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Cieam, 37 anos

Wilson Perico by Valmir Lima

Entrevista com Wilson Périco – Presidente do Centro da Indústria do Estado do Amazonas

Nesta terça-feira, 10 de agosto, há 37 anos, o empresário da agroindústria, Mário Expedito Guerreiro, mobilizava os parceiros da indústria, tecelagem, serrarias, eletroeletrônicos, duas rodas, todo o espectro industrial e agroindustrial do Estado, para implantar o Centro da Indústria do Estado do Amazonas. O comércio de importados ainda era vibrante e, de quebra, atraia a classe média para conhecer e gostar da região, suas belezas, beldades e culinária. Depois transferimos para o Paraguai a atividade, não necessariamente o glamour que o varejo de Manaus resgatou. O CIEAM inicia a fase industrial do modelo ZFM e acompanha/assume desde então seus desafios, sempre voltado para a mobilização de esforços para resguardar e ampliar os acertos da Zona Franca de Manaus, como descreve o presidente do CIEAM, Wilson Périco. Confira a entrevista.

Follow-Up – Qual é o papel do Centro da Indústria do Estado do Amazonas para os próximos 50 anos da Zona Franca de Manaus?

Wilson Périco – Inicialmente, quero resgatar a figura dos fundadores desta Casa, um fórum de defesa da Indústria e do Amazonas, como queriam nossos pioneiros. É importante destacar a figura de Mário Guerreiro, Edgar Monteiro de Paula, Moysés Israel e Moysés Sabbá, Fernando Bonfim, Mário Sussmann, Mário Moraes, Luiz e José Cruz, Daniel Feder, Mário Hauser, Otto Fleck, Afonso Hennel, Waldemiro Lustoza, Francisco Garcia Rodrigues, Abe Kryss, Marcílio Junqueira, José Moura Teixeira Lopes, Cristóvão Marques Pinto, José Milton Bandeira, entre outros guerreiros da prosperidade. Eles já anteviram na Zona Franca de Manaus o roteiro que cumprimos parcialmente nestes 50 anos de muitos acertos e de muita distorção no uso dos recursos aqui gerados para promover uma economia diversificada e regionalizada. Não falo do papel do CIEAM, sozinha, a entidade não sobrevive. Somos uma associação representativa da indústria mas só seremos atuantes se nos unirmos às demais entidades da Ação Empresarial para defender os avanços da ZFM, resgatar seus direitos e fazer cumprir a Lei que apogeu dá suporte.

FUp – Como se daria esta articulação?

WP – O CIEAM nasceu junto com a Fucapi e a Utam, num Estado que tinha o CODEAMA, um centro de informação da economia do estado, portanto, com instrumentos de planejamento e de governança. Tínhamos a Utam, Universidade de Tecnologia para formar técnicos de acordo às demandas de um polo industrial crescente e a Fucapi para promover a agregação de tecnologia aos produtos do polo industrial. O que faltou foi visão de longo prazo e vontade política para reter na região a riqueza aqui produzida na linha de criar novas modulações de adensamento, diversificação e interiorização da economia, em comum acordo com a academia, incluindo INPA e Embrapa e, sobretudo, com as entidades do comércio e do setor primário. O Brasil já teria integrado e respeitado a ZFM. Com a Federação da Indústria, do Comércio, Agricultura, a Associação Comercial, a Câmara e a Federação dos Dirigentes Lojistas, podemos e devemos ir longe, para planejar e executar o Amazonas que sonhamos e queremos, próspero na capital e no interior.

FUp – E que tarefa compete ao CIEAM nesse contexto?

WP – Acho que ao CIEAM cabe o papel de fermento e de fomento da aproximação. No âmbito da Ação Empresarial – com as verbas do Fundo de Turismo e Interiorização do Desenvolvimento, precisamos exigir do governo a criação de um serviço de informações sobre o setor produtivo da ZFM, suas oportunidades nos três segmentos: comércio/serviços, indústria/bioindústria, pecuária/agroindústria. Um centro de estatísticas, com informações consolidadas e um Centro de Exposições/Venda/Rodada de Negócios ao lado do Estádio, Sambódromo, Vila Olímpica. São ações que ajudariam nossos jovens a planejar seu futuro, amar o que estamos fazendo e defender nosso direito de criar os próprios caminhos, assumir nosso destino de criar riqueza sem destruir o meio ambiente. Temos, isoladamente, boas iniciativas, que vão prosperar na medida em que trocarmos ideias e condutas de crescimento integral.

FUp – O que falta para avançar nesta direção?

WP – Entendo que o Brasil está passando por um momento de mudanças significativas. Do desencanto com a classe política surge um movimento para olhar com mais atenção o fator político na definição dos rumos da sociedade. Nessas eleições já iremos perceber a diferença. Com novas representações políticas, efetivamente comprometidas em cuidar da base econômica, podemos colocar em pauta a Lei que criou a Zona Franca de Manaus, este modelo de acertos, transformado em fonte exportadora de recursos para a União. A ilegalidade fez da ZFM o paraíso do fisco, justamente quem sempre teve a fama de paraíso fiscal. A hora é de fazer cumprir a Lei. Fora dela não há solução. Não adianta um segmento ou um ator isolado fazer bem seu dever de casa e estar em paz com sua consciência legal. Se a Lei não for cumprida não há segurança para o investimento, não há referência jurídica para a rotina, nem envolvimento efetivo entre capital, trabalho e poder público. Sem a Lei, fica mais difícil exigir a contrapartida para prover a infraestrutura da competitividade da economia local. Vamos resgatar a pedagogia da Lei, desde o jardim da infância de nossa aprendizagem. O resto é consequência.

FUp – Quais os caminhos para a indústria? Os polos industriais existentes, 2 rodas, eletroeletrônicos-informática e linha marrom, os mais robustos, estão ameaçados. A desindustrialização do modelo é irreversível?

WP – Apenas três setores do polo industrial respondem por 50% da produção e faturamento da ZFM. E isso tem sido assim há décadas, mas não vai perdurar por muito tempo. Em 10 anos as mudanças serão drásticas para os três setores. Por isso é essencial reter os recursos que o modelo tem gerado para criar novas saídas. Somos o terceiro PIB Industrial do país e a planta industrial mais generosa do ponto de vista fiscal, diz a USP, a respeitável universidade de São Paulo, com apenas 0,6% das indústrias do Brasil. São Paulo tem 30% delas. Aquilo que, insistentemente, temos chamado de novas matrizes econômicas não significa abrir mão de novas indústrias, pelo contrário. Temos que adensar e diversificar, apenas, e isso só sai do papel se o poder público parar de meter a mão nos recursos para este fim. Isto é uma ilegalidade fiscal e funcional contra a ZFM. Buscar novas matrizes significa aproximar economia e academia, como fizemos há pouco com o INPA, com a Embrapa, a quem queríamos entregar o CBA Centro de Biotecnologia da Amazônia. Por isso temos orgulho de financiar integralmente a Universidade do Estado do Amazonas. Homenageamos o empresário Sérgio Vergueiro, neste clima de aniversário do CIEAM, porque reflorestou Itacoatiara com mais de 2 milhões de árvores de castanha, pupunha, copaíba… E porque ali nasceu um caminho novo, promissor, coerente com a vocação de negócios inteligentes para a região, com a inclusão de insumos e tecnologia local. Tecnologia da informação e da biotecnologia, articuladas e agregadas em novos produtos, são as premissas da consolidação, diversificação e regionalização produtiva da indústria existente. Ou seja, basta de confisco, de conter essa transformação do modelo em mecanismo de exportação de recursos para o governo federal.

