PARTE I: BR-319 e a comida que vem de longe

“A dependência alimentar do Amazonas aparece todos os dias nos supermercados, nas feiras e nos refeitórios do Polo Industrial de Manaus. A recuperação da rodovia pode aliviar gargalos logísticos, mas seu valor estratégico dependerá da capacidade de transformar transporte em produção regional. Manaus aprendeu a comer à distância. O arroz, o tomate, a carne, o frango, as hortaliças e boa parte dos alimentos processados percorrem milhares de quilômetros antes de chegar às feiras, aos supermercados, às escolas, aos hospitais e aos restaurantes industriais da capital amazonense”.

Por Alfredo Lopes – BrasilAmazoniaAgora Follow Up 07.08.2026

Coluna Follow-Up

Essa distância não aparece apenas no mapa. Está incorporada ao preço final. Cada alimento que atravessa rodovias, rios, portos e balsas carrega o custo do combustível, do armazenamento, da refrigeração, das perdas e do tempo de viagem. Quando uma rota é interrompida, o rio desce a níveis críticos ou o diesel sobe, a geografia reaparece na conta do consumidor.

A estimativa de que mais de 80% dos alimentos consumidos no Amazonas vêm de outros estados precisa ser atualizada e discriminada por produto. Mesmo assim, ela traduz uma situação reconhecida por quem acompanha o abastecimento regional. O estado possui uma base produtiva insuficiente para atender à escala e à regularidade exigidas por sua principal concentração urbana.

Uma metrópole alimentada por longas rotas


Manaus reúne mais da metade da população amazonense e concentra grande parte da renda, dos serviços, das compras públicas e do consumo institucional. Seu abastecimento depende de uma combinação complexa de rotas.

Roraima fornece carne bovina, arroz, hortaliças e outros produtos que chegam principalmente pela BR-174. Rondônia participa do fornecimento de carnes, frutas, verduras, milho, banana e pescado de cultivo. Estados do Nordeste abastecem o mercado com frutas e legumes, enquanto Sul, Sudeste e Centro-Oeste respondem por alimentos processados, carnes congeladas, grãos, laticínios e insumos agroindustriais.

Essa estrutura oferece variedade, mas cobra caro pela distância

A vulnerabilidade se torna mais evidente durante as secas severas. Com a redução do calado dos rios, as embarcações transportam menos carga, as viagens ficam mais lentas e os custos aumentam. Produtos perecíveis sofrem perdas. Estoques precisam ser reforçados. O consumidor sente os efeitos antes que a situação seja formalmente caracterizada como crise de abastecimento.

A dependência alimentar do Amazonas é também uma dependência energética. Cada quilo de alimento trazido de longe está associado ao preço do combustível e à capacidade das rotas logísticas de permanecerem operacionais.

A proteína que alimenta o Polo Industrial


Essa realidade assume uma dimensão particular no Polo Industrial de Manaus.

Cerca de 130 mil trabalhadores atuam diretamente no complexo fabril. Uma parcela expressiva desse contingente faz pelo menos uma refeição por jornada dentro das empresas. Nos turnos estendidos ou noturnos, o consumo pode incluir mais de uma refeição.

Forma-se, assim, um dos maiores mercados institucionais de alimentos da Amazônia.

Considerando apenas uma refeição diária para 130 mil trabalhadores, seriam aproximadamente 2,6 milhões de refeições a cada vinte dias úteis. Em um ano de 240 dias de atividade, o volume chegaria a 31,2 milhões de refeições. Trata-se de uma projeção indicativa, pois as escalas, as jornadas, as férias e os contratos variam entre as fábricas.

Ainda assim, o cálculo revela o tamanho econômico dessa demanda.

Se cada refeição tiver, em média, 120 gramas de carne ou pescado, o consumo potencial alcançaria cerca de 3.744 toneladas anuais de proteína. Com porções de 150 gramas, o volume se aproximaria de 4.680 toneladas.

O ponto mais relevante não está na exatidão aritmética dessa projeção, mas na escala do mercado. Todos os dias, milhares de quilos de frango, carne bovina, carne suína, pescado e ovos entram nas cozinhas industriais de Manaus. Grande parte dessa proteína vem de outros estados ou depende de insumos produzidos fora do Amazonas.

