apenas oferecer um quadro para ser admirado, mas um espaço para o outro se reconhecer, se acolher”, diz. “A arte é uma forma de cuidado — estética, sim, mas sobretudo humana. É como se eu dissesse: venha, sente-se comigo, olhe para dentro de si e descubra o que pode florescer.”

Sua obra é atravessada pela filosofia da contemplação. A cada tela, Eliane propõe uma pergunta simples e desarmante: “O que eu sinto?”. Mais que uma questão estética, trata-se de um exercício de sabedoria. Formada em psicologia e com longa trajetória na dança, ela reúne na pintura as duas linguagens: a escuta e o movimento.

“O observador precisa se permitir sentir antes de compreender. A contemplação é uma filosofia viva — um treino de liberdade e sensibilidade.”

A Amazônia, onde vive, é sua escola e seu enigma. “Ela não se deixa capturar por inteiro. É sempre excesso e silêncio. Quando pinto, não busco reproduzir suas formas, mas decifrar seus enigmas. O verde, o barro, as águas — tudo isso me envolve e se torna cor, textura, respiro. A floresta me ensinou que a arte é, ao mesmo tempo, abrigo e mistério.

Essa busca pela essência se reflete em suas releituras. Em 2006, pintou Deslocação e Interrogação, obras vibrantes e cheias de energia. Ao revisitá-las, descreve o processo como entrar em um túnel do tempo.

Para Eliane, pintar é também um rito, uma liturgia íntima. “Cada obra nasce de um rito de silêncio e de entrega. A arte é um altar onde coloco minhas inquietações e minhas esperanças. É sempre um anúncio — de um novo tempo, de uma nova paz, de uma possibilidade de recomeço.”

“Desenvolvo a arte que nasceu comigo e me conecta com o mundo espiritual , sutil e intuitivo . Considero a arte como expressão do meu conceito dialético de luz, é onde elaboro os aspectos sombrios internos e externos inerentes à vida

Mas esse gesto não é apenas contemplativo. É também crítico. Em suas telas, a artista busca iluminar tanto as belezas quanto as mesquinharias humanas.

Assim, a obra de Eliane Mezari se coloca na fronteira entre o humano e o espiritual, entre a denúncia e o anúncio, entre o silêncio e a revelação. Na Amazônia que a acolheu, sua arte pulsa como sinapse entre o belo e o mistério — convite a um novo tempo.

WhatsApp Image 2025 09 10 at 13.09.54

Eliane Mezari é artista plástica e psicóloga

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

Artigos Relacionados

Idesam transforma 20 anos de atuação na Amazônia em manual para equipes de campo

Idesam reúne 20 anos de atuação na Amazônia em manual para fortalecer diálogo, escuta ativa e segurança jurídica com comunidades.

Desmatamento na Amazônia cai 35% e atinge menor área em 20 anos 

Desmatamento na Amazônia atinge a menor área para junho em 20 anos, com queda de 35% nos alertas registrados pelo Inpe.

El Niño tem 81% de chance de chegar a nível “muito forte” em 2026

El Niño pode atingir intensidade muito forte no fim de 2026, alerta NOAA, elevando riscos de calor, tempestades e mudanças nas chuvas.