FUp – E qual é sua mensagem final de aniversário para os 37 anos do CIEAM?

WP – Precisamos trabalhar mais próximos um do outro. As entidades do setor produtivo precisam estar presentes nos conselhos que administram os fundos estaduais e federais que as empresas recolhem. E precisamos juntos ajudar a torná-los mais efetivos e mais de acordo com que a Lei determina. De gestão de recursos nos entendemos e queremos emprestar esta expertise. Verbas da Suframa, de P&D, de Turismo e Interiorização do Desenvolvimento, da UEA, e das Cadeias Produtivas da Afeam estão à espera de uma revolução de negócios. Hoje, com apenas um naco, a rigor, menos de 10% dos recursos para interiorizar o desenvolvimento, oriundos das contribuições pagas pelo setor produtivo da ZFM, a Afeam, Agência de Fomento do Amazonas, em menos de um ano, promoveu mais de 80 mil operações de crédito. Oficinas, salão de beleza, barcos de pesca artesanal, pequenas padarias, confeitarias são fomentadas com a chancela do Banco do Povo, uma iniciativa que merece mais atenção do próprio governo para incentivar o empreendedorismo. Muito mais eficaz que o assistencialismo das bolsas sem contrapartida do cidadão. De quebra, juntos, na Ação Empresarial podemos exigir a consolidação definitiva das estruturas funcionais da Suframa, não apenas da recuperação das crateras urbanas, mas da desautonomia, da ingerência burocrática de alguns entes federais. Parabéns aos parceiros, todos eles, que constroem a riqueza de nosso Estado, um compromisso do qual o CIEAM se orgulha de integrar.

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

As eleições e os buracos da política

As entidades representativas das empresas do setor produtivo da Zona Franca de Manaus buscam – permanentemente – integrar-se ao debate dos embaraços deste modelo inteligente de desenvolvimento, querendo ou não seus desafetos, ou aqueles que a desconhecem, emana a base fundamental da economia que, apesar do descuido com a perna agroindustrial e o abandono do papel fundamental do comércio, na atração de múltiplas oportunidades regionais, é o tripé de uma estruturação constitucional abandonada, que precisa repensar as razões de seu esvaziamento e riscos de insolvência. Por isso, a busca insistente dos atores públicos para debater, desde os gargalos inaceitáveis de infraestrutura, o confisco de verbas destinadas a região, até esta imoralidade prosaica dos buracos nas vias do polo industrial de Manaus. Essas crateras, reparadas há pouco pelo município, na Avenida Buriti, ilustram os descaminhos do descaso esburacados do modelo ZFM, e denunciam o distanciamento da classe política no enfrentamento de seus problemas – aqui chamados de cratera política – que poderiam ser tratados de maneira mais atenciosa à luz do interesse público. Neste início da temporada eleitoral, onde os grupos se confrontam na busca da hegemonia sob um conceito desgastado e incômodo de Democracia, voltaremos sempre a este espaço para sublinhar a importância da base econômica local de onde advém as condições materiais de sobrevivência da dinâmica social e, por ironia, dessa aloprada batalha eleitoral.

Expectativas e demandas

Cabe lembrar, no início da atual gestão municipal, legalmente responsável pela manutenção das vias públicas – posto que recolhe as taxas de IPTU, ISS, Alvará, e outras contribuições urbanas – transferiu ao Estado a atribuição de recuperar as esburacadas ruas do polo industrial, como primeira medida publicada no Diário Oficial, em 03 de janeiro de 2013. O ato se deu através de Convênio público, para executar um projeto de 2008, do próprio governo do Estado, que utilizaria repasse das verbas da Suframa para executar a missão. Verbas oriundas das taxas recolhidas pelas empresas, aliás, algo em torno de R$ 6 bilhões nos últimos 10 anos, aproximadamente confiscados em 80% pelo poder central. Essa delegação consta do Diário Oficial do Município de 03 de janeiro de 2013. Infelizmente, por razões transversas, e jogo político obscuro, nada de efetivo se deu e a obra não foi concluída. O que tem a ver com isso a classe política? Por que, em lugar de sentar e encaminhar, os grupos se engalfinham como se não tivessem obrigações comuns, resumidas na expressão esvaziada da representação popular. Aqui buscamos assinalar o peso e a necessidade de resgatar o sentido efetivo dessa expressão. E entender os descaminhos desse compromisso é obrigação. O debate político que se inicia deve, portanto, mobilizar a opinião pública sobre o sentido maior dessa questão, suas origens, danos, sequelas e necessidade de explicitação e transparência a respeito. Ou nos mobilizamos para resgatar a ZFM ou vamos sucumbir com seu esvaziamento

A eloquência dos números

No portal do CIEAM, o volume de recursos recolhidos para o poder público fala por si. Para onde vai tanto dinheiro e por que a classe política não se mobiliza para que a lei seja cumprida e os recursos sejam efetivamente aqui aplicados? http://cieam.com.br/ohs/data/docs/1/Apresentacao_Indicadores_Industriais_Maio_2016 _Site_1.pdf. Esses dados, retirados da Semef, secretaria municipal de Finanças, da Sefaz, estadual de Fazenda e Receita, permitem ao leitor tirar suas conclusões e ajudar a decifrar este enigma: por que, mesmo contribuindo – na ponta do lápis – com mais de R$ 20 bilhões para os fundos estaduais e federais e com mais de 50% dos tributos municipais, nos últimos 10 anos, as empresas precisam incluir 9% de prejuízos na planilha de custos por conta dos buracos das ruas do polo industrial de Manaus? Por que chega a 20% o custo logístico na planilha das empresas? O que esperar do grupo político que deve assumir o Município a partir de janeiro de 2017, considerando que esta planilha de custos é muito mais ampla, já ceifou vidas, causa frequentes prejuízos para a coletividade urbana que ali habita e por ali circula, além das carretas que transportam a riqueza gerada na região a promover o benefício da sociedade, como prometerão as mensagens publicitárias que tentarão conquistar a adesão do eleitor.

Para quem não sabe…

Criada pelo Decreto-Lei Nº 288/67, como modelo baseado em benefícios fiscais, e a implantação de polo industrial, comercial e agropecuário, com objetivo de reduzir as desigualdades regionais e integrar a Amazônia ao resto do país, a ZFM, além de evitar a apropriação estrangeira, tem cumprido o papel de resguardar o patrimônio natural amazônico. Cumprimos até aqui nosso dever, lembrando que o Artigo 43 da CF/88, autoriza/recomenda mecanismos fiscais de desenvolvimento para redução das desigualdades regionais. Este modelo é o maior acerto fiscal da História do Brasil. Com esse reconhecimento, em agosto de 2014, em votação praticamente unânime, o Congresso Nacional o prorrogou por mais 50 anos. A União, porém, não cumpriu seu papel de – com parte dos tributos aqui recolhidos – promover a infraestrutura de competitividade e qualificação adequada de recursos humanos para inovação e bioeconomia, única opção de prescindirmos progressivamente dos incentivos fiscais. Fizemos o dever, também, no que diz respeito à contribuição com a interiorização do desenvolvimento, através do fomento do turismo e cadeias produtivas, a qualificação técnica e acadêmica dos jovens e adultos, entre outros benefícios propiciados pelos fundos estaduais, como o FTI, FMPES, UEA, além dos recursos pagos para P&D, pesquisa e desenvolvimento, Taxas da Suframa e tantos outros ganhos representados pelos empregos e oportunidades da atividade produtiva. Vereadores e candidatos a prefeito, em que medida importa dizer ao eleitor que, a despeito de falácias perversas de que as empresas aqui vivem num paraíso fiscal, os dados da Receita Federal apontam que, dos 27 entes federativos (26 Estados mais o Distrito Federal), somente 8 devolvem para a União, em arrecadação de tributos federais, valores acima do repasse compulsório que recebem. O Amazonas devolve mais de 2,5 vezes esse valor. Como formar uma corrente cívica, conectada com um novo olhar e conduta da classe política, para defender este patrimônio que é a ZFM, base da proteção da floresta e fonte de recursos e inspiração para criar novas modulações econômicas, de diversificação e regionalização do desenvolvimento?

 Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

Os políticos e as prioridades da Polis

No conceito liberal de Democracia, a ideia de Polis, no sentido do tecido social, ainda é vital na significação original, aristotélica, de Política. Aquilo que deveria ser um conjunto de instrumentos para ordenar o tecido social, entretanto, passou a ser uma instituição que tem começo, meio e fim em si mesma, com os políticos, cada vez mais distantes daqueles que dizem representar. O cidadão, em todo início de temporada eleitoral, costuma ser revisitado como um voto que vai resgatar seus interesses. Interesses deles, é claro, não o contrário. A cada movimentação dessa categoria, sejam as eleições, seja a manutenção do poder ou sua mudança, não aparece o cidadão como critério de valor ou referência de conduta. Nada sugere que a deletéria refrega entre os grupos tenha por base ou explicação um projeto A ou B de gestão da coisa pública, a res publica, do universo político dos gregos. Nenhum dos candidatos que se apresentou, ou foram impostos nas convenções, apresentou um projeto de gestão urbana, baseado no conhecimento dos problemas graves de Manaus. Quem apontou a ferida urbana que apodrece Manaus no sentido cívico da mobilidade decente ou de padrões socioambientais desta cidade decadente? Eles se juntaram por um amontoado de conveniências pessoais e de grupos e, em nenhum momento, ponderaram as vias de enfrentamento da tragédia urbana em que se degladiam. Assim tem-se comportado a classe política, não só aqui. Pelo país afora, certamente, para além de suas fronteiras, alheia a necessidade inadiável de olhar as prioridades da Polis, que significaria rever, de modo radical, o conceito e a prática da Democracia.

“Tudo se discute neste mundo, menos uma única coisa: a democracia. Ela está aí, como se fosse uma espécie de santa no altar, de quem já não se espera milagres, mas que está aí como referência. E não se repara que a democracia em que vivemos é uma democracia sequestrada, condicionada, amputada. Porque o poder do cidadão, o poder de cada um de nós, limita-se, na esfera política, a tirar um governo de que não se gosta e a pôr outro de que talvez venha a gostar”, dizia José Saramago, Nobel de Literatura.

Longe de sentar para conversar e adotar os caminhos de superação conjunta do descrédito que tomou conta de sua reputação. Estamos amargando os resultados dessa política menor no cotidiano municipal. A cidade que tem gerado mais da metade dos tributos federais na região Norte não tem recursos do SUS para atender necessidades básicas do cidadão. Temos oferta de energia solar absurdamente abundante ou de energia supostamente barata do gás natural, mas temos uma emissão de carbono preocupante, apesar de estarmos no coração da maior floresta tropical do planeta. O que fazem os parlamentares para resolver esses absurdos? A União tem confiscado 80% dos fundos de infraestrutura, pesquisa e desenvolvimento, riqueza produzida em Manaus, carente de modernização portuária que poderia baratear a cesta básica ou conferir competitividade ao polo industrial da cidade. Esse gargalo foi, ironicamente, destratado pela classe política local, que preferiu pactuar com as benesses dessa (des)ordem corroída. Recolhemos para a União quase três vezes mais em termos de recursos em comparação do que recebemos nas contrapartidas constitucionais. E apesar da proximidade política, quase íntima, do governo afastado com o Amazonas, e da generosidade no repasse para os cofres federais da riqueza aqui produzida, estamos excluídos do Plano Nacional de Banda Larga, temos graves problemas de produção e distribuição de energia, há mais de 10 anos as hidrovias não são dragadas nem sinalizadas, e a rodovia BR 319, que já integrou o Amazonas ao resto do país, não é recuperada em nome dos mais ridículos e hipócrita motivos. De quebra, a diversificação e interiorizacao da indústria que poderia regionalizar a economia e as oportunidades tem esbarrado em embargos obscuros de PPBs da indústria, nocivos ao interesse público e evitáveis se o conceito de representação política fosse minimamente compreendido. E mais: se as prioridades da classe política, estivessem alinhadas com as expectativas da polis, onde habitam os desencantados eleitores, ávidos por um omelete de cidadania. Quais são, com efeito, as reais prioridades da classe política?

Economia e Academia na Amazônia

Cieam Inpa

 

Além da logística e da vontade política de sua representação parlamentar, empreender de forma competitiva na Amazônia exige estreita aproximação entre o setor produtivo e os órgãos de pesquisa. Economia e academia. Empreendedores e cientistas precisam amiudar sua conversa e objetos de interesse. Por isso foi gratificante – e não deve parar por aí – este encontro promovido pelo GEEA, Grupo de Estudos Estratégicos da Amazônia, no último dia 2, entre o CIEAM, Centro da Indústria do Estado do Amazonas e os pesquisadores do INPA, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, para debater exatamente esta intersecção fecunda entre o conhecimento e o empreendimento. O modelo industrial existente precisa de agregar valor e insumos locais no desafio de ampliar sua planta manufatureira na direção da bioeconomia. E bioeconomia, na Amazônia, com 20% dos princípios ativos de todo o planeta, é o melhor caminho ou o mais inteligente. Por isso, a indústria do fazer e do conhecer devem estar integradas. Afinal, a demanda mundial por produtos de beleza, da dermocosmética, da nutrição orgânica e harmônica do ponto de vista do sabor e da saúde, bate à porta das novas oportunidades. E o que dizer da farmacopeia após a conquista do projeto genoma, que dará longevidade ao ser humano na medida em que passa a entender a seqüência bioquímica de evolução ou finitude da vida. Esta é a percepção das entidades da indústria, comércio e agricultura, a Ação Empresarial do Estado do Amazonas.