A dependência escondida na ração


Mesmo quando o peixe, o frango ou o ovo são produzidos localmente, parte importante de sua cadeia pode continuar externa.

A piscicultura e a avicultura dependem fortemente de ração. Milho e farelo de soja são componentes centrais na alimentação de peixes, aves e suínos. Quando esses grãos percorrem longas distâncias, seu custo alcança toda a cadeia produtiva.

A proteína animal que vem de longe começa, muitas vezes, com um grão que também veio de longe.

Essa dependência compromete a competitividade dos produtores amazonenses. O piscicultor pode dispor de água, conhecimento e mercado consumidor, mas enfrenta dificuldades quando a ração representa parcela elevada do custo de produção. O avicultor encontra problema semelhante. A produção local existe, porém permanece exposta a custos logísticos que os grandes centros produtores conseguem diluir pela escala.

O resultado é um paradoxo conhecido. O Amazonas consome grandes quantidades de pescado, mas importa parte considerável do tambaqui criado em outros estados. Possui mercado para ovos e frango, mas compra de fora grande parcela da proteína consumida. Tem milhares de trabalhadores alimentados diariamente pelas indústrias, mas ainda não estruturou uma política capaz de transformar esse consumo em encomenda produtiva para o interior.

O mercado já existe


Os refeitórios industriais não representam apenas uma despesa operacional. Eles formam uma demanda regular, concentrada e previsível.

Essa característica distingue o Polo Industrial do consumo disperso das famílias. Uma empresa conhece com antecedência o número aproximado de refeições, o cardápio, as especificações sanitárias, os padrões de corte, o peso das porções e o calendário de fornecimento.

Do ponto de vista do produtor, essa previsibilidade tem valor. Permite programar plantio, criação, abate, processamento e entrega. Facilita o acesso ao crédito e justifica investimentos em armazenamento, frigorificação e beneficiamento.

Há, contudo, uma distância entre produzir e fornecer para uma cozinha industrial. Grandes empresas exigem regularidade, padronização, segurança sanitária, rastreabilidade, pontualidade e capacidade de reposição. Um agricultor ou piscicultor isolado raramente consegue atender a todas essas condições.

Por isso, uma política de compras locais precisaria ser acompanhada por cooperativas, centrais de distribuição, frigoríficos, unidades de beneficiamento, assistência técnica e inspeção sanitária. O objetivo seria construir capacidade produtiva, e não apenas reservar mercado por decreto.

A indústria como mercado âncora


O Polo Industrial de Manaus poderia funcionar como mercado âncora para uma política regional de alimentos.

O primeiro passo seria conhecer a demanda real. Quantas toneladas de frango, peixe, carne, ovos, arroz, farinha, frutas e hortaliças são adquiridas anualmente pelas empresas? De onde vêm esses produtos? Quanto do preço corresponde ao frete? Quais especificações impedem a entrada de produtores locais?

Esse inventário permitiria identificar cadeias com maior potencial de substituição competitiva.

Pescado, ovos, frutas, mandioca, farinha e algumas hortaliças poderiam formar um primeiro grupo. Em seguida, entrariam frango, ração, carne suína e outros itens que exigem maior estrutura industrial e sanitária.

Contratos experimentais de médio prazo poderiam ser celebrados com cooperativas e agroindústrias amazonenses. A incorporação de fornecedores locais ocorreria gradualmente, conforme a capacidade de entrega fosse demonstrada.

As empresas obteriam uma cadeia mais curta e menos exposta a secas, interrupções rodoviárias e oscilações nacionais. O estado manteria internamente uma parcela maior da renda usada na alimentação. Os produtores ganhariam mercado regular. A política de segurança alimentar passaria a dialogar com a política industrial.

A BR-319 além do frete


A recuperação da BR-319 costuma ser apresentada como solução para o isolamento terrestre de Manaus. A rodovia, de fato, pode criar uma rota alternativa para o abastecimento, reduzir a dependência da BR-174 e ampliar a capacidade de resposta em períodos de estiagem severa.

Esse benefício, porém, não encerra a discussão.

Uma estrada pode tornar mais rápida a entrada de alimentos produzidos no Centro-Oeste, em Rondônia ou no Sul do país. Isso reforça a segurança logística, mas preserva a dependência produtiva. O Amazonas continuaria comprando fora a maior parte do que consome, agora por uma rota adicional.

