Banco da Amazônia: chegou a hora de liderar um pacto pela equidade das oportunidades

Existem instituições que administram recursos. Outras administram uma missão. O Banco da Amazônia pertence ao segundo grupo.

Sua história não começou com a abertura de uma agência ou a criação de uma carteira de crédito. Ela começou quando o Brasil percebeu que a Amazônia exigia uma política de Estado. Em plena Segunda Guerra Mundial, o país assumiu o compromisso de abastecer os Aliados com borracha natural. Milhares de brasileiros atravessaram o território nacional para trabalhar na floresta como Soldados da Borracha. Muitos jamais retornaram.

Daquela mobilização nasceu o Banco de Crédito da Borracha, instituição que mais tarde se transformaria no Banco da Amazônia. Sua finalidade nunca foi apenas financiar negócios.

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BANCO DE CRÉDITO DA BORRACHA. (1943)

Sua finalidade sempre foi reduzir desigualdades estruturais em uma das regiões mais complexas do planeta.

Mais de oito décadas depois, essa missão continua inacabada. A Amazônia Legal abriga riquezas naturais extraordinárias, mas também concentra enormes assimetrias econômicas e sociais. O Amazonas sintetiza esse paradoxo como nenhum outro estado brasileiro.

Ocupa a maior extensão territorial da Federação, preserva a maior parcela da floresta tropical do mundo, produz serviços ambientais indispensáveis ao equilíbrio climático nacional e mundial e, simultaneamente, convive com municípios onde o acesso ao crédito, à infraestrutura, à assistência técnica e aos serviços públicos permanece extremamente limitado.

Não se trata apenas de distância. Trata-se do custo da distância.

Um empreendedor no interior do Amazonas enfrenta desafios que não aparecem em nenhuma planilha financeira. Horas ou dias de deslocamento pelos rios, dificuldades logísticas, menor presença institucional do Estado, escassez de assistência técnica e custos operacionais que dificilmente encontram paralelo em outras regiões brasileiras.

Quando essas barreiras se somam, o crédito deixa de ser apenas um instrumento financeiro. Passa a representar cidadania econômica.

Os números mais recentes do Fundo Constitucional de Financiamento do Norte ajudam a compreender essa realidade.

Entre janeiro e agosto de 2025, o Pará contratou aproximadamente R$ 4,1 bilhões em operações do FNO. Tocantins alcançou R$ 2,5 bilhões. Roraima contratou R$ 2,4 bilhões. O Amazonas recebeu cerca de R$ 1,4 bilhão.

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FNO Pará é a porta de entrada para o crédito público mais competitivo da Região Norte. 

Os dados, isoladamente, não autorizam qualquer conclusão precipitada. Os critérios técnicos, a demanda apresentada, a qualidade dos projetos e as normas operacionais precisam ser respeitados. Mas os mesmos números levantam uma questão que merece reflexão.

Será que um estado marcado por enormes obstáculos geográficos e por alguns dos mais baixos indicadores sociais do país pode depender exclusivamente da capacidade espontânea de apresentar projetos e acessar linhas de financiamento?

Essa pergunta não diminui os demais estados da Amazônia. Ela apenas reconhece que igualdade formal nem sempre produz justiça.

Quem enfrenta condições mais difíceis frequentemente necessita de instrumentos mais eficientes para alcançar o mesmo ponto de partida.

Esse princípio orienta praticamente todas as políticas modernas de desenvolvimento regional. Também deveria orientar a atuação dos bancos públicos. O Banco da Amazônia possui legitimidade histórica para liderar esse movimento.

Nenhuma instituição conhece melhor os desafios econômicos da região. Nenhuma reúne experiência semelhante no financiamento da produção amazônica. Nenhuma dispõe de um patrimônio institucional tão diretamente vinculado ao desenvolvimento regional.

Por isso, chegou o momento de construir uma nova agenda.

Uma agenda capaz de aproximar o banco das comunidades ribeirinhas, dos pequenos produtores, das cooperativas, da indústria, do comércio, da bioeconomia, do turismo, da pesca, da agricultura familiar e dos novos empreendedores da floresta.

Essa agenda pode começar pela elaboração de um Plano Estratégico para o Amazonas, articulando crédito, assistência técnica, inovação, interiorização do atendimento e fortalecimento das estruturas locais de decisão.

Pode avançar com equipes itinerantes, parcerias com universidades, Sebrae, federações empresariais, cooperativas, associações comerciais e governos municipais, levando conhecimento financeiro e apoio técnico até onde o empreendedor normalmente encontra apenas obstáculos.

Pode estabelecer indicadores públicos de equidade territorial, permitindo que toda a sociedade acompanhe não apenas o volume de recursos liberados, mas também sua capacidade de reduzir desigualdades e ampliar oportunidades.

Essa não é uma reivindicação corporativa. É uma proposta de aperfeiçoamento institucional.

A Associação Comercial do Amazonas chega aos seus 155 anos depois de acompanhar praticamente toda a formação econômica da região. Viu nascer ciclos de prosperidade, enfrentou crises profundas, participou da construção da Zona Franca de Manaus e continua representando milhares de empreendedores que acreditam na capacidade da Amazônia de produzir riqueza com responsabilidade ambiental.

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O Banco da Amazônia percorreu trajetória semelhante. As duas instituições carregam em comum um patrimônio que não pode ser medido apenas por balanços financeiros.

É justamente por essa razão que o momento recomenda uma aproximação institucional ainda mais intensa entre o BASA, a Associação Comercial do Amazonas e toda a sociedade organizada.

Não para discutir apenas operações de crédito. Nem apenas procedimentos administrativos. Mas para construir um pacto duradouro em favor da equidade das oportunidades.

A Amazônia preserva a floresta que ajuda a regular o clima do planeta. Produz água, biodiversidade, conhecimento científico, energia, alimentos, minerais estratégicos e um patrimônio biológico cuja dimensão ainda está longe de ser plenamente conhecida.

Nenhum desses ativos será suficiente se milhões de amazônidas permanecerem afastados das oportunidades de empreender, produzir e prosperar.

O verdadeiro desenvolvimento regional começa quando o crédito deixa de ser apenas um contrato entre banco e cliente. Ele passa a representar um compromisso entre a República e seus cidadãos. Foi essa a razão de ser do Banco da Amazônia em sua origem. É essa a missão que continua a justificar sua existência.

Belmiro Vianez Filho
Belmiro Vianez Filho
Empresário do comércio, ex-presidente da ACA e colunista do portal BrasilAmazôniaAgora e Jornal do Commercio.

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