Desarticulação inaceitável

Há mais de seis décadas o INPA fincou pé nesta Amazônia que o mundo inteiro cobiça desde a chegada europeia. E é gratificante perceber esta interação do Instituto com a sociedade, que lhe dá sustento e lhe fornece os insumos da pesquisa dos seus acervos e inventários. É gratificante verificar as Forças Armadas abrirem espaço em seus pelotões de fronteira para pesquisadores criarem opções de pesquisa e desenvolvimento nesses rincões da imensa Amazônia. Não faz sentida vê-la tão empobrecida em seus indicadores de desenvolvimento humano por viver sobre tesouros inestimáveis da biodiversidade e da geodiversidade que o mundo precisa. O Tribunal de Contas da União, depois de 10 anos de exaustivos levantamentos, com todos os atores públicos e privados da gestão da Amazônia, acionou o Ministério Público Federal, seção Amazonas, para promover uma revisão das política públicas federais na região, à luz da desarticulação encontrada, entre os atores da União. Recursos são desperdiçados por conta dessa desarticulação e da ausência de planejamento conjunto e de longo prazo. O TCU também aponta que os recursos destinados a pesquisa, desenvolvimento e infraestrutura são contingenciados em frontal desrespeito às leis que os criou. O texto do Acórdão, firmado com o MPF-AM, em abril último, está no portal www.cieam.com.br, e se refere exatamente às verbas de P&D e taxas da Suframa, recolhidas pelas empresas da Zona Franca de Manaus, e 80% confiscadas pela União para outros fins.

As novas trilhas

A atividade industrial de Manaus tem orgulho de manter integralmente a Universidade do Estado do Amazonas, presente em todos os 62 municípios do de um Estado que é maior, territorialmente, do que todo o Nordeste, e toda a Europa Ocidental. Além do orgulho, temos, sobretudo, a expectativa de debater com esta academia e demais estudiosos das vocações de negócios sustentáveis da região, os novos caminhos que diversifiquem e interiorizem a economia, hoje concentrada de modo injusto e desequilibrado em Manaus. Por tudo isso, é promissor o debate entre cientistas e empresários, entre os atores federais aqui presentes, muitos deles aplicando um legalismo cego, que proíbe atividades produtivas em lugar de incentivar a produção de riqueza com inteligência e responsabilidade. Hoje, com a ajuda do INPA e da Embrapa, produzimos 30 toneladas de proteína de peixe, por hectare, em Rondônia, que abastece Manaus. No Centro-Oeste apenas 300 quilos de proteína são extraídos da pecuária bovina. Já temos as lições de como propagar em laboratório as espécies da flora com alto valor comercial e não mais derrubar o pau-rosa para a indústria de perfumaria francesa. A Industria financiou o Centro de Biotecnologia da Amazônia, que a União, só agora, começa a perceber seu papel. Precisamos de mais conversas, mais infraestrutura, mais vontade política… A prosperidade, que daí advêm, a gente sabe produzir.

(*) Périco é economista, presidente do Centro da Indústria do Estado do Amazonas e vice-presidente da Technicolor para a América Latina.

 

Wilson Périco debate saídas para o Amazonas no INPA

“O Estado do Amazonas não pode continuar refém da capital, onde é gerado 95% do ICMS do Estado, nem de um único modelo de desenvolvimento, precisamos desenvolver novas matrizes econômicas”. Com esta afirmação, o presidente do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM), Wilson Périco, iniciou sua palestra no INPA, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, convidado pelo Grupo de Estudos Estratégicos da Amazônia (GEEA). Segundo Périco, hoje o modelo industrial do Estado do Amazonas é focado em três setores, o eletroeletrônico, duas rodas e bens de informática. “Temos apenas quatro produtos que sustentam as atividades socioeconômicas do nosso Estado, e neste momento de crise econômica e política que o país vive a instabilidade se instala na Zona Franca de Manaus. Daí a grande necessidade de reinventar e aprimorar o modelo econômico”, acrescentando que os níveis de produção e consumo tem diminuído muito. “Tudo isso é muito danoso para a economia, sobretudo porque acarreta desemprego em todas as áreas, a começar na indústria”. Por outro lado, lembrou Wilson Périco, novos projetos nascem dentro da UEA, o maior legado que as empresas podem devolver à sociedade, na contrapartida dos incentivos fiscais. “Além dos 120 mil empregos diretos, 600 mil indiretos, as empresas do PIM estavam oferecendo antes da crise, temos orgulho de manter a UEA, que é a maior instituição multicampi do Brasil, presente nos 62 municípios do Amazonas.”. Para ele, nós já temos os instrumentos para promover a virada antes que, mais uma vez, como aconteceu com o Ciclo da Borracha e a ZFM no ciclo de importados, voltemos a chorar as oportunidades perdidas.

Tecnologias inteligentes

Ainda de acordo com Périco, o modelo econômico do Estado precisa se aliar ao senso de preservação, mas sem se deixar levar pelo ambientalismo inflexível. “Precisamos dos recursos da floresta, mas evidentemente devemos utilizar de modo inteligente as boas técnicas de manejo, como fazem os países desenvolvidos, sendo exemplo disso o Canadá”, disse o economista, salientando a importância de desenvolver tecnologias locais e estratégias de aproveitamento dos recursos naturais para desenvolver o interior, ainda totalmente dependente da capital. Ele lembrou a contribuição efetiva dos recursos que a indústria recolhe para Pesquisa & Desenvolvimento, confiscado em aproximadamente 80% nos últimos anos. Qualquer país com um projeto bem desenhado de desenvolvimento já teria promovido uma revolução tecnológica com tantos recursos, mais de R$ 6 bilhões desde 2008. Wilson também convidou a comunidade científica para criar novas modulações econômicas, com sustentabilidade, jamais com intocabilidade. “Chega de proibicionismo inconsequente, precisamos aprender a manejar a floresta para oferecer alternativas de prosperidade para as populações ribeirinhas, reféns de projetos desenhados no estreito mandato de 4 ou 8 anos, projetos de governo, não de Estado”. Com a geração de atividade econômica, ele defende que os recursos de proteção ou compensação de eventuais impactos estão assegurados.

Contribuição robusta

Dentre as discussões da reunião foi colocado por alguns pesquisadores esta questão sobre os investimentos no interior do Amazonas. Wilson Périco explicou que o Governo estadual conta com repasses da Indústria para o desenvolvimento do interior e para o Turismo (FTI). “Além de contar com repasses para o fundo de desenvolvimento das micros e pequenas empresas (FMPES) e também com repasses para o Fundo da Universidade do Estado (UEA),” disse o presidente, acrescentando que a sociedade organizada precisa participar mais ativamente para que a Amazônia possa conquistar de fato o desenvolvimento sustentável. Lembrou que, pelas dimensões continentais do Estado, o Amazonas paga mais caro para formar um aluno que a Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos. Por isso, a academia e os institutos como parceiros do setor industrial, devem ser mobilizados para aprimorar o a nova matriz econômica. “As universidades e os institutos de pesquisa da Amazônia podem oferecer o conhecimento necessário para desenvolvermos o aproveitamento das vocações de bionegcios da floresta, da silvicultura e das riquezas minerais, novas matrizes econômicas. “Vocês podem discutir e viabilizar as alternativas para minimizar possíveis impactos ambientais e gerar muitas oportunidades”.

Debates produtivos

Como alternativa para o desenvolvimento do interior do Amazonas foi colocado pela pesquisadora do Inpa, Ires Paula a questão do incentivo fiscal para as empresas investirem mais no interior do Amazonas. “Essa questão também é fruto de discussão e elaboração de um plano para o Estado, um plano de Governo para 10, 20, 30 anos para que assim possamos definir quais os níveis de benefícios e incentivos poderiam ser oferecidos”, arrematou o presidente da Cieam. Para o diretor do Inpa, o pesquisador Luiz Renato de França, é preciso planejar a longo prazo. “O Inpa pode participar desta matriz da Zona Franca, mas precisamos focar ainda mais na Amazônia e no país como um todo. Não podemos deixar a ZFM acabar para depois pensar em outro modelo econômico, temos que fazer o modelo de transição agora”, comentou o diretor ressaltando que é preciso diálogo entre o Inpa, Suframa e o Governo, “precisamos discutir várias vertentes e uma delas é nosso instituto continuar tendo condições de fazer investimentos na pesquisa”. No final, Wilson reafirmou o direito de ir e vir com a recuperação da BR-319, rodovia que liga Manaus ao resto do país e o convite de comunhão de todos para encontrar as saídas econômicas e sociais que a região oferece, com inteligência, autonomia e determinação.