A questão estratégica é saber se a BR-319 também ajudará a produzir alimentos no próprio estado.

Estradas alteram o valor da terra, reduzem custos de transporte, atraem investimentos e mudam a rentabilidade das atividades econômicas. Quando esses efeitos ocorrem sem planejamento, a infraestrutura favorece quem possui mais capital e capacidade de ocupação territorial.

A rodovia pode estimular sistemas produtivos diversificados em áreas já abertas. Também pode acelerar grilagem, pecuária extensiva, exploração ilegal de madeira e monoculturas. O asfalto não determina sozinho qual dessas trajetórias prevalecerá, mas amplia as possibilidades de ambas.

Um cinturão de proteção e produção


O plano federal de governança socioambiental para a BR-319 procura vincular a recuperação da rodovia ao ordenamento territorial, à regularização fundiária, ao monitoramento, à fiscalização e à consolidação de áreas protegidas.

Esse conjunto pode ser compreendido como um cinturão de proteção.

Sua função seria impedir que a obra chegasse antes do Estado e produzisse uma corrida desordenada pela terra. Unidades de conservação, terras indígenas, controle de ramais, combate à grilagem e monitoramento remoto formariam a camada institucional desse cinturão.

Ao lado dela, poderia existir uma dimensão produtiva.

Em vez de uma faixa contínua de lavouras às margens da estrada, haveria polos descontínuos instalados em áreas comprovadamente já abertas, degradadas ou regularmente consolidadas. Esses núcleos poderiam reunir horticultura, mandioca, banana, frutas, piscicultura, avicultura, produção de ovos, palmeiras oleaginosas, sistemas agroflorestais e pequenas agroindústrias.

A prioridade seria o abastecimento do mercado amazonense.

A BR-319 serviria à entrada de produtos em situações de necessidade, mas também à saída de alimentos produzidos no interior em direção a Manaus. O movimento econômico deixaria de ser predominantemente unilateral.

Uma estrada para alimentar o estado


A relevância da BR-319 não deve ser medida apenas pelo tempo de viagem entre Manaus e Porto Velho. Seu significado estará na economia que se organizará ao redor dela.

Se a rodovia apenas aproximar a proteína produzida longe, terá melhorado a logística sem alterar a estrutura da dependência. Se ajudar a criar cadeias locais de grãos, ração, pescado, aves, ovos, frutas e hortaliças, poderá produzir um efeito mais profundo.

A demanda dos 130 mil trabalhadores do Polo Industrial oferece um ponto de partida concreto. Esse mercado já existe, possui escala e pode dar previsibilidade a produtores e agroindústrias.

O desafio consiste em aproximar dois mundos que ainda se conhecem pouco. De um lado, a indústria, com seus padrões técnicos, sua capacidade de compra e sua necessidade diária de alimentação. De outro, os produtores rurais, piscicultores, cooperativas e comunidades que precisam de infraestrutura, assistência e mercado.

A recuperação da BR-319 pode reduzir a distância física entre eles. A distância econômica dependerá de planejamento.


(*) Follow é publicada sob a responsabilidade do CIEAM às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Comércio do Amazonas, com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal brasilamazoniaagora.com.br

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

Artigos Relacionados

Que Amazonas todos queremos? Entrevista com Marcelo Pereira – Parte III

“Considero que o maior desafio dos próximos anos vai...

Ventos fortes: saiba como se proteger em casa, na rua e no trânsito

Ventos fortes podem derrubar árvores, danificar imóveis e causar apagões. Veja como se proteger em casa, na rua e durante deslocamentos.

Agrotóxico mais usado no mundo, glifosato afeta polinização ao mudar cérebro das abelhas

Glifosato altera o cérebro das abelhas e reduz em 13% a busca por alimento. Estudo alerta para impactos não letais do agrotóxico.

Ciclone ameaça Sul e Sudeste com ventos acima de 100 km/h 

Ciclone ameaça Sul e Sudeste com temporais, granizo e ventos acima de 100 km/h. Rio Grande do Sul também enfrenta risco de tornado.

O que realmente vai para a reciclagem? Saiba como descartar resíduos do dia a dia

Reciclagem vai além da coleta seletiva: veja como descartar corretamente remédios, cosméticos, eletrônicos, lâmpadas e outros resíduos.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, insira seu comentário!
Digite seu nome aqui