Bioeconomia, ESG e Amazônia: uma agenda para a prosperidade com responsabilidade – Entrevista com Vanessa Pinsky

A pesquisadora Vanessa Pinsky tem se consolidado como uma das vozes mais respeitadas do país no campo da sustentabilidade. Com 25 anos de atuação junto a empresas, universidades e organizações do terceiro setor, Vanessa é reconhecida por sua capacidade de traduzir conceitos complexos em estratégias aplicadas, de impacto concreto — tanto nos negócios quanto no território.

Nesta entrevista exclusiva ao portal Brasil Amazônia Agora, Vanessa aborda com profundidade os caminhos para uma adesão genuína e estruturada à agenda ESG pelas empresas do Polo Industrial de Manaus, os desafios da governança na Amazônia e o papel estratégico da bioeconomia como eixo de transformação. Com elegância e precisão, ela nos conduz por reflexões sobre inovação, impacto, responsabilidade corporativa e a construção de um novo paradigma de desenvolvimento ancorado na floresta em pé.

Coluna Follow-Up

Portal BrasilAmazôniaAgora – Como a agenda ESG pode ser implementada de forma autêntica e eficaz na realidade amazônica, especialmente pelas empresas do Polo Industrial de Manaus?

    Vanessa Pinsky – A sigla ESG — Ambiental, Social e Governança — representa hoje mais que uma tendência empresarial. Trata-se de uma estratégia de criação de valor no longo prazo, que integra riscos e oportunidades socioambientais às decisões de negócio. Na Amazônia, o desafio é adaptar os princípios ESG à realidade do território. Não se trata de importar modelos, mas de construir soluções conectadas à floresta, às comunidades locais e à lógica dos serviços ecossistêmicos. A adesão ao ESG na região deve refletir o respeito pela diversidade sociocultural, o compromisso com a inclusão e a busca pela competitividade regenerativa.

    BAA – Em que medida a sustentabilidade pode se tornar um vetor estratégico para a indústria da Zona Franca de Manaus?

      VP – A sustentabilidade não pode ser tratada como apêndice. Deve constituir o cerne da estratégia empresarial, integrando visão sistêmica dos riscos climáticos e ambientais, liderança comprometida e inovação contínua. A transição para um modelo sustentável traz vantagens competitivas concretas: redução de custos, acesso a mercados verdes, fortalecimento da reputação e atração de investimentos. As empresas do Polo devem enxergar a floresta não como obstáculo, mas como aliada e ativo estratégico.

      BAA – Como fomentar alianças mais robustas entre academia, setor produtivo e comunidades amazônicas para impulsionar a inovação de base territorial?

        VP – A articulação entre ciência, mercado e território é um imperativo. A academia precisa abrir-se ao pragmatismo, às dores do setor produtivo e à cocriação com os povos da floresta. É necessário estruturar canais permanentes de diálogo, criar fundos dedicados à inovação aplicada e apoiar tecnologias com potencial transformador. Ao conectar saberes tradicionais e pesquisa científica à dinâmica produtiva da região amazônica, criamos um ciclo virtuoso de desenvolvimento sustentável.

        BAA – A iniciativa ZFM+ESG, liderada pela Suframa e pelo CIEAM, tem potencial para transformar a Zona Franca em um modelo de sustentabilidade tropical?

          VP – Sim, desde que transcendamos a ideia de ESG como “projeto social”. Trata-se de uma nova lógica de negócios, baseada em metas ambiciosas, indicadores mensuráveis e cooperação empresarial. A construção de agendas comuns — como gestão de resíduos, descarbonização, ecoeficiência e contratação local — pode gerar economias de escala e fortalecer a competitividade sistêmica do Polo Industrial de Manaus.

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          BAA – De que maneira o Polo Industrial de Manaus pode protagonizar o debate climático global na COP 30?

            VP – A COP 30 é a maior vitrine internacional da sustentabilidade e o Polo deve chegar a Belém com compromissos reais, planos estruturados e liderança envolvida. É preciso avançar na formulação de metas de descarbonização, promover governança climática entre empresas — inclusive concorrentes — e apresentar soluções de impacto que reflitam a interdependência entre indústria e floresta.

            BAA – A Zona Franca pode se tornar um exemplo global de industrialização verde em regiões tropicais?

              VP – Sim, se adotar uma lógica de desenvolvimento regenerativo, com a floresta em pé como ativo central. Para isso, são necessários modelos de negócios circulares, baixo carbono, integrados ao uso eficiente dos recursos naturais, à valorização da cultura local e à preservação da biodiversidade.

              BAA – O que levar à COP 30 como mensagem da Amazônia ao mundo?

                VP – Mais do que projetos pontuais, é preciso apresentar estratégias de longo prazo, ancoradas em inovação, justiça climática e inclusão social. Empresas devem demonstrar resultados mensuráveis na mitigação de impactos, na gestão territorial sustentável e na valorização das pessoas em suas cadeias de valor.

                BAA – O que não pode faltar na apresentação da indústria amazônica em Belém?

                  VP – Comprometimento autêntico, metas ambiciosas, senso de urgência e mecanismos de financiamento estruturados. A inação custa caro — e a Zona Franca pode ser o exemplo de que é possível gerar prosperidade e conservar a floresta simultaneamente.

                  BAA – Como as pesquisas acadêmicas em bioeconomia podem dialogar com as pautas geopolíticas da COP 30?

                    VP – Essa resposta foi gentilmente deixada em aberto pela pesquisadora, como convite ao diálogo entre a academia e os responsáveis pela apresentação institucional da indústria amazônica em Belém.

                    BAA – Qual o papel da Amazônia na redefinição dos paradigmas de desenvolvimento global?

                      VP – A Amazônia é essencial à estabilidade climática e hídrica do planeta. Sua preservação é uma questão de sobrevivência, mas também uma oportunidade: o Brasil pode liderar um novo modelo de prosperidade com base na sociobiodiversidade.

                      BAA – Quais os entraves institucionais para uma bioeconomia inclusiva e de base florestal?

                        VP – A atual estrutura de governança pública é insuficiente. Precisamos de um arranjo institucional flexível, multinível, com forte participação social e territorialização das políticas. A governança experimentalista é o caminho para políticas públicas mais eficazes e legítimas.

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                        BAA – O que revelou o projeto “Bioeconomia para Quem?”, coordenado pela FEAUSP, sobre a realidade amazônica?

                          VP – A pesquisa apontou que: (1) A bioeconomia é instrumento de transformação social, não apenas um conceito. (2) Políticas públicas devem incluir os povos da floresta em todas as etapas. (3) A escalabilidade na Amazônia é territorial e deve respeitar vocações locais. (4) A coordenação nacional é necessária, mas a execução deve ser local. (5) É urgente capacitar gestores municipais e criar instrumentos de planejamento baseados em métricas e fontes de financiamento.

                          BAA – Quais os riscos quando a bioeconomia é apenas discurso, e não prática empresarial?

                            VP – O principal risco é o greenwashing, que compromete a confiança e a legitimidade das empresas. A coerência entre discurso e prática exige: rastreabilidade, remuneração justa às comunidades, integração de cadeias produtivas locais, valorização de saberes tradicionais e investimento contínuo em inovação.

                            Vanessa Pinsky
                            Alfredo Lopes
                            Alfredo Lopes
                            Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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