Agradecimentos do GEEA

O Grupo de Estudos Estratégicos Amazônicos (GEEA) é uma iniciativa do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA/MCTI), sendo formado por estudiosos de várias áreas do conhecimento e de diversas instituições e que tem como objetivo o debate franco sobre relevantes temas amazônicos. O Secretário-executivo do GEEA, o pesquisador do Inpa Geraldo Mendes, revelou que no próximo ano o Grupo completa dez anos de existência. Na página do GEEA, no Facebook, o professor GERALDO assim se manifestou: “Agradecimento: A todos que compareceram à reunião de hoje, dia 2 de agosto, especialmente ao palestrante Wilson Périco, que deixou um recado contundente e que considero histórico para o GEEA. Agradecimento especial aos debatedores, que aportaram suas ideias de maneira franca, aberta e colaborativa; além disso souberam confrontá-las com ideias distintas, às vezes contrárias, mas sempre num clima respeitoso e solidário que o GEEA vem cultivando com esmero, desde a sua fundação. Agradecimento ao arcebispo de Manaus, dom Sergio Castriani, pela mensagem carinhosa e espiritualizada. Agradecimento aos assessores do INPA (eclético Augusto e atenta jornalista Fernanda), assessores da CIEAM e todos os presentes, solidários na escuta e no acompanhamento das falas. Agradecimento aos que não compareceram, mas tiveram a gentileza de manifestar a respeito do convite. Gratidão aos que tem acompanhado a movimentação do GEEA e às vezes, sem falar, prestam seu apoio na solidariedade intelectual, no silêncio. Gratidão… esse é o sentimento que reina absoluto em nossa alma e com o qual retribuímos a todos que estão conosco nesta caminhada em prol do GEEA e do desenvolvimento da Amazônia”. Em resposta, o presidente Wilson Périco também agradeceu a oportunidade e o privilégio de debater cenários melhores para o Amazonas e toda a região com seleto grupo de cientistas e pensadores.

 Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

A castanha, o acordo e a comenda

O termo inovação, muito mais do que um mero avanço tecnológico, representa o desafio premente de um novo olhar sobre a rotina do processo produtivo, tendo como pano de fundo a equação harmoniosa entre homem e natureza, a sustentabilidade em seu sentido holístico e interdisciplinar. Inovar, no ponto de vista do desafio de empreender na Amazônia , portanto, é conferir equilíbrio entre demandas socioeconômicas e reposição dos estoques naturais. Por isso, este dia 15 de julho poderá ser lembrado como um momento emblemático da relação entre pesquisa e desenvolvimento na história do polo industrial de Manaus. Com a presença do ministro do Desenvolvimento, Marcos Pereira, acompanhado de “torcedores” pro-Amazônia, de seu escalão executivo, o gestor do CBA-Centro de Biotecnologia da Amazônia, Adrian Pohlit, energizado pela degustação da castanha do Pará, da Amazônia ou do Brasil, anunciou a assinatura do Termo de Consentimento entre o Centro e o empresário Sérgio Vergueiro, da Agropecuária Fazenda Aruanã, responsável pela produção certificada de castanha, pupunha e copaíba, entre outras espécies já estudadas e comprovadamente . aptas a oferecer resíduos para a indústria bioquímica. Por esse termo, o CBA pode coletar os tais resíduos “…para a realização de pesquisa e desenvolvimento tecnológico, visando a aplicação dos resultados para o desenvolvimento de processos e produtos cosméticos, de higiene pessoal, de perfumaria em geral, fitoterápicos, farmacêuticos, homeopáticos, alimentícios, dietéticos e alimentos funcionais, materiais de referência, dentre outros”. Ufa!

A boa notícia é que – diferentemente de outras prospecções de bionegocios – esse Acordo aponta para o equacionamento de um dos maiores gargalos de qualquer empreendimento florestal amazônico: a escala. Os resultados oriundos das pesquisas realizadas pelo CBA, comprovada a viabilidade técnica e econômica, poderão ser aplicados imediatamente para a fabricação e comercialização de processos tecnológicos e produtos, pois a oferta desses resíduos é abundante. Vergueiro plantou mais de 2 milhões de indivíduos – na região de Itacoatiara, Presidente Figueiredo… – entre as espécies citadas. O manejo já está previamente autorizado e a certificação de origem e o protocolo de produção orgânica já estão devidamente selados pelos órgãos públicos. Até então, quem colhesse uma dessas espécies e não preenchesse calhamaços de questionários e licenças não poderia por a mão nessas espécies. Ou iria para a cadeia se o fizesse.

Esta foi a razão basilar da comenda Mérito CIEAM, entregue a seguir ao empresário Sérgio Vergueiro, pelo seu presidente Wilson Périco, neste 21 de julho. Suas castanhas ajudam a prevenir Alzheimer, segundo a USP, bem como a obesidade, diabetes e doenças renais, assim como a copaíba pode prevenir 10 tipos de câncer, de acordo com a Unicamp, e a pupunha deverá fornecer nutracêuticos de primeira linha para uma nutrição mais equilibrada. Sabe quem será mobilizado no Acordo de Repartição de Benefícios, previsto na Lei Nº 13.123 de 20 de maio de 2015 e Decreto Nº 8.772de 11 de maio de 2016, a ser firmado pela empresa responsável pela comercialização do produto final, quando comprovada a viabilidade econômica do projeto: as populações tradicionais. E o CBA se compromete a fornecer às instituições interessadas, informações necessárias quanto à rastreabilidade destes acessos. Esta é a verdadeira e inova matriz econômica amazônica. Avançamos, pois, na direção tão sonhada. Não há porque vacilar, protelar e não ir…já!

Obrigado, Moacir Andrade!!!

A morte do artista plástico Moacir Andrade simboliza uma perda para o Amazonas, para sua divulgação, debate e importância global. Ele foi reconhecido pelo Governo Francês, nos anos 70, como artista plástico de referência amazônica global e teve suas obras espalhadas por todo o planeta na divulgação de alto nível da Pátria das Águas ou do Último Jardim do Mundo. Numa de suas recentes investidas na defesa do Amazonas, integrou uma comitiva local que desembarcou em Brasília, para dizer a então ministra da Cultura, Ana de Holanda, responsável pela assinatura do Tombamento do Encontro das Águas, interpostos pelo Iphan, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que a medida tinha por única e exclusiva razão evitar a construção do Porto das Lajes, evitando, assim, a modernização portuária e a competitividade do polo industrial de Manaus. A quem poderia interessar isso? Moacir juntou-se a OBA-Am, Cieam, Fieam, Universidade Federal do Amazonas, órgãos ambientais e de planejamento do Estado, Assembleia Legislativa, Câmara Municipal e Suframa. Na decisão da escolha da área a ser tombada, a poligonal imposta pelo Iphan foi propositalmente modificada para escolher a área onde seria construído o novo porto, a 2.4 km rio abaixo da área central de contemplação do fenômeno. Ali, durante mais de 6 décadas, ancoram os navios petroleiros da refinaria de Manaus e não há notícia de destruição do fenômeno, como se alegou. Resultado, aqueduto dorme nos escaninhos da justiça e Manaus continua entregue ao duopólio portuário e suas taxas assustadoras. Obrigado, Moacir!!!

Filho bastardo

Este é um Brasil bastardo, enquanto o Brasil do Planalto Central, beneficiário da exportação líquida e generosa de recursos da ZFM, fica debatendo se um emprego na Amazônia Ocidental custa 120 mil ou 210 mil reais de renúncia fiscal, em comparação a outros mecanismos de redução das incômodas desigualdades regionais desta nação. Este Brasil desconhecido e apartado segue tratado como parente de segundo grau numa consanguinidade risível, ou constrangedora, que o discurso da integração esqueceu. A Zona Franca de Manaus, nesse meio tempo, se recompõe, a duras penas, castigada por greves, descaso na contrapartida de infraestrutura para a receita que recolhe aos cofres federais. Numa entrevista célebre, corajosa e paradigmática do General Villas Bôas, então Comandante Militar da Amazônia, em 2012, hoje ocupando o ministério das Forças Armadas, ele denunciava este descaso. “As reais necessidades da população da Amazônia chegam ao centro-sul de maneira distorcida. Com isso, monta-se uma base de conhecimento desfocada, com soluções não apropriadas. A população, principalmente no interior, não tem necessidades básicas atingidas. Em grande parte, não há nenhuma presença do governo do Estado. Em algumas áreas as Forças Armadas são essa única presença.”

“Somos tratados como Colônia”

E esse distanciamento, dizia Villas Bôas, se reverte em grande vulnerabilidade que afeta o país como um todo. Estamos no século 21 e o Brasil com sua dimensão continental não tem um satélite. “Não vamos ter autonomia total enquanto não tivermos nossos satélites.” Indagado sobre o papel das ONGs, ele destacou aquelas que, efetivamente, ajudam e aquelas que agem sem controle e focadas em outros interesses. “Veja a dificuldade para asfaltar a BR-319 que liga Manaus e Porto Velho. Em 2009, o braço brasileiro da ONG americana Conservation Strategy Fund divulgou estudo afirmando que a reforma da estrada traria prejuízo. É uma rodovia que já existiu, não gerou desflorestamento, não houve prejuízo ambiental. Mas o governo não consegue fazer… é um absurdo. Manaus está conectada à Venezuela, mas não ao restante do Brasil. É extremamente difícil viabilizar a recuperação dessa rodovia, são forças que realmente têm capacidade de intervir e inibir isso. E muito por causa do fundamentalismo ecológico. Não se faz omelete sem quebrar o ovo, se vou lançar um gasoduto, alguma árvore vou derrubar. É uma visão pragmática.” E deu o grito de denúncia mais eloquente: “Somos tratados como Colônia”. Outra informação para ilustrar a denúncia do general, diz respeito a brincadeira com que o ministério dos Transportes tem tratado historicamente o Amazonas, com seus sucessivos atrasos na realização da dragagem do rio Madeira, uma hidrovia vital parava economia da ZFM. A construção aloprada de hidrelétricas, muito mais interessadas nos acordos sombrios com as empreiteiras, preocupam cada vez mais o setor da navegação do Amazonas e a competitividade do polo industrial de Manaus. Agora, o processo de dragagem efetivo do rio só deve acontecer a partir de maio de 2017 com um contrato de 5 anos, que poderá ser prorrogado pelo mesmo período, segundo fontes do Ministério dos Transportes, Portos e Aviação, uma brincadeira atrás da outra.

Tesouro ignorado

Nesta quarta-feira, durante o Curso de Pioneirismo e Empreendedorismo da Faculdade de Economia e Administração da USP, FEAUSP, na unidade Pioneiros do Amazonas em Sala de Aula, denunciamos que Instituto Nacional do Câncer, nos Estados Unidos, estima que 25% de todas as substâncias usadas para tratamento de tumores no mundo, hoje, venham de florestas tropicais. Aqui, também, adormece na expectativa de investimentos, a cura da Aids, da tuberculose, o retardo e gestão da velhice do organismo humano. Apesar disso, só temos 500 cientistas, quase todos idosos e em vias de aposentar. E somente o campus da USP – Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto, tem mais pesquisadores do que todo o estado do Amazonas. Enquanto a unidade de Piracicaba põe no mercado dezenas de itens da floresta amazônica, aqui quase nada acontece, pois a estrutura de gestão academia, pesquisa e mercado na região é simplória. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul tem mais que o dobro do número de pesquisadores do Pará, o estado líder na região em matéria de cientistas qualificados. A Universidade de São Paulo tem o triplo de doutores de toda a Amazônia. A região é cenário de 18% das pesquisas em biodiversidade no Brasil, contra 36% da Mata Atlântica, embora essa última represente 2% da Amazônia. Com seus insumos para cosméticos e fármacos, além da aquicultura, uma indústria de proteína de primeira qualidade e sabor inigualável, a Amazônia está à espera do seu descobrimento, meio milênio depois que os Viajantes Europeus entenderam sua dimensão e valor.

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

CIEAM no INPA: os estudos estratégicos

Nesta terça-feira, 2 de agosto, o presidente do CIEAM, Wilson Périco, vai falar sobre Indústria na Amazônia, no INPA, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, a convite do GEEA, Grupo de Estudos Estratégicos. Este Grupo foi idealizado pelo pesquisador e então diretor do Inpa, Adalberto Val, em 2007 e é composto por pesquisadores de instituições de ensino, órgãos governamentais e sociedade civil organizada para debater diversas áreas do conhecimento na Amazônia e disseminar à população as inúmeras indagações e informações a respeito das questões ambientais, científicas e modelagens de desenvolvimento e sustentabilidade. A iniciativa tem abordado desde então temas relevantes para o desenvolvimento da Amazônia, registrados em publicações dos Cadernos GEEAA, tais como ‘Processo cultural da Amazônia’; ‘Plantas alimentícias não-convencionais’; ‘Toxinas: explorando a biodiversidade para o bem e para o mal’; ‘Música e poesia na Amazônia’ e ‘Ciência, tecnologia e inovação na Amazônia’. Temas delicados como a exploração econômica da madeira, sob a batuta de Niro Higuchi, autoridade de primeira grandeza em economia da Silvicultura, “a questão florestal madeireira é de grande importância estratégica para região, à luz do grande interesse nacional e internacional pela floresta e por seus recursos naturais. A madeira é um produto de primeira necessidade. A região amazônica e o Amazonas, mais especificamente, têm a vantagem de poder discutir todos os problemas inerentes a questão florestal com a sua floresta ainda em pé. Por isso temos de gerar conhecimentos que sirvam para orientar as decisões políticas”. Ou seja, chegou a hora da sociedade “invadir” o INPA, uma instituição com 65 anos de inventários da fauna e da flora, com as chaves de múltiplos enigmas que inquietam a humanidade. Do mesmo modo, o INPA precisa devolver a sociedade, diz Adalberto Val, os benefícios do conhecimento que o Instituto sistematizou ao longo desses anos. Para o pesquisador Estevão Monteiro de Paula, diretor de Estudos Estratégicos na gestão Adalberto Val, no INPA, está mais do que na hora de transformar os preciosos inventários sobre fauna, flora, os tesouros que a biodiversidade amazônica abriga, em oportunidades de alimentos, fármacos, cosméticos, entre outras demandas da humanidade. A presença do CIEAM este ano, com o tema “Indústria na Amazônia”, significa, efetivamente que a relação entre economia e academia são premissas de pesquisa, desenvolvimento e sustentabilidade e que todos estamos comprometidos e devemos estar cada vez mais interessados e empenhados em aprender e compartilhar experiências e visões sobre a Amazônia, o futuro que queremos e podemos construir.

As hidrelétricas e as fronteiras

Um dos temas do GEEA, sob a batuta de Phillip Fearnside foi sobre os impactos que as usinas hidrelétricas causam ao meio ambiente, principalmente as que são construídas em áreas tropicais, como na Amazônia. “As usinas hidrelétricas podem emitir mais gases do efeito estufa que as termelétricas. Pois quando os galhos e folhas submersos apodrecem emitem gás carbônico e quando a água sai das turbinas elas emitem o gás metano”, ou seja, a alternativa hidrelétrica, submetidas a rigorosas pesquisas, pode significar que se trata de fonte renovável de energia, mas não necessariamente “limpa” como se alardeia. Na mesma linha de debates estratégicos, o então titular do Comando Militar da Amazônia, general Theophilo Guilherme Cals, abordou a relação da presença militar na região não apenas como proteção do patrimônio natural mas como ator de interatividade com a busca de pesquisa e desenvolvimento. Para o general, ao longo das fronteiras na Amazônia existe uma biodiversidade que ainda não é conhecida por muitos de nós e será o pesquisador com seus estudos que descobrirá a importância dessa biodiversidade. “Ao conhecer esses recursos naturais, a Defesa tem o papel de proteger e defender essa riqueza para que possam tornar-se produtos rentáveis para o país”, diz o general. “Por isso, é fundamental unir o meio acadêmico com o Ministério da Defesa”. Segundo Theophilo, o Estado brasileiro precisa ter uma preocupação com as fronteiras que, hoje, estão desguarnecidas. Para ele, essa vulnerabilidade nas fronteiras faz com que a violência nos grandes centros urbanos seja maior. “Porque tudo o que entra ilegalmente vai alimentar o crime organizado nos grandes centros”, referindo-se a produção de entorpecentes nas áreas de fronteira.

Mérito CIEAM

O evento do último dia 21, da entrega do Mérito Cieam, uma comenda do Centro da Indústria do Estado do Amazonas, em homenagem aos relevantes serviços prestados pelo empreendedor e pioneiro Sergio Vergueiro, que reflorestou 4 mil hectares de floresta no município de Itacoatiara, com o plantio de mais de dois milhões de árvores, com ênfase em castanha, pupunha e copaíba. O gesto de reconhecimento traduz a posição da entidade em torno das oportunidades de bioindústria que a floresta oferece. O Acordo de Cooperação do CBA, Centro de Biotecnologia da Amazônia – um projeto pago pela indústria – firmado no último dia 15 de julho, com a Fazenda Aruanã, do empresário Sérgio Vergueiro, reflete o histórico do compromisso da indústria com P&D. Desde 2013, a entidade tem promovido essa aproximação, da qual faz parte, ainda, a Federação da Indústria, um dos múltiplos espólios do pioneiro Moysés Israel, o apoio sempre presente do empreendedor Muni Lourenço, presidente da Federação da Agricultura do Estado do Amazonas. Essa aproximação já identificou um leque ilimitado de biopotencialidades, identificada por um grupo de 15 cientistas ligados ao CBA, que já estiveram na Fazenda Aruanã, identificando as utilizações variadas dos resíduos da produção e beneficiamento de castanhas, entre outras vocações de negócios da região. Para o presidente do CIEAM, Wilson Périco, o acordo CBA/Fazenda Aruanã, os projetos de produção de biomoléculas, a produção de extratos vegetais e outros insumos para a indústria de química fina, cosméticos, fármacos e nutracêuticos, significa ensaios promissores das NOVAS MATRIZES ECONÔMICAS, um compromisso da entidade e legado das indústrias do polo industrial de Manaus, entre as demonstrações de acerto fiscal, socioeconômico e ambiental da iniciativa Zona Franca de Manaus.

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Greves, sobressaltos e a urgência dos avanços

Suspensa a greve, certamente mais uma entre as que virão por aí, temos que repensar direitos e deveres de cada um, dos múltiplos segmentos, de maneira mais ampla e que resguarde o interesse geral. Desta vez a paralisação foi dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil, que prometia riscos de implosão de uma economia já ameaçada pelos reflexos da crise política. Não questionamos que a greve se deu em nome de reivindicações legítimas da categoria, apesar das barganhas equivocadas, temerárias e preocupantes. Por isso, cabe indagar qual é o sentido de prejudicar, nas negociações de direitos, justamente o setor que produz as respostas para as mazelas sociais, entre elas a distribuição capenga de oportunidades e legítimas necessidades, para achar saídas de conflitos setoriais? Prejudica-se, assim, de maneira aloprada, um setor estrutural com prejuízos em todas as direções, incluindo, no médio prazo, o setor em questão.

Qual é o papel do poder público?

E aí cabe perguntar qual o papel do Estado à luz de sua base econômica, das expectativas de mudança do polo industrial da ZFM, sua competitividade decrescente e a gestão/retenção dos recursos que aqui se produz à vista e as necessidades de infraestrutura, do adensamento do segmento industrial, da diversificação e interiorização de suas oportunidades e benefícios? Estas ponderações escondem a ponta do iceberg da fragmentação institucional e da insegurança jurídica e funcional da Zona Franca de Manaus, sua existência e necessidade de resgate legal e revisão operacional. Em outras palavras: qual é o papel do poder público na relação com a economia e com o tecido social, senão mobilizar de forma transparente os atores sociais, ouvir suas demandas e propostas, compreender e administrar os conflitos, para alinhar interesses, corrigir distorções e promover o avanço dos direitos e deveres de cada um. De quebra, cabe repensar de forma transparente e equilibrada, os atuais paradigmas da liderança política e limitada visão de totalidade, exigências vitais que se tornaram escassas e ausentes na gestão do país e dos conflitos da sociedade. Hoje, os governos gastam o melhor de suas energias em embates jurídicos, para provar a coerência ou ausência dela na peleja eleitoral. Está na hora de parar para acertar, dando voz e vez às manifestações de todos que clamam por um novo tempo.

Jornadas desenvolvimento regional

Nesse contexto, salta aos olhos do bom senso a emergência da boa gestão dos fundos repassados pelo setor produtivo, notadamente aqueles mais robustos, repassados pela indústria para o desenvolvimento de novas matrizes econômicas. Estamos, em nível local, concluindo as discussões das Jornadas de Desenvolvimento, em conjunto com a Pasta de Planejamento, e todos os atores locais ligados ao fortalecimento das novas modulações produtivas, para debater, não apenas os gargalos da indústria, dos PPB’s travados, da infraestrutura precária, da burocracia ambiental desvinculada da questão geral, dos nós fundiários, e das novas oportunidades que se impõem com novas cadeias produtivas pré-selecionadas, incluindo a produção de látex, para atender a expansão do polo industrial na produção de pneus, fibras vegetais, como a juta, malva, curauá, guaraná, açaí, feijão de praia, piscicultura, castanha, fármacos, cosméticos e nutracêuticos. A homenagem prestada ao empresário Sérgio Vergueiro, da Fazenda Agropecuária Aruanã, em Itacoatiara, pelo CIEAM, através de seu Conselho Superior, segundo Wilson Périco, presidente da entidade, representa um emblema do futuro, pois repõe os estoques naturais florestais, cria oportunidades e mobiliza a herança de inovação tecnológica que o polo industrial tem desenvolvido.

Rescaldo e reconstrução

Vivemos em clima de rescaldo do modelo, que tem um largo prazo de meio século para se consolidar nos moldes de sua criação e potencialidade de sua atuação. Temos, portanto, que olhar de frente suas fragilidades, distorções e emergência de seus ajustes para encontrar o caminho que queremos para este Estado, está região e nação. Nesse contexto não podemos fechar os olhos para o abandono da economia do interior, a concentração de recursos, mal administrados, na capital enquanto esta cidade, onde as empresas constroem oportunidades, se vê transformada em exportadora de recursos enquanto padece de distorções socioeconômicas sem precedentes. Não podemos, também, seguir omissos na busca de novas diversificações da economia, não das novas matrizes de gestão econômica do grupo político ora afastado do poder. Quando usamos esta expressão, estamos falando em diversificar a economia sem demagogia, sem gastar mais do que se arrecada para evitar aquilo que o jargão popular descreve, de cobrir um santo para descobrir os demais. A proposta que esta entidade propõe, associada aos demais atores do tecido social, é potencializar as vocações regionais de negócios, com as lições de inovação tecnológica consolidadas pelo polo industrial de Manaus e demais segmentos que compõem a roda da economia, para criar com inteligência e sustentabilidade novos negócios na região, a bioeconomia, a gestão das oportunidades do setor mineral, turístico, florestal e cultural. Os escombros urbanos, os baixos parâmetros de desenvolvimento humano na capital e nos municípios da região, não são problemas novos, mas são igualmente antigas a protelação e a indiferença em relação a seu enfrentamento, que traduzem a ausência de prontidão por parte do poder público, a transparência precária da aplicação da riqueza aqui produzida. Por isso, impõem-se um mutirão no atacado sem tirar a atenção do varejo cotidiano do entendimento. Num e noutro, os danos alcançam percentuais inquietantes de perdas irrecuperáveis, que precisamos ajustar. Vamos à luta!!!

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Inexpressão Amazonense – Parte II

CARTA ABERTA A MARCIO SOUZA

Prezado Marcio Souza, decididamente “ o equívoco continua”, dessa vez acompanhado de inferências deselegantes e das repetidas ilações sem fundamento. Como cidadão, me gratifica ser Diretor da Federação das Indústrias, FIEAM, sem remuneração. Sou consultor do CIEAM, Centro da Indústria, sem sombra de dúvidas, o fórum mais arrojado na defesa do Amazonas. Sim, do Amazonas, principal beneficiário do capitalismo que as empresas transnacionais representam. Tenho contrato para escrever – três vezes por semana – sobre o papel desta economia com ações importantes, como o financiamento integral da UEA, a maior instituição multicampi do país. Sem a ZFM – você ainda não disse o que prefere? – estaríamos detonando a floresta, como alguns vizinhos, ou entregues à economia do narcotráfico. A favelização de Manaus e o IDH vergonhoso de alguns municípios não sao causados pela ZFM. “Follow the money”. Siga o dinheiro para interiorizar a educação e o desenvolvimento: nos últimos 5 anos, R$ 6,2 bilhões nos três fundos estaduais.

A quem agrada sua artilharia pesada e desprovida de fundamentação contra a ZFM, a indústria de “beneficiamento”? Há muita semelhança – num olhar mais acurado – entre sua posição e a do governador paulista Geraldo Alckmim, do PSDB agremiação a que você tem servido desde FHC. Na discussão da reforma fiscal, o tucano disse – a propósito da alíquota da ZFM – que o país corre o risco de se desindustrializar e de estimular a expansão de “cidades duty free”, em referência estúpida à Zona Franca de Manaus. Certamente soltou rojões quando leu que a “economia da ZFM é um câncer”. São Paulo tem 137 612 mil indústrias, quase 30% dos estabelecimentos industriais do país, enquanto o Amazonas tem apenas 3002, 0,6% do total. Seus honorários, Márcio, como presidente do Conselho Municipal da Cultura devem ser pagos pela indústria da ZFM, que recolheu, apenas em impostos sobre serviços, nos últimos três anos -IPTU e Alvará de Funcionamento à parte – mais de 60% da receita municipal, segundo o portal Semef.

Para afirmar a construção do Bolchevismo na Rússia, Lenin escreveu, em 1920: “Esquerdismo, a doença infantil do comunismo”. Ele havia feito uma revolução socialista sem indústrias, mas puxou a orelha dos comunistas ingleses, alemães e austríacos, que defendiam a luta de classe entre patrões e operários. Eles atrapalhavam as estratégias de poder de Lenin e sua revolução improvisada. Esse Esquerdismo virou comunização dos cofres públicos, a começar pela ZFM. O saque foi iniciado na gestão tucana, marxistas arrependidos, com seus mensalões, o PROER, o Eximbank/Raytheon/SIVAM. Em seguida, foi exacerbado pelo sindicalismo maroto, ora afastado. Embora apreciador de sua alentada bagagem literária amazônica, percebo que lhe falta, como um cientista social que a Ditadura Militar atrapalhou, atenção maior ao legado do pensamento liberal. David Hume, Adam Smith, Edmund Burke, Tocqueville, T.S. Eliot, Friedrich August von Hayek, para citar alguns autores de cabeceira de Roberto Campos, o Bob Fields, Lanterna de Popa. Esses caras defendem o Capitalismo, o livre mercado, a propriedade privada, a liberdade de expressão e de religião que o Nazismo alemão e o Socialismo soviético trucidaram. Esses caras deram o fundamento epistemológico da geração de riqueza como premissa do pluralismo de ideias, da democracia representativa, da meritocracia para se contrapor ao autoritarismo dos burocratas e fisiologia sindical. A defesa da emancipação feminina está associada ao livre mercado, sabia? A redução do Estado aparece como fator de redução do compadrio e da corrupção. Você publicou no Sudeste, nos anos 80, todo seu rancor contra Gilberto Mestrinho, e contra o Amazonas, com seu folhetim maledicente do Boto Tucuxi. Gilberto o perdoou, adotou o Boto, e lhe retribuiu com a aquisição de sua “ Breve História da Amazônia” para a rede pública estadual em 1994. Ele ficou feliz, naquela ocasião, com sua presença, no lançamento do seu livro, “Amazônia, terra verde, sonho da humanidade” do qual fui editor, depois de inesquecíveis horas de entrevistas. As gravações comprovam a autoria, apesar de muitos autores do oportunismo tentassem usurpar-lhe a façanha. Espero seu basta à continuidade do equívoco, Márcio, e reitero o convite para integrar-se ao mutirão cívico de defesa da ZFM, ajudando a briga, publicamente, pela retenção regional da riqueza aqui produzida, e a utilização transparente dos diversos fundos bilionários, que a ZFM – industria, comércio e agricultura – recolhe a favor de nossa gente. Vamos, ou não vamos, nessa?